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Mesa de bilhar

 

                O dia hoje estava mais quente do que de costume.

                O suor escorria da testa para o pescoço e daí para dentro do seu uniforme verde, que a mulher não tivera tempo de lavar.

                Há uma semana a filha mais velha mantinha uma tosse que não parava. Não dormia nem deixava que os outros dormissem.

                A casa pequena com dois quartos, banheiro e cozinha, mal acomodava sua família  e a do irmão.

                Quando Antônio escreveu avisando que vinha com a mulher e um casal de filhos, para a cidade, tentou dizer que não seria fácil. Preferiu vir assim mesmo. Explicou que a fábrica de alumínio onde trabalhava fechou, muitos ficaram desempregados, inclusive ele. Há quase um ano viviam com o salário de manicure da mulher. Não suportava mais.

                Já morava ali, e resolveu acomodar o irmão que agora trabalhava como vigia numa construção e podia dividir com ele o aluguel.

                De manhã, notou que sua mulher estava com os olhos inchados de cansaço por não dormir. Levara a filha ao posto de saúde, fora medicada, mas não via melhora.

                Tinham duas meninas que eram sua paixão. Aos domigos costumavam sair os quatro. Pegavam um ônibus e desciam na praça onde havia alguns brinquedos e podiam brincar sem que precisasse pagar por eles. Elas riam e sempre achavam alguma novidade para mostrar. Ou algum pássaro que viam, ou uma nova maneira de empurrar o balanço, ou ainda como corriam rápido.

                Na saída, comprava um saco de pipoca para cada uma e voltavam para casa. Encontrava o irmão acordando. Esperava que se ajeitasse e saíam os dois para uma pelada, antes de sentar no bar que ficava no próximo quarteirão. Ali havia uma mesa de bilhar disputadíssima pelos homens da região. E algumas garotas também. A mulher reclamou com ele qundo soube que umas e outras iam ali. Não deu conversa, era homem e precisava se distrair. Trabalhava pesado como pedreiro a semana inteira.

                No último domingo apareceram uns caras diferentes para jogar. Não moravam na área e ninguém os conhecia. Eram bons e ganharam de todos. Levaram o dinheiro e ainda olharam feio para Oswaldo que havia bebido todas, como sempre, e chamou os tais de ladrões. Os dois não gostaram mas foram embora rindo, esfregando o bolso da calça, onde haviam guardado a grana que ganharam.

                Preferia que não voltassem, mas estavam ali há meia hora, quando chegaram com mais um amigo. Foram em direção de Oswaldo e um deles perguntou se não queria uma revanche. O amigo que emendara a bebedeira do dia anterior, aceitou na hora e ainda disse que esses filhos da puta agora vão ver o que é jogar. Semana passada me pegaram desprevenido. Chamou o companheiro que estava com ele que se negou dizendo  sentir cheiro de confusão. A palavra certa para Antônio se achar estimulado. Topou fazer uma dupla com Oswaldo.

                Ficou olhando para o irmão mas não disse nada. Antônio sempre gostou de uma disputa. E de confusão também.

                Quando chegou a vez deles, as coisas pareciam tranquilas. Até que começaram a perder. Oswaldo que mal se aguentava, foi ficando irritado. Disse que estavam  trapaceando, que mexeram na bola quando virou-se para pegar cerveja. Que não era bobo e não ia deixar dois ladrões de merda fazerem-no de trouxa.

                O terceiro que viera hoje pela primeira vez, abraçou Oswaldo e disse que precisava de mais uma, aquilo era só um jogo.

                Continuou observando o irmão que ria, como se não estivesse percebendo o clima em volta. Sabia o que isso queria dizer. Aquele risinho prendendo os lábios significava que sua paciência estava a zero

                A partida terminava quando seu parceiro resolveu enfiar o dedo na cara de um deles e dizer que não pagaria aposta nenhuma porque não era idiota.

                Foi imediato. Oswaldo recebeu um soco e um filete de sangue começou a escorrer da sobrancelha. Foi a deixa para que o bar inteiro entrasse na briga.

                Tentou falar alguma coisa, mas a cadeira que recebeu nas costas fez com que mudasse de idéia.

                O barulho que ouviram foi seguido de silêncio geral.

                Seu irmão estava no chão. Os três caras, apontando uma arma, foram até o caixa, pegaram tudo o que encontraram e saíram nas motos estacionadas na rua.

                Na barriga de Antônio podia-se ver a mancha vermelha que aumentava rapidamente.

                Alguém ligou e chamou uma ambulância.

                E aí, meu irmão? Os médicos já estão chegando.

                Se preocupa não, estou bem. Só queria que avisasse a mulher que não faço mais isso. Tinha prometido a ela, mas sabe como é, não fujo de briga e nem posso ver uma.

                Está tudo bem.

                Eu sei, eu sei.

                A cabeça de Antônio, que se apoiava em seu colo, foi ficando mole, até que pendeu para um lado.

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2 comments to Mesa de bilhar

  • Antenor de Oliveira Gonçalves

    A senhora escreve muito bem ! As reportagens dos jornais deveriam ser assim teriam mais emoção do que só notas frias onde todas terminam dizendo que o caso foi registrado na 146ª delegacia de tal e tal.Excelente conto da vida dos subúrbios das grandes cidades apodrecidas . Parabéns!

  • candida

    Antenor, as reportagens dos jornais precisam ser escritas sem emoção, apenas narrando o fato, mas despertariam mais o interesse do leitor se fossem escritas de outra forma, o que conforme
    disse antes não é possível. Mas como não escrevo reportagens e sim contos, obrigada por sua leitura e opinião. Escrever sobre o subúrbio e pessoas que vivem ali,mostrar o que elas passam, a forma como vivem, é o que gosto de fazer.Espero conseguir.
    Abraços.

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