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O melhor e o pior da vida: ela passa.

O caminho de volta

O caminho de volta
                                                                                              Cândida Albernaz

            Quase não sai de casa. Se precisa de comida, telefona e pede. Se tem alguma conta para pagar, há um  rapaz que passa por ali uma vez por semana. Dá dinheiro a ele, que faz  os seus pagamentos.
            Sabe que os vizinhos têm curiosidade a seu respeito. Ouviu outro dia, quando chegou ao portão, um deles passando e apontando o dedo em sua direção, Esquisito!
            Assim ficou conhecido, um sujeito estranho que não falava com ninguém e que raramente colocava a cara para o lado de fora de casa.
            Só há um dia em que vai  à rua. Todos os meses. Então arruma-se, perfuma-se, enfim  cuida-se melhor. Não há intenção em saber se está bonito ou feio. Quer apenas estar corretamente vestido, sem nada fora do lugar. Pega o chapéu antigo que fora do pai  olha-se mais uma vez e sai.
            Às vezes as crianças da redondeza, quando não têm uma bola para brincar seguem-no chamando de Esquisito! Um deles certa vez ameaçou jogar uma pedra. Quando isso aconteceu, voltou-se e ficou parado olhando em seus olhos.  Não precisou dizer nada, os meninos recuaram e a partir  de então andam atrás até que ele se distancie ou algum pai os chame.
            Na época em que foi morar naquele bairro, já não vivia com mais ninguém. Chegara ali sozinho e montara sua casa. Tinha uma piscina onde costumava nadar todos os dias às seis horas da manhã. Invariavelmente. Fizesse sol, chuva, calor ou frio. Era arborizada, possuindo um quiosque onde colocou uma mesa, um banco alto e um cavalete que montava e desmontava todos os dias, sempre que acabava de pintar.
            Não havia necessidade de sair dali para  inspirar-se. Vira coisas demais, viajara muito e hoje pintava tudo o que vivera e a mente trazia à tona.
            Havia na casa uma sala onde colocava todas as telas, até que fosse agendada a próxima exposição. O marchand vinha quando era avisado de que estava pronto. Examinava o trabalho, selecionava alguns e depois mandava que pegassem.
            Quando estavam expostos na galeria, ia até lá como um anônimo e parava diante de cada um deles observando o que havia feito, sob nova luz. A maioria era vendida e o que sobrava ficava naquela ou em outra galeria do mesmo proprietário. Recebia o dinheiro e voltava a pintar.
              Hoje faria o passeio mensal. No portão verificou se na bolsa que carregava havia colocado tudo o que precisava. A rua estava calma, as crianças deviam estar na escola e apenas um vizinho parou o que fazia para observar sua passagem.
            Andou por um bom tempo. Não possuía carro e não gostava de táxi ou ônibus.
            Em frente ao grande portão onde se podia ler numa placa Clínica Santana, respirou mais profundamente e entrou.
            Os funcionários o cumprimentaram com um sorriso. Alguns paravam para conversar ou contar uma história engraçada. Ria com eles e procurava saber sobre a família de um e de outro. Ela está lá fora no lugar de sempre, alguns diziam. Atravessava o longo corredor e na área externa via as árvores, os bancos e mesas, pessoas caminhando, lendo, ouvindo música ou conversando. Estava sentada debaixo da árvore. Usava o vestido com estampas de flores que ele trouxera  na última visita. Adorava ganhar presentes.
            Aproximou-se e beijou-a na testa. Recebeu um sorriso e a mão estendida: Onde está? Sorriu também e tirou da bolsa que carregava uma caixa branca com uma fita que terminava num laço. Sempre tinha que ter um laço, porque ela gostava de desfazê-lo. Abriu com calma e tirou de dentro uma blusa de seda, que levou até o rosto para sentir a textura.
            Colocando caixa e presente recebido no banco, ela estendeu os braços para que ele a ajudasse a levantar-se. Abraçou-a pela cintura e caminharam. Quietos no início, até ele começar a falar sobre uma vida que não vivia, cheia de emoção, muita gente em volta, e viagens que não fazia. Ela escutava com um sorriso e pedia que contasse mais. Às vezes ausentava-se e as pernas falhavam. Então segurava firme e a colocava deitada num banco com a cabeça apoiada em seu colo. Da boca escorria baba e os braços contorciam- se. Quando a crise passava, sentavam e ficavam quietos por algum tempo. Nem sempre era possível continuar. Algumas vezes os enfermeiros vinham e determinavam o fim da visita: ela agora precisa descansar.
            No acidente em que ela dirigia o carro, o homem que estava ao lado morrera na hora. Ficou cega e com seqüelas para toda a  vida. Precisava de ajuda médica constante. Aquele homem era casado, assim como ela, e soube depois, costumavam encontrar-se no apartamento que ele tinha perto do local onde havia o maldito poste. Tinham bebido muito e por algum motivo que nunca soube ela perdeu a direção. Não fez perguntas para quem não podia responder.
            Gostava daquele lugar calmo.
            Enquanto ela era levada para dentro, prometeu voltar em alguns dias.
             Refez seu caminho de volta.

Acabou

Cândida Albernaz
O sol forte provocava uma claridade que quase ofuscava. As folhas das árvores permaneciam paradas. Vento, nem pensar.
 Ela parecia não ver ou sentir esse calor. Sentada sob a pequena árvore, olhava o asfalto que beirava a estrada.
 Um caminhão acabara de parar e o motorista fazia sinal para que subisse. Ouvia o que ele dizia, mas não o olhava. Depois de insistir por algum tempo, desistiu. Foi embora gritando palavrões. Não se sentia ofendida. Era o terceiro que parava chamando-a. Pensavam que era uma dessas garotas de estrada.
 Sentara ali por acaso. Cansara de caminhar.
 Saiu de casa vestida como estava. Usava um short jeans e uma camiseta laranja. Os papéis que antes tinha nas mãos, agora estavam espalhados à sua volta.
 Andara um bocado, só agora percebia. A roupa ainda estava úmida, mas o cabelo quase seco.
 Colocou a cabeça entre os joelhos e começou a chorar. Não teria como apagar tudo o que aconteceu. Foi feito. Não fazia idéia de quanto tempo estava ali.
 Tinha que voltar.
 Outro carro diminuiu a marcha e quase parou. Levantou-se e deu as costas começando o caminho de volta. Sabia o que a esperava, mas nunca fora mulher de fugir de suas responsabilidades.
 A casa para onde se dirigia era grande, com uma enorme varanda onde o vento parecia brincar. Duas redes ocupavam espaço de destaque. Costumava se deitar ali à noite, com a filha ao lado para que dormisse. Contava histórias inventadas na hora que a menina adorava ouvir.
 A patroa sempre a tratou bem, o marido dela, nem tanto. Era um homem ríspido, acostumado a dar ordens. Procurava obedecê-lo e evitá-lo.
 Quando foi morar na fazenda, sua filha estava com dois anos. Ia fazer seis no próximo mês. Estava sozinha e precisava alimentá-la. O pai, um caminhoneiro com família em outro estado, o que veio a descobrir depois, sumiu quando soube da gravidez. A cidade pequena em que vivia, pareceu ficar menor ainda. Não a queriam. Seu pai, principalmente. Costumava repetir que ela não era mais sua filha, que o matara de vergonha, que sumisse dali com aquela bastardinha.
 Dona Ana ofereceu o emprego de faz-quase-tudo-o que-for-preciso e ela aceitou. Disse que a menina não seria problema, porque espaço era o que não faltava.
 Agora teria que olhar a patroa de frente. Ela já devia ter encontrado o marido no chão da cozinha.
 Pela manhã, estava arrumando o quarto dos dois, quando um barulho oco, na gaveta de cabeceira do patrão chamou sua atenção.
 Todos os dias catava o que encontrava espalhado e guardava dentro dos armários e gavetas.
 Ficou curiosa com o barulho e forçou o pequeno fundo. Escorregaram dali uns papéis que se apressou em pegar para colocar de volta. Eram fotografias. Nelas, viu sua filha… e aquele homem. Em algumas, não vestia nada e fazia pose de mulher adulta. Em outras ele e ela juntos. Homem e mulher. Sua menininha com o rosto assustado e triste. Soltou um gemido e foi até a cozinha. Ele estava sentado tomando o café que preparara mais cedo.
 O facão em cima da pia. As costas voltadas para ela. A força que não imaginava ter. Não se recorda quantas vezes repetiu o movimento.
 Quando saiu ele estava caído no chão. Foi até o banheiro e entrou no chuveiro. Sangue escorria de sua roupa, fazendo com que a cerâmica branca ficasse vermelha.
 Voltou ao quarto, pegou as fotos e saiu andando. Lembrou-se que as deixou espalhadas na beira da estrada.
 Sua garota chegaria mais tarde. A patroa foi levá-la para a escola.
 Precisava trocar de roupa e ir até ela. Antes que viessem buscá-la. Tinha que olhar nos olhos da filha, fazê-la entender que acabou.

Devaneio

Cândida Albernaz
 Você me inspira, me seduz, faz sonhar e sofrer.
 Enquanto musa você for a observo, dou-lhe os nomes que quero.
 Nunca rotina, nunca dia a dia, frente a frente.
 Pés no chão não me deixariam voar e sem o vôo não sou capaz de criar.
 É assim que alimento meus poemas e sem eles não sobrevivo.
 Nem tente tirar sua máscara, caso contrário serei obrigado a tirar a minha. E se vejo seu rosto ou você vê o meu, só vai sobrar a realidade e é dela que fujo.
 Sou poeta, não se esqueça nunca, ou cairá num abismo.
 Ontem pensava em você mais uma vez e tentei adivinhar o que seus olhos transmitiam na foto que observava. Não sei se consegui, mas não tem importância, porque na verdade não preciso saber o que sente. Quero colocar em seus olhos o sentimento que espero deles.
 Orgulhe-se de ser musa e viva sua vida, não faça com que eu saiba como ela é. Apenas deixe escapar pequenos trechos que me deem espaço a imaginar.
 Não, não diga que o que quer de mim são só as palavras. Também não tenha a curiosidade de me conhecer. Basta a você o que lê, e isso a faz sonhar com outras vidas, outras pessoas.
 Não me conte o que não quero saber. Nem diga que foge da realidade quando lê o que escrevo, mas que também não se interessa em saber como sou. Essa conversa está ficando real demais.
 Já pedi que não continue, por favor. Ontem você foi ao supermercado? Faltou sal em casa? E daí? Não faça isso. Você não come, eu sei, apenas levita em torno de minha mente, flutua, voa como uma borboleta – tanto tempo lagarta presa no casulo até que se transforma linda e de vida curta- que posso segurar em minhas mãos e depois abri-las deixando que bata suas asas coloridas fazendo meus olhos brilharem. 
 Repito mais uma vez: não venha me contar que de mim não espera nada, que minha rotina também a incomoda e me conhecer melhor fará com que diminua o valor do que escrevo.
 Somos dois poetas, talvez? Não roube meus sonhos e as letras que uso no papel, porque me impede de respirar.
 Espero de você o que percebi espera de mim também. Jamais sair debaixo desse manto, jamais mostrar a verdadeira face, jamais olhar dentro dos olhos reais.
 Sigo meus sonhos, segue os seus. Em linhas paralelas, aquelas que aprendemos jamais se encontram.

Tanto tempo perdido

Tanto tempo perdido…
      Cândida Albernaz     

 Sentado embaixo da árvore, mexia em sua nova gaiola. Olhava o trabalho feito com capricho. Não sabia quantas gaiolas já fizera. Os passarinhos que depois colocaria dentro de cada uma delas, eram sua paixão.
 A mulher já reclamara com ele. Fica sujando o quintal com esse alpiste e quem tem que limpar sou eu.
 Era seu maior prazer, não entendia. Aposentara-se e quando viu ser desnecessário para o trabalho que fizera a vida toda, sentiu-se um inútil.
 No início, ficava em casa durante todo o dia, esforçando-se para acreditar que merecia aquele descanso. Afinal, já era hora. Sempre fora um bom funcionário, cumpridor severo de suas obrigações, deixando de lado por muitas vezes acompanhar o crescimento dos filhos ou a companhia da mulher. Esta vivera reclamando do seu cansaço ao chegar, sem disposição para outra coisa que não fosse dormir cedo para acordar bem disposto no dia seguinte para o trabalho.
 Nos finais de semana, gostava de se sentar no botequim da esquina, onde encontrava com os colegas da firma. Ao voltar, almoçava e dormia. Algumas vezes a mulher o chamava para um cinema ou passeio. Eram raras as ocasiões em que aceitava o convite.
 Podia-se dizer que vivera para o trabalho, inclusive, o que habituara a afirmar era que se esforçava tanto pela mulher e filhos. Para que pudessem ter o mínimo de conforto de que uma família precisava.
 Com o tempo, foi vendo a mulher envelhecer, perder o viço da pele e o brilho nos olhos.
 Nunca perguntou a ela se o mesmo acontecera com ele.
A única coisa que realmente chamara sua atenção, foi quando num dia qualquer, pelo menos para ele, chegara a casa e encontrara a mulher pronta para sair. Colocara um vestido estampado, com um decote mais ousado do que o habitual e pediu que ele fosse até o quarto e tomasse um banho. Em cima da cama encontrou uma camisa bem passada e uma calça estendida ao lado. Apesar de estranhar, lavou-se e colocou a roupa separada por ela. Foi até a sala e encontrou-a parada em pé, próxima à porta. Perguntou o que estava acontecendo, ela segurou seu braço e disse que hoje sairemos um pouco, porque preciso me sentir jovem outra vez. Riu dela, mas aceitou o braço estendido. Caminharam ao longo da rua e num pequeno restaurante de onde podia se ouvir música, ela pediu que entrassem.
 Tomaram algumas cervejas e resolveu tirá-la para dançar. Estranharam-se um pouco no início, a falta de costume de se tocarem em público ou mais demoradamente. Não contava as noites em que a procurava e muitas vezes sem nem mesmo se beijarem, satisfazia-se, não se importando com o que ela sentia. A bebida e a música fizeram com que relaxassem.
 Talvez esta tenha sido a última noite em que poderiam ter dado uma oportunidade para eles mesmos.
 No dia seguinte a rotina voltou a se instalar. Pensando bem agora, recordava de que ela o procurara com os olhos e sorria disfarçadamente quando encontrava os seus. Não soube aproveitar. Não conseguira tempo para isso. O momento passou e com ele a vida que poderiam ter vivido.
 Pegou a nova gaiola e saiu. Sabia qual o passarinho que colocaria ali dentro.
 Mais tarde, ao chegar, foi até a varanda e pendurou a gaiola no prego colocado na parede. Sorriu orgulhoso.
 Notou que a mulher o olhava. Hoje em dia ela andava com dificuldade, mas continuava cuidando de tudo dentro de casa.
 Aproximou-se dela e apontou para sua mais nova aquisição. Não viu nenhuma reação em seu rosto, só cansaço.
 Puxou-a pelo braço e passou os seus em volta do ombro dela. Percebeu que ela tentava sair. Não se intimidou e apertou-a com a mão trazendo-a para mais perto dele.
 Ficaram os dois assim, parados olhando sem ver. Ela então passou a mão em sua cintura e encostou a cabeça em seu ombro.
 Tanto tempo perdido…

Banco da Rodoviária

Banco da Rodoviária
       Cândida Albernaz
 Na casa a beira da estrada, os tijolos aparecem sem qualquer pintura ou acabamento. A varanda em tom lilás sobressai com uma porta larga de madeira trabalhada em relevos. Herança da patroa que não a queria mais. Ela mesma passara a mão de tinta, o que tornava onde morava um lugar diferente do resto da vizinhança.
 Sempre fora assim, se queria algo, ela mesma fazia. Ainda criança sua mãe saiu de casa levando o irmão caçula. Ela ficou com o pai. Tinha oito anos, e já era uma mocinha, como a mãe cansava de afirmar enquanto arrumava as coisas. O pai não podia ficar sozinho e precisava de alguém que cuidasse dele. Chorava ouvindo a mãe falar, e lembrava-se de como agarrara na barra do vestido vermelho com flores brancas que usava, puxando-a para trás. Não adiantou. A mãe arrastava a perna e ela junto. Quando chegaram à porta, ela retirou sua mão com força e disse que na semana seguinte viria vê-la. Não voltou até hoje. A porta daquela época também não é mais a mesma.
 A vida ao lado do pai não foi das mais fáceis. Crescia e os cabelos crespos e pretos, os olhos puxados e a boca estreita, lembravam cada vez mais sua mãe. E quando queria ofendê-la, falava dessa semelhança com “aquela vagabunda da sua mãe que largou você atrás de um qualquer. A gente logo vê que é filha daquelazinha”.
 Cuidou do pai, das bebedeiras dele, das mulheres que trazia para dentro de casa e que por muitas vezes quiseram ser sua mãe. Demonstravam isso batendo nela, porque precisava ser educada por alguém.
 Há poucos dias recebeu uma carta. Quando viu o remetente, pensou em queimar. Haviam se passado trinta anos. No inicio chorou muito, costumava rezar pedindo que mãe fosse buscá-la. Após alguns anos começou a sentir raiva e pedia sua morte. Com mais idade, convenceu-se de que ela havia morrido e por isso nunca mais voltou. Portanto ela só não procurava a filha, porque morta, não podia.
 Guardou a carta na gaveta da cômoda e agora resolveu abri-la: “Filha, talvez não pense mais em mim, mas não há um dia que deixe de lembrar seu rostinho. Tentei procurá-la outras vezes, mas como morava longe e não sabia escrever direito, desisti. Mudamos para perto. Tenho certeza de que seu pai cuidou bem de você, sempre foi a preferida dele. Seu irmão cresceu forte e hoje está casado e com dois filhos. Meu neto me ajudou a escrever essa carta. Chego na sua cidade em cinco de outubro. Queria ver você. Longe de seu pai, que sei ainda está vivo. Ficarei na rodoviária esperando o dia inteiro. O último ônibus sai às dezoito horas. Estarei no banco do lado direito do terminal. Espero que ainda haja esse banco. Estou velha e cansada. De sua mãe que apesar de ser diferente das outras a ama,beijo.”
 Dia cinco de outubro é hoje. Duas horas da tarde. Ela deve estar lá, sentada esperando.
 Não iria. Para quê? Nem se lembrava de seu rosto. O que também já deve ter mudado muito. A mãe não teria como reconhecê-la. Era uma menina quando a deixou. Às cinco horas resolveu que caminharia até lá. Ficaria de longe observando.
 *                                          *                                           *

 A rodoviária estava cheia. Olhou os bancos e havia várias senhoras e crianças sentadas neles. Procurou o da direita. Uma mulher com ar cansado suava passando a mão nos cabelos enquanto conversava com uma criança. A outra, quieta parecia não ouvir o alvoroço a sua volta. Usava um vestido vermelho com flores brancas que parecia estar apertado demais. Olhava o chão e de vez em quando levantava a cabeça procurando alguém.
 Ficou observando-a tentando enxergar a semelhança que seu pai via nas duas. Não encontrou. Aquela mulher tinha olhos apagados, a pele enrugada e os cabelos brancos. Notou que sua mão tremia ao olhar o relógio. Demonstrava ansiedade. O ônibus chegou e sairia em dez minutos.
 Andou até próximo ao banco e parou. Tentou disfarçar olhando para outros lugares. Ainda não decidira se queria falar com ela. Talvez numa outra ocasião. Tinha o endereço na carta. Quem sabe a procuraria depois.
 As pessoas formavam fila para entrar no ônibus. Procuro-a novamente e não a viu. Será que ela entrou enquanto olhava em volta?
 A mão em seu ombro fez com que sentisse um sobressalto “não deixaria nunca de reconhecer seus olhos. Você mudou, mas eles continuam com a mesma expressão do dia em que fui”.
Olhou aquela senhora e não sabia dizer o que sentia.
“Não fale nada agora, minha filha. O ônibus vai sair. Volto amanhã e espero por você no mesmo banco em que estava hoje”.