Para sempre
Cândida Albernaz
As fotos estavam espalhadas pela mesa. A risada solta em algumas delas, fez com que risse também. Passou os dedos sobre uma e outra. Na verdade, o que queria era sentir o contato da pele e o aperto do abraço.
O resultado do exame saiu há uma semana. Foi comprovado. E então¿ Continuou com a mesma sensação de vazio. Não mudava o que sentia.
Há vinte anos casara e permanecera assim por quatro. A mesma idade que a filha tinha quando decidiu sair de casa.
A mulher fora clara com ele. Não o amava e a filha que cuidara poderia ser ou não sua. A sensação que teve foi de morte. O corpo parecia perder o sustento e pensou que fosse cair. Não sabe quanto tempo permaneceu parado, e quando notou, a mulher não estava mais ali. Foi até o quarto da menina que ainda dormia. Sempre achou que se pareciam. Os lábios finos, o corpo comprido e a cor dos cabelos. Como os seus quando era criança.
Colocou algumas roupas dentro de uma bolsa e foi para a casa dos pais. A menina apareceu lá alguns dias depois e abraçaram-se com força. Ela pediu que voltasse, não podia. A mulher o olhava enquanto os dois conversavam. Mal conseguia ficar no mesmo ambiente que ela. Pediu que fosse embora e deixasse a filha com ele, mais tarde a levaria para casa. Não. A garota tinha escola, quem sabe amanhã.
Separaram-se e passou a ver a filha em finais de semana alternados.
O homem com quem sua ex-mulher casou-se decidiu morar em Miami. Tinha negócios lá e precisava estar por perto. Com uma autorização judicial levaram a menina com eles.
Via a filha uma ou duas vezes por ano durante os cinco que ficaram fora.
O cara quebrou, e resolveram voltar. Decidiu procurar a ex-mulher e perguntar quem era o pai da menina. Quem mais além dele…
Ela afirmou que poderia ser o atual marido, vizinho do casal na época. Sempre mantivera aquele relacionamento.
Pediu para ver a filha. Chegaria mais tarde. Avisou a mulher que faria um exame de DNA. Riu dele. Para quê¿ Não gostava da garota¿ Não deu explicação, apenas queria.
Voltou a vê-la sempre. Costumavam sair juntos, brincar e conversar. Adiou a decisão.
A foto que tinha nas mãos trouxe uma tarde em que saíram com uma amiga dela. Depois do cinema andaram até a praça em frente onde havia um pequeno lago e ele subiu no parapeito que o margeava chamando as duas. Ela olhou de um lado para o outro pedindo que descesse, pois chamariam sua atenção. Andou ali em cima e insistiu para que subissem. As duas resolveram segui-lo. Como num trenzinho, um com as mãos na cintura do outro, deram a volta rindo.
Quando o segurança se aproximou, correram como crianças. Chamou-o de pai louco, era o único que conhecia que fazia brincadeiras daquele tipo, os de seus amigos eram sérios.
Alguns dias depois quando almoçava num restaurante, os três juntos entraram. A filha veio falar com ele. Dali em diante, não conseguiu comer mais nada.
Os olhos dela eram redondos como os daquele homem¿ Pareceu que ela movimentava as mãos enquanto falava da mesma forma que ele¿ E o sorriso¿ Achava que a boca era como a sua. Mas a risada…
Avisou que queria o exame. Todo o procedimento necessário foi feito. Na última vez em que se encontraram a garota chorou e ele também. Pediu que desistisse, não era capaz. Estava sem dormir direito, vivendo pela metade. Ela não entendeu e deixou de querer vê-lo.
O resultado saiu há três meses. Muito mais do que isso não via a filha que agora morava numa outra cidade com a mãe e aquele sujeito.
Ligou para ela e tentou dizer que precisava encontrá-la. Antes que terminasse de falar, ouviu o sinal do telefone sendo desligado.
Escreveu e recebeu a carta de volta, intacta.
Foi até lá, não estava e não voltaria nos próximos dias. Viajou com os avós.
Pegou mais uma vez o papel onde estava impresso o resultado.
Não era sua filha.
Seria sua filha para sempre.
















Faço questão de “visitar” seu blog toda semana. Como sempre vc tem talento demais.No caso do conto acima, vc conseguiu retratar
a experiênia de algumas familias que atendo como profissional na área juridica e,confesso, não teria o talento para passar o sentimento que vc nos brindou com sua bela narrativa. s
PERGUNTO: ONDE ESTAVA ESSA TALENTOSA CÃNDIDA ALBERNAZ, QUE NOS PRIVOU ESSE TEMPO TODO DO SEU TALENTO?????
Obrigada por sua leitura e comentários.Espero que continue achando que meus contos têm sentimentos, porque é exatamente isso que tento passar.
Abraços.
É sempre bom ler seus contos. Sua sensibilidade e criatividade nos alimentam. Continue assim amiga. Beijos carinhosos 1000 para vc.
Já passei por isso e você contou muito bem. Incrível como a vida dagente de repente se projeta em tantas outras vidas e vira um conto mesmo sem nem conhecermos a autora. Deus deu a você um grande dom.