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Cabeça cheia ou cabeça feita…

Lendo uma entrevista de Dr. Paulo Niemeyer Filho, em que ele nos relembra dos cuidados que devemos ter para uma mente sã, ou melhor, uma “cabeça feita” que é muito diferente de uma “cabeça cheia”. Filho do lendário Paulo Niemeyer, microneurocirurgião pioneiro no Brasil, e sobrinho do arquiteto Oscar Niemeyer, escolheu a medicina ainda adolescente. Aos 17 anos, entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Quinze dias depois de formado, com 23 anos, mudou-se para a Inglaterra, onde foi estudar neurologia na Universidade de Londres. De volta ao Brasil, fez doutorado na Escola Paulista de Medicina. Ao todo, sua formação levou 20 anos de empenho absoluto. Mas foi uma recompensa à altura. Apaixonado por seu ofício, Dr. Paulo chefia hoje os Serviços de Neurocirurgia da Santa Casa do Rio de Janeiro e da Clínica São Vicente.

Divido então com você, meu leitor, esta entrevista da Revista Eletrônica Poder, que nos leva a refletir sobre a necessidade de estimular constantemente o nosso cérebro, colhendo desta forma frutos sadios, como nos fala a famosa citação latina do poeta romano Juvenal: Mens sana in corpore sano. Esta frase é parte da resposta do poeta à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida… A leitura, por exemplo, é uma forma contínua de estimulo ao nosso cérebro, eu particularmente leio muito, e de tudo um pouco… Porque a variedade também oxigena as nossas mentes… É a miscigenação da aquarela que faz as cores se tornarem vibrantes, por isso devemos trabalhar um pouquinho de todas as nossas faces dentro de nós…

Nos diz então Dr. Paulo Niemeyer Filho:

“Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, reclamando de tudo, com a auto-estima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter alegria. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a auto estima no ponto. Eu acredito que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma… Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo. Isto comprova que os sentimentos se originam no cérebro e não no coração.”

E a vida moderna atrapalha?

“Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.” Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro? “Todo exagero. Na bebida, nas drogas, na comida, no mau humor, nas reclamações da vida, nos sonhos, na arrogância, etc. O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um cérebro muito bom num corpo muito maltratado, e vice-versa.” Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia? “Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente que te faz infeliz. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.” Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer? “Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem mentalmente, com saúde e bom aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha.”

Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas? “O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.” Você acredita em Deus? “Geralmente depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando acabamos de operar, vamos até a família e dizemos: Ele está salvo. Aí, a família olha pra você e diz: Graças a Deus! … Então, a gente acredita que não fomos apenas nós, que existe algo mais, independente de religião.”

E como nos diz com propriedade Shakespeare… “O meu corpo é um jardim, a minha vontade o seu jardineiro.

” Que sejamos então suficientemente determinados em sermos os melhores jardineiros dos nossos próprios jardins, tornando-os únicos no mundo, como o exemplo o jardim de Exupéry no Pequeno Príncipe… “Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa.” Não busquemos encher a nossa cabeça como quem corre atrás do vento… Busquemos ter uma “cabeça feita”, na saciedade de que às vezes uma só rosa nos satisfaz e não um jardim inteiro… Busquemos o essencial sempre… pois ele é invisível aos olhos…

Com afeto,

Beth Landim


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2 comments to Cabeça cheia ou cabeça feita…

  • Lia Lirce

    Beth,

    Todos nós sabemos que Dr.Paulo Niemeyr Filho é um ícone da neurocirurgia hoje no Brasil e no exterior.
    A amplidão e a abertura com a qual ele tenta traduzir o seu trabalho merece muita reflexão.
    Sempre gostei de fazer a diferença entre “cabeças feitas” e “cabeças cheias”.
    Essa diferença sempre pautará nossa filosofia de vida,nossa postura diante da vida,das pessoas e de nós mesmas,porque enquanto uma leva a uma vida sadia,a outra patologiza o viver.
    É preciso acreditar, que se soubermos fazer essa diferença,
    encontraremos respostas mais felizes e sadias para um dia a dia,
    em que nossos pés sempre estarão firmes num solo que não nos permite afundar no nada das “cabeças cheias”.
    Temos que saber,que não são todos os dias que estamos alegres,felizes,e sem preocupações,mas uma “cabeça feita”,sabe que amanhã é outro dia e que a certeza do agir e do querer muitas vezes fará toda a diferença.
    Conhecemos pessoas que por estarem com uma “cabeça doente e comprometida”,são capazes de adoecer todos a seu lado e ainda fazê-los acreditar que a doença é a saúde.
    Para essas pessoas,os pés no solo são pés afundados,porque quanto mais afundados mais firmes eles estão!
    Para essas pessoas,amar é grudar e impedir que o outro caminhe e desabroche!
    Para essas pessoas,maniplução da verdade é o primeiro mandamento da vida!
    Para essas pessoas,”quem não entra na deles”,e não aplaudem seus devaneios,representam uma ameaça do rasgar do véu.
    Tô fora!!!
    Um abraço carinhoso.

  • Paulo Arthur Buchvitz

    Olá Professora Beth Landim
    Destaco um pequeno trecho do meu artigo de pós-doutorado apresentado na UERJ sobre as LATUSAS.
    Vivemos em uma sociedade de risco. O capitalismo avançou tanto, que acabou praticamente destruindo a natureza, levando os sujeitos a se destruírem cada vez mais.
    O sujeito tornou-se um consumidor, que procura gozar cada vez mais através do consumo, numa tentativa de tamponamento da falta.
    Qual a escolha que o sujeito faz ao se segregar? Ele escolhe ficar com o seu gozo. Ele não aceita perder o seu gozo de possuir objetos.
    Ele quer continuar a gozar de uma determinada forma. Ou seja, ele entra no princípio do prazer e perde o princípio da realidade. O Outro é somente o que está acontecendo no mundo exterior.
    Este momento institui a criação de um espaço novo, chamado de aletosfera, espaço em que as aplicações da ciência acabam criando um novo lugar na cultura humana.
    Tais lugares estão diretamente vinculados às chamadas latusas que, por sua vez, conceituam-se como pequenos objetos fabricados pelo capitalismo contemporâneo que encontramos em todos os lugares visando provocar nosso desejo.
    São os objetos mais-de-gozar, aqueles que trazem sempre um gozo a mais.
    A decorrência é que não é ao acaso que o discurso capitalista tenha gerado a crise dos ideais. Eles propiciavam aos sujeitos um suporte, uma localização no espaço e no tempo, um caminho para localizar o desejo.
    Com a destruição dos ideais, esse processo se perdeu. Em vez de novos ideais, o discurso capitalista passou a instituir uma nova lógica social e superegóica: goze o máximo que você puder.
    O que tem levado à sociedade contemporânea a um extravasamento constante: excesso de objetos, excesso de lixo, excesso de modalidades de gozo, estabelecendo a perversão social que acaba atingindo a sua forma mais bruta: não goze com o Outro, goze com os objetos, as latusas.
    psicólogo pauloarthurbuchvitz

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