Cândida Albernaz
O sol forte provocava uma claridade que quase ofuscava. As folhas das árvores permaneciam paradas. Vento, nem pensar.
Ela parecia não ver ou sentir esse calor. Sentada sob a pequena árvore, olhava o asfalto que beirava a estrada.
Um caminhão acabara de parar e o motorista fazia sinal para que subisse. Ouvia o que ele dizia, mas não o olhava. Depois de insistir por algum tempo, desistiu. Foi embora gritando palavrões. Não se sentia ofendida. Era o terceiro que parava chamando-a. Pensavam que era uma dessas garotas de estrada.
Sentara ali por acaso. Cansara de caminhar.
Saiu de casa vestida como estava. Usava um short jeans e uma camiseta laranja. Os papéis que antes tinha nas mãos, agora estavam espalhados à sua volta.
Andara um bocado, só agora percebia. A roupa ainda estava úmida, mas o cabelo quase seco.
Colocou a cabeça entre os joelhos e começou a chorar. Não teria como apagar tudo o que aconteceu. Foi feito. Não fazia idéia de quanto tempo estava ali.
Tinha que voltar.
Outro carro diminuiu a marcha e quase parou. Levantou-se e deu as costas começando o caminho de volta. Sabia o que a esperava, mas nunca fora mulher de fugir de suas responsabilidades.
A casa para onde se dirigia era grande, com uma enorme varanda onde o vento parecia brincar. Duas redes ocupavam espaço de destaque. Costumava se deitar ali à noite, com a filha ao lado para que dormisse. Contava histórias inventadas na hora que a menina adorava ouvir.
A patroa sempre a tratou bem, o marido dela, nem tanto. Era um homem ríspido, acostumado a dar ordens. Procurava obedecê-lo e evitá-lo.
Quando foi morar na fazenda, sua filha estava com dois anos. Ia fazer seis no próximo mês. Estava sozinha e precisava alimentá-la. O pai, um caminhoneiro com família em outro estado, o que veio a descobrir depois, sumiu quando soube da gravidez. A cidade pequena em que vivia, pareceu ficar menor ainda. Não a queriam. Seu pai, principalmente. Costumava repetir que ela não era mais sua filha, que o matara de vergonha, que sumisse dali com aquela bastardinha.
Dona Ana ofereceu o emprego de faz-quase-tudo-o que-for-preciso e ela aceitou. Disse que a menina não seria problema, porque espaço era o que não faltava.
Agora teria que olhar a patroa de frente. Ela já devia ter encontrado o marido no chão da cozinha.
Pela manhã, estava arrumando o quarto dos dois, quando um barulho oco, na gaveta de cabeceira do patrão chamou sua atenção.
Todos os dias catava o que encontrava espalhado e guardava dentro dos armários e gavetas.
Ficou curiosa com o barulho e forçou o pequeno fundo. Escorregaram dali uns papéis que se apressou em pegar para colocar de volta. Eram fotografias. Nelas, viu sua filha… e aquele homem. Em algumas, não vestia nada e fazia pose de mulher adulta. Em outras ele e ela juntos. Homem e mulher. Sua menininha com o rosto assustado e triste. Soltou um gemido e foi até a cozinha. Ele estava sentado tomando o café que preparara mais cedo.
O facão em cima da pia. As costas voltadas para ela. A força que não imaginava ter. Não se recorda quantas vezes repetiu o movimento.
Quando saiu ele estava caído no chão. Foi até o banheiro e entrou no chuveiro. Sangue escorria de sua roupa, fazendo com que a cerâmica branca ficasse vermelha.
Voltou ao quarto, pegou as fotos e saiu andando. Lembrou-se que as deixou espalhadas na beira da estrada.
Sua garota chegaria mais tarde. A patroa foi levá-la para a escola.
Precisava trocar de roupa e ir até ela. Antes que viessem buscá-la. Tinha que olhar nos olhos da filha, fazê-la entender que acabou.
















PEDOFILIA. PERVERSÃO SEXUAL. TRANSTORNO DA SAÚDE MENTAL ADULTA [PERCEPÇÃO DISTORCIDA DA REALIDADE], USO DE DROGAS ILÍCITAS E CONDIÇÕES EXISTENCIAIS PRECÁRIAS SÃO EXPRESSADAS POR ESTUDIOSOS COMO SENDO AS CAUSAS MAIS COMUNS. O ADULTO DO SEXO MASCULINO COSTUMA SER O MAIOR INFRATOR. PEDOFILIA É CRIME. DEVE COMBATIDO E DENUNCIADO SEMPRE. PROTEGER A CRIANÇA É UM DEVER SOCIAL. A SOCIEDADE NÃO TOLERA ESTE COMPORTAMENTO. REAÇÕES VIOLENTAS CONTRA O INFRATOR NÃO SÃO RARAS. O CONTO PARECE ESTIMULAR ESSES PENSAMENTOS E ATITUDES. NOSSAS BOAS VINDAS E PARABÉNS A NOVA REDATORA. AGREGANDO NOVOS VALORES À FM.
CORDIALMENTE,
SANDRO BICHARA.
Parabéns, pelas narrativas um misto de Clarice Lispector a quem amo demais e um “puxadinho” para Martha Medeiros admiráveis .
Abraço
adoro ler seus contos. e adorei a ideia do blog…
parabéns.
bjssss valéria hissa
Obrigada pelo exagero de Clarice Lispector, de quem já li quase tudo porque também amo e admiro a ousadia de se mostrar em muito do que escreveu. Abraço.
Obrigada, Valéria. Beijos.