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Um sorriso na memória

                                                        Cândida Albernaz
         A cadeira de balanço se movia lentamente, para-frente-para-trás-para-frente-para-trás.
         Do rádio antigo, que ainda funcionava e que ela dizia ser o melhor som que conhecia, saia uma melodia suave.
         Costumava sentar-se ali por horas, e quando a música não a agradava, girava o botão procurando algo que a interessasse. Na verdade, nem sempre escutava o que diziam, porque seus pensamentos fugiam para um tempo onde todos estavam ao seu lado.
         Por vezes, uma lágrima escorria de seus olhos, mas apressadamente procurava um sorriso na memória que a deixava tranquila.
         Gostava de música e poesia, o que para ela era quase a mesma coisa.
         Quando jovem escrevia suas bobagens, como costumava dizer, a lápis num caderno que até hoje guarda como relíquia. Os netos sempre gostaram que lesse para eles o que escrevera. Poemas e relatos de sua vida.
         O marido, um homem nada romântico, reclamava de sua perda de tempo. Em vez de rabiscar tolices neste papel, poderia procurar algo útil para fazer. O que significava arrumar a cozinha, varrer o que já estava limpo, ou passar o colarinho perfeitamente já passado de alguma camisa.
         Ele tinha um gênio difícil, era exigente e falava alto, o que sempre a incomodou.
         Ela ao contrário, não levantava a voz para nada. Falava baixo e pausado, mas jamais algum filho ou neto arriscou-se desobedecê-la.
         Não era uma mulher frágil, nem tinha o hábito de reclamar da vida. Enfrentou a autoridade do pai quando menina e depois o temperamento forte do marido.
         Quando este se foi, todos acharam que ela iria em seguida, porque vivia para ele. Quinze anos se passaram. E ela estava ali, com a certeza de viver mais um tanto igual.
         Só quando perdeu um de seus meninos, achou que não aguentaria. Uma pneumonia o levou. Era rapaz ainda e não conseguiu protegê-lo. Sentiu-se culpada, apesar de todos repetirem que ele sempre teve a saúde fraca. Desde que nasceu, adoecia com frequencia. Fez o que podia, mas dentro dela sentia que não o suficiente.  Chovia muito naquela semana e a temperatura caiu. Por mais que o agasalhasse, o ar estava úmido e quando menos esperava, ele aparecia vestindo bermuda e descalço. Dizia não estar com frio. Os jovens sempre pensam saber tudo.
         Foi uma época difícil em que chorava escondido e pensou ir junto. Mas os outros filhos ainda precisavam dela. Acabou acostumando-se com uma falta que nada substituiria.
         Um dos netos acabou de chegar e trouxe, para que lesse, uma nova poesia feita por ele. Este era o que mais se parecia com o filho que perdera. Sabia que sua opinião não mudaria o que estava escrito, mas opinava assim mesmo. A melhor parte era quando ele pedia que sentasse no sofá, para deitar a cabeça em seu colo e ela podia ficar quieta mexendo em seus cabelos. Ficavam um bom tempo assim. Algumas vezes ele dormia e ela pensava que seu menino estava ali de alguma forma.
         Morava com uma das filhas casada. Já não tinha a saude e a idade de antes e necessitava de cuidados. Antes de deitar, ela passava em seu quarto para ver se precisava de algo ou se tinha tomado os remédios. Então tranquila, vendo que estava tudo bem com a mãe, apagava a luz e ia dormir.
         Sempre esperava um pouco e só então se levantava. Voltava à sala e sentava-se na cadeira de balanço. O caderno de poesias no colo e a lupa pequena em uma das mãos.
         Lia e relembrava-se. Esperava o sono chegar, o que poderia levar muito tempo.
         A cadeira se movia para-frente-para-trás-para-frente-para-trás.

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