Presidente do GENP: “Ocupação da reitoria garantiu democracia no IFF”

O Papo Reto volta ao blog para repercutir os últimos acontecimentos da eleição do Instituto Federal Fluminense. Para isso, falamos com Hugo Pereira, presidente do Grêmio Estudantil Nilo Peçanha (GENP), representante dos estudantes do campus Campos-Centro. Aluno do curso técnico de Eletrotécnica do IFF e um jovem de 20 anos de idade, ele falou sobre a ocupação da reitoria, a vitória da democracia e a participação efetiva dos estudantes no pleito eleitoral.

Hugo Pereira, presidente do GENP

JA – Você liderou na última semana, sem dúvidas, a maior e mais decisiva manifestação da história da instituição. Como foi a decisão de ocupar a Reitoria e o que levou vocês a isso?
Hugo – Nós estavamos aguardando as apurações, quando foram apresentados os problemas. Nesse momento já haviam sido apurados os votos dos servidores e o resultado estava empatado. Em seguida começou-se a cogitar a impugnação das urnas dos estudantes do campus Centro. Um pró-reitor que não estava na apuração chegou com o procurador da escola e então começaram a reforçar essa hipótese. Tudo era apenas possibilidade até se tornar uma decisão da comissão eleitoral. A ocupação foi a maneira que encontramos de reivindicar o respeito a votação, independente do resultado, e garantir a participação dos estudantes. No começo éramos cerca de duzentos estudantes, mas depois vários estudantes sairam de suas aulas e se juntaram ao movimento, que foi ganhando força.

JA – Ocupar uma reitoria é uma decisão drástica sobre todos os sentidos. Essa ação era realmente necessária?
Hugo – Sem dúvida era. E foi isso que fez a diferença, pois já se falava em deixar o assunto para o Conselho Superior decidir. Só que esse Conselho é composto de dezoito pessoas, sendo que apenas seis foram eleitos para exercerem essa função e os demais são todos indicados pela Reitoria. Não era justo deixarmos a decisão do futuro da escola na mão de uma dezena de pessoas em detrimento de milhares de estudantes que votaram.

JA – Vocês se sentiram coagidos com a presença da Polícia Federal no campus? Como foi a negociação para desocupar a Reitoria?
Hugo – Coagidos? De maneira alguma. Pelo contrário, tivemos a certeza de que tudo seria resolvido. Recebemos elogios por uma ocupação pacífica e ordenada. Os agentes da Polícia Federal chegaram na escola com a denúncia de que haviamos quebrado todo o patrimônio da Reitoria. Isso não aconteceu e foi devidamente comprovado pelos agentes federais. Tanto é que os policiais em nenhum momento cogitaram uma ação mais enérgica para desocupação. Nós só desocupamos após uma reunião que participaram eu, os candidatos, a PF e a comissão eleitoral. Foi feita a proposta de apurar os votos e caso houvesse uma diferença de menos de oito votos que fosse realizada uma nova eleição somente entre os estudantes. Nós, a comissão e o candidato Luiz Augusto aceitamos a proposta de imediato. A reitora ficou receosa de início, questionando que o problema seria um indício de fraude. Só depois é que ela aceitou e então desocupamos a reitoria ordeiramente.

JA – A candidata derrotada durante a ocupação taxou o movimento de desnecessário e excessivo. Após, a candidata emitiu uma nota dizendo que foi um movimento de “estudantes profissionais”. A imprensa chegou até a noticiar que a Reitora buscava na justiça uma liminar de reintegração de posse da Reitoria. O que pensa disso tudo e dessa postura?
Hugo – Lamentável. A reitora poderia simplesmente optar pelo diálogo esclarecedor com os estudantes da instituição a qual administra. Desnecessária e excessiva foi a tentativa de expulsar os estudantes e colocar medo. Durante a ocupação, recebemos ligações no gabinete da reitora de pessoas ameaçando para sairmos de lá. Em todo o momento, o que se tentou foi desqualificar o nosso movimento legítimo. Ela como reitora pode não concordar, mas tem que respeitar a nossa posição, porque somos estudantes e também fazemos parte do instituto.

JA – Ela também disse que a porta da Reitoria foi arrombada e afirmou que uma pasta com documentos sumiu. Até que ponto os estudantes agiram com truculência?
Hugo – As portas, televisões, computadores, tudo permaneceu como estava. Haviam diversos objetos de valores sobre as mesas, mas nenhum copo foi quebrado ou sumiu. A todo momento, funcionários eram enviados à reitoria para retirar materiais que eles julgavam ser muito importantes. Em momento nenhum impedimos isso. Se houve truculência foi por parte dos seguranças à paisana que apareceram no momento da ocupação para intimidar os estudantes, tentando impedir a nossa entrada. Quando chegamos lá a porta estava trancada, tivemos que entrar por uma porta nos fundos, que eles não esperavam que conhecessemos. A maioria dos estudantes que participaram da manifestação nunca haviam entrado na Reitoria. Muitos ficaram surpresos com o que viram, tamanho glamour. Acho que é por isso que eles nunca quiseram sair de lá pra outro local.

JA – Há poucos anos atrás, os estudantes tinham uma participação pequena no processo eleitoral. Seus votos representavam um percentual pequeno. Somente após ter sido implantado a paridade nas eleições é que vocês passaram a ter uma participação maior. Inusitadamente, o destino quis que vocês decidissem essa eleição no IFF. Como vê essa participação dos estudantes?
Hugo – Coincidentemente, esse também foi o ano que houve maior participação dos estudantes em um processo eleitoral. O voto do estudante é o voto mais sincero que existe, pois a única coisa que a gente busca é a qualidade no ensino e não cargos ou gratificações, que muitas vezes acaba sendo o objetivo de muitos envolvidos no pleito.

JA – Em janeiro, o candidato eleito, Luiz Augusto, tomará posse. Qual é a expectativa de vocês em relação aos quatro anos de gestão do novo reitor?
Hugo – Acima de tudo, que seja uma gestão pautada na base do diálogo. Esperamos mudança, autonomia, desenvolvimento e principalmente mais oportunidades para aqueles que almejam um futuro melhor. Acredito que os estudantes terão um papel fundamental na próxima gestão, sendo vigilantes quanto ao cumprimento das propostas. A ocupação foi uma demonstração de que nós, estudantes, somos decisivos na instituição. Espero que o próximo reitor compreenda isso e passe a ouvir os nossos anseios.

JA – O presidente do SINASEFE, Paulo César Caxinguelê, propôs que o novo reitor institua uma auditoria para apurar as denúncias existentes sobre a administração da professora Cibele Daher. Você é a favor?
Hugo – No IF do Rio Grande do Norte, há placas por todos os corredores escrito: “Aqui a sociedade paga a conta”. Acho que essa frase também deveria ser trazida aqui para o IFF. É uma gestão pública, todos devem saber o que acontece e aconteceu durante os últimos anos. Portanto, sou a favor de uma auditoria.

 

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