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Por candida, em 09-09-2010 - 14h28
Sua mente dentro da minha
Cândida Albernaz
Ele está me esperando. Chegou cedo, não sei o porquê. Ou melhor, é claro que sei. Vive tentando me pegar em alguma atitude que jamais cometi.
Olha com desconfiança enquanto arrumo as frutas que comprei, no pote em cima da mesa da cozinha.
Com os braços cruzados, fixa em mim olhos de acusação. Tento fingir que não percebo aquele fogo que parece deixar rastros no meu corpo. Sinto-me queimar e uma culpa pelo que não fiz começa a me consumir.
Mesmo que tente, não consigo transmitir firmeza ao falar, sinto insegurança e com medo de sua imaginação.
Em alguns momentos sua loucura parece ser minha, fazendo com que duvide de mim mesma.
Começo a preparar o jantar e comento que o esperava mais tarde. “Saí para comprar frutas. Trouxe maçã verde, que você adora”.
Aproxima-se e me beija a testa. Beijo com respeito, que eu detesto. Ele sabe. Avisa que vai tomar um banho e me pede os jornais. “… não tive tempo de ler hoje de manhã”.
De olhos baixos, vou até a mesinha onde os coloquei. Entrego a ele.
* * *
Ela não firma o olhar no meu. Onde esteve realmente? Antes de chegar, verifiquei os armários e a geladeira. Tem abacaxi e pêssegos. Para que foi comprar mais frutas?
Talvez seja uma desculpa para encontrar alguém.
Cheguei mais cedo e ela não contava com isso. Dessa vez não fiz de propósito, apenas eu e meu sócio resolvemos almoçar juntos,comemorar as boas vendas e decidimos não voltar para a corretora.
Noto que ela treme quando faço perguntas. Está insegura. Tenho certeza de que fez algo que não devia. Acho que vou colocar alguém atrás dela. Já fiz isso outras vezes. Deu em nada.
* * *
Foi tomar banho. É um alívio sair debaixo de seus olhos.
Sempre consegue fazer com que me sinta culpada. Não sei de quê.
Não tive tempo de preparar o jantar. Vai reclamar.
Adoro cozinhar. Antes de sair, a cozinheira deixou tudo adiantado, mas sempre preparo algo diferente para nós dois. Ele gosta.
Vou ao quarto trocar de roupa, colocar alguma coisa mais confortável.
Ele já está na sala lendo os jornais.
* * *
Depois que ela colocar o vestido no cesto de roupas, pego e verifico se tem algum cheiro diferente.
Hoje não vou falar sobre a demora do jantar. Quero ver até onde vai. Vou dar corda por uns dias, ficar mansinho.
Mais cedo ou mais tarde vai se trair.
* * *
Jantamos em silêncio. No que será que ele está pensando?
Durante a sobremesa, começo a falar sobre o fim de semana. “Seu irmão convidou para irmos à praia com ele. O que acha querido?”.
Diz que até amanhã resolve. Combinou com o sócio uma reunião no sábado de manhã, vão discutir sobre um novo prédio que foi lançado no mercado.
Fico triste. Na casa do irmão ele se solta, parece mais tranquilo. Quando estamos lá, volta a ser o homem com quem casei.
* * *
Jantamos em silêncio. No que será que ela está pensando?
Pede para irmos à praia. Vou desmarcar a reunião com meu sócio, mas só respondo a ela amanhã. Não quero que tenha tempo para fazer planos.
Na casa do meu irmão fico à vontade. Nunca tem ninguém de que não goste. Foi bom este convite, estou precisando descansar.
* * *
No quarto, aproximo e beijo seu pescoço. Abraça-me com força. Sinto a pressão do seu corpo quando me cobre, noto o coração disparando, tenho um amor forte por ele. Pena as dúvidas que tem. Pena a mágoa que deixa em mim.
* * *
No quarto ela se aproxima e beija meu pescoço. Sei o que quer. O mesmo que eu.
Seu corpo quente embaixo do meu faz o coração acelerar, sinto que a amo mais do que tudo. Pena as dúvidas que tenho.
Por candida, em 02-09-2010 - 14h28
Agora não tem jeito
Cândida Albernaz
– Não vem que não tem. Você foi avisado e mais de uma vez. Insistiu, cara. Insistiu.
– Fala com ele. Juro que entro nos eixos. Foi o Maneco que veio me cobrar uma dívida e não tive de onde tirar.
– Você entrou pelo cano. Não posso te ajudar, brother. Já era! E tem mais. Vou indo que não quero que me vejam conversando com você.
– Que é isso? Vai me largar na pior? Sou teu companheiro, somos como irmãos.
– Se ferrou brother. Perdeu e eu tô fora.
Tucão virou as costas e saiu correndo como se alguém o perseguisse.
Preciso pensar no que vou fazer. Talvez tenha sorte e eles aceitem me ouvir. Duvido!
Poxa! Só peguei a carteira daquela dona, porque não tinha nem para o pão. Dei também um soco na cara dela quando tentou resistir. Como podia adivinhar que era tia do Pedro Zarolho? A velha nem mora aqui. Devia ter ido para outra área, dei bobeira e agora me dei mal.
Nunca fiz nada muito sério. Não aqui dentro! Uma carteira aqui, uma tv ali, só bobagem. Mas também, o que ia fazer? Minha cara está manjada lá fora. Se os homens me pegam, não chegaria nem no xadrez. No caminho mesmo, já pagava o que devia.
Não tirei nada de importante daqui do bairro, e olhe que tenho capacidade. Fui muito respeitado no meio. Agora é que tô meio caidaço porque tinha que dar um tempo. Mas fome não dá para passar.
A mulher em casa embuchada. Meu primeiro herdeiro. Macho sim senhor. Macho como o pai que não costuma fugir de nada.
Falei com Soninha que não era hora, mas a danada me enrolou. Sabe como é, carne fraca, fui com tudo!
Não me arrependo. Era hora de ter um garoto correndo por aqui. Se bem que agora não sei como vai ser. Ela não trabalha, porque proibi. Mulher minha só sai de casa comigo.
Soninha sempre foi bonita e eu tava de olho nela fazia tempo. Não me dava a menor, até que apareci com um carrão e reformei o barraco. Foi uma fase boa. Tinha sobrando e quando consegui chegar perto dela, sabia que seria minha. Mando uma conversa que não é para qualquer um e depois, quando as garotas vêm comigo uma vez, já se amarram. O gosto do negão aqui é bom demais.
Fase ruim, essa. Mas em casa não falta nada. A mulher pede, eu arranjo. De um jeito ou de outro.
Tivemos uma discussão dia desses porque ela queria uma televisão maior. E Soninha não é fácil, quando coloca alguma coisa na cabeça, não pára de falar. E ofende também, me chamando de frouxo. Dei uns tapas e ela calou a boca, mas por pouco tempo, que não tem medo. É isso que gosto na minha garota. É atrevida. Dá o maior tesão essa valentia dela.
Chegando a casa, pego uns trapos e tento sumir por uns tempos. Vou mandar ficar com a mãe dela até tudo se acalmar.
Não gosto da velha, não. Ela não queria que a filha fosse morar comigo. Dizia que eu ainda ia acabar mal. A desgraçada rogou praga e agora tô eu aqui.
A casa escura ainda? Será que minha mulher saiu sem minha ordem? Não vou poder fazer nada por enquanto, mas deixa voltar…
Meto a mão no interruptor. Soninha está sentada no único sofá que temos. A cabeça recostada parece dormir, não fosse o fio grosso de sangue que desce de sua testa. As duas mãos abraçam a barriga. Quis proteger nosso filho.
Pedro Zarolho está em pé ao lado dela. Os outros dois com um sorrisinho idiota no meio da cara.
Não tento falar, que não adianta. Sigo os três e na rua olho para cima. Sei aonde vão me levar e não preciso dizer nada. Só rezar para que acabe rápido.
Por candida, em 26-08-2010 - 11h43
Decisão
Cândida Albernaz
Sentada em frente ao piano, olhou a foto na parede. Nela usava um vestido branco, com os ombros à mostra. As mãos em posição correta sobre o teclado branco e preto davam a impressão de que a qualquer momento começariam a se mover.
Lembrava-se bem dessa noite. As notas musicais fluíam de seus dedos numa melodia forte que em alguns momentos parecia sumir. Quando se levantou para agradecer, procurou por Antônio na platéia.
Ao encontrá-lo sorriu, mas ainda a tempo de ver que as mãos dele soltaram rapidamente das mãos finas da garota que estava ao lado.
Seus olhos se encheram de um líquido que escorreu pela face sem obedecer ao desejo de não demonstrar o que sentia.
Ouviu quando alguém falou que estava emocionada com a música que acabara de executar. Melhor assim.
Há algum tempo sentia que havia algo errado entre eles.
Já havia notado antes um olhar fugidio aqui, um toque ali e a urgência de estar junto conversando sobre assuntos que muitas vezes não a interessavam.
Foram comemorar o sucesso do recital num restaurante onde haviam feito uma reserva antes. A garota foi com eles, era sua irmã.
Estavam noivos nessa época e o casamento marcado para dali a três meses.
Em casa, discutiu com a irmã, chocando a mãe com as palavras que usavam. No final, depois de um tapa onde seus dedos marcavam o rosto muito branco da outra, ouviu que eles não tinham culpa, se amavam e não fora proposital. Estavam esperando o melhor momento para contar.
Trancou-se no quarto e viu o dia amanhecer. Avisou a mãe que tocaria ainda esta noite, mas que no dia seguinte faria uma viagem. Pensou em ficar na casa de uns parentes em Minas. Eles possuíam piano e não deixaria de exercitar sua música. Falou que a irmã poderia fazer o que quisesse, o noivado estava desfeito e não pretendia conversar com Antônio. Fossem felizes. Ou não.
Sua estada lá se prolongou por alguns meses. Estudava muito e fez duas apresentações.
Soube pela mãe que a irmã e o ex-noivo resolveram casar. Como ele era representante farmacêutico e viajava muito, não havia necessidade de morarem ali. Alugaram uma casa numa cidade próxima.
Durante o período em que estivera fora, recebera a visita dos pais por duas vezes, que na época, reclamaram dizendo que ela estava engordando muito. Nunca fora desleixada, e deveria continuar não sendo.
Sete meses depois, estava de volta.
Quando abraçou sua mãe, esta não se conteve e olhando a barriga proeminente que ostentava, chorou. Não havia motivo. Sentia-se feliz. Tinha agora sua própria família. Por que sua tia não me falou nada? Você já sabia quando saiu daqui… Afirmou com a cabeça e disse que precisava organizar tudo. Nasceria em um mês.
A foto ao lado da primeira mostrava uma menina com dez anos, abraçada a ela. Sorriam as duas.
Gostava de olhar aquelas fotos, uma ao lado da outra. A primeira já não trazia tristeza alguma, só nostalgia e a segunda provocava nela um sorriso aberto.
Ouviu a voz da filha chamando e levantou-se para ver o que queria.
Sua mãe não estava mais entre elas. Se fora no ano anterior. Durante o velório, foi uma das poucas vezes onde encontrou a irmã e Antônio. Tocaram-se formalmente. Esqueceu o amor da juventude, não se lembrou de perdoar a irmã. Não quis.
Apressou a filha, ou se atrasaria para sua audição. Agora possuía um empresário e fazia apresentações em muitos lugares.
Em suas viagens, a menina estava sempre com ela.
Sua vida era organizada e tranqüila. O único problema era quando a filha falava em conhecer o pai. Dissera uma vez que ele havia morrido em um acidente. Mas ela queria fotos, sobrenome, lugar onde morou.
A filha crescia e a curiosidade aumentava. De qualquer forma, não havia tempo para refletir sobre isso agora.
Conseguiu resolver sua vida, que parecia em pedaços, uma vez. O faria de novo se fosse preciso,
Pensaria em algo. Sempre fora boa em pensar.
Por candida, em 19-08-2010 - 9h51
Correndo atrás de sonhos Cãndida Albernaz
Ontem à tarde, minha menina caiu de cama mais uma vez. Desde que a mãe foi embora, e isso tem seis meses, ela adoece toda semana. Nem posso cuidá-la direito. Deixo com minha mãe, que já está velha demais, mas nada reclama. Não tenho mais ninguém para pedir ajuda. Trabalho o dia inteiro, sou eletricista, e graças a Deus não me falta serviço. Não foi sempre assim. Fiquei um ano parado, sem poder trabalhar. Pressão alta, pressão baixa, parei no hospital algumas vezes. Nem sei como não parti dessa para uma outra. Acho que foram as orações de minha mãe, porque fé ela tem de sobra. O que falta mesmo são olhos para enxergar melhor e força nas pernas para andar. Não reclama de nada. Em alguns dias fica na cama com dores sem gemido, mas através dos olhos e caretas que faz quando pensa que ninguém está olhando, sei que são fortes.
Quando ela decidiu nos deixar, minha mãe chamou Arlinda para conversar. Falou sobre os filhos em idade difícil, Ruizinho com treze anos e Néli com catorze. Disse que eu não conseguiria cuidar dos dois, e que nessa idade, a filha precisa dos conselhos da mãe. Todos ali necessitavam de uma mulher-mãe por perto.
Arlinda escutou tudo bem quietinha, porque quando mãe falava, apesar de magrinha e miúda, nenhum de nós costumava retrucar. Mas não era filha, e assim que deu as costas, arrumou a bolsa, despediu dos filhos e me olhando nos olhos, disse que precisava tentar. Sua vida estava difícil e se ia para longe, era porque queria voltar logo. A irmã, que morava em São Paulo, convidou-a para que ela ajudasse a cuidar de um salão de beleza que abriu. Propôs um salário razoável e quem sabe sociedade. Quem sabe para mim, é o mesmo que nunca-vou-te-dar-sociedade-nenhuma.
Ela disse que precisava tentar, o nosso casamento estava complicado, não era essa a vida que imaginara, os filhos estavam crescidos e que enfim, seria apenas por algum tempo. Respondi que a amava, pedi que tentasse mais um pouco ao nosso lado. Prometi abrir um salão para ela no próximo ano. Riu na minha cara, não foi um riso de deboche, foi pior, riso de pena. Abaixei a cabeça, e insisti quase num sussurro que ficasse, porque não saberia viver sem ela. Colocou as mãos no meu cabelo e acariciou meu pescoço, como sabia eu gostava. Olhou-me e afirmou que voltaria. Precisava de um tempo. Ou talvez pudéssemos ir para lá e morarmos juntos. Foi a minha vez de sorrir com pena. Tristeza por todos nós, porque sabia que os sonhos, eram só dela e não meus ou dos filhos. Nossa vida estava aqui, nessa cidade pequena, com amigos de infância e família por perto. Com meu trabalho, sempre consegui que não faltasse nada, menos no ano passado, é claro. Nunca tivemos luxo ou dinheiro sobrando, mas na mesa colocava o que precisávamos.
Não deixo de compreender Arlinda. Casamos muito jovens, ela quase quinze anos a menos que eu. Logo tivemos Néli e ela ainda queria estudar fora, conhecer pessoas e crescer na vida. Eu a convenci que daria tudo o que queria e ainda mais. Estava apaixonado e tinha medo de perdê-la para seus desejos. Não adiantou. Perdi de qualquer forma.
Sei que ela vai voltar, mas já estarei amargurado e desconfiado o suficiente para ser o mesmo homem. Nem vou dizer que torço para que realize o que quer. Porque o que espero mesmo é que ela se decepcione e apareça aqui pedindo colo.
Nossos filhos sentem sua falta, e Néli que sempre possuiu a saúde frágil, vive tendo desmaios e fraqueza no corpo. Marquei médico para ela mais uma vez. Agarrada com a mãe, que só vendo. Falou outro dia que queria morar com ela. Ah, filha. Deixo não. Sua mãe não posso segurar, mas você fica comigo. Olhou-me com raiva. Virei as costas e saí. Desculpe minha Néli, mas você se parece tanto com Arlinda quando a conheci… Não vou conseguir ficar longe de sua mãe duas vezes. Olhando para você, é como se um pedaço dela ainda estivesse aqui. E depois, sei que vai se arrepender. Qualquer dia desses ela entra por essa porta e pede desculpas. Então vou levá-la para dentro e cumprir todas as promessas que não pude.
Por candida, em 12-08-2010 - 0h17
Cândida Albernaz 2-8-2010
Esperava em vão que o telefone chamasse. Não o ouviria mais. Sabia que acabara e era melhor assim. Não sentia dor ou angústia, apenas constatava o fato de que não eram necessárias despedidas ou explicações.
Encheu a banheira com água morna e despejou um pouco de sabão líquido. Sentia um perfume suave.
Entrou, sentou e em seguida mergulhou. A espuma formada cobriu-a por inteiro
A música que colocara era lenta, mas não melancólica. Fechou os olhos enquanto se tocava, buscando sentir o corpo. A mente deixara de pensar no cotidiano, concentrando-se na sensação que provocava. Conhecia cada centímetro de sua pele e o gosto de si mesma.
Pena não poder ficar ali por muito mais tempo. O dia seguinte seria de trabalho intenso. Carecia dormir.
Sentiu-se relaxada quando deitou e cobriu-se com o lençol.
Vivera sem alguém na rotina do dia a dia por muitos anos, até que numa noite qualquer, de um lugar qualquer, Artur apareceu e foi se metendo em sua vida, sem cerimônia alguma.
Talvez por isso tenha conseguido chegar tão perto de onde outros tentaram sem sucesso. O jeito simples e arrogante não deixou espaço para que criasse a distância habitual.
Quando deu por si, iam aos lugares juntos, rindo das mesmas coisas, enxergando com os mesmos olhos.
Só não permitiu quando ele tentou mudar-se para sua casa. Não suportaria dividir a privacidade conquistada, com outra pessoa. Ansiava por solidão de vez em quando. Principalmente não estar sob olhares diários, o que com certeza, com o tempo, viriam tomar satisfações por hábitos adquiridos ou atitudes tomadas.
Ele ainda insistiu algumas vezes, mas depois se conformou. No início falava em filhos, estabilidade, dizia ser um sonho formar a própria família. Sonho dele, não dela.
Ultimamente, começaram com desentendimentos por tudo e coisa nenhuma. Brigou com um colega de trabalho e discutiram quando contou o motivo e ela não lhe deu razão.
Quis viajar num momento em que ela não poderia se ausentar da firma, mas não entendeu. Pediu a ele que fosse, já que queria tanto. Não o fez e ainda ficou insinuando de como poderia ter sido bom, mas por culpa dela…
Enfim, o relacionamento não estava como antes. Costumavam se divertir, o que não ocorria mais.
Conversaram há dois dias e ele pediu um tempo para reorganizar a vida. Concordou na hora. Também necessitava refletir sobre como gostaria de estar vivendo.
Pensou que talvez fosse melhor assim. Se o telefone viesse a tocar outro dia, resolveu que não atenderia. Precisava estar consigo mesma. Queria sua solidão de paz outra vez.
Quem sabe em outra noite qualquer, em um lugar qualquer, com uma pessoa qualquer, voltasse a imaginar estar junto com alguém mais uma vez.
A única coisa que queria agora era a própria companhia, o que sabia ser o bastante.
Virou-se e ajeitou melhor o corpo entre os lençóis. O sono estava chegando.
Por candida, em 07-08-2010 - 1h40
Ontem a entrevista com a escritora chilena Isabel Allende que teve como mediador Humberto Werneck foi mesclada com assuntos particulares de sua vida como o fato de não ter conhecido seu pai, que saiu de casa quando ela tinha ainda três anos e só voltou a vê-lo já morto. Foi chamada para fazer um reconhecimento do corpo, e pensando ser seu irmão, dirigiu-se para o local com seu padrasto. Lá chegando afirmou desconhecer o corpo do homem sem vida, e o padrasto então falou ser aquele seu pai.
Disse ainda manter uma troca de cartas quase diária com sua mãe que hoje está com noventa e seis anos. Perguntada se haveria a possibilidade de publicar esses escritos, respondeu que apesar de ter tudo guardado e catalogado por datas, não se sentia a vontade para tanto, pois ali está muito de sua intimidade e dos seus.
Divertiu a todos com comentários sobre a forma como conheceu seu marido e como é o convívio de uma chilena com um americano. “É muito difícil estar casado comigo. Primeiro porque sou muito mandona. E sou muito forte”. Seduziu a platéia com um jeito simples e garantiu boas risadas quando afirmou que o ponto G da mulher fica no ouvido. Explicou em seguida, que foi através das conversas e histórias contadas pelo marido que se apaixonou por ele.
Falou sobre sua forma de criação, o medo e insegurança que tem a cada vez que começa a escrever um livro.
Disse ainda que sempre que inicia, pensa que está escrevendo algo ruim, sem valor, e que assim vai adquirindo aos poucos a confiança necessária para ter um bom resultado.
Trabalha em seus textos por 14 horas seguidas e que a melhor forma de conseguir sucesso é persistência, esforço e disciplina.
Seu último livro “A ilha sobre o mar” é passado no século XVIII, onde hoje é o Haiti, e fala sobre escravidão, romance e prazeres. Como a maioria de seus livros, ao começar a ler, o leitor não conseguirá parar até que chegue a última página.
Cândida Albernaz 6-8-2010
Por candida, em 31-07-2010 - 15h12
Por candida, em 28-07-2010 - 22h47
Cândida Albernaz
Aquela pequena capela, com bancos de madeira resistentes ao tempo ficava em meio a árvores e o que um dia foi um gramado. Hoje capim por cortar.
A casa um pouco distante, com pedaços de reboco caindo da varanda onde tantas vezes sentara para conversar com amigos ou simplesmente pensar.
Naquela época, pensar não doía como agora. Acreditava ter a vida à sua disposição. O tempo fez questão de mostrar que ela sim, disporia dele como bem entendesse.
Os pais morreram quando tinha vinte e seis anos. Um acidente na estrada, quando um cavalo atravessou na frente deles sem que houvesse tempo para desviar.
Herdou aquela fazenda e alguns outros bens na cidade. Gostava da terra, dos bichos e hoje da solidão.
Estava noivo na época e com planos para casar. Desistiu. Resolveu fazer uma viagem que duraria um mês, mas levou um ano para voltar.
A noiva se magoou com ele que não fez questão de dar maiores explicações.
Quando voltou, ela estava de casamento marcado com um de seus amigos. Foi à cerimônia e com olhos sem amor, viu os dela fixarem-se nele durante todo o caminho até o altar. Resolveu que não iria à recepção.
Os imóveis que possuía na cidade, rendiam mais do que o suficiente para que pudesse tocar a fazenda com calma, levando-a a crescer e produzir. Os pastos a cada ano viam aumentar o gado.
Conheceu Liliana em uma de suas idas a cidade. Freqüentava os bares e festas que haviam por lá.
Em menos de um ano estava casado e na espera do primeiro filho. Não era homem de grandes paixões, costumava dizer. Programava seu dia, semana ou ano e seguia em frente.
Os amigos continuavam a frequentar sua casa, inclusive a ex noiva com o marido. Gostava de realizar pequenas festas que durava toda a noite. Numa delas eles chegaram com um casal de amigos. Foram ficando, ficando e já amanhecia quando se despediram. A garota era bem mais jovem do que ele, dançava de forma insinuante, provocando a maioria dos olhares masculinos.
Com a desculpa de mostrar a ela um potro que havia nascido, sumiram os dois por algum tempo. Depois desse dia, encontravam-se sempre que possível.
Quando contou que estava grávida, pediu que ele largasse a mulher e ficasse com ela. Riu de sua pretensão e questionou o fato de ser ele o pai. Como ter certeza?
Não esperava o que viria a seguir. Ela contou ao marido sobre os dois, que foi tirar satisfação com ele em sua casa. Mulher e filho presentes ouvindo o que não deviam. Ainda tentou se explicar, mas não deu em nada.
Mais tarde, ficou provado que a criança era do marido. Os dois se acertaram e criam a filha juntos.
Com ele foi diferente. Liliana saiu de casa levando o filho que passou a ver de vez em quando.
Não acreditou sentir tanta falta. Saiu da fazenda e foi morar na cidade. A casa ficou abandonada, perdeu o gosto. Continuou com o gado, mas passou a ir apenas quando necessário. Mesmo assim, levou anos sem voltar à sede.
Hoje, olhando a casa naquele estado, pensou o quanto havia se enganado sobre si mesmo. Era na verdade um homem de grandes paixões, e por isso a cada dor vivida, fugia de tudo o que o fizesse recordar.
Só não conseguia fugir de si mesmo.
Por candida, em 24-07-2010 - 21h43
“Ao explodir a algaravia da meia-noite, o ano escorreu por seu rosto em seis ou sete lágrimas quentes. Num canto esquerdo e minúsculo daquele mundo repentinamente branco, a piedade lhe chegava em sussurros porosos como areia: “Não chore, não chore…”
Ignoravam que chorar é um fato, não uma opção.”
Marcelo Moutinho.
Por candida, em 24-07-2010 - 21h14
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