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“Savane” de Ali Farka Touré (2006)

Tendo levado dois anos e meio para ser criada, esta obra-prima vinda de Mali foi terminada poucas semanas antes da morte do artista, após uma longa batalha contra um câncer nos ossos. Atualmente tido como o melhor álbum de um rico catálogo, Savane ajudou a obter reconhecimento mundial para o filho p’rodigo de Mali – recebeu postumamente a maior honraria do seu país, Commandeur de L’Ordre National du Mali, e mereceu um funeral oficial. Uma grande despedida para um artista que acreditava que ser fazendeiro era a sua principal função na vida.

Com o ngoni (um alaúde tradicional africano e provável precursor do banjo) colocado à frente de instrumentos tradicionais de percussão, o som é definitivamente baseado no folk de Mali, mas o acréscimo eventual de guitarra, gaita e rabeca também lembra o blues original de Son House e Robert Johnson. Misturar as duas tradições interrelacionadas é a chave do som único deste disco.

Há também influências sutis de country, reggae e até mesmo flamenco no mix, no centro do qual se encontra a voz profunda e rica de Touré, cantando em francês e em diversos dialetos regionais. “Savane” é uma ode às savanas atingidas pela seca em seu país, cantando a jornada de um homem que trocou a savana pela Europa urbana e que ansiava por seu regresso.

Numa época em que as paradas de sucessos estão preenchidas por artistas cujo principal problema é o estresse de ter que lidar com suas vidas de superestrelas, não é preciso pensar muito para entender porque este celebração sincera da música e das raízes reluz de forma tão brilhante.

Savane: YouTube Preview Image

“Talking Timbuktu” de Ali Farka Touré With Ry Cooder (1994)

Um dos primeiros álbuns de rock a desconsiderar solenemente a visão de cena roqueira sobre world music, esta colaboração levou um Grammy a uma fazenda na África Ocidental e questionou as crenças sobre a “americanidade” do blues.

Ali Farka Touré ficou conhecido na Europa através de gravações que tinha feito para a Rádio Mali e que, por sorte, caíram nas mãos certas. Músicos, DJs e críticos ficaram surpresos com a sua música, claramente relacionada com as raízes do blues – a ligação era tão próxima que alguns ainda insistem que esse africano tenha sido influenciado pelos afro-americanos. Touré nega, argumentando que é um estilo tradicional que foi levado, através do Atlântico, da África para o continente americano pelos escravos. O selo londrino World Circuit descobriu Touré e começaram a gravar ser trabalho. Ry Cooder entrou em contato com o músico africano e os dois encontraram-se em Londres em 1992. O passo seguinte parecia óbvio, mas levou algum tempo para ser organizado: Touré preferia ficar na sua fazenda a fazer turnês e dar shows.

Quando foi gravar, Touré sentiu más vibrações no estúdio. Ele dizia ter sido possuído por demônios quando criança e estes lhe teriam dado dotes musicais – agora estava sendo assombrado. Também porque não podia tocar na casa de Ry Cooder, em Santa Mônica, porque receava incomodar os espíritos do oceano; em Hollywood, por sua vez, espíritos famintos rondavam o estúdio. “Ele parecia feliz”, explicou Cooder, “mas algo de muito profundo o incomodava”. Os dois começaram a tocar em conjunto e a realizar arranjos musicais até surgir algo descontraído. Foi durante suas improvisações, contudo, que surgiu a resposta à pergunta mais pertinente: seja qual for a sua origem, o blues estava no sangue de Touré.

Diaraby: YouTube Preview Image

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