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Frases nem tão soltas

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Cândida Albernaz

Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão.

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E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro.

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Como deixar de lado o que mais quero sem ser dilacerada pela indiferença? É ela que me protegerá para não sentir mais do que suportaria.

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A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer.

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Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma.

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Quero escrever cores, dores, amores. Inventados, reais, esperados ou desesperados. Quero escrever vida. Sentida, vivida, sonhada. Quero escrever.

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Não se deve ter tanto medo. Nada é pior do que escolher a solidão por medo.

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Anseio por serenidade como quem precisa de ar.

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Uns fazem poesia com imagens, eu tento fazer o mesmo com palavras.

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Existem dias que é uma pedrada aqui, uma paulada ali, uma chibatada adiante. Existem dias que a droga do dia não termina.

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Enquanto mulher, menina para sempre.

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Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar.

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Na maioria das vezes o que pede não é o mesmo que quer. A eterna espera da adivinhação.

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A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre, mas se assim fosse, que graça teria buscarmos novos momentos?

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Não podemos evitar que as pessoas tentem. Mas podemos impedir que consigam.

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Gota a gota bebo esperança. E quando menos espero estou transbordando dela a tal ponto que me vejo repleta do que foi esperança, agora realidade. Então volto gota a gota a me permitir novas e novas.

 

Frases nem tão soltas

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Cândida Albernaz


Porque fechando os olhos posso enxergar melhor. Porque fechando os olhos consigo ver com o sentir.
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A melhor parte em escrever é poder criar tantas vidas diferentes da sua como se estivesse em cada uma delas.
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Às vezes penso que me invento e então me surpreendo percebendo que aquilo que inventei sou eu real.

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O relógio marca o tempo que passa às vezes devagar, às vezes rápido demais. Entre espinhos que se escondem, flores e verdes continuam a crescer.
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Por que metade se você pode ter e ser inteiro?
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Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita.
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O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir.
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Preciso que me conte histórias, me carregue no colo e através de suas rugas conheça a vida que te fez chorar ou sorrir, para que possa eu, menina que sempre serei, chorar e sorrir a seu lado.
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Algumas pessoas demoram a perceber o que passou e perdem tempo se prendendo ao nada. Vida que existiu, mas que se perdeu no viver contínuo.
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Será que ultrapassando as nuvens estarão todos os que perdi enquanto continuo aqui?
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Se você sabe onde fica a ponta de um novelo, por que insistir em se colocar no meio dele?
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Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar.
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Não me lembro de quando, mas um dia percebi que rir pode ser muito bom, mas gargalhar é imprescindível.

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Quero brincar de pique esconde e no término da brincadeira me encontrar inteira.

Uma crônica de natal

Christmas presents piled underneath a christmas tree.

Uma crônica de natal

Cândida Albernaz

Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel.

Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza.

Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes.

Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos.

Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância.  Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão.

No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou:

– Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo.

Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta.

Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo.

Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija.

Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também.

De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco.

Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios.

Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós.

– Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto.

Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum.

– Podem descer. Está tudo aqui.

E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse.

Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café.

O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela.

Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.

 

Frases nem tão soltas

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Cândida Albernaz

Não sei esconder o que sinto. Implodo se tentar.

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E com as tintas da imaginação, porque esta não tem limite, Deus coloriu o mundo.

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Não conseguia ver sua sombra refletida na parede. Desesperou-se e voltou atrás para procurá-la. Encontrou-a agachada sob uma mesa. Não queria fazer parte do quão pequena se sentia naquele momento.

*

Sentada na cadeira de pano com as alças de corda presas na árvore, ela girava. E quanto mais girava, mais ria, e naquele momento pequeno, minúsculo, conseguia esquecer o que lhe dava agonia.

*

Às vezes preciso me esconder do mundo e brincar sozinha.

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Fechei os olhos e me coloquei em seu colo. Eram seus os braços que me apertavam ao peito. Juro ter escutado: minha filha… E dentro daquele sonho adormeci.

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Quero portas onde eu possa passar. Portas fechadas me assustam. E afastam.

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Um olhar pode nos fazer continuar ou estancar. Um olhar desnuda ou assusta. Ou assusta porque desnuda.

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Após cada vendaval, enganava-se agindo como se não fosse com ela. Apenas um filme irritante e triste que assistia da confortável poltrona que desenhara na mente.

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A maioria de nós conhece ou conheceu o mais ou menos. Não vale a pena. Ou é tudo, ou é nada.

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E como a pedra diante da luz, posso ser opaca ou brilhar para quase todo o sempre.

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O lugar predileto para se encontrar a paz: dentro de nós.

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Às vezes vem assim… do nada! Não se iluda. Nunca é do nada.

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Há pessoas que gostam de ninhos, mas não procuram fazer o seu. São preguiçosas e preferem desfazer ninhos prontos.

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Quando se vê a chuva inundar a casa e levar o pouco que tem uma, duas, três vezes, não há escolha. Refazer vidas é o que sobra.

 

 

 

Sobraram as lembranças

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Cândida Albernaz

A caminho de casa parou num bar e no balcão pediu uma cachaça. O copo pequeno encheu-se do líquido amarelo que tomou de um só gole, fazendo careta. Já era o terceiro em que entrava desde que saíra do serviço.
Deixou o carro no estacionamento do prédio onde trabalhava. Pegaria no dia seguinte. Precisava caminhar e pensar. Entre uma coisa e outra tomava uma cachacinha para relaxar.
Estava tenso há alguns dias e sentia dor na altura do pescoço. Tinha a sensação de um torcicolo a qualquer instante.
Quando entrava em casa, Rita já não falava nada. Beijava-o e observava.
Nas últimas semanas, ela tentava conversar e saber o que estava acontecendo, mas ele não queria diálogo, então desistiu.
Os filhos o cumprimentavam e depois corriam para o quarto onde brincavam e viam algum programa na televisão até a hora de dormir. Acreditava que Rita os orientou a agir assim, já que mesmo com eles não tinha paciência alguma. Quase bateu no mais velho dia desses. Teria sido a primeira vez.
Sempre teve orgulho de ser bom pai, estar com eles nas horas de folga e conversar quando preciso. Isto era antes. Agora notava em seus olhos decepção e até medo. Ficava triste, mas não via chance de mudança. Não no momento.
Resolveu parar de novo para tomar mais uma. Pelo menos chegaria a casa e apagaria. Não precisaria ver a interrogação no rosto de Rita. Porque boba ela não era e sabia que algo sério devia estar acontecendo. Apenas parou de perguntar. Esse silêncio dela acabava com ele, ao mesmo tempo em que dava alívio por não precisar explicar nada.
Rita e ele se conheceram na faculdade. Não era alta e tinha um cabelo preto e cacheado que chamou sua atenção. De lá para cá, sempre estiveram juntos.
Quando engravidou do primeiro filho, estavam casados há cinco anos, com a vida estável e querendo muito aquela criança. O caçula também foi programado. Ele recebera um aumento considerável e passara para o setor financeiro da firma de material de construção onde trabalhava.
Sempre foi eficiente, organizado. Os pagamentos e as contas da firma estavam na sua mão e de outros dois funcionários.
Os problemas começaram a um mês, desde que chegou uma empresa de auditoria. O patrão achava que havia algo errado. Parece que os auditores chegaram a uma conclusão e amanhã seria a reunião em que falariam sobre isso. Marcaram para o início da manhã com os dois colegas e em seguida conversariam com ele.
Não precisava que dissessem o que estava acontecendo. Há três dias o olhavam enviesados e discutiam em voz baixa com o patrão.
Amanhã teria que enfrentá-los, quando mostrassem a duplicidade de algumas duplicatas que forjou. Muitas duplicatas. Uma quantia de dinheiro considerável. O fechamento do livro caixa era raramente conferido pelo patrão. Ele era de sua confiança. Isso facilitava em muito sua ação. Os dois patetas que trabalhavam com ele não percebiam nada. Fora fácil enganá-los.
Não teria como fugir. Se fosse mandado embora com a responsabilidade da devolução do dinheiro, já ia ser complicado, porque não tinha de onde tirar. O pior é que talvez saísse de lá preso.
Teria que encarar a mulher e os filhos. Isso doeria mais do que tudo. Que vergonha! Se pudesse enterrava a cabeça e o corpo também em algum buraco de onde não precisasse sair mais.
Os pés estavam perdendo o comando que deveria ter sobre eles. Pareciam dançar de um lado para o outro na rua, em um samba que só ele escutava.
Perdeu a conta do tanto que bebeu. Começou a rir lembrando-se do dia em que Rita dançou para ele, enquanto tirava peça por peça da roupa que vestia. Viu num filme e quis fazer igual.
Lembrou-se de quando ele e os filhos jogavam futebol e o mais velho fez seu primeiro gol. O sorriso que dominou seu rosto foi uma das coisas que mais trouxe felicidade. Nem sabia ser possível uma sensação tão plena.
Pensou em fingir que não estava acontecendo nada, puxaria os três para conversar e os abraçaria com força. Imaginava as caras de surpresa. Olhariam entre si e pensariam que voltara a ser o mesmo de antes.
O carro que vinha não percebeu que ele ia atravessar com o sinal fechado para pedestres. Acertou-o em cheio, fazendo com que seu corpo rolasse por cima dele e batesse com a cabeça no asfalto ao cair.
De qualquer forma, ainda sorria com as lembranças quando curiosos chegaram perto e o olharam.

 

Frases nem tão soltas

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Cândida Albernaz

Alguns segundos que vivemos levam uma eternidade para se deixar esquecer.

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Então posso escolher abrir o portão e descobrir que onde parecia ter apenas mato, havia flores.

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Não gosto de me rasgar. Nunca soube costurar.

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Nunca se dê a alguém por menos do que por amor.

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Às vezes as palavras me fogem e fica apenas o sentir gritando nos olhos.

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Ontem jurava que seria nunca mais. Hoje afirma que para sempre não mais.

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Quero que me balance bem forte, para que eu possa ir tão alto que toque as nuvens. Preciso ter certeza de que são feitas de algodão.

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Vou deixando flores por onde passo, para que não me perca no caminho de volta.

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Vivo buscando não sei o que de não sei onde e não canso nunca.

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Fujo de quem se diz muito bonzinho. Ninguém é.

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Bebo uma taça de tinto ou duas e fico comigo me fazendo companhia. Converso com o corpo e sinto a pele me acarinhando.

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Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós que mesmo procurando não conseguimos nos achar.

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A rotina é nosso pior inimigo quando queremos esquecer.

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Eu escrevo, eu leio, eu escrevo, eu leio. Vivo em um mundo encantado? Gosto de mundos encantados.

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No meio do mato flores nascem como se importantes fossem. Importantes são enquanto flores. Do mato.

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Por que no meio de uma noite deixo de ser borboleta e viro lagarta outra vez?

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Muitas vezes peço que meus pensamentos se calem, mas parecem fazer questão de fingir não ouvir.

 

Frases nem tão soltas XXXII

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Cândida Albernaz

O tempo passa rápido e com ele tudo o que deixamos de fazer ou dizer. Todos os abraços e desculpas que não cometemos. Todo “eu te amo” que escondemos e não dizemos.

*

Somos mulheres especiais porque somos mulheres. Ser mulher é nascer lutando,  sendo sensível, forte, amorosa, conseguindo rir e chorar ao mesmo tempo,aprendendo que doar-se é o mínimo que pode fazer, multiplicando-se para se tornar inteira. É acreditar que o mundo cabe dentro de nós. E por que não caberia?

*

A solidão acompanhada é solidão? Essa é a mais triste delas. De todas as solidões.

*

Tentei seguir a lua porque queria que ela me mostrasse o infinito. Fui parar numa rua sem saída. Dei a volta e de costas para ela encontrei a escuridão que aquela noite me esperava.

*

Aos poucos, bem devagar o mundo vai acordando dentro da gente novamente . Às vezes é preciso deixá-lo dormir com seus pesadelos para quando abrirmos os olhos podermos enxergar o tanto de colorida que é a vida.

*

Cantou Chico “Tem dias que a gente se sente /Como quem partiu ou morreu /A gente estancou de repente /Ou foi o mundo então que cresceu”. Cantou Nana “Sem carinho, sem coberta/No tapete atrás da porta/Reclamei baixinho”. Cantou Betânia “No meu céu a estrela guia se perdeu/A madrugada fria só me traz melancolia/Sonho meu”. Um dia achou que as músicas estavam altas demais, incomodando o coração. Pegou uma caixa bem grande e guardou uma por uma. Lacrou com fita adesiva e resolveu que a partir de então ela mesma comporia seu cantar.

*

Filhos são pedacinhos de amor de um tamanho maior que o mundo. Não me digam que o tempo passou, que não são mais crianças e que não posso protegê-los embaixo das asas que nasceram em minhas costas apenas para isso. Não digam que daqui a algum tempo serão eles a me carregarem em seus braços, porque nunca me sentirei fraca o suficiente para continuar tentando. Para sempre só não é tão longo quando falamos do amor gigante que sentimos pelos filhos.

*

Vamos entender que a paz ainda é uma das coisas mais importantes a se conquistar. Que o amor está espalhado em cada sorriso que recebemos, é só catar e juntar. Que a luz que realmente importa, não é a de fora, mas a que deixamos sair de dentro de nós. Que o espelho é algo bom de se mirar quando o que vemos nos faz sorrir com doçura e não por vaidade.

*

De lágrimas ela entendia. Gostava de botar para fora o que no peito doía. Um dia, olhando-se no espelho achou-se feia chorando. Então decidiu que só de lágrimas não mais se satisfaria.

*

Entediado com o tanto que tinha resolveu brincar de riscos. Arriscando-se aqui e ali descobriu em desespero que para todo erro existe um peso a ser carregado. Ah!, que saudade do tédio que sentira um dia.

*

 

Tenho angústias que nem mesmo sei de onde vêm. Chegam como ondas cobrindo meu corpo e impedindo de respirar.

*

Se ao lhe abraçar me coloco na ponta dos pés, é para que meu rosto fique ainda mais próximo do seu e possa sentir no seu corpo a força de me apoiar.

*

Não sei porque às vezes pareço fazer questão de dar minha cara para que batam.

*

Acha que é chuva o que vê lá fora? Engana-se. São pingos de luz iluminando a noite.

Consulta para quem

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Cândida Albernaz

Os dois chegaram juntos e isso só era perceptível porque enquanto um se dirigia para a cadeira e sentava, o outro ia direto para a secretária atrás do balcão entregando o cartão do convênio e falando:

– Meu marido tem hora marcada com o doutor. Ele já chegou?

Com a resposta afirmativa e após passar todos os dados do marido que permanecia sentado folheando uma revista, pegou ela também uma e começou a ler um artigo.

– Quando chegarmos lá dentro vê se não fica falando por mim. Não interessa ao médico o que você pensa, disse ele.

Ela continuou lendo. O conhecia bem. Era muitos e muitos anos de casados, fora a eternidade do namoro. Sabia quando queria iniciar uma discussão.

– Está se fazendo de surda, mas sei que me ouviu. Não adianta dizer que bebo muito. Isto é um ponto de vista seu. Bebo pouco, só para relaxar.

Virou a página da revista e contou até dez. tinha pleno conhecimento onde esta conversa dele iria parar.

– Ah! Outra coisa: quando ele quiser saber se como doce em excesso, sal ou gordura, não se meta a descrever a alimentação saudável que tenta me empurrar todo dia e que segundo você, não permito. Não vá começar com sua ladainha.

– Senhorita, por favor, ainda vai demorar muito para o doutor atendê-lo?

A secretária, que não tinha como não ouvir o monólogo do paciente, apressou-se a sorrir e responder que não, logo seriam chamados para entrar.

Ela deixou a revista na mesinha ao lado e pegou sua agenda. Aproveitaria para fazer algumas anotações.

Ele levantou-se para beber água e na volta parou na janela de onde se viam prédios e mais prédios.

– Olhe esta cidade! Quase não tem árvores, estão acabando com tudo e você lá em casa não cuida direito do jardim que eu mandei plantar. Está deixando tudo morrer esturricado…

O doutor abriu a porta despedindo-se do senhor que havia sido consultado e cumprimentando o casal pediu que entrassem.

Dentro da sala iniciou as perguntas de praxe:

– E então, o que o traz aqui?

– Rotina. Vim fazer um check up para ver se continuo em forma. Sabe como é, a idade vem chegando, os ossos doem, diminui um pouco a disposição… Explicava e sorria.

– Vamos dar uma olhada e se preciso, pedimos alguns exames.

– Veja doutor, gostaria de caminhar, viajar. Mas mal tenho tempo. Três filhos e mulher gastando muito. Preciso trabalhar e não me sobra tempo.

A esposa a seu lado, colocou os dois dedos indicadores apertando o interior dos olhos e abaixou a cabeça.

– Como é sua alimentação?

– Como de tudo. Pouco, é claro.

– Gordura, sal, doce. Controla bem?

– Com certeza. Não deixo de comer, mas com moderação.

– Hum! A mulher resmungou ao lado.

– Acho que sua esposa não concorda com o senhor.

– Ela é assim mesmo. Implica com tudo o que faço, como ou bebo. Quando a pessoa é insatisfeita consigo mesma, age assim.

A mulher levantou-se. Parecia uma bomba prestes a explodir

– Mentira! Tudo mentira. Ele se excede no sal, como fritura quase todos os dias e bebe até dizer chega! é ansioso, irritado, discute com todos e não aceita a opinião de ninguém. O senhor tem que dar um jeito nele.

Sentou-se novamente e ficou em silêncio. Quando olhou o médico, percebeu o que estava pensando. Talvez fosse ela quem necessitasse de ajuda.

O marido abaixou a cabeça colocando as mãos entre as pernas.

– Está entendendo o que digo? Ela é desse jeito, mal me deixa falar. Quanto mais ter sossego! Todo dia é discussão atrás de discussão. Doutor, sabe quando foi a última vez que  ela disse que me amava? Acho que nunca.

– Como é que é?! Esta se fazendo de pobre coitado! Nunca me disse isso também. Ele é quem procura discutir todos os dias. E quando bebe então?

– Quase não bebo doutro. Só nos fins de semana porque ninguém é de ferro.

– Mas também é sexta, sábado e domingo bêbado. De segunda a quinta ele se controla porque caso contrário perde o emprego.

– Procure se acalmar. Talvez fosse melhor que eu desse uma olhada na senhora também. Venha, deite-se aqui para que eu possa examiná-la.

Deitou-se na maca e notou a troca de olhares cheios de cumplicidade entre os dois. Quando percebia, já havia entrado no jogo dele e a louca era ela.

Não abriu mais a boca. Quando acabou, ele pediu que o marido deitasse e procedeu com o exame, agora nele. Viu que o marido mantinha no rosto uma expressão compreensiva para com ela.

Na saída, depois do exame clínico, o doutor acompanhou-os a porta.

– O senhor me parece bem. Vamos aguardar o resultado dos exames que pedi. A senhora, não se esqueça de tomar o remédio de pressão que lhe passei e aceite minha sugestão de procurar um terapeuta. Vai ajudá-la a ser menos tensa.

Saíram os dois juntos. Na rua, ele coloca a mão em seu ombro e com cinismo diz:

– Viu querida, não disse que não tinha nada? Basta que fique sempre calminha e não se meta no que como ou bebo. Não entendo porque fica tão tensa, afinal sou um bom marido para você.

O olhar que ela lançou era de morte, mas ficou quieta, sabia onde este comentário poderia dar.

 

Frases nem tão soltas

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Cândida Albernaz

Quero mesmo é conseguir escrever o sentir. Escrever sem parar, colocando para fora qualquer dor para que só no papel ela permaneça.

*

Em alguns dias careço de abraço no corpo. Em outros careço na alma.

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Desculpem mas preciso me levantar porque acabei de ver sorrisos e risos passarem aqui perto. Vou atrás deles. Não posso perdê-los.

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Tentava contar carneirinhos, mas estes corriam de um lado para o outro fazendo com que ficasse tonta. Desistiu e virando-se dormiu.

*

Que o amor para sempre cure. E que por isso dure.

*

Estou na fase dos porquês. Não perguntas. Respostas.

*

O melhor e o pior da vida: ela passa.

*

O que machuca é esperar o que não vem. O que machuca é esperar de quem não tem.

*

E quando nos olhamos somos únicos. Sem medo não desviamos esse olhar.

*

Muitas vezes vou até o limite do não sentir para que os minutos passem sem doer.

*

Quero poder pensar alegrias e distribuir “coloridices” pela boca.

*

Geralmente o problema não é como o outro fala, mas a forma como você escuta o que ele diz.

*

Há dias em que continuo a procurar… Em outros, penso que encontrei.

*

Hoje abri uma caixa onde encontrei parte do que vivi. A sensação de recordar e sentir o que senti quando todas as fotos foram tiradas, ou todas as poesias foram escritas ou todas as cartas foram lidas, me fez rir sozinha. Mas eu não estava realmente só. Tudo aquilo e aquelas pessoas estavam ali comigo. Como num passe de mágica!

*

Não estou falando de acaso. Acasos não acontecem. Talvez em alguns poucos casos. Não se engane: não são acasos.

*

Protejo-me na indiferença para não sentir mais do que suportaria.

*

Não sei entender meias palavras. Não gosto que me deem meios atos. Nada pela metade me satisfaz.

*

A vida exige, a gente entrega, ela exige, ela pega. Entre uma vírgula e outra a gente prega uma peça: ri da vida e ri com ela.

 

A gente não nasceu para isso

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Cândida Albernaz

Atrasei dona Marta, mas não foi culpa minha.

Lembra quando falei com a senhora sobre a Zildinha? Pois é, ontem quando cheguei do trabalho ela estava lá em casa me esperando c om a cara toda quebrada. O desgraçado do marido sentou a mão nela outra vez. Aliás, a mão e os pés porque chutou um bocado e ainda bateu com a cabeça da pobre na parede. E sei dos detalhes, não porque ela se lembre, mas porque o filho de dez anos assistiu a cena e contou tudo. Esse garoto já viu cada coisa.

Lá fui eu ao pronto-socorro. Foi medicada e quando quiseram saber como ela havia se machucado tanto, nem tive tempo de abrir a boca:

– Foi um carro que me atropelou. Atropelou e fugiu.

Olhei para a cara dela com ódio. Não aprende, não adianta. Volta para casa e quando as feridas estiverem quase cicatrizadas, leva uma nova surra.

Dá para entender uma coisa dessas? Não, nem precisa responder dona Marta, que eu sei que a senhora concorda comigo. Então ela apanha, fica um tempão com o corpo doído e não coloca o sujeito em cana?

Avisei que não ajudo mais. É meu cunhado, irmão do meu marido, mas queria que fosse preso. Não se faz o que ele fez com ela nem com um bicho, ainda mais numa mulher que deu um filho para ele.

Precisa ver como cuida da família. Não tem hora nem cansaço para ela. Trabalhadeira e cozinha que é um primor.

Desculpe dona Marta, eu desabafar assim, mas foi por esse motivo que cheguei tarde hoje. Quase não dormi.

Quando saímos do hospital, passava de uma hora da manhã. Insisti para que ficasse comigo, mas não quis. Disse que ele estaria arrependido e não a machucaria. Ela conhece bem as manhas do filho da puta que tem em casa. Desculpe pelo palavrão. Eu é que não conheço mais a Zildinha. Era uma mulher tão bonita e de opinião. Agora está um trapo que dá pena até de olhar.

Estou falando demais, não é? Nem pôde dizer o que quer que eu prepare para o almoço. Meu marido vive repetindo que precisa de uma chave que me desligue quando começo.

O que é isso? Está chorando? Não fique assim. Eu sei que não está acostumada com esses assuntos, mas é que onde moro, acontece cada uma… Só com tempo para contar.

A senhora vive longe desse mundo e é melhor assim, porque a gente não nasceu para assistir essas coisas.

Dona Marta, não chore. Fico sem graça por ter falado tanto. Ainda bem que seu marido foi para o trabalho. Podia até zangar-se comigo por fazer a mulher dele sofrer.

O que é isso, dona Marta? Só agora estou reparando como seu olho está inchado. E essa mancha roxa no braço? Dona Marta, a senhora…

 

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