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	<title>Em cada canto um conto... &#187; filha.</title>
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	<description>Cândida Albernaz</description>
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		<title>Decisão</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 13:43:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>candida</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
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		<description><![CDATA[    Decisão
                                                                           Cândida Albernaz
 
Sentada em frente ao piano, olhou a foto na parede. Nela usava um vestido branco, com os ombros à mostra. As mãos em posição correta sobre o teclado branco e preto davam a impressão de que a qualquer momento começariam a se mover.
         Lembrava-se bem dessa noite. As notas musicais fluíam de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>    Decisão<br />
                                                                           Cândida Albernaz<br />
 <br />
Sentada em frente ao piano, olhou a foto na parede. Nela usava um vestido branco, com os ombros à mostra. As mãos em posição correta sobre o teclado branco e preto davam a impressão de que a qualquer momento começariam a se mover.<br />
         Lembrava-se bem dessa noite. As notas musicais fluíam de seus dedos numa melodia forte que em alguns momentos parecia sumir. Quando se levantou para agradecer, procurou por Antônio na platéia.<br />
         Ao encontrá-lo sorriu, mas ainda a tempo de ver que as mãos dele soltaram rapidamente das mãos finas da garota que estava ao lado.<br />
         Seus olhos se encheram de um líquido que escorreu pela face sem obedecer ao desejo de não demonstrar o que sentia.<br />
         Ouviu quando alguém falou que estava emocionada com a música que acabara de executar. Melhor assim.<br />
Há algum tempo sentia que havia algo errado entre eles.<br />
         Já havia notado antes um olhar fugidio aqui, um toque ali e a urgência de estar junto conversando sobre assuntos que muitas vezes não a interessavam.<br />
Foram comemorar o sucesso do recital num restaurante onde haviam feito uma reserva antes. A garota foi com eles, era sua irmã.<br />
         Estavam noivos nessa época e o casamento marcado para dali a três meses.<br />
         Em casa, discutiu com a irmã, chocando a mãe com as palavras que usavam. No final, depois de um tapa onde seus dedos marcavam o rosto muito branco da outra, ouviu que eles não tinham culpa, se amavam e não fora proposital. Estavam esperando o melhor momento para contar.<br />
         Trancou-se no quarto e viu o dia amanhecer. Avisou a mãe que tocaria ainda esta noite, mas que no dia seguinte faria uma viagem.  Pensou em ficar na casa de uns parentes em Minas. Eles possuíam piano e não deixaria de exercitar sua música. Falou que a irmã poderia fazer o que quisesse, o noivado estava desfeito e não pretendia conversar com Antônio. Fossem felizes. Ou não.<br />
         Sua estada lá se prolongou por alguns meses. Estudava muito e fez duas apresentações.<br />
         Soube pela mãe que a irmã e o ex-noivo resolveram casar. Como ele era representante farmacêutico e viajava muito, não havia necessidade de morarem ali. Alugaram uma casa numa cidade próxima.<br />
          Durante o período em que estivera fora, recebera a visita dos pais por duas vezes, que na época, reclamaram dizendo que ela estava engordando muito. Nunca fora desleixada, e deveria continuar não sendo.<br />
 Sete meses depois, estava de volta.<br />
         Quando abraçou sua mãe, esta não se conteve e olhando a barriga proeminente que ostentava, chorou. Não havia motivo. Sentia-se feliz. Tinha agora sua própria família. Por que sua tia não me falou nada? Você já sabia quando saiu daqui&#8230; Afirmou com a cabeça e disse que precisava organizar tudo. Nasceria em um mês.<br />
         A foto ao lado da primeira mostrava uma menina com dez anos, abraçada a ela. Sorriam as duas.<br />
         Gostava de olhar aquelas fotos, uma ao lado da outra. A primeira já não trazia tristeza alguma, só nostalgia e a segunda provocava nela um sorriso aberto.<br />
         Ouviu a voz da filha chamando e levantou-se para ver o que queria.<br />
         Sua mãe não estava mais entre elas. Se fora no ano anterior. Durante o velório, foi uma das poucas vezes onde encontrou a irmã e Antônio. Tocaram-se formalmente. Esqueceu o amor da juventude, não se lembrou de perdoar a irmã. Não quis.<br />
         Apressou a filha, ou se atrasaria para sua audição. Agora possuía um empresário e fazia apresentações em muitos lugares.<br />
         Em suas viagens, a menina estava sempre com ela.<br />
         Sua vida era organizada e tranqüila. O único problema era quando a  filha falava em conhecer o pai. Dissera uma vez que ele havia morrido em um acidente. Mas ela queria fotos, sobrenome, lugar onde morou.<br />
         A filha crescia e a curiosidade aumentava. De qualquer forma, não havia tempo para refletir sobre isso agora.<br />
         Conseguiu resolver sua vida, que parecia em pedaços, uma vez. O faria de novo se fosse preciso,<br />
         Pensaria em algo. Sempre fora boa em pensar.</p>
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		<title>Gosto de olhos</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2010 07:19:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>candida</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[filha.]]></category>
		<category><![CDATA[louca]]></category>
		<category><![CDATA[olhos]]></category>

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		<description><![CDATA[                              Cândida Albernaz
Gosto de olhos moleques, que encaram, firmam e não fogem.
 Quando o conheci, era um garoto ainda e buscava o mundo para si, como se este estivesse à disposição.
 Seus pais, que se mudaram para perto de minha casa há pouco, encaravam nossa amizade com certa restrição.
  O problema era minha mãe. Depois de ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>                              Cândida Albernaz</p>
<p><strong>Gosto de olhos moleques, que encaram, firmam e não fogem.</strong></p>
<p> Quando o conheci, era um garoto ainda e buscava o mundo para si, como se este estivesse à disposição.<br />
 Seus pais, que se mudaram para perto de minha casa há pouco, encaravam nossa amizade com certa restrição.<br />
  O problema era minha mãe. Depois de ter o terceiro filho, ela modificou. Conseguia em um mesmo dia arrumar toda a casa, enfeitá-la com flores, levar-nos ao parque, mas sem que esperássemos, trancava-se no quarto, onde nenhuma luz podia entrar. Do lado de fora, onde éramos obrigados a ficar, ouvíamos seus soluços. Isso podia durar muitos dias. Só meu pai, por diversas vezes através da força, a convencia tomar banho ou comer.<br />
 As crianças chamavam-na de “louca”.<br />
 Você de longe, me olhava e saía a defendê-la. Por mim.<br />
 Seus olhos me acalmavam.</p>
<p><strong>Olhos que sorriem de forma safada, que buscam outros olhos sem medo.</strong></p>
<p> Nos últimos três anos, seus pais o matricularam numa escola fora de nossa cidade. Eles acharam melhor que fosse assim. Diziam que “será alguém na vida”, e se continuasse aqui, não poderia crescer.<br />
 Isolei-me de todos nessa época. Costumava ficar sozinha e quase não ia a lugar algum.<br />
 Fazia o segundo grau. Estava na frente de casa chegando da escola, quando do outro lado da rua vi você parado. Olhava-me: de outra forma.<br />
 Veio até onde estava e conversamos por muito tempo. Quis saber tudo a seu respeito e você me contou sobre sua vida cheia do que fazer, tão diferente da minha.<br />
 Passamos a nos encontrar todos os dias daquele minúsculo mês em que ficou com sua família.<br />
 Sua mãe quando nos via, olhava esquisito, como se eu a incomodasse. Fingia não perceber. Sempre que chegava a casa, deixava minhas coisas no quarto e atravessava a rua para chamá-lo.<br />
 Dois dias antes de você ir embora novamente, não fui à aula e fiquei em casa com minha mãe, que já estava trancada no quarto havia uma semana.<br />
 Você veio e na minha cama, enquanto não tirava meus olhos dos seus, buscou em meu corpo o prazer que eu só conhecia sozinha até então.<br />
 No dia seguinte, sem que ninguém soubesse, esperei por você no mesmo lugar.<br />
 </p>
<p> <strong>Olhos que tentam dizer tudo, mas você não adivinha o que falam.</strong></p>
<p> Nos próximos cinco anos, passei sem vê-lo. Seus pais costumavam viajar para encontrá-lo e nas poucas vezes em que me deram atenção, disseram que talvez não voltasse mais. Já estava até mesmo trabalhando por lá.<br />
 Escrevi várias cartas e pedi que seus pais as entregassem. Havia me dito que sua vida era cheia do que fazer e o tempo, curto. Devia ser assim mesmo. Nunca houve resposta.<br />
 Minha mãe, nesse período, foi internada. Tentara contra a vida algumas vezes e disseram ser melhor para ela. Não havia mais momentos de euforia, só depressão.<br />
 Estava saindo de casa para visitá-la quando o vi atravessando a rua. Chegou perto de mim e apresentou-me a garota: sua noiva e se casariam no início do próximo ano.<br />
 Busquei seus olhos, mas não consegui entender o que diziam. Pela primeira vez.<br />
 Então você me indagou:<br />
 “Quem é essa menina linda a seu lado?”.<br />
 “Minha filha”.<br />
 “Soube que teve uma filha. Casou-se?”.<br />
 “Não, o pai foi embora”.<br />
“Desculpe”.<br />
“Melhor assim, sei como criá-la”.<br />
A garota, como era mesmo o nome dela? , chamou-o. Despediu-se e se foi. Olhou ainda uma vez para trás. Nossos olhos se encontraram. Entendi, como sempre.<br />
 Abraçou a noiva com mais força e não se voltou mais.<br />
Fui ver minha mãe junto com Alice. Ela costuma ir comigo a todo lugar.<br />
Tem cinco anos, minha filha.<br />
Você não perguntou.</p>
<p><strong>Gosto de olhos, não importa a cor ou o formato.</strong>   </p>
<p>             *                    *                    *                    *                    *                    *<br />
<strong>Gosto de olhos moleques,<br />
Que encaram, firmam e não fogem.<br />
Olhos que sorriem de forma safada,<br />
Que buscam outros olhos sem medo.<br />
Olhos que tentam dizer tudo,<br />
Mas você não adivinha o que falam.<br />
Gosto de olhos,<br />
Não importa a cor ou o formato.</strong></p>
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		<title>Para sempre</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Apr 2010 22:25:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>candida</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
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		<description><![CDATA[Para sempre
        Cândida Albernaz
 As fotos estavam espalhadas pela mesa. A risada solta em algumas delas, fez com que risse também. Passou os dedos sobre uma e outra. Na verdade, o que queria era sentir o contato da pele e o aperto do abraço.
 O resultado do exame saiu há uma semana. Foi comprovado. E então¿ Continuou com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para sempre<br />
        Cândida Albernaz</p>
<p> As fotos estavam espalhadas pela mesa. A risada solta em algumas delas, fez com que risse também. Passou os dedos sobre uma e outra. Na verdade, o que queria era sentir o contato da pele e o aperto do abraço.<br />
 O resultado do exame saiu há uma semana. Foi comprovado. E então¿ Continuou com a mesma sensação de vazio. Não mudava o que sentia.<br />
 Há vinte anos casara e permanecera assim por quatro. A mesma idade que a filha tinha quando decidiu sair de casa.<br />
 A mulher fora clara com ele. Não o amava e a filha que cuidara poderia ser ou não sua. A sensação que teve foi de morte. O corpo parecia perder o sustento e pensou que fosse cair. Não sabe quanto tempo permaneceu parado, e quando notou, a mulher não estava mais ali. Foi até o quarto da menina que ainda dormia. Sempre achou que se pareciam. Os lábios finos, o corpo comprido e a cor dos cabelos. Como os seus quando  era criança.<br />
 Colocou algumas roupas dentro de uma bolsa e foi para a casa dos pais. A menina apareceu lá alguns dias depois e abraçaram-se com força. Ela pediu que voltasse, não podia. A mulher o olhava enquanto os dois conversavam. Mal conseguia ficar no mesmo ambiente que ela. Pediu que fosse embora e deixasse a filha com ele, mais tarde a levaria para casa. Não. A garota tinha escola, quem sabe amanhã.<br />
 Separaram-se e passou a ver a filha em finais de semana alternados.<br />
 O homem com quem sua ex-mulher casou-se decidiu morar em Miami. Tinha negócios lá e precisava estar por perto. Com uma autorização judicial levaram a menina com eles.<br />
 Via a filha uma ou duas vezes por ano durante os cinco que ficaram fora.<br />
 O cara quebrou, e resolveram voltar. Decidiu procurar a ex-mulher e perguntar quem era o pai da menina. Quem mais além dele&#8230;<br />
 Ela afirmou que poderia ser o atual marido, vizinho do casal na época. Sempre mantivera aquele relacionamento.<br />
 Pediu para ver a filha. Chegaria mais tarde. Avisou a mulher que faria um exame de DNA. Riu dele. Para quê¿ Não gostava da garota¿ Não deu explicação, apenas queria.<br />
 Voltou a vê-la sempre. Costumavam sair juntos, brincar e conversar. Adiou a decisão.<br />
 A foto que tinha nas mãos trouxe uma tarde em que saíram com uma amiga dela. Depois do cinema andaram até a praça em frente onde havia um pequeno lago e ele subiu no parapeito que o margeava chamando as duas. Ela olhou de um lado para o outro pedindo que descesse, pois chamariam sua atenção. Andou ali em cima e insistiu para que subissem. As duas resolveram segui-lo. Como num trenzinho, um com as mãos na cintura do outro, deram a volta rindo.<br />
 Quando o segurança se aproximou, correram como crianças. Chamou-o de pai louco, era o único que conhecia que fazia brincadeiras daquele tipo, os de seus amigos eram sérios.<br />
 Alguns dias depois quando almoçava num restaurante, os três juntos entraram. A filha veio falar com ele. Dali em diante, não conseguiu comer mais nada.<br />
 Os olhos dela eram redondos como os daquele homem¿ Pareceu que ela movimentava as mãos enquanto falava da mesma forma que ele¿ E o sorriso¿ Achava que a boca era como a sua. Mas a risada&#8230;<br />
 Avisou que queria o exame. Todo o procedimento necessário foi feito. Na última vez em que se encontraram a garota chorou e ele também. Pediu que desistisse, não era capaz. Estava sem dormir direito, vivendo pela metade. Ela não entendeu e deixou de querer vê-lo.<br />
 O resultado saiu há três meses. Muito mais do que isso não via a filha que agora morava numa outra cidade com a mãe e aquele sujeito.<br />
 Ligou para ela e tentou dizer que precisava encontrá-la. Antes que terminasse de falar, ouviu o sinal do telefone sendo desligado.<br />
 Escreveu e recebeu a carta de volta, intacta.<br />
 Foi até lá, não estava e não voltaria nos próximos dias. Viajou com os avós.<br />
 Pegou mais uma vez o papel onde estava impresso o resultado.<br />
 Não era sua filha.<br />
 Seria sua filha para sempre.</p>
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		<title>Acabou</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 10:37:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>candida</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[acabou]]></category>
		<category><![CDATA[estrada]]></category>
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		<description><![CDATA[Cândida Albernaz
O sol forte provocava uma claridade que quase ofuscava. As folhas das árvores permaneciam paradas. Vento, nem pensar.
 Ela parecia não ver ou sentir esse calor. Sentada sob a pequena árvore, olhava o asfalto que beirava a estrada.
 Um caminhão acabara de parar e o motorista fazia sinal para que subisse. Ouvia o que ele dizia, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cândida Albernaz<br />
O sol forte provocava uma claridade que quase ofuscava. As folhas das árvores permaneciam paradas. Vento, nem pensar.<br />
 Ela parecia não ver ou sentir esse calor. Sentada sob a pequena árvore, olhava o asfalto que beirava a estrada.<br />
 Um caminhão acabara de parar e o motorista fazia sinal para que subisse. Ouvia o que ele dizia, mas não o olhava. Depois de insistir por algum tempo, desistiu. Foi embora gritando palavrões. Não se sentia ofendida. Era o terceiro que parava chamando-a. Pensavam que era uma dessas garotas de estrada.<br />
 Sentara ali por acaso. Cansara de caminhar.<br />
 Saiu de casa vestida como estava. Usava um short jeans e uma camiseta laranja. Os papéis que antes tinha nas mãos, agora estavam espalhados à sua volta.<br />
 Andara um bocado, só agora percebia. A roupa ainda estava úmida, mas o cabelo quase seco.<br />
 Colocou a cabeça entre os joelhos e começou a chorar. Não teria como apagar tudo o que aconteceu. Foi feito. Não fazia idéia de quanto tempo estava ali.<br />
 Tinha que voltar.<br />
 Outro carro diminuiu a marcha e quase parou. Levantou-se e deu as costas começando o caminho de volta. Sabia o que a esperava, mas nunca fora mulher de fugir de suas responsabilidades.<br />
 A casa para onde se dirigia era grande, com uma enorme varanda onde o vento parecia brincar. Duas redes ocupavam espaço de destaque. Costumava se deitar ali à noite, com a filha ao lado para que dormisse. Contava histórias inventadas na hora que a menina adorava ouvir.<br />
 A patroa sempre a tratou bem, o marido dela, nem tanto. Era um homem ríspido, acostumado a dar ordens. Procurava obedecê-lo e evitá-lo.<br />
 Quando foi morar na fazenda, sua filha estava com dois anos. Ia fazer seis no próximo mês. Estava sozinha e precisava alimentá-la. O pai, um caminhoneiro com família em outro estado, o que veio a descobrir depois, sumiu quando soube da gravidez. A cidade pequena em que vivia, pareceu ficar menor ainda. Não a queriam. Seu pai, principalmente. Costumava repetir que ela não era mais sua filha, que o matara de vergonha, que sumisse dali com aquela bastardinha.<br />
 Dona Ana ofereceu o emprego de faz-quase-tudo-o que-for-preciso e ela aceitou. Disse que a menina não seria problema, porque espaço era o que não faltava.<br />
 Agora teria que olhar a patroa de frente. Ela já devia ter encontrado o marido no chão da cozinha.<br />
 Pela manhã, estava arrumando o quarto dos dois, quando um barulho oco, na gaveta de cabeceira do patrão chamou sua atenção.<br />
 Todos os dias catava o que encontrava espalhado e guardava dentro dos armários e gavetas.<br />
 Ficou curiosa com o barulho e forçou o pequeno fundo. Escorregaram dali uns papéis que se apressou em pegar para colocar de volta. Eram fotografias. Nelas, viu sua filha&#8230; e aquele homem. Em algumas, não vestia nada e fazia pose de mulher adulta. Em outras ele e ela juntos. Homem e mulher. Sua menininha com o rosto assustado e triste. Soltou um gemido e foi até a cozinha. Ele estava sentado tomando o café que preparara mais cedo.<br />
 O facão em cima da pia. As costas voltadas para ela. A força que não imaginava ter. Não se recorda quantas vezes repetiu o movimento.<br />
 Quando saiu ele estava caído no chão. Foi até o banheiro e entrou no chuveiro. Sangue escorria de sua roupa, fazendo com que a cerâmica branca ficasse vermelha.<br />
 Voltou ao quarto, pegou as fotos e saiu andando. Lembrou-se que as deixou espalhadas na beira da estrada.<br />
 Sua garota chegaria mais tarde. A patroa foi levá-la para a escola.<br />
 Precisava trocar de roupa e ir até ela. Antes que viessem buscá-la. Tinha que olhar nos olhos da filha, fazê-la entender que acabou.</p>
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