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Resoluções de fim de ano

Sou leonina, com lua em Peixes e ascendente em Escorpião.

Nem meu signo solar, muito menos o lunar e o ascendente explicam minha mania de listas. Ela vem de algo mais profundo e negligenciado pela astrologia. Eu tenho mãe em Virgem.

FullSizeRender-2 A psicanálise freudiana pode tentar explicar a minha necessidade de ser tão detalhista e específica quando elenco tarefas.  Tenho listas pra tudo em todos os cantos. Nos celular, um bloco de tarefas permanente, intitulado Pendências, onde enumero incumbências diversas como uma reunião que preciso marcar ou o anúncio que quero fazer pra vender aquele desumidificador que comprei em 10 prestações e só usei uma vez.

Na bolsa, tenho dois caderninhos. O preto com tarefas e atividades do meu trabalho como vendedora: reuniões, clientes que preciso ligar, empresa que tenho que pesquisar contato. E o vermelho que registra anotações e ideais literárias, assuntos para o blog, artigos relacionados a algum tema de interesse…. No computador, no bloco de tarefas, muitas vezes reescrevo as obrigações listadas no caderninho preto. E não é incomum encontrar uma mesma tarefa relatada em listas distintas. Para organizar todas estas anotações, muitas vezes, me pego dobrando uma folha de papel A4 em quatro partes e passando a limpo as atividades mais urgentes de cada bloco ou caderno.

Eu tenho mais habilidades em passar listas a limpo do que propriamente executá-las. E acabo levando para a terapia a minha eterna sensação de deveres incompletos. Tenho uma vasta lista de coisas que relacionei e planejei, mas nunca fiz.

Não sei se isso tem a ver com minha lua em Peixes, acho improvável. Os peixes não procrastinam. Se organizam em cardume e cumprem suas tarefas cotidianas de seguir o destino ou a maré em busca de alimento ou local para reprodução. O mesmo fazem os escorpiões e os reis da selva. Sem necessidade de listas, cumprem o que se destinam, enquanto já passaram seis meses, minha pequena Caliandra está desfolhada e eu não liguei pro médico de bonsai, cujo telefone consta na minha lista de Pendências.

Por isso, e por tantos outros motivos relacionados a ansiedade, ao excesso de informações e estímulos que recebemos diariamente, sou contra resoluções de fim de ano. Já são tantas as obrigações que ainda me dispor a mudar ou fazer coisas novas… Não. Definitivamente, não. Mas enquanto me convenço da resolução de não fazer resoluções, vou colocando nas listas e cadernos os desejos de emagrecer 11 quilos, comprar uma bicicleta para andar todos os fins de semana, voltar para o pilates, comer mais verduras, escrever semanalmente no blog, revisar o livro juvenil, finalizar o roteiro do filme, pintar o corredor do meu apartamento com alguma cor que ainda não consegui me decidir…

 

 

 

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Corações ao alto

FullSizeRenderUm cardiologista da Universidade de São Paulo comprovou através de experimentos científicos realizados com dez mil voluntários, que cada coração nasce com um número certo de batidas ao longo da vida. Segundo a pesquisa, uma proteína, encontrada na membrana plasmática dos miócictos, as células do tecido cardíaco, faz o papel de ampulheta vital. O cronômetro, como foi batizada a proteína, descresse a medida em que o coração embrionário, o primeiro órgão de um indivíduo, começa a pulsar. Se aquele feto evoluir e vir a nascer, se durante sua trajetória de vida ele não morrer de acidente de carro, bala encontrada, ou doenças que não cardiovasculares, o seu coração será o único órgão a saber o dia exato de sua parada. A menos que o cérebro do dono do corpo chame para si o direito de interromper a jornada, planejando o fim de todas as pulsações.

A média dos dez mil voluntários foi de 2.649.024.000 palpitações por vida. A equipe de pesquisa ainda não descobriu qual o fator determinante que prolonga as batidas do órgão em um deliberado ser, e diminui consideravelmente noutro, mas fatores genéticos são apontados como as causas mais prováveis de um número de batimentos inferior a média.

Os corredores da universidade estão em polvorosa desde a publicação do artigo cientifico. Teólogos, psicanalistas e até historiadores afirmam que o excesso de amores vividos pela mãe pode influenciar consideravelmente a quantidade de batidas do feto gerado em seu ventre.

Se sofreu demais, se chorou demais, se o coração desta mulher ficou pequeno e agoniado a cada fim de um relacionamento, a probabilidade do coração de seu filho bater mais é maior. Isto, porque de acordo com os teólogos, também da Universidade de São Paulo, o excesso de dor de uma mãe, pode ser compensado na extensão de vida do filho.

Doutores em psicanálise, pesquisadores freudianos da mesma universidade, afirmam o contrário. Cada sofrimento da futura pardieiro, a cada agonia, susto, angústia ou medo vivido por esta mulher será resolutivo na diminuição da quantidade de batimentos do coração do futuro embrião.

Enquanto departamentos diferentes se digladiam pela defesa de suas verdades, os alunos, principalmente os calouros, tentam proteger o coração de aventuras sentimentais. Assim, sem o risco de sofrimento, o prolongamento do destino fica um pouco mais garantido.

Farmacêuticos, estudam o aprimoramento das fluvoxaminas, manserinas, mirtazapinas e reboxetinas. Um complexo que blinde o cérebro e o coração de pulsações desnecessárias.

Filósofos recomendam Platão.

Professores de educação física se preocupam com seus empregos.

Matemáticos obsessivos calculam o tempo médio restante de dias vividos.

E os loucos escancaram os corações às possíveis e impossíveis pulsações da vida. Mais vale menos dias bem sentidos, do que a eternidade vazia de emoções.

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Ovo de avestruz, Corcova de dromedário

FullSizeRenderApareceu-lhe um nódulo nas costas. Um pequeno caroço do tamanho da ponta de um dedo mindinho, localizado na altura da escápula esquerda. Junto do nódulo, uma insuportável dor de cabeça que irradiava do caroço, subindo pelo pescoço, se alojando intermitentemente sob a sobrancelha de mesmo lado. Correu para a massoterapeuta. Não adiantou. A cada sessão, o nódulo se mostrava mais comparecente, afrontando a massagista com sua presença e dureza marcante tal como um diamante. Resolveu então procurar uma chinesa, que segundo alguns amigos e o Google, era expert em tratar das mazelas de corpos alheios. Na primeira sessão de shiatsu, a chinesa apelidou o nódulo de caroço de azeitona. Tal sua dureza, tal seu tamanho.

No final do conjunto de dez sessões, cada uma com quase duas horas de muita dor e compressões, o caroço se desmantelava sob próprio fruto, tal sua maciez, tal seu tamanho. Mas não desaparecia. Parecia que aquela azeitona, ora caroço, ora fruto desencaroçado chegara para ficar. Para fazer parte daquela vida, tomar conta daquele ser e dar sentido a um corpo que pouco doía até então. Tal como uma azeitona sem caroço, um corpo sem dor, é um corpo sem sentido. É um corpo sem sentimento. Mas a dor  em excesso faz tão, ou mais mal mal do que a escassez.  Um corpo com padecimento crônico é também um corpo sem sentido. Incapaz de vivenciar qualquer outra coisa além daquela dor. Se antes ela não chorava por motivo algum, agora só chora pela escápula dormente.

Recorreu a terapia para investigar o principio de tudo. O nódulo chegou num dia atípico, um frio quase glacial de um setembro. A dona do corpo passava férias numa casa de praia em Arraial do Cabo, e acordou com uma dor nas costas irradiando para o pescoço. Tratou com pomadas para torcicolo, e procurou um médico no final da semana. O primeiro diagnóstico, um distensão muscular devido ao frio excessivo, foi tratado com antiinflamatórios. Diante da ineficácia do tratamento. Recomendou-se pomadas, comprimidos, compressas quentes e ao longo dos meses, a dona do corpo foi mudando de médicos, de técnicas de massagens, de remédios e superstições. O caroço já fazia tão parte dela, que acostumada a dor, a dona do corpo mal lembrava vida sem tal padecimento.

Já chegava junho e a azeitona faria aniversário em três meses. A esta altura, a dona do corpo já havia percorrido quase todas especialidades médicas possíveis. Ortopedistas, neurologistas, fisgaras, clínicos gerais, e psiquiatras.  A nova massoterapeuta, tentou pedras quentes, cristais, manta térmica, ventosas de sucção e até choques elétricos. Os tratamentos eram apenas paliativos, amansando o caroço para os dias seguintes.

O nódulo já estava bem crescido, sendo apelidado pela tal como ovo de codorna. O fisiatra o chamava de ovo de avestruz e a terapeuta dizia que o sofrimento físico se tratava de um processo psicanalítico. A dor fantasma na escápula era oriunda de uma asa podada. Cujo corpo de mente fértil e louco para voar, se via preso numa massa de carne e osso estática demais, pesada demais por carregar nos ombros todas as preocupações mundanas. Apelidou o nódulo de asa encruada.

A dona do corpo saiu da sessão re fletindo sobre a última vez que voara bem alto sem o medo de estabacar no chão. Sobre quando começou a podar, por si só, as próprias asas, os próprios sonhos. Sem resposta fácil, abandonou a ideia de asa encruada preferindo apelidar a dor de ovo de avestruz. Era este o pássaro da vez. E assim, seguiu os dias corcunda, carregando seus medos e preocupações numa corcova que só crescia. De pássaro, a dona do corpo, se transformava lentamente num droMEDÁrio cercado de água. Cercado de poças, de poços e de pássaros.

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Uma carta

FullSizeRender-2Mãe,

Rascunho esta carta, que bem provável, assim como as anteriores, irão para o lixo antes de chegar à senhora.
Escrevo na esperança e na insistência em ser reconhecida. Eu mudei tanto que tenho medo de parecer outra estampa. Somos diferentes demais e eu entendo o quão difícil é pra você compreender como eu sou. E aceitar as minhas rebeldias sem estranhamento.
Desde bem pequena que me sinto mais pertencente às figueiras do quilombo do que a todo o resto. E assim ainda me sinto. Como árvore nesta cidade grande, resistindo às construções, aos muros, aos limites e podas que nos são impostas diariamente porque trazemos na pele nossas raízes.
Quanto mais distante do quilombo e das ruinas do que um dia foi império, mais entendo que o que temos só nos pertence (cabe) porque são fragmentos.
Descobri com a minha vida aqui nos Rio, que somos feitos de fragmentos. Pedaços resistentes às ações do tempo, às ações da branquitude. Esta palavra que deve soar estranho pra senhora. Soa estranho pro meu corretor ortográfico que nem consegue sugerir uma palavra mais “correta”.
Nunca se discutiu o que é ser branco. Por isso meu computador não sabe o significado de branquitude. Mas nós sabemos muito bem o que a escuridão da pele nos reserva, não é mãe?
Talvez fosse por isso que a senhora não quisesse que eu saísse de baixo das asas do quilombo. Para não descobrir quer o sonho que me foi vendido não me pertence.
É horrível e realmente doloroso perceber a si mesmo como inferior. Mas o privilégio da ignorância nos torna ainda mais vulneráveis e invisíveis.
Como somos vulneráveis. mãe. Como somos invisíveis por aqui.
A senhora sabe muito bem o que eu estou falando. Não é precisa morar numa metrópole para não ser visto. Mas a gente sempre brigou por causa disso, né? Hoje entendo que a senhora foi acostumada a acreditar que a invisibilidade é um destino natural dos corpos negros. Não somos nós quem aparece no protagonismo da colheita. É o fazendeiro da cana-de-açúcar. Não somos nós quem protagoniza a corrida do ouro nos tempos áureos das Minas Gerais. São os donos das Minas. Nós somos o sangue de garapa, no corpo duro da rapadura processado e embranquecido para ir à mesa dos que consome o doce açúcar.
E nos fica claro que para aparecer precisamos clarear a raça.
Temos mais tempo de correntes do que de corpos livres e isso a senhora sabe bem melhor do que eu. Mas ainda me pergunto… Somos verdadeiramente livres?
Nos alisam os cabelos, embranquecem nossos deuses, privam de nossas origens. E a nossa frágil memória são lacunas de histórias embranquecidas.
Mas como eu te convenço disso, mãe?
Justo a senhora que foi tão bem doutrinada a crer que somos servis e de fácil domesticação. Por isso, nos preferiram aos indígenas, né mesmo? Que aprendeu que a nossa liberdade nos foi concedida e não conquistada. Ao passo que eu ainda duvido que somos corpos libertos.
Eu não me reconheço mais nas histórias alheias. Não reconheço a minha história em Cleópatras, Bethovens, Machados amorenados.

E para contar nossa própria história, precisamos ser como as figueiras. Raízes expostas são mais resistentes. Criam cascas, atravessam fronteiras. quebram calçadas.
É chato ser a voz que milita atenção, que levanta a bandeira.
É dolorido sentir-se intrusa em lugares aos quais quase não frequentamos. Ou não se reconhecer nas telas do cinema, nos editoriais de moda. Mas mais doloroso ainda é se reconhecer em lugares que as raízes não incomodam. É ver nossos corpos como mercadoria e objeto de desejo para consumo. É nos reconhecer enterrados como indigentes. Somos nós, os corpos que mais morrem nas trincheiras urbanas. E qualquer voz mais alta sobre essa dor é abruptamente ignorada. Porque raiz debaixo da terra nao surpreende.
Meu sonho é não ser a exceção. Eu não quero ser especial. Eu só quero ter o direito de ser medíocre. Como todos. Quando seremos mediocrilmente iguais?
A pergunta mãe, ainda me é irrespondível, o que não quer dizer que a busca pela resposta se torne inútil.
Nossos corpos que foram feitos para dançarem livres, rodopiaram por séculos nos cativeiros. E tudo que a gente quer, só o que a gente quer, é ser dono dos nossos próprios corpos. Isso é liberdade.

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Pau Brasil

FullSizeRenderA vista da janela do quarto de hóspedes dava para um frondoso abacateiro que crescia vertiginosamente espalhando seus fortes galhos com intrusão por todos os espaços possíveis da mata. A árvore não produziu um único abacate desde o dia em que teve sua semente lançada da janela do 303 e por própria resiliência, brotou soberana na encosta descampada. Na frente do abacateiro, um pequeno é de Pau Brasil, que ao contrário do colega dicotiledônio, fora plantado por um grupo de escoteiros em missão de reflorestamento. A muda cresce solarenga e demoradamente, desatenta a velocidade dos tempos, desprendida da rapidez tecnológica dos e-mails e mensagens de celulares, e quase, por muito pouco, alcança a janela do quarto de hóspedes.

Todos os dias, sempre por volta do meio dia, quase que pontualmente, um pequeno passarinho de peito amarelo cruza o quintal do vizinho, ignora por completo a pequena árvore em extinção, e pousando nos galhos do abacateiro. Depois de um breve descanso, ele começa um exercício de vai e vem do galho do abacateiro até a grade da janela do quarto de hóspedes. Quando pousado sobre a grade, o passarinho insiste por alguns instantes em prosseguir o voo de modo a atravessar o basculante fixo da janela.
Ele lança voo, bate com o bico no vidro, volta para a grade e imediatamente retoma o ciclo rumo ao basculante. Depois de muitas insistidas, e alguns minutos de esforço, o passarinho de peito amarelo voa em direção a um dos galhos do abacateiro onde descansa por alguns segundos para logo em seguida retornar a grade.
Há dois anos é assim. Nos últimos meses, quando escuto do quarto ao lado, onde me ponho a trabalhar, o barulho de seu corpo de encontro ao vidro da janela, me levanto e corro para ver sua insistência. Ele anda se acostumando comigo. Pouco se incomoda com a minha presença na beira da janela. Quase ignora por completo minha voz e meu canto. Antes, voava para o abacateiro retornando a grade somente quando eu o quarto deixasse. Agora, nem a minha presença, nem a minha voz, muito menos as frutas ou sementes que coloco próximo ao basculante para atraí-lo de outra maneira, conseguem deslocar sua atenção. Nada é capaz de deter aquele pequeno passarinho de peito amarelo. Nada é capaz de desviá-lo de seu propósito: atravessar o vidro rumo a floresta espelhada em busca da verdadeira felicidade, que mora apenas, somente e unicamente no retrato fiel do abacateiro. Quem sabe o pássaro de peito amarelo, ávido por abacates, pensa que do lado de lá do vidro a árvore espelhada seja menos preguiçosa e viva o encanto pueril dos filhos frutos.
Pensei em colocar uns adesivos negros imitando pássaros no vidro, mas talvez isso despertasse a inveja e ira do insistente coleguinha de peito amarelo. Pior que insistir em vão, é perceber que um semelhante conseguiu o feito até então não realizado por você. Não queria eu ser a contribuinte para a frustração do passarinho já deverasmente frustrado com a realidade presente.

Pensei então em arrancar o vidro e deixá-lo entrar pelo vazio emoldurado para conhecer a realidade do meu quarto. Mas sem o reflexo da floresta, sem a fotocópia do abacateiro, será que ainda sim ele viria? Ou desapareceria para sempre convencido de que a felicidade não existe?
Ahhhh, se ao menos o Pau Brasil se decidisse por viver o tempo dos homens e crescesse até alcançar a grade da janela do quarto de hóspedes…. Ahhhh quem sabe assim, o passarinho de peito amarelo não se apaixonaria pelo Brasil real desistindo de vez do espelhamento da ilusão.

Ahhhhh, se ao menos o passarinho de peito amarelo pudesse olhar ao seu redor… Ahhhh se pudesse….

Clique e veja nosso amigo em ação: https://instagram.com/p/BG6iC_pleY2/

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ponto e vírgula

Ela escreve com ponto e vírgula.

FullSizeRender-2Como se tudo que tivesse na vida um fim, continuasse sem a esperança da pausa eterna.

Como um amor findado e não perdoado.

Uma lembrança que você quer esquecer, e só pelo desejo do esquecimento a faz perpetuar.

Como descobrir a reencarnação no juízo final.

Ou a vida e lembrança eterna no paraíso.

É também uma segunda chance. Um recomeço de vida.

O centímetro antes do abismo. A pausa antes do suicídio.

É a possibilidade de mudar de ideia.

É o segundo antes do trem chegar no fim do túnel.

É quase morrer de parada respiratória.

É um sofrimento que não tem fim.

É uma onda do mar que congela em movimento num dia de vinte e sete graus negativos.

O ponto e vírgula não é um fim, nem um começo. É o continuar do que se queria terminar.

A perpetuação do trauma. Dos amores mal resolvidos.

A água do rio que depois de uma longa jornada rumo ao mar, evapora no meio do caminho retornando à nascente.

Ela escreve com ponto e vírgula. A pausa mais forte que a vírgula e menos que o ponto. Porque conhece bem as regras gramaticais e as regras da vida.

 

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O Não Lugar

FullSizeRenderCristina foi ao shopping. Estava sozinha, como de costume. Comprou um lanche no Mc Donalds. Devorou o hamburguer com fritas no mesmo ritmo dos gritos entre os atendentes e os fazedores de sanduiche.

Depois, jogou o lixo da bandeja no receptáculo e caminhou sem destino pelos corredores. Passou por lojas de roupas, lingeries, brinquedos, eletrônicos.

E em frente a uma LanHouse viu um casal imprimir fotos de um fim de semana num resort em Cuba.

Depois de percorrer os quarto andares, decidiu voltar ao primeiro e enfrentar uma fila de quase cem metros para tomar um sorvete italiano.

Cristina digitou a senha, mas a transação não foi concluída. Era dia 20 e o que restou do salário fazia, naquele momento, o caminho da digestão rumo ao intestino.

A moça não se abateu com o saldo zerado de sua conta bancária. Ficou uns 15 minutos a observar as pessoas da fila e aqueles que lambiam as bolas de sorvete de sabores variados. Depois desse tempo, ela caminhou novamente atee o balcão e tirou uma foto em close do cartaz da sorveteria. Publicou no Instagram, no Twitter e no Facebook uma mão, que alguns seguidores pensaram ser dela, segurando um copinho de sorvete que estava a logomarca da sorveteria italiana, fazendo propaganda gratuita para aqueles. Que por falta de pagamento, a negaram uma mera bola de sabor chocolate Belga.

Cristina rolou com a ponta dos dedos a página do Facebook na tela do celular. Buscava novidades. Dentre fotos de comida, tais como as dela, e diversos autorretratos Cristina acompanhou publicações de sobre política. Bloqueou uns quatro seguidores que pensavam de maneira oposta a ela. Parou de “seguir” aquela prima que só postava notícias a favor do partido que ela julgava corrupto e clicou na lista de amigos para ver o total de seguidores. 1597, excluindo os 4 bloqueados.

No final da tarde, Cristina pegou um ônibus de volta para casa. Checou novamente as notícias no Facebook, excluiu mais um colega de escola, rezou um “Pai Nosso” e se deitou para dormir. Quando quase adormecendo, Cristina recebe uma notificação pelo telefone. Duas amigas do tempo do colégio secundário haviam aceitado seu pedido de amizade.  Comemorou o reencontro, curtiu fotos de atores famosos no Instagram e dormiu.

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Gol da Alemanha…

FullSizeRender

Um forte esquema de segurança foi montado na capital, sede do jogo. Colocaram um muro, no meio do descampado, separando as duas torcidas. De cada um dos lados, ergueram um segundo muro criando um fosso onde colocariam crocodilos ou policiais. De modo a evitar possíveis confrontos, a torcida perdedora deveria deixar o descampado 15 minutos antes do apito final.

Vuvuzelas, vaias, aplausos, bandeiras do Brasil e bandeiras vermelhas. Nos descampados, praias, avenidas. Pela Internet, televisão ou radinho. O país estava tomado pela verdadeira comoção nacional que nos une: o futebol!

Deley, Danrlei, Evandro. Os atletas compareceram em peso com apenas dois desfalques. Uma raridade para jogadores constantemente contundidos em dias de jogos “sem importância”.  Antes do início da partida, uma grande maioria cantou o hino nacional abraçados e confiantes na vitória. E às 14:16 deu-se início a partida.

A casa estava lotada e o placar seguia sem muitas surpresas. Cada gol, uma homenagem. Houve aqueles, que como Bebeto (atualmente deputado estadual), embalaram os filhos, as esposas, mães e netinhos, dedicando a eles o gol da vitória. Houve também as habituais comemorações com o dedo em riste apontado para céu em homenagem ao criador, como se ele tivesse culpa do voto proferido. Mas o que chamou a atenção do público foram as comemorações originais. Teve jogador dedicando o gol às vítimas da BR 251, ao povo com nome no SPC, aos maçons e aos corretores de seguro. Teve jogador dedicando gol aos militares de 64, a Israel, a Jerusalém e até torturador. Uma vergonha para o futebol mundial.

Mas confesso, que mesmo não entendo de esquema tático, senti uma falta tremenda de Robinho, e suas pedaladas. Nesse jogo de interesses individuais, quase ninguém se lembrou do verdadeiro motivo da partida, e o crime de responsabilidade foi raramente citado na justificativa da comemoração.

No dia seguinte, em frente às manchetes estampadas nas bancas de jornal, torcedores comentavam a vergonha das homenagens. E lembravam uns aos outros de como não se faz mais jogadores como antigamente. Hoje em dia, são poucos os que suam a camisa pelo time. A maioria quer é ganhar dinheiro no exterior. Panamá, Suíça e outros paraísos. O juiz, que é usualmente reconhecido como ladrão, pelo menos pela torcida perdedora, desta vez teve unanimidade. O bordão “Juiz ladrão, cadeia é solução” ecoava pelas ruas, twitters e facebooks.

Enquanto nós, torcedores divididos pela nossa própria ignorância futebolística, nos deixamos levar por análises de comentaristas esportivos que defendem os interesses de suas classes. Mas isso é outro assunto. Isso é política e nós só discutimos futebol!

 

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Palavra de ordem

FullSizeRender (1)Não sou ameaçada apenas pelos inimigos de fora.

Pelas balas perdidas, pelas armas desgarradas, pelos policiais que se esquecem de defender o povo.

Não sou ameaçada apenas por projetos políticos que irão beneficiar uma minoria, por juízes que vendem sua sentença, por motoristas que trafegam bêbados.

Não sou ameaçada apenas pelos que têm fome de comida e entorpecentes e lutarão com facas, estiletes e armas de brinquedo para garantir seu pedaço de pão negado por nós.

Não sou ameaçada apenas pelos que têm tudo. Pelos que comem em excesso e desperdiçam o muito que têm e não precisam.

Não sou ameaçadas apenas por aqueles que, como eu, nem sempre sabem viver na coletividade.

Não sou ameaçada apenas por muitos de nós que pouco sabemos compartilhar.

Dentro de mim, bactérias, vermes, células cancerígenas aguardam o tempo de alardear sua presença. Pessoal, direta e intransponível.

Vermes, protozoários, bactérias me ameaçam o tempo todo, sem contar meu pensamento, meus vícios e minhas possíveis células autodestrutivas.

Em tempos de guerra e doença coletiva, AMEaça é a palavra de ordem.

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Árvore genealógica

22

Sempre tive inveja de quem tem árvore genealógica. Dos que encontram o sobrenome da família no museu da imigração ou são capazes de contar com detalhes a viagem imigratória do bisavô no final do século XIX.

Por motivos óbvios, por muito tempo, me foi negada a possibilidade de investigação da minha origem. Hoje, com testes de DNA, não sei a qual custo, é possível saber de qual país na África origina parte do meu material genético. É um avanço. Não posso negar. Mas ainda assim, nunca vou poder dizer que o avô do meu bisavô veio num navio negreiro originário de onde hoje é Angola, e foi escravizado numa fazenda extrativista de ouro nas proximidades de Vila Rica. Eu não sei quem veio. Mesmo sabendo de onde, nunca será me garantido o direito de investigar quem eram estas pessoas. Elas não vieram por vontade própria e tiveram sues nomes e origens adulterados o que impossibilita uma investigação mais precisa.

Soube que meu bisavô por parte de mãe era português, que além dele haviam indígenas e obviamente os negros, determinantes da cor de pele de nossa maioria. A origem indígena não é tratada com importância no que foi possível averiguar sobre a minha árvore genealógica. Não se sabe de qual aldeia, não se sabe o gênero, nem a posição desta pessoa na árvore. O que me marcou na infância, durante um conversa com tias avós nesta tentativa de descobrir a origem, é que tínhamos poucos pelos no corpo devido a herança indígena. Talvez minha paixão por milho e mandioca seja um outro fator determinante latente no meu DNA. Talvez seja apenas mais uma das minhas loucas ideias de me inventar uma origem.

Do lado do meu pai, a história tinha tudo para ser um pouco mais fácil. Nomes judaicos de origem portuguesa facilitariam o início da pesquisa. No auge da minha investigação, descobri que meu avô paterno mudou um dos sobrenomes da família para Macedo. Provavelmente eu era uma Damaceno ou qualquer outra coisa parecida. Mas por questões de gosto, meu avô mudou o sobrenome. Minha única alegria nisso tudo, foi concluir que não poderia ser parente direta do bispo Macedo – um medo que sempre carreguei.

Foi então, que eu desisti de investigar. Semanas atrás, durante uma viagem, descobri Antonio Maceo. Um dos heróis da história da independência cubana. Comandante do exército, Maceo é citado em alguns livros de história com um homem determinado e corajoso. Conhecido pelo apelido de Titan de Bronze, devido ao tom marrom de sua pele, Maceo reunia numa só pessoa as poucas características que consegui confirmar sobre a minha árvore genealógica. Além da cor da pele, sua mãe chamava-se Mariana e o sobrenome Maceo era por apenas um D, diferente do meu.

Resolvi então me considerar descendente deste homem arretado que libertou pessoas escravizadas das lavouras da cana-de-açúcar e lutou até sua morte pela independência da colônia espanhola. Reconheço que um homem que tem o sobrenome parecido com o da família do meu pai, e as ascendências africanas da família da minha mãe não teria lugar definido na minha árvore genealógica. Reconheço também que o parentesco com Maceo seria impossível por questões históricas e geográficas. E mais, acredito que a ele também foi negado o direito de saber sobre seus ancestrais africanos e mais uma vez um ramo de nossa árvore estaria incompleto. Mas isso pouco importa. O que me interessa agora é pouquinho de ilusão e conforto nesse coração descrente e aflito. Obrigada, Maceo.

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