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Por Erasmo Junior, em 20-11-2011 - 20h55
Durante a sua turnê de 1965-1966, Bob Dylan costumava abrir os shows com uma série de hinos folk aacústicos, seguidos por rock elétrico. A reação foi desigual. Os jovens puristas, muitos dos quais haviam descoberto a música folk graças a Dylan, sentiram-se traídos pela impulsiva mudança de registro de seu heroi e estavam demasiado furiosos para perceberem que assistiam ao nascimento do folk rock.
Quando Dylan chegou a Manchester, em 16 de maio de 1966, tanto ele como os seus discípulos estavam preparados para uma luta. Talvez o mais doloroso para os fieis – que saudaram a segunda parte do show com vaias, assobios e outras manifestações de protesto – foi o fato de as músicas escutadas no Free Trade Hall serem velhas e queridas canções de Dylan transformadas em rock com a colaboração do Hawks, que mais tarde se tornaria The Band. As versões ardentes de “I Don’t Believe You” e “One Too Many Mornings”, apoiadas no tonitruante baixo de Rick Danko e na guitarra de Robbie Robertson, ganharam um novo sopro de vida e Dylan disparava as letras como flechas envenenadas.
A maior parte das músicas tocadas com instrumentos amplificados eram sobre o fim de relações, só que agora Dylan estava se dirigindo àqueles que desconfiavam de sua nova abordagem. Depois de uma comovente “Ballad Of A Thin Man”, alguém na multidão gritou “Judas!”. Dylan devolveu: “Você é um mentiroso!”, antes de se virar e ordenar aos Hawks que tocassem a música final – um brilhante “Like A Rolling Stone” – “alto pra cacete”. Dylan olhou para a escuridão e gritou: “How does it feel to be on your own?” (“Como é ter que estar sozinho?”).
I Don’t Believe You: 
Ballad Of A Thin Man: 
Like A Rolling Stone: 
Por Erasmo Junior, em 10-08-2010 - 18h24
As quaixas em muitas palavras, a harmônica ofegante – sim, é verdade, o álbum não escapou disso. Mas Blood On The Tracks traz também algumas das canções mais brilhantes de uma carreira em que não faltam lampejos de gênio.
O disco estava cercado de maus presságios. Dylan havia passado o início dos anos 70 fazendo álbuns irregulares, saltando de selo em selo e dando quase sempre a entender que não estava se adaptando bem à nova década. Para completar o caos, seu casamento tinha chegado ao fim. Podia-se esperar, portanto, reflexões piegas sobre o amor perdido.
Em vez disso, surgem a adorável “Tangled Up In Blue” (o título já é fantástico), a irônica “Idiot Wind” (Ÿou’re an eeeediot, babe”), a bela “Simple Twist Of Fate” e a impressionante “Lily, Rosemary And The Jack Of Hearts”, que não perde o fôlego ao longo de quase nove minutos. “Shelter From The Storm” expressa uma gratidão que qualquer homem oprimido e encurralado pode entender.
A música do álbum bebe do blues, do folk e de um som pré-Dire Straits, sem se demorar em qualquer estilo por tempo suficiente para que perca o fascínio. Essa diversidade se deve, em parte, ao fato de Dylan ter reformulado o disco depois que uma cópia-teste foi lançada, em novembro de 1974 (alegrando o Natal dos pirateadores). Insatisfeito com as gravações feitas em Nova York, ele refez “Tangled Up In Blue”, “You’re A Big Girl Now”, “Idiot Wind”, “Lily, Rosemary And The Jack Of Hearts” e “If You See Her, Say Hello” com músicos de sua Minnesota natal – e o resultado foi o segundo primeiro lugar consecutivo nas paradas americanas.
Quem só puder ouvir um único disco de Dylan, ou quiser ter alguma razão para atribuir a alguém a culpa pela existência do Dire Straits, deve comprar este álbum.
Tangled Up In Blue: 
Idiot Wind: 
Lily, Rosemary And The Jack Of Hearts: 
Shelter From The Storm: 
Por Erasmo Junior, em 03-07-2010 - 19h46
Estranhamente, depois do show “elétrico” no Manchester Free Trade Hall, em 17 de maio de 1966 (erroneamente chamado de “The Royal Albert Hall Concert”), pelo menos duas pessoas reivindicaram ser donas da voz que chamou Dylan de “Judas” de maneira infame. Parece esquisito que alguém fique orgulhoso de um ataque que, do ponto de vista de hoje, mostra-se terrivelmente inapropriado.
Se Highway 61, de 1965, foi sua impressionante estreia no rock ‘n’ roll, este álbum, lançado seis meses mais tarde, não era apenas uma simples consolidação do anterior, e sim a primeira obra-prima de Dylan no novo gênero.
O blues selvagem de Blonde On Blonde dá ao disco um tom de conversa de fim de noite, reflexão e desespero. O rock ‘n’ roll pulsante de faixas como “I Want You” se transforma, de repente, em tristes baladas como “Visions Of Johanna”, ou na tocante melancolia de “Just Like A Woman”, enquanto a música que encerra o disco, “Sad Eyed Lady Of The Lowlands”, é um manifesto dos sem-amor.
As observações poéticas de Dylan, surreais mas perceptivas, sugerem que o rótulo de “a voz de uma geração” é mais merecido por ele expressar os sentimentos de uma era do que por explicitar suas crenças políticas.
Este foi o primeiro álbum duplo do rock, e seu sucesso ajudou a garantir que o avanço, a experimentação e o estímulo se tornassem fundamentais para as perspectivas desse estilo musical. Não é surpresa, então, que a foto da capa esteja fora de foco. Em 1966, Bob Dylan estava indo tão rápido em termos criativos que o resto do mundo tinha dificuldade em alcançá-lo. E, muitas vezes, jamais conseguiu.
Por Erasmo Junior, em 03-07-2010 - 18h27
Desde a estreia da revolucionária Sagração da Primavera, de Stravinsky, que em 1913 provocou um motim no Théâtre des Champos-Elysées, em Paris, uma transformação musical não causava tanta controvérsia quanto a suscitada por Bob Dylan ao ligar sua guitarra no Festival Folk de Newport, em 25 de julho de 1965. Mas as chacotas dos puristas logo cessariam em meio ao entusiasmo com que o público recebeu Highway 61 Revisited, lançado um mês depois.
Ao se transformar de um cantor acústico de folk em um roqueiro empunhando uma guitarra elétrica, um processo iniciado no lado A de Bring It All Back Home, de 1965, Dylan reescreveu o manual da música pop. Uma canção de sucesso como “Like A Rolling Stone”, um hino banhado pelo órgão, não precisava seguir o padrão de três minutos de duração (apenas duas das nove faixas do álbum têm menos de quatro minutos; a vigorosa música final, “Desolation Row”, ultrapassa 11 minutos).
Com canções trabalhadas e poéticas como “Just Like Tom Thumb’s Blues”, que acabou com o foco tradicional nos refrões fáceis, Highway 61 Revisited funciona melhor quando ouvido sem a preocupação de entender todas as referências. Não é preciso usar um guia literário para apreciar a adrenalina pura de “Tombstone Blues” e “From A Buick 6″, e, afinal, essa foi a principal razão pela qual Dylan tomou o rumo do rock ‘n’ roll.
Por Erasmo Junior, em 03-07-2010 - 12h00
Em1965, Bob Dylan ganhou o mundo pop com tamanha velocidade que nem os Beatles conseguiam acompanhá-lo. Enquanto os ingleses pediam “Help!”, Dylan dedilhava “Mr. Tambourine Man”. Foi preciso que ele sofresse um acidente de motocicleta, em 1966, seguido de uma longa convalescença para que os outros chegassem perto.
Embalada numa capa cheia de significados para aqueles que desejam, um dia, se dedicar à Dylanologia, a música é uma viagem mental. O lado A, a metade elétrica, explode em folk: “Outlaw Blues” e “On The Road Again” são turbulentos blues de 12 compassos; “Subterranean Homesick Blues” é uma cadeia de pensamentos nonsense baseada em “Too Much Monkey Business”, de Chuck Berry; “She Belongs To Me” e “Love Minus Zero/No Limits” são suaves canções de amor. O outro lado do LP deveria ter agradado aos puristas, mas mesmo Dylan sozinho com o violão era demais para eles àquela altura: o que “Mr. Tambourine Man” ou “Gates Of Eden” tinham a ver com a dignidade dos trabalhadores? O que queriam dizer?
Dylan, claro, nem olhou para trás. Não podia: as palavras jorravam rápido demais. Ele gravaria mais adiante dois álbuns ainda melhores, mas neste se pode sentir a excitação de um mundo virado de cabeça para baixo, de um mito descobrindo seu talento e prazerosamente dando o melhor de si.
Por Erasmo Junior, em 01-07-2010 - 21h11
Se a música folk foi o pilar da cultura popular americana nos anos 50 e 60, ninguém incorporou as tensões da época tão bem quanto Bob Dylan. E The Freewheelin’ Bob Dylan foi particularmente responsável por firmar sua fama de cantor e compositor de técnica quase perfeita, dotado de uma visão poética focada no detalhe, na narrativa e no humor.
O álbum sublinha o compromisso de Dylan com as mudanças sociais (a capa mostra Dylan com sua namorada na época, Suze Rotolo, caminhando por Greenwich Village, onde atraiu atenções pela primeira vez como cantor folk). Uma trilogia de músicas do disco – “Blowin’ In The Wind”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” e “Masters Of War” – parecia englobar o desejo de mudança de toda uma geração. As três permanecem, em muitos aspectos, como as canções mais duradouras de Dylan, regravadas por artistas de todos os gêneros, incluindo o rap, o reggae e o country.
Como sempre, Dylan se desviou do caminho para desafiar as classificações musicais – estabelecendo esse padrão para o resto de sua carreira. Em músicas como “Don’t Think Twice, It’s All Right” e a sublime “Girl From The North Country”, ele joga com a temática de amor trágico das baladas, o surrealismo e até mesmo a comédia. Nesse aspecto, no mínimo, The Freewheelin’… deve muito ao trabalho de uma pessoa que o inspirou no início: Woody Guthrie. Essas músicas igualmente ignoram a embalagem colorida da sociedade americana, preferindo se identificar com as massas oprimidas do campo. Dessa forma, o álbum pode ser visto como um manifesto.
Apesar de Dylan lamentar o rótulo de porta-voz de sua geração, The Freewheelin’… é uma rara evocação de uma época em seu país.
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