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Banco da Rodoviária

Banco da Rodoviária
       Cândida Albernaz
 Na casa a beira da estrada, os tijolos aparecem sem qualquer pintura ou acabamento. A varanda em tom lilás sobressai com uma porta larga de madeira trabalhada em relevos. Herança da patroa que não a queria mais. Ela mesma passara a mão de tinta, o que tornava onde morava um lugar diferente do resto da vizinhança.
 Sempre fora assim, se queria algo, ela mesma fazia. Ainda criança sua mãe saiu de casa levando o irmão caçula. Ela ficou com o pai. Tinha oito anos, e já era uma mocinha, como a mãe cansava de afirmar enquanto arrumava as coisas. O pai não podia ficar sozinho e precisava de alguém que cuidasse dele. Chorava ouvindo a mãe falar, e lembrava-se de como agarrara na barra do vestido vermelho com flores brancas que usava, puxando-a para trás. Não adiantou. A mãe arrastava a perna e ela junto. Quando chegaram à porta, ela retirou sua mão com força e disse que na semana seguinte viria vê-la. Não voltou até hoje. A porta daquela época também não é mais a mesma.
 A vida ao lado do pai não foi das mais fáceis. Crescia e os cabelos crespos e pretos, os olhos puxados e a boca estreita, lembravam cada vez mais sua mãe. E quando queria ofendê-la, falava dessa semelhança com “aquela vagabunda da sua mãe que largou você atrás de um qualquer. A gente logo vê que é filha daquelazinha”.
 Cuidou do pai, das bebedeiras dele, das mulheres que trazia para dentro de casa e que por muitas vezes quiseram ser sua mãe. Demonstravam isso batendo nela, porque precisava ser educada por alguém.
 Há poucos dias recebeu uma carta. Quando viu o remetente, pensou em queimar. Haviam se passado trinta anos. No inicio chorou muito, costumava rezar pedindo que mãe fosse buscá-la. Após alguns anos começou a sentir raiva e pedia sua morte. Com mais idade, convenceu-se de que ela havia morrido e por isso nunca mais voltou. Portanto ela só não procurava a filha, porque morta, não podia.
 Guardou a carta na gaveta da cômoda e agora resolveu abri-la: “Filha, talvez não pense mais em mim, mas não há um dia que deixe de lembrar seu rostinho. Tentei procurá-la outras vezes, mas como morava longe e não sabia escrever direito, desisti. Mudamos para perto. Tenho certeza de que seu pai cuidou bem de você, sempre foi a preferida dele. Seu irmão cresceu forte e hoje está casado e com dois filhos. Meu neto me ajudou a escrever essa carta. Chego na sua cidade em cinco de outubro. Queria ver você. Longe de seu pai, que sei ainda está vivo. Ficarei na rodoviária esperando o dia inteiro. O último ônibus sai às dezoito horas. Estarei no banco do lado direito do terminal. Espero que ainda haja esse banco. Estou velha e cansada. De sua mãe que apesar de ser diferente das outras a ama,beijo.”
 Dia cinco de outubro é hoje. Duas horas da tarde. Ela deve estar lá, sentada esperando.
 Não iria. Para quê? Nem se lembrava de seu rosto. O que também já deve ter mudado muito. A mãe não teria como reconhecê-la. Era uma menina quando a deixou. Às cinco horas resolveu que caminharia até lá. Ficaria de longe observando.
 *                                          *                                           *

 A rodoviária estava cheia. Olhou os bancos e havia várias senhoras e crianças sentadas neles. Procurou o da direita. Uma mulher com ar cansado suava passando a mão nos cabelos enquanto conversava com uma criança. A outra, quieta parecia não ouvir o alvoroço a sua volta. Usava um vestido vermelho com flores brancas que parecia estar apertado demais. Olhava o chão e de vez em quando levantava a cabeça procurando alguém.
 Ficou observando-a tentando enxergar a semelhança que seu pai via nas duas. Não encontrou. Aquela mulher tinha olhos apagados, a pele enrugada e os cabelos brancos. Notou que sua mão tremia ao olhar o relógio. Demonstrava ansiedade. O ônibus chegou e sairia em dez minutos.
 Andou até próximo ao banco e parou. Tentou disfarçar olhando para outros lugares. Ainda não decidira se queria falar com ela. Talvez numa outra ocasião. Tinha o endereço na carta. Quem sabe a procuraria depois.
 As pessoas formavam fila para entrar no ônibus. Procuro-a novamente e não a viu. Será que ela entrou enquanto olhava em volta?
 A mão em seu ombro fez com que sentisse um sobressalto “não deixaria nunca de reconhecer seus olhos. Você mudou, mas eles continuam com a mesma expressão do dia em que fui”.
Olhou aquela senhora e não sabia dizer o que sentia.
“Não fale nada agora, minha filha. O ônibus vai sair. Volto amanhã e espero por você no mesmo banco em que estava hoje”.

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3 comments to Banco da Rodoviária

  • OS ASPECTOS SÓCIO-CULTURAIS DA DITA VIDA (HIPER)MODERNA, VEM ACARRETANDO MUDANÇAS DEMOGRÁFICAS, SOCIAIS SIGNIFICATIVAS. MUDARAM O SIGNIFICADO DE FAMÍLIA, OS SENTIMENTOS RELIGIOSOS (A VIDA SECULARIZADA), OS VALORES E VIRTUDES HUMANAS. FOCALIZA-SE A AGREGAÇÃO DE VALORES MATERIAIS, RIQUEZAS, O DESEJO DE SOBRESSAIR-SE SOCIALMENTE. PROCURAMOS MANTER-NOS ETERNAMENE JOVEM, REPRODUTIVOS, COM GRANDES POTENCIALIDADES DE PRODUTIVIDADE SOCIAL. EVITAMOS, A TODO CUSTO, O PROCESSO NATURAL DO ENVELHECIMENTO, O PROCESSO NATURAL DA VIDA.
    O QUE SIGNIFICA VIVER NOS DIAS ATUAIS?
    QUEM NOS TORNAMOS, NA MEDIDA EM QUE AVANÇAMOS NA CRONOLOGIA DA VIDA? O QUE É, OU NÃO, REALMENTE IMPORTANTE PARA CADA UM DE NÓS NA ATUALIDADE? AONDE ENCONTRAR A FELICIDADE DE VIVER? COMO ENCONTRÁ-LA? É NECESSÁRIA NA VIDA (HIPER)MODERNA?
    CERTAMENTE, OPINIÕES SERÃO DIVERGENTES!
    ABRAÇOS,
    SANDRO BICHARA.

  • Paulo Roberto

    Vou terminar o meu curso de doutorado para poder entender qual é a do comentário acima…o cara viajou nas interpretações autóctones sem deter-se em momento específico do conto ,por sinal, excelente.Saiu em queramaltices e esqueceu-se de que a questão em si em nada converge para o tema por ele abordado.Parece mais uma redação de vestibular e não uma crítica sistêmica do ora posto.

  • Fernanda Xavier Esccudine Ferreira

    Recomeço
    Gostei muito desse texto,pois nos ensina a não julgar os outros.A mãe foi abandonada pelo pai e ela disse que a outra era vagabundinha e tempos depois a filha se viu na mesma situação,mas filha achou que ela não era vagabundinha.

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