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Por candida, em 16-11-2011 - 22h08
Comichão
O parque àquela hora já estava escuro. Caminhava com pressa, fazendo o mesmo percurso de todos os dias. Hoje não seria diferente. Algumas pessoas passavam correndo, outros de bicicleta. Com a pasta debaixo do braço, seguia em frente tentando não reparar muito ao redor.
Algumas garotas conversavam próximas a um banco e uma delas, a mais linda de todas, sorriu para ele quando passou. Retribuiu com timidez baixando os olhos e mais adiante voltou a cabeça olhando para trás. Elas agora riam alto. Imaginou se não foi algum comentário feito sobre ele. Talvez o achassem ridículo.
Chegando à casa ligou a televisão e foi ao banheiro lavar as mãos. Entrando na cozinha lavou-as de novo. Tinha esta mania. Quando chegava, lavava-as pelo menos umas dez vezes. Sempre achava que ainda estavam sujas.
Como em todas as noites, jantou enquanto com o controle remoto procurava um programa que o agradasse, leu o jornal e antes de dormir agachou-se no chão esticando as pernas, colocando o peso do corpo nos braços que se estendiam e abaixavam numa série de flexões seguidas de abdominais. Depois tomou um banho e olhou-se no espelho. Gostava de se olhar e observar os músculos, pois se sentia forte após o término dos exercícios.
E só então foi dormir.
Sempre fora metódico. Não gostava de mudanças, nem mesmo no trabalho. Ocupava o mesmo cargo há muitos anos, mas estava satisfeito. Não almejava mais do que isso. As pessoas já o conheciam e sabia como lidar com elas. Era educado e não chamava muita atenção para si mesmo.
Só o incomodava aquele comichão que de vez em quando sentia. Era uma espécie de inquietação que o fazia ficar ansioso e desejar coisas que o assustavam. Quando as idéias vinham na cabeça, costumava segurá-la com as mãos apertando-a, chegando algumas vezes a bater com a mesma na parede. Então pegava a caixa de remédios e tomava a dose dobrada, sentando-se e esperando sentir um torpor que acalmava a mente.
Essa sensação estava voltando cada vez com mais frequência. Tinha que ir ao doutor de novo. Não se lembrava mais da última vez que fora.
Dia seguinte, o trabalho tomou seu tempo fazendo com que não pensasse nas idéias da noite anterior. No final da tarde o comichão recomeçou. Trancou-se no banheiro e bateu com a cabeça na parede uma, duas, três vezes para ver se afastava aquela sensação.
Na hora da saída pegou seu caminho de sempre. Hoje estava mais escuro. Olhou o céu e o viu carregado de nuvens.
Lá estava a garota do outro dia. Reparou então que ela era loura, miúda e não estava acompanhada. Passou por ela e sorriu. Desta vez não pareceu reconhecê-lo, pois não respondeu com outro sorriso.
Diminuiu o passo e esperou que o ultrapassasse.
Foi seguindo-a, um pouco afastado.Ela parou e sentou num banco. Parecia olhar o vazio enquanto acendia um cigarro. Imaginou que talvez estivesse triste.
Ficou observando por algum tempo e vendo que o lugar estava ficando deserto, aproximou-se:
– Boa noite. Tem um cigarro?
Sem olhar para ele, ofereceu-lhe a carteira.
Tirou um e imaginou se por acaso havia ficado invisível. Sentou-se no banco ao lado dela fazendo com que realmente o notasse. Percebeu nela a intenção de levantar, mas antes que o fizesse, segurou sua mão livre jogando o cigarro fora e com a outra mão apertou as têmporas onde começava a sentir novamente a pressão.
Ela tentou se soltar, mas a segurava com força. Notou que ia gritar, então tapou sua boca e virou-a de costas de forma que o corpo agora era preso por uma espécie de abraço. Ela se debatia, mas não sabe como arranjara tal força nos braços, que ficara impossível se livrar dele.
A cabeça formigava. Lembrou do riso dela no dia anterior, com certeza para menosprezá-lo diante das amigas. E hoje fizera pior agindo como se não o reconhecesse. Cadela! Ia ver se alguma vez mais o esqueceria! Seus olhos arregalavam-se enquanto sentia o aperto da garganta.
Nunca mais riria dele.
O corpo dela foi ficando mole em seus braços até que arriou no chão.
Ajoelhou-se e ficou olhando-a. Possuía um rosto bonito. Tinha uma pinta do lado da boca que não havia notado antes.
A cabeça parou de doer.
Olhou em volta e não viu ninguém. Arrastou-a para trás do banco e limpando as mãos na roupa, seguiu seu caminho até em casa.
Ligou a tv e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos e tornou a lavar. Várias vezes.
Esquentou o jantar e leu o jornal. Hoje não sentia a cabeça doer, sentia-se tranquilo. Era tão bom quando estava sereno…
Por candida, em 10-11-2011 - 2h21
Por essa vez…
Cândida Albernaz
Reconheceu o som seco e alto. Sentiu as pernas fraquejarem. Olhou a escada que o separava do andar superior…
* * *
Todas as vezes que a mulher estava de plantão, era ele quem ficava com os filhos. Isso acontecia semana sim, semana não.
Ela era enfermeira e adorava a profissão. Mesmo quando chegava à casa exausta ou triste porque perdia um dos doentes dos quais ajudava a cuidar, tinha sempre algo bom para contar.
Para ele, aqueles sábados eram especiais, tinha os filhos de forma integral.
Tomavam o café da manhã juntos e se fizesse sol, iam à praia. Quando havia algum parque de diversões ou circo na cidade, levava os dois e riam como se tivessem a mesma idade.
Era um sujeito caseiro, bebia pouco e tinha paixão por futebol. No temperamento, seu maior defeito era não suportar a idéia de se sujeitar ou se achar impotente diante de um fato ou alguém.
Foi quando houve o assalto na loja de ferramentas que possuía, que resolveu comprar uma arma. Levaram o dinheiro do caixa e peças que vendia. O prejuízo nem fora tão grande, mas a sensação do revólver apontado para sua cabeça e a condição impossível de revidar, fez com que ficasse exasperado. Tinha certeza de que se tivesse um igual ao deles, teria colocado os caras para correr.
Contou à mulher, que depois de ouvir afirmou que ele devia agradecer por não ter sido machucado ou até mesmo morto. Agradecer coisa nenhuma! Devia era ter acabado com os dois. Um tiro na cara de cada um!
No dia seguinte ao entrar no trabalho, já havia adquirido a sua.
* * *
Reconheceu o som seco e alto. Sentiu as pernas fraquejarem. Olhou a escada que o separava do andar superior…
Da porta do quarto, viu a gaveta onde deixava a arma, aberta. Lembrou da mulher pedindo que ele tirasse aquilo dali, porque “qualquer dia desses acontece uma desgraça”. Sempre alegou que se queria defender a família, precisava que ficasse perto dele. Durante o dia, estando em casa, colocava-a em cima do armário. Só ao deitar, guardava na mesinha ao lado da cama. Mas esta não foi a primeira vez que se esqueceu de retirar.
Os filhos não estavam ali e foi para o quarto deles. O garoto estava caído no chão, com uma expressão assustada e ainda tinha nas mãos a arma que disparara. A irmã chorava ao lado da cama, apontando para a parede, onde a bala entrara.
Pegou da mão do menino enquanto sentia o corpo amolecer como se não suportasse o próprio peso. Puxou os dois para perto dele e abraçou-os.
Mais tarde depois que lancharam, colocou-os para dormir.
Quando a mulher chegasse pela manhã, teria que contar o que houve e sabia que iria escutar um bocado.
A verdade é que não aconteceu nada. Podia, é claro, mas não aconteceu.
Essa noite colocaria embaixo do travesseiro e prometeu a si mesmo não se esquecer de guardar bem no alto quando levantasse.
Durante o café, explicou à mulher o ocorrido e ouviu tudo o que ela tinha para falar.
No final, avisou que tomaria cuidado, mas não se desfaria de nada.
Nesse momento a filha chegou perto da mãe, que perguntou “onde está seu irmão?”
Ela olhou na direção do pai e colocando a mão em volta da boca quase sussurrou; “não briga com ele, porque irmão me pediu segredo. Mas eu vou contar só para você…”
- Onde está seu irmão?
- Pai, ele achou o revólver embaixo do travesseiro e disse que ia brincar de pegar ladrão com o Augusto, nosso vizinho. Saiu agora mesmo. Acho que você estava no banheiro…
7-11-2011
Por candida, em 03-11-2011 - 0h58
Ontem e hoje
Cândida Albernaz
É incrível reconhecer você nos cabelos brancos que jamais havia visto.
Não percebo o tempo passar a cada vez que olho em seus olhos, mesmo se fico tantos anos sem vê-lo.
Continuo sentindo o coração acelerar enquanto as mãos suam e da boca não sai nada além de um formal você está bem? A vontade de disparar perguntas sobre passado e presente se perde na insegurança de não saber o que dizer.
* * *
O dia hoje foi cansativo, aliás, como a maioria deles. Se não fosse por ter certeza de que chegaria a casa e veria os meninos, acho que enfartaria. Não sei como fui parar no meio da discussão de Henrique com a recepcionista nova. Eu e minha eterna mania de sair defendendo quem acho que precisa de ajuda.
Pudera, o safado está atrás dela, e como a garota não quer nada com ele, a persegue. Conheço bem o tipo, em casa diz amém à mulher, e no trabalho se aproveita da autoridade do cargo que exerce.
* * *
Os olhos negros se escondem atrás de óculos que nunca soube você precisasse usar. Se fecho os olhos, o tempo não passou quando o escuto falar meu nome.
Marina para você. Alberto para mim. Marina que fugiu com medo do que sentia. Agora teme não ter tempo para fazer que você entenda que nunca quis algo passageiro. Marina que não sabe como dizer que sempre foi amor em todas as vezes que o viu e não se aproximou.
* * *
Ainda bem que Miguel não chegou. Detesta quando não estou. Nossa, que bagunça. Sempre que trazem amigos para casa, fazem esta zona.
Já falei que não quero ninguém aqui enquanto ainda não estiver, mas fingem que não escutam. Acho que fui ficando liberal demais. Quando crianças eu os controlava com o olhar, agora, nem falando por horas consigo convencê-los de algo.
Pensei em assistir a um filme com eles e pedir uma pizza. Que nada, pela altura do som, posso esquecer o cineminha em casa.
* * *
A vida corre e escorre carregando possibilidades de encontros nunca realizados.
Sou capaz de senti-lo mesmo distante, quando uma música tocada no rádio do carro, me remete a uma época onde beijos molhados de lágrimas e toques que pareciam choques fazendo um grudar ao outro sem a mínima possibilidade de se desprender.
Sou piegas quando me lembro de você.
* * *
Vou tomar um banho. Embaixo da água morna, relaxo. Ela tem um poder especial para mim.
Eu, Henrique e outra colega montamos o laboratório há dois anos. Está dando certo. Fizemos um investimento alto que deixou-nos preocupados, mas valeu a pena. Nossas responsabilidades aumentaram, mas o dinheiro também.
* * *
Casei, mudei minha vida. Formei uma família como a maioria de minhas amigas. Você já fez e refez a sua. Mesmo assim fiquei presa a um passado que ainda me dói.
Quero que pare de me olhar por olhar, quero que me veja e enxergue o medo de nunca mais encontrá-lo. Quero que escute através da minha pele a vontade de me misturar a você nos tornando um só.
* * *
Miguel chegou. Acabo de ouvir a porta bater. Deve estar irritado, o que é comum ultimamente. Vou pedir algo para comermos e me enfiar embaixo do lençol. Não quero discutir hoje, já estou com a cabeça cheia. Vai entrar aqui reclamando dos meninos. Antes vai dar uma de bom pai e brincar com todos como se tivesse a idade deles. Eu é que vou escutar sobre o que ele realmente acha do que os filhos estão fazendo. Há algum tempo não nos entendemos mais. Às vezes sinto saudades.
* * *
Às vezes sinto saudades.
Por candida, em 27-10-2011 - 0h47
O convite
Cândida Albernaz
Não imaginou ir tão longe. Nem mesmo imaginou ser possível. Àquela altura, fizera sua opção. Agiu como considerou necessário.
Sentou na cadeira de forro estampado, ela mesma escolheu o tecido. Queria tons alegres, onde sobressaísse o vermelho. Lembrou do dia em que chegou à casa com a sacola e tirando-o de dentro dela, foi cobrindo o assento e o encosto para ter a noção de como ficaria. Os dois adoraram o efeito. Resolveu que a colocaria mais próximo à janela, porque ali a luz dava vida à estampa.
Ria fácil naqueles dias. Fase de descobertas: só as boas.
* * *
O envelope que recebera pelo correio era grande e antes mesmo de abrir, tinha a certeza de que era um convite.
Tentou imaginar quem conhecia fora da cidade em que vivia desde que nasceu. Olhou o remetente e não o reconheceu. Achou que devia haver qualquer engano, mas era seu nome e endereço que constava na frente.
Abrindo, viu que era um convite de casamento. Demorou um pouco para entender que conhecia um dos noivos.
* * *
Eram claros os olhos que a encaravam. Talvez verdes. A distância impedia a certeza. Mas o sorriso, que enxergava perfeitamente, provocava duas covas em cada lado do rosto. Gostou daquele efeito que transformava o homem em menino.
Conversaram muito naquela primeira noite. Soube que ele era de fora, e havia sido transferido por período indeterminado. Saboreou a palavra. De qualquer forma, morava a poucos quilômetros dali. Falou que costumava ir para casa todos os fins de semana, mas agora que a conhecera… Palavras por dizer sempre a atraíram, principalmente se vinham acompanhadas de um beijo.
Não demorou a que, com sua autorização, ele se instalasse em seu apartamento.
* * *
Quase um ano depois, quando ele precisou voltar, falavam-se diariamente, vinha vê-la todas as semanas, depois de quinze em quinze dias, até que levou dois meses sem aparecer.
Não quis procurar por ele imediatamente, e depois de algum tempo achou que tinha orgulho suficiente para não precisar correr atrás de ninguém.
O convite trazia a data do casamento: em uma semana.
Havia tempo não chorava, mas não conseguiu controlar. Três dias trancada no quarto sem falar ou ver alguém. Mal se reconhecia no espelho quando resolveu se ajeitar para sair.
Voltou ao trabalho sabendo o que faria. A decisão provocou um sentimento de tranquilidade, parecendo não ser dela a perda que vivia.
Sairia bem cedo no sábado.
* * *
Quando ele a buscava no trabalho, caminhavam de mãos dadas até uma sorveteria e entre risadas, dividiam num beijo, aquele creme gelado e de sabores diferentes.
Tinham prazer no que é comum, cinema, estar junto, jantares, estar junto, supermercado, estar junto, percorrer a cidade de bicicleta. Juntos.
Habituara-se a que ele adivinhasse o que queria sem que necessitasse dizer nada.
Acreditou que eram um do outro.
* * *
Diante daquela mulher, que parecia tão jovem, despejou detalhes do que viveram. Coisas que ele dizia, presentes que dava e ganhava, passeios que faziam, datas que comemoravam. Falou ainda do quanto riam programando um futuro que jamais aconteceria.
Não se preocupasse, porque voltaria para sua cidade. Não tentaria falar com ele. Nunca. Não havia o que dizer.
Ela poderia fazer o que quisesse com tudo o que estava ouvindo. Casasse com aquele homem e fosse muito feliz. Ou não.
Primeiro vieram lágrimas e então soluços que a garota não controlava. Não sentiu pena. Não podia. Preferia que fosse ele à sua frente carregado de culpa e emoção. Mas não era.
A cerimônia estava marcada para dali a quatro horas. O salão de cabeleireiro estava cheio e algumas amigas se aproximaram quando viram que a noiva chorava.
O que está acontecendo? O que você fez com ela?
Virou-se e saiu daquele lugar. Na rua, soltou um suspiro fundo, como se só então conseguisse respirar.
Não soube quem mandou o convite. Não importava.
Não se julgava, porque não conseguia sentir. Entrou no carro e dirigiu de volta para casa.
Estava escuro quando chegou. Não procuraria saber o que acontecera após sua saída.
Fechou uma porta que não pensava abrir de novo.
Certo ou errado? E daí?
Levantou-se da cadeira e resolveu deitar. Enfim conseguiria dormir. Há dias não sabia o que era isso.
25-10-11
Por candida, em 20-10-2011 - 1h44
Haja paciência
Cândida Albernaz
- Você vem ou não?
- Estou indo.
- Por que precisa demorar tanto?
- Quase pronta!
- Droga! É sempre a mesma coisa. Começo a me arrumar quando você parece estar acabando e não tem jeito.
- Só um pouquinho mais. Vou ficar linda para você.
- Hum!
- E pare de resmungar. Não vê que assim me atrapalha?
- Nem reclamar posso.
- Fica quietinho aí. Só falta o batom.
- Quando você diz isso é porque ainda está começando a passar esse monte de coisa na cara.
- Não seja grosseiro. O resultado é ótimo.
- Acho que vou tomar um uísque para relaxar.
- Espera aí! Beber não!
- Como assim: beber não!
- E não fique imitando meu jeito de falar.
- Você enrola o quanto quer e eu bebo o uísque que quero.
- Você sabe que esse uisquezinho seu, puxa outro e outro. Quando chegarmos, já vai estar mais para lá do que para cá.
- Culpa sua se isso acontecer. Por que não ficou pronta na hora que combinamos?
- Eu tentei você sabe.
- Sei que ficou de conversa com sua amiga, dando conselhos de que roupa deveria colocar.
- É isso que dá ter uma mulher de bom gosto. As amigas ligam para pedir opinião sobre o que vestir.
- E o assunto foi esticando para o José Antônio.
- Você é maldoso. Sabe que ela é louca por ele. Estava triste.
- Aposto que sei o motivo. Triste porque ele resolveu viajar com a mulher.
- Não gosto que fale de minhas amigas.
- Além de tudo, esse cara é um chato. Adora contar vantagens. Tem o melhor carro, a melhor viagem, faz o melhor negócio e as mulheres estão todas atrás dele.
- Não seja tão irritado.
- A única mulher que fica atrás dele, é essa sua amiga, que não consegue nem mesmo enxergar que o perfeito tem uma barriga que sempre chega antes dele.
- Ela o ama.
- Deve amar mesmo, para suportar escutar; eu tenho, eu faço, eu posso… E vou pegar minha bebida.
- Espere querido. Estou acabando. Agora é só o perfume. Qual você prefere?
- Qualquer um. Combinamos de sair às dez horas. São onze.
- Quase prontinha!
- Nossa reserva já era! Vamos ter que ficar esperando por alguma mesa sabe-se lá por quanto tempo.
- Não se preocupe amor. Pedi a minha amiga que nos esperasse lá.
- A Mariana vai com a gente?
- Precisando m-u-i-t-o de companhia.
- Não acredito que vou passar a noite de sábado ouvindo alguém falar do José Antônio. Porque ela não consegue entrar em outro tema.
- Precisando desabafar.
- Mas não podia ser quando vocês duas saíssem? Tem que rolar esse papo quando eu e você combinamos um jantar?
- Precisando de ajuda.
- E eu precisando de uma dose.
- Espere aí… Olha só o que fez? Virou a bebida de uma só vez.
- E estou partindo para a segunda.
- Pronto. Em pé na porta, linda para você. A chave do carro está comigo.
- Pois agora, vou acabar meu uísque sentado aqui no sofá.
- Não faz isso…
- Já fiz. Quer um também?
- Sabe que detesto álcool.
- Não adianta amarrar a cara. Estou esperando por você há mais de uma hora.
- Mas não gosto quando bebe antes de sairmos.
- Também não prefiro sair com sua amiga quando ela está carente.
- Você sempre achou Mariana simpática.
- E ainda acho. Quando ela está animada, rindo das coisas, contando histórias boas de ouvir.
- Mas ela está…
-… Precisando! Já sei.
- Promete que vai ter paciência. Só hoje.
- Vamos ver. Se ela tiver conseguido uma boa mesa…
- Não beba tão rápido!
- Se você falar mais alguma palavra sobre, vou tomar a garrafa inteira.
- Começou a ficar de mau humor.
- Só mais uma coisa. Se ela ameaçar chorar na mesa, levanto e vou embora.
- Ela não vai fazer isso. Vamos logo.
- E se começar a elogiar esse tal de José Antônio, mando ela se tratar.
- Está bem, está bem. Vamos embora.
- Seu telefone está chamando.
- É a Mariana. Fala querida, está no restaurante?
- Pelo menos isso.
- Ele terminou com você? Não chora Mariana. Estamos chegando aí.
- Não acredito! Meu sábado…
18/10/11
Por candida, em 13-10-2011 - 1h42
Um mundo só seu
Cândida Albernaz
O cabelo encarapinhado tinha uma cor indefinida, entre o amarelo e o encardido. Talvez fosse uma cabeça toda branca se a vida tivesse oferecido algo melhor.
Forrou a beirada da calçada com um papel pardo e ali colocou o prato de alumínio. Pegou a colher plástica de um rosa transparente, recolheu o feijão com arroz e cheirou. Balançou a cabeça em sinal de aprovação e comeu. Os pés para fora do meio fio calçavam uma sandália marrom com tiras grossas, lembrando um calçado masculino.
Quando um carro parou a seu lado, pegou outro pedaço de papel e tentou proteger da poeira cobrindo parcialmente a refeição.
Era uma mulher de estatura baixa, com olhos apertados como se sorrisse todo o tempo. Talvez o excesso de rugas em volta dele causasse o efeito.
Um rapaz ainda jovem se aproximou e perguntou se ela gostaria de ir para casa. Casa? Estou em casa. Não quer se sentar também? Se preferir, divido meu almoço com você. Não é muito, mas está gostoso.
Ele faz uma cara de repulsa e pede mais uma vez que ela o siga.
Não escutou ou fingiu que não. Pegou o prato e jogou na lixeira que estava na esquina. Voltou demonstrando estranheza que o rapaz estivesse ali ainda.
Abaixou sem dificuldade, limpou a colher no papel que usara antes e guardou na sacola plástica que havia deixado ao lado.
Olhou para ele e disse que precisava de paz. E é na rua que vai conseguir? Como uma mendiga?
Sorriu de um jeito conformado e saiu andando.
Tentou segurar seu braço, mas como uma força que não parecia ter, soltou-se dele.
O rapaz desistiu e foi para o outro lado da rua. Parou, encostou o corpo no muro de uma casa e ficou olhando. Notou que ela resmungava baixinho. Sabia o que falava: muxoxos e palavrões contra ele.
Sempre que a mãe tinha essas crises, ninguém conseguia segurar. Ia para a rua odiando tudo e todos dentro de casa. Então ele ou a irmã se revezavam na vigília. Não costumava durar muito porque arranjavam um jeito de colocar, enquanto ela se distraía, um calmante na bebida que tomava.
Fora internada algumas vezes, mas voltava tão triste e abatida que resolveram não fazer mais.
Ela foi mudando aos poucos e não se deram conta, ou a importância necessária, até a primeira escapada.
Procuraram pela mãe como loucos e a encontraram com mais duas pessoas, deitada num chão sujo e dividindo o cobertor de alguém.
O pai havia morrido há alguns anos, e na mesma época perdera um irmão em um acidente. A mãe, apesar do sofrimento, continuou a levar a vida adiante. Transformou-se numa mulher triste, quieta, de poucas palavras.
Ainda na calçada oposta, observava enquanto ela conversava com um e outro que passava, rindo sozinha quando imaginava ver ou ouvir algo divertido.
Estava cansado e pensou que desta vez a manteria por um bom tempo à base de remédios. Com eles ela ficaria deitada ou dormindo mais. Não suportava quando a via com aquele aspecto de demência, mas tinha medo de perdê-la para sempre um dia.
Parece que vai parar na praça agora. Deve sentar um pouco. Talvez seja a chance para aproximar e colocar o sedativo. Poderia falar com ela novamente, pois tinha a certeza de que nem mesmo lembraria que estivera com ele há pouco.
Viu que havia uma lanchonete ali perto. Compraria um sorvete e misturaria o medicamento. Nunca vira a mãe recusar um sorvete. Sempre gostara. Com ou sem crise.
Quando chegou perto e ofereceu a ela, imaginou ver um pequeno brilho em seus olhos e a boca abriu com um enorme sorriso. Como uma criança gulosa devorou aquele creme gelado.
Não demorou muito para que ela recostasse a cabeça em seu ombro e se deixasse levar…
09/10/2011.
Por candida, em 06-10-2011 - 14h20
A casa de praia
Cândida Albernaz
A ventania faz com que as cortinas se movimentem de forma desordenada. Lá fora o som da água de encontro às pedras provoca uma sensação de medo.
A cor do mar nessa época do ano me agrada, sempre gostei do inverno na praia.
Você e eu costumávamos vir para cá e à noite, enquanto tudo era silêncio, nadávamos até a exaustão. Competir. Não havia notado antes, mas competíamos em quase tudo. Até mesmo na escolha da cor de nossa casa. Você queria branca, e eu tangerina. Depois de pintada, em toda a redondeza podia ser vista mesmo de longe, a casa de tom forte contrastando com a claridade do dia.
Quando me disse que ia embora, apostei que voltaria logo e então seria eu quem não ia querer que ficasse.
Não voltou e esperei por muito tempo não perder a aposta.
Mudei, não sou mais a mesma. Se antes provocava discussões em qualquer situação, hoje me aquietei e quase não falo. Penso, penso o tempo todo. Dizem que quando perdemos algo, aquilo se torna quase perfeito em nossas lembranças. Talvez seja assim, mas gosto, porque me traz saudades boas.
Você passou a não ter defeitos. Eu também. Hoje acho que nos amamos menos do que queríamos. Desejávamos muito mais o amor do que a nós mesmos.
Quando sugeriu que morássemos aqui, aleguei que era urbana e não conseguiria viver longe do movimento da cidade. Você precisava de tranquilidade para escrever e eu de vida noturna para respirar.
Veio e ficou por dois meses sem que eu o procurasse. Pedi arrego e numa noite quando não suportava mais sua falta, cheguei sem avisar. Você não estava e esperei. Acabei dormindo e já era dia quando abri os olhos e vi que me olhava. Pediu desculpas e eu não quis ouvir mais nada. Não nos separamos em todo o fim de semana.
Passei a vir todas as quintas e voltar na segunda. Tentou me falar sobre alguma coisa, mas não permiti. Ficávamos grudados um no outro e com o tempo achei que não tinha mais porque ter medo.
Um dia foi à cidade sem avisar e antes que pudesse abraçá-lo pela surpresa, despejou em cima de mim que apesar de gostar de estar comigo, não me amava como antes. Queria o meu bem e isso era muito pouco.
No dia seguinte viajou para outra cidade com um novo romance que fugiu do papel. Precisava se sentir assim para que continuasse escrevendo. Respirar amor, expectativas e uma ponta de sofrimento para que tivesse inspiração. Era uma necessidade, me afirmou.
Fiquei com o sofrimento inteiro e continuei a respirar amor.
Mesmo quando me recordo desse dia, não o sinto ruim.
Estou lendo seu segundo romance, e me reconheço em alguns trechos. Agradeço o carinho com que me descreveu. Quando recebi seu livro e a carta em que falava sobre ele, não tive sobressaltos ou aperto no peito. Passou.
A solidão que busco diante do escuro do mar me causa prazer. Fico muito mais tempo aqui do que jamais imaginei gostar.
Por candida, em 29-09-2011 - 2h09
O filho de Olavo
Cândida Albernaz
Estava cismado com as reticências de Maria Regina
Fazia pouco tempo ela vinha se chegando como quem não quer nada. Soltava uma frase aqui ”Não sei o que há com a Terezinha…”, outra ali “Terezinha não tem aparecido na rua…”.
Ele que já a conhecia bem, não costumava dar ouvidos às fofocas que fazia, mas ela estava insistindo “coitado do Antônio, tem parecido tão triste…”.
À tarde, enquanto limpava o balcão e retirava os últimos copos que estavam sobre ele, Maria Regina entrou:
– Ué, vai fechar mais cedo?
– O movimento está fraco.
Jogou o pano que usava sobre o ombro e virou-se para a pia onde abriu a torneira e lavou pratos e copos.
– Viu a Terezinha?
– Faz uns dias que não a vejo. O Antônio foi quem esteve aqui no bar outro dia.
– Eu sei porquê ela não tem aparecido. Aliás, nem aqui nem em lugar algum.
Ele agora arrumava as prateleiras de bebida e verificava a temperatura do freezer.
– Você conhece a viúva do Olavo, não?
– Claro. Todo mundo conhece todo mundo nessa cidade imensa em que moramos.
Estava sem paciência com aquela conversa. Queria sossego. O dia foi difícil e principalmente não rendeu muito.
Ela fingiu não perceber a ironia em sua voz e continuou:
– Então. A viúva andou espalhando que o segundo filho da Terezinha era do Olavo, que antes de morrer contou a ela e pediu perdão.
Ele parou o que estava fazendo. Não sabia se acreditava ou não. Antônio era seu amigo e afilhado de casamento.
– De onde você tirou esta história, Maria Regina?
– Não tirei de lugar nenhum, não senhor. É o que estão dizendo.
– Quem estão?
– Ah! Nem lembro quem contou, mas parece que é verdade. A viúva até deu uma coça nela chamando de sem-vergonha e mulher safada. Terezinha está trancada em casa com a cara inchada de apanhar. E de chorar também.
– Maria Regina, isto é sério!
– Eu sei e não sou mulher de ficar inventando coisa. Já reparou que o segundo filho deles é moreninho? Todo mundo é louro naquela casa. Na época disseram que parecia com avô de Antônio. Sei! Se você reparar bem, é a cara do Olavo. Até a pinta do lado do nariz o garoto tem igual.
Ele ficou pensando em Antônio. Era doido pela mulher.
– Disseram que trancou a Terezinha dentro do quarto. Não sai nem para comer. Você acha que ele a coloca para fora? Ou faz coisa pior?
– Chega, preciso fechar. É melhor você ir para casa.
Ela saiu andando e resmungando que não contaria mais nada a ele. Só estava querendo ouvir uma opinião.
Pensou que se tudo o que ela falou for verdade, o casal precisava de ajuda. Como ia fazer? Antônio, homem fechado que não costumava se abrir com ninguém. Os dois eram amigos desde criança e mesmo sem falar muito, um conhecia bem o outro. Sabia também que por maior que fosse o coração de Antônio, quando a raiva explodia, ele podia assustar quem estivesse por perto.
Precisava encontrar o amigo. Resolveu primeiro passar em casa para tomar um banho e jantar enquanto decidia como faria. Mais tarde foi bater na porta de Antônio.
Demorou para que abrissem. O menino à sua frente tinha o rosto assustado. Olhou bem e reparou na pinta e no cabelo bem preto e liso. Como o de Olavo.
– Seu pai, onde está?
Não respondeu. Fitou-o como se pedisse ajuda. Afastou a porta e segurando a mão do garoto de cinco anos, pediu que o levasse até o pai.
Foram andando pelo corredor estreito e em frente ao que imaginava ser o quarto do casal, que estava fechado, pararam.
– Antônio está aí dentro?
Ele acenou com a cabeça afirmando.
– E sua mãe?
Os olhos do menino encheram-se de água.
– Está dormindo. Papai brigou com ela, gritou muito e então ela fechou os olhos.
– Como assim? Sua mãe foi dormir a que horas?
– Não sei, acho que foi ontem de manhã. Quando acordei, eles brigavam e mamãe chorava muito. Depois eles ficaram quietos e eu abri a porta. Vi papai colocando minha mãe na cama. Já estava dormindo e ele não me deixou falar com ela. Pediu para não fazer barulho e sair dali.
– Você não falou mais com Terezinha?
– Não.
– E seu pai, o que ele disse depois a você?
– Nada. Sentou na cadeira do lado da cama e está lá até agora.
Abriu a porta do quarto. Havia uma mancha escura no peito de Terezinha que continuava em volta dela. Antônio, sentado na cadeira pareceu não perceber que havia mais alguém ali.
Aproximou-se dele que sem se virar disse:
– Tire-a daqui e me leve junto. Acabou.
Por candida, em 22-09-2011 - 0h28
Ainda estava escuro
Cândida Albernaz
Acordava exausta todas as vezes em que o sonho se repetia. E isto vinha acontecendo com maior frequência.
Sentia o peito acelerar e os olhos abriam de uma só vez, arregalados, como num susto.
Sempre a mesma coisa, um homem cujo rosto não identificava, caminhava atrás dela. Era uma rua clara, com sol a pino, e sentia-se quase alegre. Então ouvia passos e virava o pescoço para olhar. Quando retornava a posição inicial, notava que a rua à sua frente estreitava-se como um funil. Através daquele espaço mínimo para onde se dirigia, e tinha a sensação de não caber, observava uma escuridão. Quanto mais se aproximava do único lugar por onde poderia escapar, mais sombrio ficava.
Nunca conseguiu transpor aquele trecho, porque assim que tentava fazer seus olhos acostumarem, o homem a tocava e ela gritava apavorada.
Pensava e não conseguia entender o porquê do mesmo sonho.
Melhor levantar e tomar um banho, de qualquer forma não voltaria a dormir. O dia seria longo e cansativo, principalmente por não haver descansado o suficiente.
A irmã por parte da mãe, que morava com ela, devia continuar deitada. Sempre saía do quarto depois do meio dia.
Amavam-se, conviviam bem, mas eram completamente diferentes uma da outra.
Ana costumava ter algo de muito divertido, segundo ela, para fazer. Saía quase todas as noites. Vivia de uma pensão deixada pelo pai, que morrera logo depois da mãe das duas.
Seu pai, que ainda vivia, não possuía uma condição financeira da mais favorável. Nunca fora ambicioso, e como repetia sua mãe, foi o que mais a atraiu “um homem que pensa no hoje, e que me faz feliz dia após dia”. Agora ele mora num pequeno apartamento e é ela quem o ajuda com as despesas. Aprendera a respeitar aquele homem sonhador.
Divertia-se com as histórias que Ana contava. Até mesmo sobre cada novo namorado que trazia para casa. Esse era o único senão na paz das duas. Tiveram alguns problemas com aquele entra e sai de homens estranhos onde residiam.
Ela era diferente. Tinha dedicação ao trabalho nas faculdades em que dava aulas. Com poucos amigos, sua maior distração era estar em uma sala de cinema.
Vivia cada personagem apresentado na tela como se fosse ela mesma. Colocava-se no lugar deles, e por diversas vezes, ao contar um filme para a irmã, esta ria, dizendo que a vida real podia ser muito, mas muito mais interessante. Imaginava que talvez fosse, mas não a dela. Tinha um medo enorme do ser humano e revestia-se de um escudo por onde quase nada transpassava.
Saindo do banheiro encontrou Ana deitada em sua cama com o rosto inchado de chorar. Não houve tempo de perguntar qualquer coisa, porque a irmã foi contando que o cara com quem estava há três meses, “aquele, que parecia ser tão legal” por conta de um ciúme ridículo, bateu em seu rosto e ainda chutou sua barriga. O choro voltou com força e os soluços faziam com que o corpo tremesse. Abraçou a irmã e esperou que acalmasse. Colocou nela uma camisola e aguardou que dormisse antes de sair. Conversariam mais tarde.
Deu aulas o dia inteiro e ligou algumas vezes para saber se estava tudo bem. A garota que trabalhava para elas dava as informações.
A noite, voltando para casa, parou numa delicatessen para comprar um vinho e alguma comidinha gostosa para as duas.
Quando entrava no carro, reconheceu o namorado da irmã que se aproximou dizendo que precisava falar com ela. Afirmou que Ana não queria atender as ligações. Pediu que caminhasse um pouco com ele e diante de uma recusa, segurou com firmeza seu braço. Achou melhor não reagir e o seguiu.
Arrependeu-se logo adiante. Na rua em frente, fez com que parasse e sem que tivesse tempo para qualquer reação, ganhou um soco no nariz. Caiu no chão recebendo mais um. Ainda tonta percebeu que ele retirava parte de sua roupa, e em seguida penetrou-a com força. Gemia em seu ouvido deixando recados para a irmã. “Ela não vai me fazer de imbecil. Pensou que poderia me enrolar saindo comigo e com outro cara. Agora tenho a irmãzinha também. Avise que ainda não acabei. Quanto a você, sei que gostou. Conheço mulher do seu tipo. Banca a difícil para a gente forçar. É um joguinho, não é? Não se preocupe porque dou conta das duas”.
Fechou o zíper da calça e saiu andando.
Estava muito escuro. Olhou para o final da rua e teve a sensação que esta se fechava. Imaginou se conseguiria sair dali. Como passar por um fio tão estreito? Sentiu o corpo mole e os olhos fechando.
Talvez acordasse exausta quando o abrisse.
18/09/2011
Por candida, em 15-09-2011 - 0h22
São só as horas que precisam passar
Cândida Albernaz
São as horas. Elas me consomem, correm atrás de mim enquanto tento buscá-las.
Hoje durmo mais apesar dos ruídos noturnos. Não me acostumei a eles, ainda os temo, mas como não param, durmo apesar deles. Não tenho sonhos: pesadelos. Me disseram que com o tempo volto a sonhar, o que me parece impossível. Sonhos têm a ver com o que fazemos ou gostaríamos de fazer, muitas vezes com a esperança.
Não há ontem ou amanhã, espero que o hoje passe. Mentira, o ontem existe e é por ele que estou aqui. Apenas tento não pensar.
Tenho regulamentos e o relógio exige que obedeça horas com as quais meu corpo não concorda. Onde estou, os horários são rígidos, mas as regras, estas são implacáveis: nunca antes obedeci a alguma.
Daquele dia em especial, só me arrependo de uma coisa: você meu irmão, confiou no que prometi. Hoje, quando olho em seus olhos quase infantis, abaixo os meus e você os mantêm firmes e opacos. Jamais havia se envolvido com atitudes erradas, gostava do correto, seguindo-o com prazer: aqui dentro não há o prazer, menos ainda o correto.
Pensei em tudo, foi o que imaginei, e pedi que apenas me esperasse com o carro ligado: como insisti para que participasse! Tive que garantir que não tiraria nada de ninguém que necessitava. Os bancos, que “sugam o povo”, têm seguro e o que levássemos, só eles perderiam. Ninguém seria ferido ou morto: foram quatro, inclusive a menina morena que dava a mão à mãe, confiante que assim estaria protegida.
Depois de dias programando tudo com os rapazes, resolvi chamá-lo. Disse de cara que preferia não saber do que se tratava, mas o convenci do contrário: irmãos unidos, irmão que precisa do outro, irmão que leva o caçula para aquele inferno.
Soube do que fizeram com você e ainda fazem. As malditas horas que não passam e arrastam meus pensamentos com elas.
Não tenho como defendê-lo, porque neste lugar miserável a lei é outra.Tenho medo que enlouqueça: você e sua bondade na forma de ver as pessoas. Não conversamos, mas acredito que não veja mais nada desse jeito.
Quando os homens chegaram eu estava lá dentro e enquanto as pessoas se esgueiravam pelos cantos, os tiros fizeram com que dois dos nossos, fossem alvos certeiros.
Eu não sabia ainda, mas você já estava na mão deles do lado de fora.
No banco um rapaz que tentou proteger o irmão menor com um abraço, acabava de levar um tiro. Soube depois: também não resistiu.
Não pude protegê-lo e você tem dezoito anos e você acreditou em mim e você queria continuar estudando para “vou ser alguém na vida” e você cuidou de nossa mãe até que ela se foi. Eu tirei você de suas crenças, com o poder do irmão mais velho e admirado que o convenceu a entrar neste mundo do qual só ouvíamos falar.
Vai cumprir menos tempo do que eu, e peço que aguente firme. O pesadelo que vive acordado vai acabar. São só as horas que precisam passar.
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