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É só dar um jeito

É só dar um jeito

                                                                              Cândida Albernaz

         -Droga de vida!

         Eu resmungava enquanto andava em direção a casa.

         Seu Donato resolveu implicar comigo, logo agora que estava me saindo bem no trabalho.

         Fazia algum tempo queria ficar no lugar de Edmundo, que era balconista da loja de ferragens onde eu trabalhava como entregador. Tinha uma bicicleta onde cabia tudo. Havia encomenda para entregar do outro lado da cidade? Eu ia. Estava chovendo muito? Eu também ia. Precisavam de qualquer peça na hora do almoço? Sem problemas, completava a entrega e almoçava depois.

         Quando Edmundo pediu demissão, conversei com seu Donato, o gerente da loja, e ele me colocou na venda. Era mais tranquilo e com a comissão ganharia melhor.

         O problema era que o homem de uma hora para a outra resolveu não gostar do meu serviço. Já estava no balcão há três meses e da última vez fiquei em segundo lugar na venda.

         Há quatro semanas, a mulher de seu Donato deu para aparecer na loja todo dia. A gente via os dois cochichando e discutindo. Numa dessas vezes, ela saiu resmungando e quando passei, roçou o corpo no meu e sorriu. Ri para ela também que não sou de ferro. A Selma é gostosa, com o corpo cheio e o cabelo preto e liso que cai até a bunda. O marido, um ancião perto dela. Daí para frente ele não me deu sossego. Tudo o que faço está errado.

         Hoje em particular, me atazanou mais que de costume: reclamou da forma que falei com o cliente, disse que não arrumei a prateleira direito e que a seção pela qual sou responsável estava imunda.

         O patrão gosta do meu trabalho, mas o gerente é quem manda e fala o que quer.

         Ele não entendeu que não quero nada com a Selma, que ela pode se esfregar em mim ou me olhar com insistência, como tem feito ultimamente que eu não gosto de confusão. Mas se esse velho me fizer perder o emprego, a primeira coisa que faço é pegar a mulher dele.

         No caminho para casa encontrei com Edmundo.

         -E ai? Soube que ficou no meu lugar.

         -É. Queria muito uma oportunidade e estou me saindo bem.

         -Não me parece muito animado.

         -Cansado, só isso.

         -Seu Donato já começou a “pegar no seu pé”?

         -Por que pergunta? Fez isso com você também?

         -Claro, por isso caí fora. A danada da mulher dele vivia me cantando. Saí com ela algumas vezes. Ele descobriu e me ameaçou com um facão.

         -Descobriu?

         -Ele parece velho, mas tem força e com raiva então…

         -Você também foi se engraçar com a mulher dele!

         -Posso garantir: vale a pena.

         -Deixa dessa conversa que quero manter meu emprego. Tenho mulher e dois filhos para sustentar.

         -Está bem, está bem. Depois a gente se fala.

*                          *                          *

         Estava difícil aguentar. Foram seis meses trabalhando sob perseguição cerrada. De seu Donato e da mulher dele. Ela nem disfarçava. Parecia que a qualquer momento ele ia ter um troço dentro da loja.

         O homem pode ser forte como falou Edmundo, mas com a mulher é um idiota. Por mais que briguem, ela não deixa de fazer o que quer.

         Há duas semanas não aparece. O ambiente ficou mais calmo e ele me deu sossego.

         O Edmundo tinha razão. Deixei de lutar. Selma vale a pena mesmo. Que mulher! Só proibi que fosse à loja. Preciso de tranquilidade para trabalhar.

Exibida!

                                                                                       Exibida!

                                                                                                                                       Cândida Albernaz

Olha para a frente! Nunca presta atenção por onde anda. Estou cansada sabia? Cansada de tentar fazer com que seja mais atenta, responsável e direita. Faz tudo para me irritar. Pensa que não percebo? Só porque não consegue ninguém, enquanto eu nunca deixei de ter um homem ao meu lado. Homem mesmo.Acredita que não vejo como olha para ele? Vamos voltar a morar juntos, não adianta dar xiliques. Agora encontrei alguém que me ama de verdade. Você fica criando historinhas para atormentar minha vida. Entendo qual o problema,  quer que eu esteja à sua disposição e de  sua irmã, Cássia. Está com treze anos, esqueceu? Passou da hora de ajudar em casa. Estou enjoada. Quando seu pai soube que eu estava grávida, foi embora. Não te queria. Avisou que você seria um problema na vida dele. Sua a culpa. E não faz essa cara de quem vai chorar. Toda vez que toco nesse assunto, vem com manha. Quer começar cedo, não é? Assanhada!Sempre foi assim, desde novinha. E esse peito que não para de crescer? Puxou a quem? A mim é que não foi.. Os meus são pequenos e durinhos apesar da gravidez. Exibida! Botou corpo cedo só para chamar a atenção dos meus namorados. Ficou de olho no Nelson que eu vi. Quando ele chega perto, abaixa a cabeça como se fosse tímida. Que nada. Notei quando olhava para ele com raiva no outro dia. E não adianta inventar que ele tentou te agarrar de novo. Não caio nessa. Fica expondo esse corpo exagerado, só para se mostrar. Sei muito bem o que passa na sua cabeça. Já tive essa idade. Também gostava de me insinuar para os caras. Mas nunca fui fingida. Assumia o que queria e pronto. Falavam de mim, e daí? Todos com inveja, porque os mais lindos estiveram na minha mão. E você é igualzinha a eles, morre de vontade de ser como eu e não assume. Já avisei. Se der em cima do Nelson de novo, te coloco para fora de casa. E ganha uma surra como brinde, porque eu não sou mulher de aceitar que filha minha roube meu homem. Teve coragem de inventar que tentou te agarrar. Se ele, tendo uma mulher como eu, precisaria de uma franga igual a você. E ainda envolveu a irmã. Obrigou a bobinha a confirmar sua história. Por sinal, muito mal contada. Nelson ia entrar no banheiro enquanto você tomava banho… Não fechou a porta porque estava com defeito… Até imagino a cena. Em vez de encostar, escancarou de propósito. Queria que ele visse a princesinha nua. Ele nunca entraria ali se você não deixasse. E Cássia, que obedece tudo o que a senhorita manda, disse que o tio tentava abraçar você embaixo do chuveiro. Se ele te pegasse, o que sei que não aconteceu, você ia gemer e não gritar sua sem vergonha. Briguei com meu amor. Arrumou a mala e foi embora. Mas estou avisando que ele vai voltar e quero você muito comportada. Quer alguém? Vai procurar na rua. Deixa o que é meu sossegado. E a saia que está usando, pode jogar no lixo. Acabou a farra de ficar vestindo roupa curta e apertada no corpo. Vou dar tudo! Fecha bem esse botão. Para que tanto peito, meu Deus? Parece que vai explodir dentro dessa blusa. De agora em diante, além de cuidar de sua irmã, vai cozinhar também. Com menos tempo sobrando para pensar bobagem, será melhor para todo mundo. Vai chamar Cássia para tomar banho. Quando acabar, dá comida a ela, que pela hora, já deve estar com fome. Vou fazer minha unha e dar um jeito no cabelo. Quando Nelson chegar, quero estar linda. E que olho cheio de água é esse? Enxuga a cara, que não engana mais ninguém. Minha mãe dizia que eu era disfarçada…Isso porque ela não conheceu a neta. E sai da frente!  23-01-2012

Pedaços

Pedaços

Cândida Albernaz

 

Não queria dizer mais nada. Nos olhos verdes à sua frente via refletido um rosto contraído pela dor. Seu rosto. Não era algo que qualquer medicamento pudesse curar. Necessário o tempo e este às vezes se arrastava.

Sabia que viveria dias lentos onde segundos significariam eternidade. Não seria  a primeira vez. Nem mesmo a segunda. Por isso tinha a certeza de que em algum momento aquele aperto que a sufocava acabaria.

Falara além do indispensável. Semana de monólogo onde tentava afirmar que haveria solução.

Notava no outro a impaciência para que a história entre os dois se finalizasse.

Ele foi retirando seus objetos do apartamento aos poucos. Declarou que estava ajeitando tudo. Enfim conseguiu um lugar para ficar. Um amigo cedeu um quarto na casa dele. A algumas ruas daqui. Estarei por perto se precisar de mim.

Perto? Não queria que ele fosse embora. Mesmo depois de ter visto a mensagem no celular. Ou quando encontrou os dois no restaurante sentados lado a lado. E ainda na noite em que passou horas do lado de fora de um bar, no outro lado da rua esperando que saíssem. Braço na cintura, beijo na boca, na nuca, nos olhos. Só entendeu que a noite estava muito fria no dia seguinte, quando a febre alta e a garganta inflamada fizeram com que ficasse na cama.

Quando se recuperou, pediu que conversassem. Ele discursou sobre ser um alívio poder contar a ela. Não pensava em esconder. Aconteceu. Ninguém domina o que sente. Só carecia de um tempo para organizar tudo. Não se preocupasse, porque deixaria o apartamento para ela. Não possuíam mais nada mesmo. Foi melhor terem decidido esperar para ter filhos, sofreriam menos dessa forma.

Queria gritar e gritou que ele era um safado. Há quanto tempo a enganava? Como pôde fingir amor? Uma mulherzinha. Apostava que tinha conhecido na rua, num lugar qualquer.

Não, fez questão de explicar. Não havia sido assim. Era sobrinha de um amigo. Um pouco mais jovem do que ele, talvez vinte anos. E engravidara. Sem querer. Pensou em tirar, mas ele não podia permitir. Estava preparado para ser pai. Queria esse filho e queria aquela garota.

Recordou que cinco anos atrás, abortara. Combinaram que não era hora. Ele deveria se ausentar do país por dois anos a trabalho, e ela cuidaria de uma criança sozinha? Esperar um pouco mais seria ideal. Não viajou.

Agora seria pai. De um bebê que não era seu, com uma mulher que não era ela. Aquele homem de olhos verdes que não a fitaria com desejo. Nunca mais. Observou que odiava essa palavra tão longa em seu significado.

Foi uma semana permitindo que ele tirasse pedaços de si mesmo do lugar onde viviam.

Rogou que ficasse.  Não teve pudor em insistir. Aceitava a criança. Poderia trazê-la ali o quanto quisesse. A mulher não. Esta, depois que tivesse o filho teria que sair de sua vida. Não era isso o que queria? O que era? Concordaria que ficasse com a tal até que cansasse, porque ia cansar. Não vai acontecer? Como não? Estava agora mesmo provando que enjoara dela. Não devia usar essa palavra? Talvez deixado de gostar. Soava melhor? Claro, como não percebeu antes? Por que fizeram amor há três dias? O que significava para ele? Estiveram na cama tantas vezes e não a amava?

Não havia explicação para tudo, ele falou. Tinha um enorme carinho por ela e não queria magoá-la. Então estava resolvido, se não queria que ficasse ferida, bastava voltar atrás. Largar a mulher com o que ela tinha dentro da barriga. Prometia esquecer. Fingiria que nunca aconteceu. Ficariam bem de novo.

Ele precisava ir. A hora passou e ainda tinha que retirar dinheiro do banco. Miudezas do dia a dia.

E ela ali se rasgando por dentro.

Só uma coisa. Os olhos verdes se voltaram. Conseguiu fixá-los. Repetiu: só uma coisa…

- Quando você sair, deixe a chave na mesa e bata a porta. Preciso ter certeza de que não ficará entreaberta, onde frestas deixem romper pedaços de passado que não me interessarão mais.

Não conseguiu enxergar a cor dos olhos com quem falava.

9/1/2012

 

Uma realidade só sua

    Uma realidade só sua

                                                                                  Cândida Albernaz

         No bar, em volta das mesas, ela dançava como se jovem fosse. Nos olhos a falta de brilho era compensada por movimentos sensuais, buscando no tempo perdido e em devaneios, momentos passados de uma juventude onde soubera ser notada. Os cabelos com tons dourados e brancos pela tintura mal feita, estavam presos em um coque de onde alguns fios se soltavam.

 Michele se sentia importante, não se preocupando com os risos e deboche a sua volta. Naquele momento ela era a atração principal e recebia de bom grado os aplausos e assovios. Agradecendo com as mãos para o alto e soltando beijos esquecia do quarto imundo e escuro onde sobrevivia.

Dos filhos que um dia deve ter tido, nunca mais ouviu falar. Dos netos que talvez tenham sido concebidos jamais tomou conhecimento.

            Sua alegria era real, tirada do imaginário, do sonho que escolhera viver. Não importava. Ela não precisava da realidade, fazia a sua.

            Sentia-se repleta de sedução no corpo enrugado e encurvado pelo tempo.

            Não havia problema não a conhecerem ou reconhecerem pelo passado, onde fora alguém em que o tido como normal era o mais importante. Não se enganassem quanto a ser feliz ou insatisfeita. Sua loucura era escolhida e a completava. Ela hoje era tudo o que precisava.

            Satisfazia-se e na sua mente reinava absoluta por onde passava, isso era o maior bem que possuía.

            Talvez não tivesse sido sempre assim. De vez em quando vinham imagens que não sabia distinguir entre fatos que um dia aconteceram ou apenas um exercício de criatividade.

            Como quando pensa recordar da noite em que o pai entrou no quarto e pediu que o abraçasse. As mãos dele sempre foram afáveis, mas nesse dia exigiu que as apertasse entre suas coxas. Não entendeu muito bem. Talvez ele estivesse com frio, mas aquelas mãos subiram um pouco mais e fizeram com que ela sentisse um arrepio pelo corpo. Tal qual sentia agora. Sua imaginação às vezes ia longe demais.

            Teria sido casada mesmo? Em alguns momentos tinha certeza que sim, quando deitada na cama de uma clínica lhe entregaram um bebê, muito feio e murchinho. De cara, gostou dele. Principalmente quando sugou seu peito com força. Pensou lembrar a emoção que sentia a cada vez que o colocava no colo com o corpo quente contra o seu.

            Onde estaria aquele bebê agora? Será que um dia fora seu realmente? Quem seria aquele jovem que costumava visitá-la e a olhava com compaixão? Talvez o menino que crescera.

            O hospital onde passou boa parte da vida tinha paredes encardidas, que um dia talvez tivessem sido brancas. Esse mesmo rapaz sempre estava por lá. Parece estar vendo agora o dia em que ele chegou com uma caixa de bombons. Adorava bombons. Ficou sentado na sua frente sem falar nada, vendo-a comer todo o chocolate de uma só vez.

            Algumas vezes tinha certeza de que era a mesma criança que amamentara. Seu filho com Amaro. Por que esse nome agora? Não gostava de nomes. Eles davam certeza de existência e preferia não conhecer a sua. Muito menos quando o que sobrara era solidão.

            Quando recebeu alta, esse filho instalou-a em um quarto com banheiro e depois de duas ou três visitas nunca mais o viu.

            Ainda parece ouvir a conversa onde ele disse que se mudaria para outra cidade. Teria sido estado? País?

            Recebeu uma carta… ou quem sabe alguém veio pessoalmente contar sobre o acidente onde o rapaz perdera a vida? Falou não saber de quem se tratava. Afinal nunca tivera família. Sempre fora sozinha nesse mundo tão pequeno que cabia naquele cômodo.

            Desistiram de tentar convencê-la sobre uma possível criança que nascera dela.

            Não conhecia ninguém e queria continuar do mesmo jeito.

            Enrolou o xale bordado nos ombros e recomeçou a dançar. As pessoas a olhavam, riam e faziam comentários.

            Sorriu para eles.

Amor paterno

 

  Amor Paterno

                                                                                  Cândida Albernaz

 

            Desde muito cedo aprendi com meu pai lições para o resto da vida. Trago até hoje, avô de dois meninos, marcas de um aprendizado que me foi imposto.

            Costumávamos ir à praia todos os anos durante as férias de verão. O carro cheio de bolsas, as quais papai arrumava cuidadosamente no porta-malas para que nenhum espaço deixasse de ser aproveitado. Depois de pronto, nada o faria mexer ali. Se esquecêssemos de colocar algo ou precisássemos de alguma coisa que já estava lá dentro, era melhor não tocar no assunto, caso contrário, uma tempestade de insultos cairia sobre nós. Já acomodados, mamãe, eu e duas irmãs só parávamos uma vez para o banheiro. E que não inventássemos nenhuma dor de barriga, porque o tempo era cronometrado.

            Penso que meu pai deveria ter seguido uma carreira no exército onde, tenho certeza, chegaria ao posto máximo.

            Mamãe mal abria a boca quando ele estava por perto. Ela era miúda, com cabelos pretos, lisos, brilhantes e chegavam até a cintura. O marido gostava que eles fossem longos e por isso quase nunca os cortava. Tinha a saúde fraca, o que a fazia ficar de cama por muitos dias.

            Às vezes entrava em seu quarto e ficava espiando enquanto dormia.  Era uma boa mãe quando a saúde permitia. Se estávamos só eu, ela e minhas irmãs, costumava nos contar histórias de uma infância com os irmãos, na fazenda onde moravam. Seus olhos verdes ficavam mais claros quando se sentia alegre e era sempre nesse tom que eles permaneciam quando estávamos com ela brincando.

            Durante as férias, a presença do meu pai era mais marcante, já que estava conosco todo o tempo.

            Na praia, por algumas vezes, cavava um buraco bem fundo e ali me colocava em pé cobrindo todo o corpo com areia, deixando que só a cabeça permanecesse para fora. O pavor me dominava com a pressão no peito, fazendo com que tivesse dificuldade para respirar. E ele ria orgulhoso do seu feito. Eu chorava e ele continuava a rir, não deixando que mamãe com olhar de dor me tirasse dali.

            Outras vezes, íamos ao clube e ficávamos na piscina. Ele me segurava pela cintura, levava até o mais fundo e jogava meu corpo para o alto. Na volta, sempre caía de barriga na água. Mas quando emergia, o sorriso estava no rosto apesar da dor e falta de ar. Este mergulho forçado se repetia muitas vezes. Sabia que tinha medo da água, mas dizia que faria de mim um homem. Tinha quatro anos, então.

            Não costumava se envolver muito com as meninas, afirmava que era obrigação da mãe cuidar e educá-las. Tiveram mais sorte que eu.

            Até mesmo das surras que costumava levar sem que ao menos soubesse o motivo, elas eram poupadas.

            Já mais velho, eu e os amigos tínhamos o cabelo longo. O meu era preto e liso e costumava usá-lo na altura do ombro. Uma tarde chegando a casa depois do trabalho me encontrou assistindo a um programa na televisão. Sem falar nada foi para o quarto. Quando voltou, tinha uma tesoura na mão. Mandou que levantasse e se colocando atrás de mim, antes que pudesse ter qualquer reação, puxou meu cabelo e cortou-o. Tentei virar, mas sua mão segurou com força outra mecha fazendo com que minha cabeça se deslocasse para trás. Ao tentar desprender, senti a ferida no pescoço com um corte até a orelha. Consegui soltar e caminhando para o quarto ouvi a voz: “Você é homem. Deixe esse cabelo ridículo para suas irmãs”. Não pude controlar o choro quando olhei no espelho. Nada mais podia fazer senão procurar alguém que ajeitasse o estrago feito. Teria que usar rente ao couro cabeludo.

            Para ele sempre fui o menos esperto de todos. Durante toda a infância e adolescência costumava ouvir o quanto era incapaz. “Você é um moleirão, não presta para nada”.

            Quando morreu, eu tinha vinte e cinco anos e nunca havia conseguido levar uma garota até em casa. Não toleraria sua desaprovação.

            Durante o velório e enterro, não fui capaz de sentir qualquer tipo de emoção. Ou melhor, senti alívio e uma euforia que era difícil disfarçar. Não teria sido bom que os outros percebessem. Não deixou que eu sentisse falta ou medo pela perda de uma pessoa que deveria ter significado algo de bom na minha vida.

            Hoje, quando minhas irmãs e eu reunimos nossas famílias não costumamos falar do passado. Nossa mãe ainda vive e costuma rir muito com os netos. É bom olhar para ela e ver paz em seu rosto.

Amanhã volto a pensar nisso

Amanhã volto a pensar nisso

                                                      Cândida Albernaz

            Ando meio louca, me disseram. Bati com o carro na semana passada, coloquei sal no meu café duas vezes e ainda chutei o cachorro que latia sem parar. Coitado, ficou ganindo e me olhando. Não adianta, estou angustiada e enquanto não resolver o que me deixa assim, saio atropelando meio mundo.

            Droga! Não me procura há dias. Fico de olho no telefone, na porta de casa que não se abre, só a espera.

            Já sei que homens não gostam de enfrentar este tipo de situação, preferem desaparecer. E daí? Quero uma resposta. Não esta simples, que também já conheço: “não te mereço. Quero a outra, a resposta longa: quando começou a se afastar de mim? Quando percebeu que não me amava? Tem outra garota, não tem? É isto o que quero: de-ta-lhes.

            Ficamos juntos por um ano. Não foi uma semana ou um mês, foi vida em comum.

            Lembro de quando o conheci. Estava com umas amigas num desses bares que vivem cheios de gente à procura de outra gente. Você falava alguma coisa e todos em sua mesa riam. Fiquei imaginando o que poderia ser tão engraçado. Sorri sozinha e você me olhou neste momento. Acenou com a cabeça e levantou seu copo de uisque me fazendo um brinde. Ergui o meu também.

            Nesse dia, a Martinha estava triste porque o marido havia saído de casa. Descobriu que ele a traía com uma funcionária. Não pensou duas vezes e pediu que fosse embora. Ia sofrer como uma condenada, mas traição não suportava. Estávamos eu e mais duas amigas consolando-a.

            Meus olhos voltaram-se para sua mesa ao ouvir novas gargalhadas. Você me encarava. Levantou-se e veio até onde eu estava e perguntou se poderia ficar um pouco. Sem pensar muito, cheguei para o lado e você puxou uma cadeira sentando-se. Era tão confiante, contou histórias e até mesmo a Martinha riu com vontade.

            Depois daquela noite, passamos a nos ver sempre que podíamos.

            Liguei de novo para o escritório onde trabalha. Desta vez disseram que saiu de férias. Só retornaria em um mês. Sabe para onde ele foi?” “Não tenho idéia”.

            Celular desligado, o porteiro do prédio me disse ter visto quando saiu com uma bolsa. “Parecia que ia viajar, mas não tenho certeza”.

            No mês passado, passei por um bar e o vi sentado lá dentro, conversando com uma mulher. Aproximei-me e fiquei olhando-o. Levantou-se e calmamente me apresentou: “minha amiga”. De uma hora para outra virei sua amiga e a outra ali na frente, uma nova colega do escritório. Amiga? Saí dali arrasada. Desde quando deixara de ser sua namorada? Ou garota? Ou caso? Meu Deus o que eu era afinal? Pensando bem, nunca falamos sobre isso ou fizemos projetos para o futuro. Mas precisava falar?

            Nesta noite, liguei para você sem parar. A secretária eletrônica a princípio gravou recados malcriados, mas depois, lamentos e pedidos de me procure ou me ligue, por favor.

            Onde foi parar aquele cara que me atraiu com suas risadas e histórias divertidas?  Há algum tempo, só percebo olhares sérios, impaciência e reclamação.

            E agora você some de repente.

            Hoje percebo que li em seus olhos o que você não tinha coragem de dizer com palavras, mas em todas às vezes, desviei os meus. Não me basta ter entendido, queria ouvir de sua boca.

            Onde eu fui parar? E a garota decidida que sou?

            Acho que vou ligar para a Martinha e as outras. Quero colo das amigas. Preciso ouvir que sou especial, que a fila tem que andar, “já viu aquele cara lindo te olhando?”. Agora é disso que preciso. Amanhã ligo o som do carro, ouço músicas que me lembrem você, choro e me desespero. Hoje, vou cuidar só de mim.
           

Eu sou feliz

                                                 Eu sou feliz

                                                                          Cândida Albernaz

            Gosto de andar sem rumo. Mais ainda quando consigo não pensar. Bem, sei que é uma contradição porque se digo que não penso, já o estou fazendo. Penso que não penso… Deixa para lá!
          Minha filha, Lívia, avisou com o dedo apontado para meu rosto, que vai acabar me internando. Exagerada! Sempre foi assim. Puxou a mim. Igualzinha e nem percebe.
            O exagero me atrai. Vivo tudo muito. Falo alto, gesticulo demais e dou gargalhada fora de hora, segundo alguns.
            Outro dia estava no velório de uma amiga, que nem era tanto assim porque descobri que ela e meu marido, Otávio, que Deus o conserve ao lado dele, tiveram um caso. Bem na minha cara. Pensa que discuti? Que nada. Fui à casa dela e na maior calma avisei: se chegar perto do Otávio de novo, te dou uma coça que não vai sobrar dente nessa boca cheia de batom. Depois fui embora sorrindo. Sou educada. Ela sumiu lá de casa.
            Como dizia antes, no tal velório, comecei a rir alto e todos olharam. Estava lembrando a cara que fez quando passou por mim na rua e levantei a mão como se fosse bater nela. Não é que a dita cuja encostou o corpo no muro e mostrou pavor nos olhos?  Achou que eu fosse realmente dar um tapa naquele rostinho falso.
            Sou da paz. Não gosto de briga. Só me imponho.
            Em um dos aniversários do meu filho, chorei muito quando vi a vela acesa derretendo. Imaginei o quanto ela poderia estar sofrendo sumindo daquela forma. Os convidados acharam que eu me emocionara com o fato dele estar completando mais um ano. Minha filha compreendeu na hora o que acontecia e olhou com raiva. Falou entre dentes para que só eu entendesse: LOUCA! Não deu outra! Do choro comecei a gargalhar. Achei muito engraçado o que ela fez.
            Louca! Imagine se sou louca. Apenas quando sinto, demonstro. Não escondo minhas vontades.
            Se quero ficar pelada, porque sinto calor, tiro a roupa. E foi o que fiz no dia em que algumas amigas de Lívia lanchavam lá em casa. Preparei com o maior carinho. Modéstia à parte, cozinho bem. Arrumei a mesa e chamei as garotas. Elas riam, conversavam, comiam o bolo, os biscoitos, a torta, tudo feito por mim. Quando entrei na sala, pararam imediatamente de falar e arregalaram os olhos. Olhei uma por uma e comecei a rir. Estavam estranhas com a boca aberta e a cara de espanto.
            Lívia levantou e me arrastou para o quarto. Por que você está nua? Eu respondi: Senti calor, preparando tanta coisa gostosa para vocês. Pediu que não saísse dali até que todas fossem embora. Ela tinha choro escorrendo no rosto. Não gosto nem um pouco quando fica assim. Apesar dos quinze anos, ainda é meu bebê.
            Não entra na minha cabeça eu não poder fazer o que desejo. Todos deviam poder fazer o que querem. Fica tão mais divertido…
           Otávio, que Deus chamou há dois anos, nunca perdeu a paciência. Era um homem bom, apesar do que fez. Conversava muito comigo e sempre falava que eu era como uma criança e crianças não têm maldade.
            Só aconteceu uma vez, quando chamou um colega do escritório de contabilidade em que trabalhava, para jantar conosco. Única vez.
            Esse amigo levou a namorada e eu mesma fiz nossa comida. Depois que acabamos, sentamos na sala. A mulher, uma chata, discursava sobre cabelos, unhas, as dela eram imensas, sobre como estava feliz em não fazer nada porque o namorado não permitia.    Queria que se dedicasse inteiramente a ele. Pensava em nunca ter filhos, porque não se aceitava gorda. Acordar à noite? Deixar os seios flácidos? Nunquinha. Fiquei ouvindo aquele blá blá blá e pensei que se pudesse, teria mais uns três filhos. Eu não frequentava salão. Fazia a unha em casa e meu cabelo estava uma tristeza. Foi então que reparei que ela jogava aquela cabeleira loura e brilhante de um lado para o outro. Não pensei duas vezes. Fui ao quarto, peguei a tesoura e antes que percebessem, parei atrás dela e cortei um bom pedaço. Falei que era para eu lembrar que devia cuidar do meu. Bonito…
            Ela deu um pulo da cadeira e começou a gritar. Foi uma confusão. Até hoje não entendo o porquê. Aquilo ia ou não ia crescer outra vez?
            Acho melhor voltar para casa. Caminhei demais, devo estar longe.
            A lua está linda e a noite fresca. Acabei de resolver que vou dormir aqui mesmo.    A grama está seca e vou ter o privilégio de fechar os olhos observando um monte de estrelas.
            Pensam que sou maluca. O que sou mesmo é feliz.
                                                                                                                           13/12/2011

Mesa de bilhar

Mesa de bilhar

 
                O dia hoje estava mais quente do que de costume.
                O suor escorria da testa para o pescoço e daí para dentro do seu uniforme verde, que a mulher não tivera tempo de lavar.
                Há uma semana a filha mais velha mantinha uma tosse que não parava. Não dormia nem deixava que os outros dormissem.
                A casa pequena com dois quartos, banheiro e cozinha, mal acomodava sua família  e a do irmão.
                Quando Antônio escreveu avisando que vinha com a mulher e um casal de filhos, para a cidade, tentou dizer que não seria fácil. Preferiu vir assim mesmo. Explicou que a fábrica de alumínio onde trabalhava fechou, muitos ficaram desempregados, inclusive ele. Há quase um ano viviam com o salário de manicure da mulher. Não suportava mais.
                Já morava ali, e resolveu acomodar o irmão que agora trabalhava como vigia numa construção e podia dividir com ele o aluguel.
                De manhã, notou que sua mulher estava com os olhos inchados de cansaço por não dormir. Levara a filha ao posto de saúde, fora medicada, mas não via melhora.
                Tinham duas meninas que eram sua paixão. Aos domigos costumavam sair os quatro. Pegavam um ônibus e desciam na praça onde havia alguns brinquedos e podiam brincar sem que precisasse pagar por eles. Elas riam e sempre achavam alguma novidade para mostrar. Ou algum pássaro que viam, ou uma nova maneira de empurrar o balanço, ou ainda como corriam rápido.
                Na saída, comprava um saco de pipoca para cada uma e voltavam para casa. Encontrava o irmão acordando. Esperava que se ajeitasse e saíam os dois para uma pelada, antes de sentar no bar que ficava no próximo quarteirão. Ali havia uma mesa de bilhar disputadíssima pelos homens da região. E algumas garotas também. A mulher reclamou com ele qundo soube que umas e outras iam ali. Não deu conversa, era homem e precisava se distrair. Trabalhava pesado como pedreiro a semana inteira.
                No último domingo apareceram uns caras diferentes para jogar. Não moravam na área e ninguém os conhecia. Eram bons e ganharam de todos. Levaram o dinheiro e ainda olharam feio para Oswaldo que havia bebido além da conta, como sempre, e chamou os tais de ladrões. Os dois não gostaram mas foram embora rindo, esfregando o bolso da calça, onde haviam guardado a grana que ganharam.
                Preferia que não voltassem, mas estavam ali há meia hora, quando chegaram com mais um amigo. Foram em direção de Oswaldo e um deles perguntou se não queria uma revanche. O amigo que emendara a bebedeira do dia anterior, aceitou na hora e ainda disse que esses filhos da puta agora vão ver o que é jogar. Semana passada me pegaram desprevenido. Chamou o companheiro que estava com ele que se negou dizendo  sentir cheiro de confusão. A palavra certa para Antônio se achar estimulado. Topou fazer uma dupla com Oswaldo.
                Ficou olhando para o irmão mas não disse nada. Antônio sempre gostou de uma disputa. E de confusão também.
                Quando chegou a vez deles, as coisas pareciam tranquilas. Até que começaram a perder. Oswaldo que mal se aguentava, foi ficando irritado. Disse que estavam  trapaceando, que mexeram na bola quando virou-se para pegar cerveja. Que não era bobo e não ia deixar dois ladrões de merda fazerem-no de trouxa.
                O terceiro que viera hoje pela primeira vez, abraçou Oswaldo e disse que precisava de mais uma, aquilo era só um jogo.
                Continuou observando o irmão que ria, como se não estivesse percebendo o clima em volta. Sabia o que isso queria dizer. Aquele risinho prendendo os lábios significava que sua paciência estava a zero
                A partida terminava quando seu parceiro resolveu enfiar o dedo na cara de um deles e dizer que não pagaria aposta nenhuma porque não era idiota.
                Foi imediato. Oswaldo recebeu um soco e um filete de sangue começou a escorrer da sobrancelha. Foi a deixa para que o bar inteiro entrasse na briga.
                Tentou falar alguma coisa, mas a cadeira que recebeu nas costas fez com que mudasse de idéia.
                O barulho que ouviram foi seguido de silêncio geral.
                Seu irmão estava no chão. Os três caras, apontando uma arma, foram até o caixa, pegaram tudo o que encontraram e saíram nas motos estacionadas na rua.
                Na barriga de Antônio podia-se ver a mancha vermelha que aumentava rapidamente.
                Alguém ligou e chamou uma ambulância.
                E aí, meu irmão? Os médicos já estão chegando.
                Se preocupa não, estou bem. Só queria que avisasse a mulher que não faço mais isso. Tinha prometido a ela, mas sabe como é, não fujo de briga e nem posso ver uma.
                Está tudo bem.
                Eu sei, eu sei.
                A cabeça de Antônio, que se apoiava em seu colo, foi ficando mole, até que pendeu para um lado.

Fantasia de carnaval

 

                                        Fantasia de Carnaval                                                                                                                                                                                                                                       Aquele era o seu carnaval. Trabalhara um bocado durante todo o ano para conseguir participar. Não era a escola de samba pela qual torcia, não era nem mesmo a segunda colocada como objeto de desejo, mas naquele ano seria a escola de seu coração: “Escola de Samba do Boi Tampinha”.

                        O nome no início soara meio ridículo, agora, já o adorava.

                        Era pequena, de um bairro simples, mas quando a bateria começava a tocar ninguém se lembrava de onde dormia, vivia ou dos problemas que tinham. Todos os corações batiam juntos: tum, tum, tururu, tum, tum. E todos os passos surgiam num mesmo rítmo com cada um sorrindo o riso arreganhado e orgulhoso, igual em todas as bocas. As que possuíam ou não algum dente.

                        Quando chegava ao galpão onde ensaiavam, sentia-se importante. Olhava em volta aquele alvoroço e ia direto ao cara do isopor que vendia cerveja e pedia a sua.

                        A energia que vinha dali o alimentava. Sempre quisera participar de um desfile, mas nunca conseguira o dinheiro. Este ano, não.  Juntara o suficiente para pagar sua fantasia.

                        Já avisara aos amigos: “Tô esperando vocês na avenida. E quero aplausos, quero assovios e quando passar quero ouvir: É o Beirinha. Dá-lhe Beirinha!”.

                        “E as garotas então! Quando virem esse negão sambando, com o gingado que tenho… Vai chover mulher”.

                        Os amigos riam das histórias de Beirinha e sabiam que este era o sonho dele. Desde muito só falava nisso.

                        Até Jéssica, sua garota, não aguentava mais aquele assunto. Na verdade o que ela queria mesmo era falar sobre o casamento dos dois. Namoravam há cinco anos e o Beirinha, ou melhor, o José Inácio nunca se decidia.

                        Não gostava de chamá-lo pelo apelido. “Com um nome tão lindo… José Inácio.” Quando o conhecera, ele fazia segurança de uma escola. Estava bonito ali, fazendo uma corda humana com outros caras. Mas ele se destacava. Era muito alto e forte. Ela contou que na hora imaginou aquelas mãos enormes segurando-a com força. Sorriu então e quando olhou, viu que ele a olhava e sorria também.

                        Terminando o desfile, foi andando para a saída e sentiu duas mãos na  cintura. Já ia reclamar quando dentes muito brancos lhe sorriam enquanto ele se apresentava: “Sou o José Inácio, e você?” ”Jéssica”, disse com uma voz dengosa que o conquistou na hora.

                        A partir dali estavam sempre juntos e então aos poucos foi conhecendo-o melhor.

                        Soube logo depois que o carnaval era sua paixão. Todos os anos trabalhava como segurança de alguma escola e quando acabava voltava à sua função normal de limpar as ruas, era lixeiro.

                        Jéssica estava feliz por ele, afinal conseguiria entrar sambando no chão com a fantasia comprada. Sua ala vinha logo depois da bateria.

                        Saíra do barraco de José Inácio há pouco. Seu negão estava lindo. Sabia que ia ter problema com umas folgadas, mas aquele homem pertencia a ela.

                        Era cedo ainda e o grupo dele ia se reunir antes e nessa concentração ela não entrava.

                        Foi para casa se ajeitar devagar. Tinha tempo. As ruas estavam movimentadas com o ir e vir das pessoas que já começavam a guardar lugar nas arquibancadas. Sua cidade era pequena, mas quando chegava o carnaval, havia tanta gente na rua que não sabia como cabiam ali.

                        Estava chegando à casa quando ouviu um assovio. Olhou para trás e viu três caras parados na esquina. Usavam máscaras. Aquelas bem feias que costumam assustar as crianças.

                        “Oi, Jéssica! E o Beirinha?”. Não reconheceu a voz e mesmo assim sorriu para eles que se aproximaram.

                        Deviam ser alguns amigos já que sabiam seu nome e o de José Inácio.

                        Cercaram-na dançando, impedindo que entrasse em casa.

                        “Vamos, quer um golinho? Tome que é para animar”.

                        Ela começou a achar esquisito o jeito deles. “Quem são vocês? Vamos, tirem as máscaras. Não estou gostando da brincadeira”.

                        “Olhem só, a gostosa quer ver a gente. Não dá Jéssica. Aliás, não entendo o que você viu no Beirinha. Fede a podre o tempo inteiro, você merece coisa melhor!”               “Por favor, parem. Vocês já conseguiram me assustar. Essa brincadeira está ficando chata”.

                        “Ih! Vai fazer beicinho. Anda, abre logo a porta de casa”. Dizendo isso, puxou a bolsa que ela segurava e tirando a chave abriu a porta empurrando-a para o interior.

                        O som de música de carnaval vinha do botequim da esquina, onde   algumas pessoas dançavam.

                        Dentro da casa, Jéssica conhecia uma nova face da vida. Com os olhos fechados, ela se sujeitava à vontade dos três, que riam e derramavam cachaça em seu rosto, “para que se soltasse mais”.

                        Na avenida, Beirinha desfilava orgulhoso sua fantasia. No ponto em que combinara com Jéssica de jogarem beijo um para o outro, não a viu. Desconcentrou-se um pouco procurando, esticando bem o pescoço para tentar encontrá-la. Será que não entendeu direito onde eles haviam combinado?

                        Seguiu em frente, o sorriso voltou a seu rosto. Sambava como nunca. Sambava para ele. Sambava com o coração na boca. Era o seu carnaval.

                                                                                              Cândida Albernaz

A vida segue

                        A vida segue

                                                                                   Cândida Albernaz

            Passou pela porta da cozinha correndo. Os pés descalços, acostumados com o chão duro, nem sentiam as pequenas pedras em que pisava.

            O caixote ainda estava lá, no cantinho da varanda como deixara no dia anterior. Havia colocado um pano em cima, para proteger de qualquer eventual friagem noturna.

            Descobrindo, viu os pintinhos que piscavam os olhos sem parar.

            A mãe chamou para tomar café. Gritou de volta se poderia levar os dois com ele.

            – Nada disso. Deixa aí e venha se arrumar. Tem escola agora. Na volta, na volta…

            Escondido dela pegou cada um e deu um beijo, acomodando-os em seguida no mesmo lugar.

            Aquele dia ia longe. Os bichinhos não tiveram muito tempo de vida e sua mãe também não.

            Mulher fraca de saúde morrera cedo.

            O pai, depois disso, saiu da cidade com o filho mais velho e deixou que a avó cuidasse dele.

            Recordava-se ter chorado muitas e muitas vezes. Pediu ao pai que o levasse com eles, não reclamaria de nada, seria obediente, estudaria sem que precisasse de castigo, o que pedisse.

            Ajoelhado em frente ao filho, para que suas cabeças ficassem próximas, afirmou que seria uma questão de tempo.

            – Daqui a alguns dias ficaremos os três juntos.

            Quando o viu sair com a mala na mão seguido do irmão, acreditou que logo se encontrariam. Um ano passou até que voltasse a estar com eles.

            No dia de retornar da casa do pai, este o abraçou e não prometeu nada. Implorou que o trouxesse para morar com eles. Foi a última vez que fez esse pedido. Foi a última vez que chorou.

            Viam-se nas férias de julho e janeiro.

            Na época em que conheceu a mulher ainda eram estudantes. Faziam residência quando ela anunciou a gravidez. Não pensou duas vezes para propor que se casassem.

            Moraram com a avó por um período. Aquela avó de braços gigantes que era capaz de acolher o mundo em seu colo.

            O pai casou com alguém da cidade onde vivia e só por uma vez perguntou se ele gostaria de morar com eles. Não, respondeu firme. Não mais. Não havia chance para esquecer, perdoar ou se adaptar.

            Anos depois mesmo reconhecendo-se no adulto que era, sentia que o corte feito entre eles não fecharia.

            Não foi sua a escolha de ficar quando a mãe se foi. Não foi ele quem decidiu ser deixado por eles.

            Mas depois que a primeira filha nasceu sua existência pareceu adquirir sentido. Vivia para a garota.

            Soube de uma nova gravidez na mesma semana em que a avó fora internada. Não conheceu a segunda bisneta.

            ***

            Há um ano a mulher saiu de casa levando com ela suas filhas. Durante esse tempo, passou a ver as meninas em dias estabelecidos.

            Não se acostumou. E não se acostumaria.

            A casa vazia dos risos e gritos das crianças o ensurdecia.

            Vivia mais uma vez com o que sobrara.

            Arrumou uma caixa de sapatos e colocou ali os dois pintinhos de olhar engraçado. Cobriu com uma pequena toalha. Já conseguia imaginar a expressão das duas quando a descobrissem. Olhariam para ele com olhos de sorriso. Não saberiam se o abraçavam ou cuidavam dos pequenos animais. Ele tinha certeza de que estaria com cara de bobo, absorvendo cada momento.

            Só era preciso seguir em frente.

                                                                                                          21-11/2011

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