Arquivos

Categorias

“My Life In The Bush Of Ghosts” de Brian Eno And David Byrne (1981)

Os nerds do REO Speedwagon dominavam as paradas de sucesso em 1981, mas enquanto o seu Hi Infidelity estava em primeiro lugar, outro álbum – sem nenhum hit ou um bom refrão para ser cantado em shows – foi parar entre os 50 Mais da Billboard.

Sua principal inspiração era Movies (1979), de Holger Czukay. Contudo, a menos que você seja um dos poucos que conhece esse disco, é melhor pensar no terceiro álbum de Peter Gabriel ou no trabalho de Brian Eno e David Byrne no Talking Heads. Na verdade, ele deveria ser um precursor de Remain In Light, do Talking Heads, mas questões legais fizeram com que fosse suspenso e alterado.

Ritmos tribais, funk e música eletrônica ambiente foram refinados com samples de vozes, transmissões radiofônicas e evangélicas – sobretudo o exorcista de “The Jezebel Spirit”.

“America Is Waiting” e “Regiment” são o que há de mais próximo ao rock. O resto é sinistro (“Mea Culpa”), assustador (“Moonlight In Glory”, irmã de “Seen And Not Seen”, de Remain In Light) ou simplesmente encantador.

A música “Qu’ran” do álbum original foi substituída em algumas edições posteriores por “Very Very Hungry”, lado B do compacto Jezebel, para escapar às críticas dos muçulmanos. Bush Of Ghosts permanece como testemunho da genial antevisão de Byrne e Eno (o sampling do hip-hop e a incorporação da world music pelo Ocidente ainda iriam demorar anos) e de quão atrativa e extraordinária a música se torna quando quebra todas as regras.

The Jezebel Spirit: YouTube Preview Image

America Is Waiting: YouTube Preview Image

Regiment: YouTube Preview Image

Mea Culpa: YouTube Preview Image

Moonlight In Glory: YouTube Preview Image

Qu’ran: YouTube Preview Image

“Ambient 1: Music For Airports” de Brian Eno (1978)

Se os três primeiros discos que Brian Eno lançou, no início da década de 70, representavam uma guinada em seu trabalho, depois de sair do Roxy Music, Discreet Music, de 1975, significou uma decolagem rumo ao espaço sideral. As quatro faixas de sons flutuantes, quase hipnóticos, sendo três delas reinvenções a partir de “Canon In D Major”, de Pachlbel, marcaram suas incursões inaugurais ao que chamou de ambient music. A ideia era desenvolver a musique d’ameublement (literalmente, música de mobília), uma criação do compositor francês Erik Satie, de 1920, planejada para ser apenas entreouvida. Discreet Music foi concebido durante uma longa estada no hospital. Este álbum, da mesma forma, foi inspirado num ambiente estéril.

“A música pode até ser ignorada e, ao mesmo tempo, tem de ser interessante”, escreveu Eno na apresentação de Ambient 1: Music For Airports. Como manifesto, o álbum cumpre totalmente seu papel. As quatro peças sem formato definido entram e saem de foco de maneira glacial: há um coro fantasmagórico, metais surdos, incontáveis pequenos toques de piano (tocado por Robert Wyatt em “1/1″). E, apesar da falta de estrutura, o disco se mantém agradável, graças principalmente à sua tonalidade bem construída.

Alguns críticos tacharam o álbum de chato – não entenderam nada. Destemido, Eno fez, depois de Ambient 1: Music For Airports, outros vários discos no mesmo padrão, entre os quais se destacam o misterioso e envolvente Ambient 4: On Land, de 1982, e o etéreo Apollo: Atmospheres And Soundtracks, de 1983. No entanto, ficou mais famoso como produtor, por seu trabalho com Daniel Lanois (que também fez Apollo: Atmospheres And Soundtracks) no álbum do U2, The Joshua Tree.

1/1: YouTube Preview Image

“Another Green World” de Eno

O terceiro álbum de Brian Eno foi concebido quando, imobilizado enquanto se recuperava de um acidente de carro, ele descobriu a capacidade da música de interferir no ambiente. Seu currículo incluía os sintetizadores de dois álbuns do mestre do art-glam, o Roxy Music, uma participação num tape loop de Robert Fripp e dois discos solo de pop de vanguarda – mas ele estava prestes a elaborar a gênese da ambient music.

Apesar de dizer que não é músico, Eno é um homem culto, que estudou arte. Também produtor (Taling Heads, Devo, U2) e designer, ele conhecia bem a música de vanguarda e se mantinha atento a experiências novas da época – como o Karutrock, por exemplo – que podia manusear e transformar em outra estética.

Em Another Green World, Eno criou uma bela confluência entre padrões tradicionais do rock e do pop e a sonoridade ambiente. Naïf e minimalista, o disco era, ao mesmo tempo, emocionante e sofisticado, entremeando cinco faixas vocais de poesia enigmática e repleta de aliterações com nove inusitadas músicas instrumentais. “I’ll Come Running” e “St. Elmo’s Fire” são as melhores faixas entre as vocais, ambas embelezadas pela extraordinária guitarra principal de Robert Fripp. John Cale e Phil Collins também participaram do disco. Há um quê da Brand X, a banda de Collins, nas faixas de jazz-rock, como “Zawinul/Lava” e “Sky Saw”. Mas a voz cativante de Eno e uma coleção de invenções criadas especialmente para o álbum (guitarras modificadas, truques de gravação, geradores de ritmo eletrônico e sintetizadores) foram as principais responsáveis por levar o disco a um novo território musical. Os álbuns de David Bowie Low, “Heroes” e Lodger foram inspirados nesta obra-prima.

I’ll Come Running: YouTube Preview Image

St. Elmo’s Fire: YouTube Preview Image

Zaniwul/Lava: YouTube Preview Image

Sky Saw: YouTube Preview Image

Sombre Reptiles: YouTube Preview Image

“Here Come The Warm Jets” de Brian Eno

O Roxy Music não tinha espaço suficiente para a beleza de Brian Ferry e para o experimentalismo de Brian Eno. Na época do lançamento de For Your Pleasure, em 1973, eles já sabiam disso e Eno deixou a banda logo em seguida.

Depois de fazer No Pussyfooting com o guitarrista Robert Fripp, Eno botou para fora sua própria visão musical neste primeiro álbum solo. Apesar do título atrevido, Here Come The Warm Jets é uma obra de mestre que conjuga ambições artísticas e pop rock, refletindo seu trabalho com o Roxy Music e antecipando as principais características do que Eno faria, mais adiante, em parceria com David Bowie.

Neste álbum, ele desenvolveu um som synth-rock, apoiado por Andy Mackay, Phil Manzanera, Fripp e outros exploradores sonoros, que serviu como principal inspiração para os artistas da new wave nos anos 80. Here Come The Warm Jets continha tanto melodias acessíveis como obscuras experiências pós-modernas. Num contraponto ao art-rock pretensioso do ELP e do Yes, o álbum se apresentava primeiro como um disco de rock, remetendo, às vezes, à pbjetividade do The Velvet Underground. Também é um disco à base de guitarras – infelizmente, Manzanera e Fripp não tocam juntos. Os dois magos da guitarra se alternam, Manzanera à frente com seus ritmos afiados em “Needles In The Camel’s Eye”, seguido de Fripp, que sobe ainda mais o nível em “Baby’s On Fire”. Eno mantém o senso de humor ao longo do disco, construindo “Cindy Tells Me” sobre um doo-wop clássico e esbanjando ironia em “Dead Finks Don’t Talk”, na qual imita um ex-companheiro de banda.

Apesar de sua evidente falta de apelo comercial, o álbum vendeu surpreendentemente bem, entrando na lista dos 30 Mais na Inglaterra. Eno aprimorou seu trabalho e foi ainda mais longe em Another Green World, de 1975.

Needles In The Camel’s Eye: YouTube Preview Image

Baby’s On Fire: YouTube Preview Image

Cindy Tells Me: YouTube Preview Image

Dead Finks Don’t Talk: YouTube Preview Image

Driving Me Backwards: YouTube Preview Image

Here Come The Warm Jets: YouTube Preview Image

Copyright © 2010 - Folha da Manhã - Todos os direitos reservados