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Vagalumes, Times Square e Frank Sinatra

Uma das melhores lembranças que tenho do tempo em que morei em Nova York aconteceu no meu primeiro dia na cidade. Era o início do verão. Um amigo húngaro, O Gabor, foi me buscar no aeroporto. A primeira coisa que fizemos depois de deixar as malas no apartamento foi ver o pôr do sol no Fort Hamilton Park, no Brooklyn. Gabor me levou até lá, e me apresentou a Verrazano-Narrows Bridge, que liga o Brooklyn a Staten Island. Quando o sol se pôs, o parque que era lindo ficou repleto de vagalumes.

Eu fiquei estonteada com a quantidade de light bugs. Tentei tirar fotos, filmar, mas minha bateria acabou sem que eu pudesse ter um registro daquele momento. Gabor não entendeu a minha fascinação pelos vagalumes e concluiu erroneamente que a terra da floresta Amazônica não tinha vagalumes.

No dia seguinte, resolvi andar sem rumo pela cidade que nunca dorme. Peguei o metrô na 45th street, rumo a estação mais procurada pelos turistas. A Times Square.

Eu me lembro como se fosse hoje, o medo que senti quando subi as escadas rolantes da estação do metrô e dei de cara com aquela torre de babel de luzes, músicas e pessoas. Era tanto barulho, tanta gente, tantas lâmpadas coloridas. Era tudo tão óbvio, e de longe a Nova York que eu me apaixonei. Andei um pouco por ali, comi uma fatia de pizza, e voltei correndo para o metrô. Desci na estação Brooklyn Brigde/City Hall e atravessei a ponte do Brooklyn pra voltar pra casa. Enquanto eu caminhava sobre a ponte, fazia as contas dos dias restantes, rezando para que passassem logo e eu pudesse voltar pra casa. Mal sabia eu, que em pouquíssimo tempo, Nova York imperaria sobre os meus desejos mais mesquinhos de ser alguém importante. E daí, eu me apaixonaria para sempre por ela. Frank Sinatra cantou If I can make it there. I’ll make it anywhere…

Jay-Z escreveu…

In New York,
Concrete jungle where dreams are made of,
There’s nothing you can’t do,
Now you’re in New York,
These streets will make you feel brand new,
Big lights will inspire you,

Let’s hear it for New York, New York, New York.

Versos sobre a imponência das luzes e concretos da cidade que é mais importante do que qualquer um de seus habitantes. Nova York é mesmo assim. Um exercício de humildade. Brilha tanto e por si só, que é impossível não passar por lá sem se perceber insignificante. Sem mudar um pouco de si mesmo. Nos dois primeiros dias na cidade. Desde o primeiro pôr do sol. Eu não tinha certeza do que iria me acontecer nos quase dois anos que morei por lá. Mas já sabia que aquela cidade tão imponente iria de alguma forma me transformar para sempre.

Das luzes da Broadway às luzes dos vagalumes no Brooklyn Fort Hamilton Park, não houve um dia sequer que a cidade não impôs seu brilho e nos fez do tamanho real que nós somos. Pequenos demais.

 

Frank Sinatra – New York, New York

Jay-Z – Empire State of Mind

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Surpreendida pelo presente

Das últimas vezes em que eu fui ao cinema vivenciei uma sensação cada vez mais rara nos dias de hoje. A do ineditismo. Fala-se tanto, sobre tantas coisas e o tempo todo, que ultimamente é difícil ser surpreendido por algo jamais visto ou vivido. E eu acho até que a sensação da surpresa é por muitas vezes desprezada ou esquecida.

Quando o assunto é filme em cartaz, por exemplo, não faltam fontes de informação: Os trailers anunciam o que está por vir. Programas de entretenimento entrevistam atores, mostram cenas do making of e os trechos mais marcantes da película. Entrar no cinema sem fazer ideia do que irá assistir é praticamente impossível.  E, obviamente, indesejável. Ninguém sai de casa para ir ao cinema sem saber o mínimo sobre o filme. Óbvio, né? Nem tanto.

Ultimamente, eu tenho trabalhado tanto, e tão mecanicamente, que me sinto uma completa alienada no que diz respeito a cinema e cultura. Cada vez menos tenho acompanhado as notícias e trailers sobre os filmes que irão estrear. Mas não perco a vontade de assistir a uma filme no cinema. Desde o início do ano que eu andava louca para ver A Pele que Habito, de Almodóvar. Já tinha lido a crítica do bonequinho, assistido a uma entrevista com o Banderas e passei o olho na sinopse do jornal, antes de sair de casa. Porém, quando chegamos ao cinema, eu e uma amiga, descobrimos que não havia mais ingressos para o filme Espanhol. Foi aí que optamos, meio que de supetão, assistir ao único filme que passava no mesmo horário: Precisamos Falar Sobre Kevin. O nome não me era estranho, sabia que eu já tinha lido, ouvido, ou visto algo sobre isso, mas não me lembrava o quê. Entrei na sala de exibição sem sequer ter lido a sinopse. Não sabia se era um drama, uma comédia, um filme alemão ou americano. Não sabia quem eram os atores, diretor, se havia sido premiado em algum festival.

Quando o filme acabou, lembrei-me de onde ouvira falar daquela história. O escritor do romance que originou o livro esteve no Brasil, se não me engano na Flip. Acho até que tenho outro livro dele autografado. Mas nos momentos que precederam o filme, e durante toda quase uma hora e meia de exibição, eu era uma completa ignorante sobre a história da relação conturbada entre uma mãe frustrada que levou uma gravidez indesejada adiante, e o filho rejeitado, que estragou a vida de toda uma família. Saí do filme pasmada. Pensando nas palavras que deveriam ter sido ditas, nas conversas de família que não aconteceram. No silêncio e na mudez que abalou toda uma história. Fiquei pensando no filme, na experiência de assistir a um filme sem ter ouvido nada sobre ele. Fiquei pensando em como se fala muito, mas não se fala o necessário.

Depois daquela noite, eu e minha amiga fomos juntas ao cinema mais umas três vezes. Sempre adotando a tática de não saber o que iríamos assistir. Claro que esta experiência só poderia durar por um curto pedaço de tempo. Afinal, em cada sessão, éramos expostas aos trailers dos filmes a estrear. O ineditismo desejado estava com os dias contados. Mas ainda assim, conseguimos manter a façanha da ignorância por mais algumas películas. Naquela semana, assistimos A invenção de Hugo Cabret, Os Descendentes e o Artista. Sobre o filme de Scorsese só sabia que se trava de um filme de Scorsese. Sobre os Descendentes, apenas que George Clooney concorria ao Oscar pelo papel principal. E sobre o Artista, que era o filme mudo e em preto e branco indicado a várias categorias. Nada além disso.

A mudez de O Artista me era tão instigante quando a falta de palavras e informações sobre os filmes que estávamos assistindo. Confesso que tive o medo comum de ficar entediada com um filme branco e preto e sem diálogos. Não sabia sobre o que era a história, sobre o porquê do filme mudo e sem cor. E mais uma vez fui surpreendida, não só pela surpresa e falta de expectativa. Mas pela escassez de diálogos, diálogos mudos, claro, cujo o som não fizeram a mínima falta.

Depois de O Artista não consegui mais voltar ao cinema sem saber a história que iria assistir. Já havia visto o trailer de tudo que se passava na telona… Mas toda esta experiência de ignorância voluntária, baixa expectativa, ausência de palavras e a surpresa do silêncio me fez pensar em como é maravilhoso ignorar um conhecimento antecipado e se permitir a surpresa. Na hora certa.

 

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“I’m still alive”, e isso pode ser bom o ruim.

Tudo na vida é uma questão de ponto de vista. “Não há fatos eternos, como não há verdade absoluta”, já dizia Nietzsche. A sorte de um, pode representar o azar do outro.

A felicidade de hoje é o motivo da tristeza de amanhã. E vice-versa. Óbvio, não? Pode ser. Mas o óbvio quase nunca é sinônimo de evidente. E ás vezes, percebê-lo é quase impossível.

Há algum tempo, Eddie Veder, o compositor e vocalista do Pearl Jam, confessou numa entrevista a um canal a cabo, que a música Alive, tem hoje um sentido completamente oposto do que ele gostaria de dizer no momento em que a escreveu.

Alive é música autobiográfica, que narra a angústia de um adolescente ao descobrir que o homem que ele pensa ser seu pai, na verdade não o é. E que seu verdadeiro pai está morto. Diante destas descobertas, para um adolescente que mal se conhece, ele escreve “I’m still alive”. Era um peso estar vivo depois de saber tudo aquilo. “Que droga, ainda estou vivo”. Os fãs do Pearl Jam não encaram o refrão como um desabafo ruim. E sim, como uma superação. “Eu ainda estou vivo, graças a Deus”.

I, oh, I’m still alive
Hey I, oh, I’m still alive
Hey I, but, I’m still alive
Yeah I, ooh, I’m still alive
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah

Escrevo sobre isso, porque há alguns dias ouvi uma conversa de bar sobre uma história de um amor que acabou. A moça contava com riqueza de detalhes os momentos de felicidade que viveu com o ex-namorado. Ela chorava de soluçar enquanto contava o fim recente. A amiga aconselhava-a a esquecer. “Esqueça, você vai achar alguém melhor, alguém que te mereça…”.

A amiga fazia planos pro futuro, uma lista de amigos solteiros para apresentá-la, muita noitada com boate e nenhum dia para ficar em casa curtindo a fossa. A menina se animou com a ideia de esquecer para ser feliz novamente. E eu me questionei… Será?                             Será mesmo que para ser feliz é preciso esquecer um amor acabado? E será que ela irá mesmo encontrar alguém melhor?

Nem sempre. Pode ser que aquele rapaz seja o melhor que a vida lhe reservou. Pode ser que não, que ela encontre alguém que a faça impossivelmente mais feliz do que ela foi. Porém, nada do que acontecer deverá anular a alegria que ela sentiu enquanto estava com o namorado. Nada deverá anular a tristeza que viveu com o fim do romance. Faz parte da vida. Mais do que isso, faz parte do nosso crescimento. Da nossa formação quanto pessoa.

I’m still alive é o grito de liberdade, de quem passou pela dor e sobreviveu. E a história da música é o retrato de como a superação muda o sentido das coisas, das palavras. Eddie conta que depois de ver seus fãs cantando Alive com este sentido, conseguiu se libertar das angústias que carregou por muitos anos. O que era sinônimo de tristeza, se tornou semelhança do aprendizado.

Faz muito tempo que vi esta entrevista e vira e mexe me pego pensando no significado duplo das coisas. Sobre como nós temos o poder de dar o significado a cada fato ou palavra que nos é apresentado na vida. A conversa das amigas sobre o fim de um amor é só um exemplo cotidiano disso tudo. As mesmas palavras, mesmas atitudes que carregam sentidos diferentes para quem fala e quem as escuta. “Eu te amo”, “Eu te odeio” nem sempre têm o mesmo sentido e importância para ambas as partes do diálogo. Depende do quanto já viveu, do quanto já amadureceu a pessoa que diz e a pessoa que ouve.

Acreditar que o fim de um amor pode trazer boas lembranças não é tarefa fácil. Mas é bom saber que só nós mesmos somos capazes de transformar os fatos que vivemos e darmos novos significados as palavras que ouvimos.

E que às vezes, é o sentido que os outros dão às nossas palavras que nos libertam.

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Mozarte

Um conto de 2006, premiado na Áustria.

Mozarte

 -         Mozarte! Mozarte! Venha, a janta está na mesa! Mozarte!

Mozarte, este é o meu nome. Na verdade ele se escreve Mozart, mas todo mundo fala Mozarte, e há bem pouco tempo descobri, que na verdade deveriam me chamar Mozar. Sem o “t”.

Eu detestava meu nome. Ele sempre foi diferente de todos os outros nomes que eu conheço. E por causa disso, eu virei a chacota entre os meus colegas de escola, da galera da rua, do pessoal da praia… Aqui na favela, todo mundo tem nome diferente do pessoal do asfalto. Uelinton, Uoxinton, Kelly. Só que além de diferente dos playboys, meu nome era estranho até no morro. Eu só passei a gostar dele, quando descobri que além de mim, havia outro Mozart no mundo. E que apesar de tantas diferenças, nós tínhamos muitas coisas em comum…

Foi a minha mãe quem escolheu. Ela disse, que quando estava grávida de mim, trabalhou na casa de um homem que só ouvia Mozart. Minha mãe conta, que o patrão dela era músico, maestro de uma orquestra, que tocava sempre naquele teatro de rico, cheio de vidrinhos coloridos, que tem no centro da cidade. Ela conta também, que ele tinha uns instrumentos muito estranhos. Com nomes muito esquisitos. Oboé, fagotes, trompas… Um violão que de tão grande nem dava para tocar no colo. E na sala, uma máquina que tinha teclas, mas não era piano e o som saía por uns tubos. Quando minha mãe contava estas histórias eu ficava só imaginando que troço era esse. Que som que isso tinha.

- Mãe, ele canta bem?

- Ele não canta, meu filho. As músicas não têm letras…

- Mas como assim? Isso deve ser um saco, hein…

- São só instrumentos, mas quando você ouvir…

- E é ele que toca?

- Deve ser…

- Ele toca pandeiro?

- Acho que não.

- Ele toca aqueles instrumentos esquisitos que a senhora fala, né…

- Isso, Mozart. Ele era um gênio da música…

Eu adorava ouvir minha mãe falar de Mozart, mesmo sabendo que ela conhecia tão pouco sobre ele. É que quando ela dizia que ele era um gênio da música, eu me sentia tão especial, e às vezes me sentia um gênio também.Na verdade, minha mãe sabia apenas que Mozart foi um famoso compositor austríaco e que ele era um homem de muito bom humor.                                                                                                           Foi por esse motivo que quando eu nasci, ela me batizou com este nome. Minha mãe queria que eu fosse alegre, diferente de todas as outras pessoas da nossa família.                                                                                                                                                                                                                 Meu pai, ao que me parece, foi um homem triste e fez da minha mãe uma mulher triste também. Ele sumiu no mundo quando ela ainda estava grávida de mim e minha mãe criou, sozinha, eu e meus quatro irmãos.

Depois de minha mãe, quem mais me ensinou sobre o meu xará foi o seu Chiquinho, o dono do boteco que ficava no pé da favela. Seu Chiquinho era um homem solitário, não tinha mulher nem filhos e gastava todo seu dinheiro com CD´s, discos de vinil e revistas sobre música. Foi lá que ouvi Mozart pela primeira vez. Mesmo sem letra, mesmo sem cantor, mesmo sem pandeiro fiquei todo arrepiado.

Foi escutando Mozart, no bar de seu Chiquinho, que nasceu em mim o sonho de ver uma ópera.

- Isso é coisa de rico, Mozart. Só a elite assiste óperas…

- Mas eu queria saber como é… Deve ser bonito… Onde tem?

- Ópera? No Teatro Municipal.

A primeira vez que tentei entrar no Teatro Municipal, eu tinha dez anos. Enquanto meus amigos da rua soltavam pipa na favela, eu ia andando até a Cinelândia, e passava o dia sentado nas escadas do teatro olhando o movimento… Não me deixavam entrar, mas mesmo assim, eu ficava na escada observando as pessoas. Era engraçado ver as dondocas bem vestidas, entrando afobadas no teatro e saindo de lá emocionadas. Algumas até choravam. E isso só aguçava a minha curiosidade. O que acontecia ali dentro que transformava as pessoas?

 - Sai daí pivete, vai pedir esmola no outro lado da praça.

- Mas seu guarda, eu não to ped…

- Sai daqui! Racha!

Por muitas vezes eu fui confundido com mendigo ou com pivete. As pessoas que subiam aquelas escadas e entravam no teatro, ou me olhavam com pena, ou me olhavam com medo. Alguns me davam dinheiro, mesmo que eu não pedisse. Outros faziam comentários sobre a minha vadiagem, mas nunca ninguém me perguntou o que estava fazendo ali. Só uma vez…

- Oi, Moça…

- Oi.

- Hoje é dia de ópera, né. Você é cantora?

- Não, sou bailarina…

- Qual o seu nome?

- Constanza. – ela respondeu enquanto subia, apressada, as escadas.

- O mesmo nome da esposa do Mozart. Eu me chamo Mozart, quer se casar comigo?

A bailarina já estava lá em cima quando eu a pedi em casamento. Lembrei de uma história que seu Chiquinho me contou sobre meu xará famoso. Quando ele ainda era criança também pediu uma nobre, que me esqueci o nome, em casamento… Constanza desceu as escadas e ficou me olhando, sem dizer nada. Um tempão.

 - Quer dizer que você se chama Mozart? Quantos anos têm?

- Eu tenho 12.

- Você sabia que com doze anos, Mozart escreveu uma ópera?

- E com sete, já tinha escrito uma sinfonia. Qual a diferença entre sinfonia e concerto?

Constanza riu. Mas não foi um riso de deboche, como eu já estava acostumado.

Foi um riso de surpresa, de admiração.

- Eu estou atrasada. Ainda tenho que ensaiar, depois te explico, está bem?

Mesmo sem ter visto uma ópera, mesmo sem saber qual a diferença entre o concerto e a sinfonia eu sabia que a primeira ópera de Mozart foi rejeitada pela nobreza. E disso eu entendo bem. Eu sei o que é ser rejeitado. Eu sei muito bem o que é ser discriminado. Mais uma semelhança além do nome. E a Constanza que foi esposa do Mozart austríaco, se tornou a madrinha do Mozart da favela. Foi ela quem me apresentou o teatro municipal, numa noite de gala. Uma ópera de Mozart. Constanza marcou comigo duas horas antes da ópera em frente ao teatro. Nas escadarias. Já estava lá quando ela chegou trazendo uma roupa de grã-fino.                                                                           Assisti a ópera do camarote. Lá do alto. Usando binóculo. Foi o lugar mais chique que eu já fui na vida. Só tinha gente fina. Era tudo tão bonito… E antes que a ópera começasse, senti medo. Eu era o único diferente naquele lugar. Eu era sempre o diferente em todos os lugares. Mas Constanza, percebendo o meu pavor, segurou na minha mão e me disse baixinho no ouvido. “Mozart, o austríaco, também era diferente e seu talento foi muito incompreendido. Ser diferente pode ser legal”.

E a ópera começou.

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O mundo gira, mas a gente não precisa acompanhá-lo…

Há um tempo, fui a um salão de beleza fazer uma escova nos cabelos. A escovista conversava com a colega ao lado que tingia de loiro as madeixas negras de uma moça bem novinha. Elas falavam sobre novela, novas cores de esmalte e o aumento de preço das hortaliças, quando a escovista puxou com força uma mexa do meu cabelo da frente da testa e comentou:

- Você tem muitos redemoinhos na cabeça.

Os redemoinhos, também conhecidos como torvelinhos, pés-de-vento ou diabos de poeira (sim, em inglês eles são chamados de dust devil) são, segundo o dicionário, “Ventos em espiral formados pela convecção do ar, em dias quentes, sem ventos e de muito sol”. No caso do meu cabelo… Fios que nascem virados para uma determinada direção, e que fazem uma pessoa penar para colocá-los na direção contrária.

Eles são freqüentemente confundidos com tornados, mas o dicionário explica que ao contrário dos tornados, os redemoinhos causam apenas pequenos estragos, como destelhamentos leves. No interior de Minas Gerais, e em muitas cidadezinhas espalhadas pelo Brasil, há quem acredite que redemoinhos são o rastro do caminhar de um saci-pererê, e que se alguém entrar no meio deles com uma peneira ou garrafão poderá prender o menino perneta.

 Saí do salão sem redemoinho algum na cabeça, mas o acontecimento seguinte, me fez relembrar o comentário da escovista. A verdade é que eu vivi uma situação, num encontro amoroso, exatamente igual a um acontecimento anterior do qual eu detestei ter vivido. E que me faz passar o resto do dia pensando em como muitas coisas e pessoas giram sempre em volta de si. Pensei nos dervixes dançantes da Turquia, nos ponteiros de relógios, nas rodas das bicicletas. E me pus a perguntar por que motivo alguns fatos são como redemoinhos: chegam causando pequenos, mas inesquecíveis estragos, e o pior, andam sempre em círculo numa mesma trajetória e fim.

A minha terapeuta diria que os fatos se repetem porque a gente sempre faz tudo igual. “Como esperar por resultados diferentes se nós não mudamos de atitudes”. É uma verdade difícil de contradizer, e também difícil de aplicar na vida prática. Mudar não é pra qualquer um. Nem pra qualquer momento. A maior dificuldade é aceitar que estamos fazendo tudo errado, e descobrir a maneira certa de obter o resultado desejado. 

Se você me perguntar se eu encontrei a resposta para a repetição dos fatos, vou dizer que ainda não. Mas que estou muito empenhada a começar este próximo ano com atitudes um pouco diferentes. Quem sabe meus redemoinhos façam 270º ao invés dos habituais 360º?

Como eu disse, em algumas cidadezinhas de Minas e do interior do Brasil, muitas pessoas acreditam que ao engarrafar o saci, acabam com a pequena tempestade de poeira. Na verdade, o que acontece é que ao entrar no meio do redemoinho, a pessoa pode interromper a corrente de convecção que alimenta o fenômeno, e o redemoinho simplesmente “desaparece”.

E é isso o que eu desejo para mim e para os meus leitores no ano de 2012. Que vocês engarrafem muitos sacis, e caminhem em linha reta! Sucesso nos desejos.

Até o ano que vem!

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Filmes, Catástrofes e Tecnologia

A primeira, das sete profecias Maias, destina o fim do mundo para o dia 21 de Dezembro de 2012. Astrólogos, tarólogos e até Hollywood já deram suas versões para o fato. Místicos, mães de santo e videntes vêm profetizando catástrofes naturais ao longo dos anos como uma forma de preparação da terra para o grande dia. As previsões são divergentes, mas todos concordam com uma coisa: o mundo não irá acabar como no filme  2012.                                                                                                                                                 

O que acontecerá no dia 21 de Dezembro, será o início de uma nova era. Um novo tempo onde o materialismo e a dor estarão banidos do universo, e a convivência harmônica entre os seres humanos e o planeta será definitivamente estabelecida. É o que dizem.

Confesso que eu nunca acreditei na profecia Maia, nem em São Malaquias, Nostradamus ou nos três milagres de Fátima. Atualmente, o único presságio que ponho fé é o de minha mãe, que sempre disse ser a tecnologia a grande responsável pelo fim do mundo. Minha mãe, que temeu o bug do milênio, sempre profetizou que o fim dos tempos viria na velocidade catastrófica das inovações tecnológicas e principalmente da internet. Seríamos num futuro próximo dominados e massacrados pelas máquinas que criamos, dizia ela. Os prognósticos de mamãe nunca chegaram aos pés de James Cameron e seus Exterminadores do Futuro. Ela, diferente do cineasta, acredita que a vitória das máquinas sobre os homens será bem mais sutil. Os homens tornarão escravos das máquinas que criaram. Verão o nível de stress e a velocidade do tempo aumentar incontrolavelmente. As relações humanas estarão cada vez mais dependentes da internet e da tecnologia. E o lançamento veloz e constante de produtos será o grande responsável pelo aumento do lixo de obsoletos.

Sempre tive ressalvas à teoria apocalíptica de dona Suzy. Demorei a acreditar que ela pudesse estar certa. Achava que em parte ela tinha razão. Principalmente no que diz respeito à quantidade de lixos e obsoletos que produzimos diariamente, por conseqüência das inovações tecnológica. Mas, eu nunca acreditei que a internet seria a responsável pelo fim do mundo. Nem que este fim, assim como os Maias profetizam, estaria tão próximo. Muito próximo. E se muitos acreditam que os Maias acertaram a data do juízo final, eu acredito que minha mãe prenunciou como Deus fará o acerto de contas.

Faz um ano que o site WikiLeaks ficou famoso ao publicar uma série de documentos sobre possíveis crimes de guerra cometido pelo exército dos Estados Unidos nas guerras do Afeganistão e Iraque. Julian Assenge, o fundador do website, foi, logo em seguida, acusado de crimes sexuais. O WikiLeaks sofreu pressões e sanções financeiras. Em retaliação, o grupo de hackers Anonymous, atacou as empresas Visa, Mastercard, Amazon e PayPal, além do site da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Segundo a OTAN, o Anonymous é uma ameaça ao mundo. A publicação, também no WikiLeaks, dos telegramas da embaixada norte-americana sobre os abusos de corrupção e nepotismo envolvendo o governo da Tunísia foi a gota d’água para que a população se revoltasse e derrubasse o poder ditatorial de Bem Ali, no início deste ano. Estava inaugurada a Primavera Árabe, que só em 2011 derrubaria mais dois governos ditatoriais. O Egito e a Líbia.

Além do website, as redes sociais, Facebook e Twitter se tornaram fundamentais na organização e sensibilização da população para a derrubada do governo no Egito e a disseminação dos descontentamentos mundo afora. Manifestações na Líbia, Argélia, Iêmen e vários outros países do Oriente Médio e Norte da África também foram organizadas pelas mídias sociais. Greves, comícios e motins, como o ocorrido na Tailândia em abril deste ano, igualmente se beneficiaram das facilidades da tecnologia. A velocidade e o alcance da internet foram essenciais para que movimentos como o Occupy Wall Street , em Nova York, ganhasse notoriedade e a adesão mundial. Ottawa, Berlim, Roma, Londres, Hong Kong, Sydney e Tóquio criaram suas versões para os protestos contra as ganâncias corporativas e as injustiças em geral.   O poder da tecnologia e a da internet é tamanho, que na semana passada, a CIA – agência de inteligência norte-americana – admitiu monitorar as redes sociais no mundo todo em busca de ameaças à segurança do país e informações da opinião pública sobre o governo americano.           Não há como negar: O fim do mundo, assim como o conhecemos, está mesmo próximo. Não sei se 2012 será a data certa para a extinção destes tempos de corrupção, abusos de poder e ganância, mas acredito que estamos vivendo o início do fim e que a minha mãe, a internet e a tecnologia têm muito a ver com isso.

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30!

Em Janeiro deste ano li uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna com o título Fazer 30 anos. Sant’Anna começava o texto contando que naquela semana quatro conhecidos entrariam na fase balzaquiana. Todos eles estavam extremamente preocupados com isso.

No dia 17 do mês passado, foi a minha vez de celebrar os 30 anos e sentir a tal gravidade no falar que Sant’Anna escreveu. Quase todos os amigos e conhecidos que encontrei naquela semana, comentavam com pesar na voz sobre o fardo da passagem de ano. “Você vai ver, é uma mudança e tanto. Você dorme com 29 e acorda bem diferente no dia seguinte”.                                                                                                                                                     Eu não sentia nada tão significativo assim. Na verdade, até poucos dias antes da celebração, não dava a mínima para opiniões sobre o assunto. Achava que fazer 30 anos era o mesmo que celebrar 29 ou 28. Apenas mais um dia para comemorar a vida.

Porém, tudo mudou de figura quando ao me olhar no espelho, às vésperas do meu aniversário, encontrei um fio de cabelo branco bem perto da testa. Aquele não era o primeiro. Já havia aparecido uns 3 ou 4 alguns anos antes. Mas a diferença é que os fios anteriores foram encontrados na parte traseira da cabeça e por cabeleireiros. Pode parecer um pouco dramático tudo isso que estou narrando, mas só quem é mulher entende a diferença entre um fio branco encontrado por um cabeleireiro e outro descoberto pelo próprio dono. É uma invasão de privacidade sem tamanho.

Corri imediatamente para o salão e eliminei o inimigo que poderia arruinar a minha entrada triunfal na casa dos 30. E quando acreditava ter vencido um princípio de crise, fui novamente desafiada pelo espelho do banheiro. No dia 17 de agosto, enquanto passava filtro solar no rosto percebi uma leve linha, ainda tímida surgindo entre as sobrancelhas. Não tem jeito. Pensei. Estou ficando velha.                             Naquele instante, a crise dos 30 que eu acreditava estar imune, surgiu como um raio emergindo do reflexo da ruga recém nascida direto para lobo frontal do cérebro. Comecei a pensar em todos os comentários e pressões sociais que havia ouvido durante as semanas que anteciparam ao dia 17.                                                                                                                                                                                                                                        A sociedade espera que você chegue aos trinta anos casada, com pelo menos um filho, e intenções de encomendar o segundo. Sua carreira deverá estar consolidada e você precisará ter ao menos entrado num financiamento para a compra da casa própria. Eu não tinha nenhum dos requisitos merecedores para o upgrade na idade. E estava bem longe de tê-los, mas o tempo foi implacável e mesmo sem merecer, me tornei uma balzaquiana.

Fazer 30 anos é bem diferente de fazer 15, 18 ou 21. Aos quinze você é apresentada a sociedade. Aos dezoito é introduzida ao mundo das quatro ou duas rodas. Aos 21, as verdadeiras responsabilidades se apresentam, mas é aos 30 que a sociedade a qual você foi introduzida há 15 anos começa a te cobrar uma série de realizações e expectativas. E é por isso, que muita gente pira!

A minha fulgaz crise dos 30 durou bem menos que um minuto. O tempo que usei para espalhar o filtro solar. Embora estivesse me tornando uma balzquiana naquele dia, não me sentia uma velha frustrada por não ter realizado nenhuma das expectativas alheias. Na verdade, eu estava muito feliz com as minhas próprias expectativas. O que me salvou do desespero foi relembrar o texto de Sant’Anna. O autor concorda que os 30 anos são uma idade de um início de maturidade. Ele também espera que, aos trinta anos, já se tenha tido filhos, marido casa própria e carreira próspera. Só que a diferença é que para o cronista, há quem faz 30 anos aos 30, há quem faz aos 40, há quem morra sem nunca ter feito trinta anos.

A idade da realização, assim como a sociedade a conceitua, é muito relativa. As realizações, assim como a queremos, também é bem relativa. O que não se pode, é deixar-se levar pelas expectativas alheias e esquecer-se das próprias. A velhice assim como as realizações não chegam necessariamente aos 30 anos. Para muitas pessoas, ela vêm bem antes. Foi aí que ainda espalhando o filtro solar e brigando com a ruguinha recém nascida eu pensei: É bem provável que este cabelo branco já estivesse aí faz tempo, assim como a ruga. E eu ainda me considerava jovem, sem tê-las visto. Foram as expectativas alheias que me fizeram vê-las só agora. Menos mal.

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É TUDO ou Nunca mais

No mês do nascimento de Santo Antônio, e meu aniversário, um conto antigo, que ganhou um prêmio de literatura.

 

 “Promessa Infalível para Santo Antônio”

Toda terça-feira acender uma vela, rezar três Pai Nosso, três Ave Maria, fazer o pedido com fé e dar um nó na fita azul que acompanha este folheto. São treze semanas, treze nós e um pedido realizado. Esta promessa é tão infalível que antes do quinto nó ser dado, seu pedido será realizado.

Ela era uma mulher que amava demais. Amava como Cazuza, exageradamente e adorava um amor inventado. Ele também amava demais. Não em intensidade, em quantidade de mulheres. Amava uma aqui, outra ali, uma hoje, outra amanhã e às vezes até duas no mesmo dia. Foi então que Eles se conheceram. Numa festa do trabalho. Eram de departamentos diferentes, mas isso não fez nenhuma diferença. Um mês depois, já estavam saindo juntos. E Ela, como era de se esperar, acabou se apaixonando por Ele. Mesmo sabendo que Ele já tinha “passado o rodo” em todas as mulheres de seu departamento e agora dava vôo por outros setores da empresa.

A faxineira do andar Dele, era quem passava as informações para Ela. E aconselhou: “Homens desse tipo, gostam de desafio. Dá uma esnobada que ele come na tua mão”.

E assim Ela fez, mas logo percebeu que se esnobasse demais acabaria perdendo. Depois de alguns encontros Ela se entregou a Ele. De corpo, coração e alma. Para Ele foi excelente, mas o fim de mais um caso. Para Ela, maravilhoso e o início de uma longa história. Agora era Ele quem esnobava, mas não para Ela correr atrás, muito pelo contrário. Ele não queria mais nada. Ela queria seu amor.  Ela queria demais.

Depois de um tempo afastados Eles se reencontraram. Em outra festa da empresa. Ela, sozinha. Ele sozinho. Conversaram, trocaram charme, mas Ele não queria mais nada. E Ela, queria demais. “Tenta se aproximar. Vira amiga dele, sem pressão. Homem detesta ser pressionado. Vá com calma e você vai ver, logo, logo Ele se apaixona.”

Novamente, Ela seguiu os conselhos da faxineira. Fingiu sentimentos, escondeu o amor que sentia e se tornou a melhor amiga do homem que amava. Ela achava que com o tempo Ele iria se apaixonar, mas a tática da amizade não funcionou.

Foi então, que um dia, dentro da caixa de correio, junto de suas correspondências Ela encontrou um folheto com uma fita azul.

“Promessa Infalível para Santo Antônio”

Era um sinal. Era a solução.

Primeira Terça-feira. Um nó na fita: “Santo Antônio, faça Ele se apaixonar por mim. Três Pai Nosso, três Ave Maria.”

Primeiro encontro após a promessa. No elevador. Os dois trocam olhares e sorrisos.

“Parece estar funcionando”.

Segunda Terça-feira. Dois nós na fita e o mesmo pedido: “Santo Antônio, eu lhe rogo que Ele se apaixone por mim”. Três Pai Nosso, três Ave Maria e um empurrãozinho ao destino: Naquela mesma terça Ela passou sem querer, pelo departamento dele.

“Não posso deixar tudo nas mãos do Santo. Preciso lhe dar uma ajudinha”.

Ele não estava na empresa. Tinha feito uma viagem de negócio, assim, às pressas, sem avisar. Terceira Terça-feira. Três nós na fita e o mesmo pedido, cada vez mais suplicante: “Santo Antônio, eu lhe peço, eu lhe imploro, faça com que Ele se apaixone por mim. Por tudo que é mais sagrado.”

Antes de sair para o trabalho deu uma caprichada no visual: Vestido na altura do joelho, cabelos soltos. Salto alto. Ele ainda não tinha voltado da viagem.

Antes do quinto nó ser dado, seu pedido será realizado…

Quarta Terça-feira. Quatro nós na fita. O mesmo pedido…

Ele liga convidando para sair. Um jantarzinho romântico num restaurante na Lagoa.E depois…quem sabe… Algo mais. Ela aceita. E comemora eufórica.

No fim do encontro, início da madrugada. Ele se despede com um até logo… nem tão logo assim…

Antes do quinto nó ser dado, seu pedido será realizado…

Quinta Terça-feira. Cinco nós na fita. E o pedido não realizado. E Ele ainda não se apaixonou. “Talvez Ele esteja apaixonado, mas não se declarou ainda… Afinal eu pedi ao Santo que Ele se apaixonasse, mas me esqueci de pedir uma declaração. Será que Ele vai ficar nesta paixão enrustida? Tenho de me insinuar, deixar de me fazer de amiga.”

Dez pai Nosso, Dez Ave Maria. E muitas súplicas. “Meu santinho, será que posso reformular meu pedido? É que junto com a paixão eu também quero uma declaração. Faça Ele se declarar!”

Antes da Sexta Terça-feira. Decepção. Ele está namorando a secretária. A boazuda do departamento Dela.

“Que decepção hein, Santo Antônio. Tanto tempo de investimento e esta aí nem precisou fazer nada que já está namorando Ele.”

Apesar da quase falta de esperança, Ela não desistiu e confiou no Santo.

Décima Primeira Terça-feira. Onze nós na fita. E o mesmo pedido… Um pouco modificado: “Meu Santo, pelo amor de Deus, faça Ele terminar com a secretária e se apaixonar por mim, com declaração, por favor!!”

Décima Segunda Terça-feira. Doze nós na fita. Alegria e ansiedade no pedido. “Meu Santinho, falta apenas um nó. Obrigada por fazer Ele terminar com Ela. Obrigada por Ele ter descoberto que tipo de mulher era aquela secretária. Agora falta só o Senhor me ajudar… Não se esqueça da minha declaração. Não me desaponte, hein!”

Quinta-feira. happy hour  no barzinho perto da empresa. Eles se reencontram. Ela sorri timidamente. Ele escancara os dentes. Ela acena, Ele se aproxima e diz assim, na lata, na frente de todo mundo: “Eu estou apaixonado por você. Não consigo, nem posso sufocar tudo que estou sentindo. E fico me perguntando por que só agora pude perceber o quanto você é importante pra mim. Como deixei passar tanto tempo? Vamos ficar junto?”

Santo Antônio havia caprichado na declaração. Com direito a platéia e tudo. O dono do bar ficou tão emocionado que mandou descer uma rodada de cerveja por conta da casa. Só pra comemorar o pedido de namoro.

E ela…Disse não.

“Você só me quer porque Santo Antônio interveio, se eu não tivesse feito a promessa, se eu não tivesse suplicado por um milagre, você não teria se apaixonado. Assim eu não quero. Eu queria que você se apaixonasse por livre e espontânea vontade e não por pressão de um Santo. Vê se me esquece.”

A rodada de cerveja foi cancelada. E o pedido ao santo também.

Primeira Terça-feira livre da promessa. Ela conhece outro colega de trabalho. De outro departamento.

Ele está saindo com a única mulher que ainda não tinha “passado o rodo”. A faxineira do seu andar.                                                   

                                                                                 

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O melhor lugar do mundo é aqui… e agora! (Será?)

Quando fiz 15 anos, meus pais me deram de presente uma viagem pela Europa. Foram 35 dias “mochilando”, com uma amiga de infância, pelo velho continente. Era a minha primeira viagem ao exterior e a primeira vez que viajava sem meus pais ou alguém responsável. Promessa de muita aventura e boas lembranças.

Eu quase não comprei souvenirs ou bugigangas, mas gastei uma fortuna em filmes fotográficos registrando os detalhes de cada futura saudade. Foram 41 rolos de 36 poses. Um total de 1460 fotografias e um prejuízo na conta bancária do meu pai depois de revelar aquilo tudo.

Quando as fotos ficaram prontas, eu comprei uma caixa de papelão que continha seis pequenos álbuns, um pouco maiores do que uma foto 10×15. Todos os álbuns, inclusive a caixa, estampavam um mapa-múndi do final do século XVIII com tons envelhecidos de amarelo, azul e verde. Eu arrumei as fotos em seqüência e depois de um tempo, guardei a caixa na parte superior do meu armário junto com uns papéis antigos da escola e malas vazias.

É engraçado, porque embora eu desse tanta importância àquelas fotografias, posso contar nos dedos quantas vezes revi os retratos. Na verdade, eu tinha até me esquecido de alguns momentos da viagem e só voltei a pensar nisso na semana passada, quando ouvi num programa de rádio, uma psiquiatra discursar sobre os malefícios da saudade.

A médica contava histórias de pessoas que viveram presas a boas e más lembranças do passado, e que por isso, fizeram do presente, um momento para lamentações ou esperanças desastrosas. Ela falou por quase vinte minutos e depois do intervalo para anúncios publicitários iniciou o segundo bloco da entrevista ensinando truques para driblar o pensamento da saudade e das expectativas futuras. Segundo a psiquiatra, o ideal para viver bem é pensar apenas no aqui e agora.

Eu ouvi toda a entrevista tentando me convencer de que a médica com mestrado e doutorado no exterior tinha razão. E por um instante, me peguei anotando mentalmente as dicas para viver o presente com plenitude.

“Quando as memórias tomarem conta do seu pensamento por mais de cinco minutos e você começar a sentir um misto de tristeza e alegria. Pare. Respire e mentalize o seu momento presente. Pense com positividade naquilo que está vivendo.” dizia ela.

E lá estava eu, dirigindo, ouvindo o programa e mentalizando o momento presente. No mês que passou, eu respirei fundo e vivi o Carpem Diem com a tal plenitude exigida pela psiquiatra e acreditem: não foi bom.

Depois de um tempo seguindo as dicas da psiquiatra, eu me dei conta que estava me tornando uma adepta a essa corrente que condena a saudade, que só olha pra frente. E viver o hoje o tempo todo é muito cansativo e angustiante. Há tanta cobrança em relação ao presente, tantas sugestões do que fazer, de como aproveitar melhor o momento, que a gente não tem mais tempo para reviver o passado e se esquece da importância de sentir saudades.

No meio dessa ânsia pela felicidade momentânea é que eu me lembrei da minha primeira viagem pelo mundo e me toquei que eu precisava abrir a minha caixa de saudades mais vezes. Pra sentir por um rápido instante, uma dorzinha de vontade de ter 15 anos novamente.

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Se a praia fosse de Quixote…

Era uma travessia de ponta a ponta da praia do Sancho, em Fernando de Noronha.

A segunda chance de provar às minhas cinco amigas que eu era uma mulher de coragem. Já havia fracassado no mergulho com cilindro e agora não podia fazer feio. O guia, que nos acompanhava no passeio a praia, prometeu um mergulho com os golfinhos que passariam pela baía em uma hora.

As cinco amigas, todas destemidas, nadaram na frente. Eu fui escoltada pelo guia turístico que com medo do meu medo atrapalhar a travessia, decidiu nadar ao meu lado, segurando a minha mão. Aceitei de prontidão, afinal eu tinha um pequeno e pesado problema. Ninguém na praia tinha percebido, mas eu carregava nas costas toda a gordura de Sancho Panza, que, aliás, não era pouca. Sancho tinha uma missão: Precisava levar água, mantimentos e remédios para Don Quixote, do outro lado da praia, e quando me vi na praia, pediu para ajudá-lo.

O guia me dizia para ficar esperta. Não podíamos dar bobeira com as ondas cada vez mais altas. Era preciso esperar o recuo do mar, mergulhar bem fundo, prender a respiração e avançar assim que a onda gigante passasse por nós. Foram duas ondas. O Sancho até que colaborou no primeiro mergulho porque ele ainda conseguia ficar de pé. Mas no segundo, aquele homenzinho pesado pulou das minhas costas e nadou de volta pra areia. Eu soltei a mão do guia e fui à direção dele. Como fazem os amigos leais.

Não sei se o guia conhecia Sancho Panza, nem muito menos Don Quixote, mas seguindo os passos de um fiel escudeiro, ele nadou de volta a areia e juntou-se a nós.

As meninas já estavam em alto mar à nossa espera acenando com ansiedade. Foi quando o guia me olhou nos olhos, repetiu as orientações e perguntou se poderíamos tentar novamente. “Claro que sim”. Respondi sem hesitar e lá fomos nós mar adentro.

Passada a arrebentação, alcançamos as meninas e começamos a trajetória. Todos juntos. O guia de mãos dadas, e Sancho Panza confortável em minhas costas. Ele não podia se molhar porque carregava uma bolsa cheia de roupas, comidas e remédios de Quixote, que o deixava ainda mais pesado. Por um instante, me esqueci onde estava e nadei com toda a felicidade do mundo. Debaixo de mim, tubarões lixa, peixes coloridos, estrelas do mar, e muitas moréias. Mas nada disso me assustava ou me fascinava, a minha alegria era carregar Sancho Panza nas costas. Uma missão e tanto! Quem sabe, do outro lado da praia, Don Quixote nos esperava com seu cavalo?

O guia me olhava a toda hora fazendo um sinal de “ok” e vendo o meu sorriso de alegria ele decidiu soltar a minha mão. Pensou que talvez eu não precisasse mais dele, só porque eu sorria. Na hora, não me importei, afinal tinha a companhia de Panza. Eu usava uma máscara e um snorkel, só olhava para baixo e nadava muito forte. Quando decidi levantar a cabeça percebi que as meninas se afastavam a cada braçada e que o guia já tinha desaparecido no horizonte.

“Calma, está tudo sob controle!”. Meu primeiro pensamento, foi justamente pensar em não pensar. O peso de Sancho incomodava muito. Ele estava bem acima do peso ideal, e ainda por cima carregava consigo as comidas, os remédios e as roupas de Quixote. Ah, e claro, o mais pesado de tudo: seu escudo de ferro maciço.  Foi só pensar no escudo que eu dei um grito.

“SOCORRO!!!!”

O guia não me ouviu porque estava muito longe, mas a minha amiga Natália levantou a cabeça e nadou na nossa direção. Eu disse a ela que precisava voltar pra areia. Ela nadou depressa até alcançar o guia que veio nos salvar.

Era o fim da missão de Panza. As meninas continuaram na água e o guia me deu novas instruções para passar a arrebentação sem levar um caldo. As ondas esavam mais altas do que quando entramos no mar. Sancho se agarrou nas minhas costas com firmeza. Esperamos alguns minutos por uma onda mais fraca. Mergulhamos fundo, e nadamos depressa até a beira d’água. O guia voltou para trazer as minhas amigas. Era o fim da missão delas também. Não tinha mais Dom Quixote, nem mergulho com os golfinhos. E como fazem os bons amigos, ninguém tocou mais nesse assunto até o fim da viagem.

Sancho Panza tinha os pés no chão e a realidade na cabeça. Por isso, ele pesava feito chumbo. Carregá-lo nas costas foi uma impossível tentativa de esquecer o meu medo de mar e nadar com os golfinhos. O bom disso tudo é que assim como Panza, eu tenho fiel escudeiras. Amigas com a leveza dos sonhos de Quixote, que apesar de conseguirem nadar, não se importaram com o peso da minha realidade. Quem sabe noutra praia, com outro nome…

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