Devido às profecias de Nostradamus relativas ao fim do mundo e ao medo do “bug do milênio”, 1999 não foi um ano fácil. Logo, era o momento mais adequado para que Will Oldham gravasse a sua sombria obra-prima country sobre o medo, o fracasso e o perdão.
Oldham, nascido em Louisville, Kentucky, começou a sua carreira como ator infantil e a sua habilidade para assumir diferentes papeis transparece em sua música (gravou como Palace Brothers e também como Palace). Oldham diz que o seu personagem Bonnie “Prince” Billy é uma mistura de Bonnie Prince Charlie, Nat King Cole e Billy The Kid: “Serve para várias coisas. Sinto-me bem numa conversa em que me tratam por Bonnie em vez de Will”.
O fato de ele estar tão “fora” do disco torna-o ainda mais íntimo. I See Darkness está repleto de histórias e, assim como no folclore, as suas narrativas conduzem diretamente a verdades maiores e mais sombrias. Embora os títulos das músicas sejam quase sinistros (“Another Day Full Of Dread”), a música é suave e elegante: acordes esparsos de piano, bateria com escovas, um baixo caloroso. A voz de Oldham, doce e frágil, dá força ao tom escuro, violento e emotivo do mundo que descreve. No cerne do álbum encontra-se a faixa-título (que teve uma memorável versão de Johnny Cash), anunciando a sua chegada tão discretamente que bem poderia se tratar da própria morte: “Did you ever, ever notice, the kind of thoughts I got?” (“Você algum dia já notou que tipo de pensamentos eu tenho?”), pergunta uma voz corajosa e trêmula, um reconhecimento dos medos e desejos primários que todos partilhamos. Um marco do folk gótico.



