Arquivos

Categorias

“The Rising” de Bruce Springsteen (2002)

Um disco nascido das cinzas dos ataques de 11 de setembro? Só um artista do calibre – e com a experiência – de Bruce Springsteen poderia lançar este álbum sem criar algo tolo, esteriotipado ou vangloriosamente vingativo.

The Rising é a magistral resposta de Springsteen. Canta energicamente sobre despertar para um céu vazio em “Empty Sky” e sobre as ruínas da cidade em “My City Of Ruins”. Tece um hino à bravura das equipes de resgate em “Into The Fire”. Fala dos “ímpetos de veingança”, mas sabe que tudo vai passar (“também isso irá passar, eu vou rezar [...] encontrar meu caminho em meio à desolação desse dia”) na bela “Lonesome Day”. Assume o lugar de sobrevivente traumatizado que se sente como um ninguém em “Nothing Man”, uma balada dolorosa que comove até às lágrimas.

The Rising é poderoso e impactante. Pela primeira vez desde Born In The USA, outro álbum de Springtseen que marcou uma época, ele se reúne em estúdio com a E Street Band. Dezoito anos após aquele grande disco, esses companheiros de longa data, reunidos pelo produtor grunge Brendan O’Brien, contribuem para o vigor declamatório de “Lonesome Day” e para a música que intitula o disco, e conferem às baladas “Nothing Man” e “You’re Missing” um tom elegíaco e lúgubre. O álbum fala sobre angústia, desespero, solidariedade e necessidade de seguir em frente; não trata de retaliação. Essa ideia de curar as feridas é inscrita com inspiração em “Worlds Apart”, que traz o harmônio, a tabla e estilos vocais da música oriental sufi. Em “Paradise”, Springsteen até mesmo se atreve a cantar sob a perspectiva de um homem-bomba. É um disco realmente emocionante.

Empty Sky: YouTube Preview Image

My City Of Ruins: YouTube Preview Image

Into The Fire: YouTube Preview Image

Lonesome Day: YouTube Preview Image

Nothing Man: YouTube Preview Image

The Rising: YouTube Preview Image

You’re Missing: YouTube Preview Image

Worlds Apart: YouTube Preview Image

Paradise: YouTube Preview Image

“Born In The U.S.A.” de Bruce Springsteen (1984)

Gargalhadas de alegria devem ter enchido a CBS no verão de 1984. Assim que Thriller saiu do Top 5 da Billboard, Born In The U.S.A. (também de uma subsidiária da CBS) tomou o seu lugar, ficando entre os primeiros por mais de um ano. Os dois álbuns sobreviveram com grande estilo aos seus anos de sucesso e, como cada um deles gerou sete singles no Top 10, chegam a soar como coletâneas de hits.

O sucesso de Bruce Springsteen pode ser atribuído, em parte, a uma postura mais ousada. Deixando o amargo Nebraska para trás, ele destilou as melhores dentre as supostas 100 músicas que teria composto e assegurou seu status de ícone do pop através das lentes de Annie Leibowitz, que fotografou seu traseiro vestindo jeans na capa.

Desde “Born In The U.S.A.” – que originalmente era um lamento acústico, mas se transformou numa tempestade no melhor estilo The Who – até a sensual “I’m On Fire”, passando pela afetuosa “Glory Days”, a música é enganosamente comercial. “Enganosamente” porque as letras pedem introspecção. Há “Dancing In The Dark”, sobre sua frustração por ter que compor um grande sucesso; a nostálgica “Bobby Jean”, homenagem ao companheiro de estrada Steve Van Zandt; o rock ‘n’ roll amalucado de “Working On The Highway”, que mascara uma letra dura; e, claro, a aparentemente patriótica “Born In The U.S.A.”, que na verdade é uma condenação corrosiva. Para confirmar ainda mais a sua genialidade, ele torna a poderosa “No Surrender” em algo tão comovente quanto a romântica “I’m On Fire”.

É fácil interpretar errado este disco: o então presidente Ronald Reagan citou a faixa-título como um exemplo a ser seguido. Seu sucesso – mais de 15 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos – pode encrispar os ânimos, mas não se deixem enganar. Em seu espírito – amor, lar e honestidade -, este álbum é pura alma e coração.

Born In The U.S.A.: YouTube Preview Image

I’m On Fire: YouTube Preview Image

Glory Days: YouTube Preview Image

Dancing In The Dark: YouTube Preview Image

Bobby Jean: YouTube Preview Image

Working On The Highway: YouTube Preview Image

No Surrender: YouTube Preview Image

“Nebraska” de Bruce Springsteen (1982)

Em comparação com seu estrondoso álbum duplo de estreia, The River, o segundo disco de Bruce Springsteen, Nebraska, parecia suicídio profissional. Apesar disso, Springsteen estava determinado a lançar seu disco de demos caseiros, mesmo que isso lhe custasse o rompimento com a sua gravadora.

As 10 músicas de Nebraska marcaram um novo ponto de partida: o cantor e compositor de coração e alma americanos. O disco é uma sucessão de retratos desoladores e com frequentes conotações políticas sobre comunidades nas pequenas cidades dos Estados Unidos – marcadas pelo desemprego, escassez de oportunidades e crime endêmico. A faixa-título conta a história verídica das matanças de um assassino serial, Charlie Starkweather. “State Trooper” é um relato acerca de um policial local que se vê obrigado a enfrentar o seu irmão, um criminoso. E “Atlantic City” apresenta a famosa cidade do jogo como um inferno corrupto de perdedores e oportunistas. Em todo o disco, Springsteen consegue segurar as músicas por conta própria, com narrativas instigantes.

Este álbum pretendia desafiar tanto o seu autor quanto os seus fãs e foi grande sucesso comercial e artístico. Aionda que o disco seguinte, Born In The USA, levasse o cantor de volta ao território familiar do rock de estádio, anos mais tarde ele regressaria ao pessimismo de Nebraska com Tunnel Of Love e mais tarde com Ghost Of Tom Joad, dois discos essencialmente acústicos. Nesse sentido apenas, talvez Springsteen seja o roqueiro mais próximo do legado do músico folk americano Woody Guthrie.

Nebraska: YouTube Preview Image

State Trooper: YouTube Preview Image

Atlantic City: YouTube Preview Image

“Darkness On The Edge Of Town” de Bruce Springsteen (1978)

Graças a uma disputa legal com seu antigo empresário, Mike Appel, Bruce Springsteen teve três anos para gozar o sucesso monumental de Born To Run e para planejar o disco seguinte. O resultado, Darkness On The Edge Of Town, é muito diferente de seu predecessor.

Como já havia feito Bob Dylan, Springsteen se afastou da fama e se mudou para uma fazenda em Nova Jersey, onde pôde retomar o foco da “vida nos limites estreitos das cidades pequenas, nas quais fui criado”. Ele queria “escrever sobre o estresse e a tensão da vida do meu pai e da minha mãe, causados pela luta para pagar as contas” (o álbum ia se chamar Loucura Americana, em referência a um filme de Frank Capra sobre a Depressão). A paternidade é um dos temas do disco (“Adam Raised A Cain”), assim como a batalha pela vida (“Streets Of Fire”, “Factory”). Há canções sobre as frustrações numa cidade pequena, às vezes sexuais (“Candy’s Room”), às vezes sociais (“The Promised Land”).

Como se trata de Springsteen, a agústia é temperada por romance, em especial, de estrada – várias faixas falam de sair dirigindo como fuga ou em busca de emoções -, mas, musicalmente, é um álbum bem mais suave do que Born To Run. Pouco se ouve o sax de Clarence Clemon. Ao contrário, a guitarra de Springsteen e o piano contido e melancólico de Roy Bittan dão o tom.

Enriquecedor, introspectivo, triste e completamente louco, Darkness On The Edge Of Town é um fascinante filme B épico, num contraponto ao blockbuster que foi Born To Run.

Adam Raised A Cain: YouTube Preview Image

Streets Of Fire: YouTube Preview Image

Factory: YouTube Preview Image

Candy’s Room: YouTube Preview Image

The Promised Land: YouTube Preview Image

“Born To Run” de Bruce Springsteen

Tudo op que se ouviu falar de Born To Run é verdade: trata-se de um aspirante a cantor de soul com uma produção pseudo-Spector que ameaça ser soterrado por sua própria vaidade e parece um rascunho do Bon Jovi. Mas o fato é que seus clássicos são daqueles que grudam no ouvido, como “You Give Love A Bad Name”.

O álbum podia ter sido um desastre. Determinado a “usar o estúdio como uma ferramenta e não como uma tentativa de replicar o som do momento em que estávamos tocando”, Springsteen imaginou um álbum conceitual, com o título provisório The Legend Of Zero ou Blind Terry. Por sorte, esses conceitos foram abandonados – assim como a influência de Bob Dylan dos discos anteriores. As harmônicas de “Thunder Road” têm um quê de Zimmerman, mas, logo depois, surgem pianos e sinos alegres, guitarras potentes e a bateria dramática que caracterizavam a música de Springsteen. Há também épicos sofisticados – “Backstreets”, “Jungleband” -, com introduções capazes de fazer um adulto chorar. O álbum traz “Born To Run”, que emociona, mesmo depois de ouvida inúmeras vezes, quando Bruce aumenta a velocidade naquela estrada “jammed with broken heroes”.  Há ainda delícias sutis: o show de trompete de Randy Brecker em “Meeting Across The River” e a batida à la Bo Diddley transmitindo a tensão apaixonada de “She’s The One”. E, claro, há as deliciosas memórias de “Tenth Avenue Freeze-Out”.

Springsteen faria ainda mais clássicos. Mas foi com este álbum que tudo começou: a fama avassaladora obtida com suas apresentações ao vivo e a maré crescente de exposição na mídia esbarram num compositor que entendia de sofisticação sonora e simplicidade lírica – e quem ganhou foi o público.

Thunder Road: YouTube Preview Image

Backstreets: YouTube Preview Image

Jungleband: YouTube Preview Image

Born To Run: YouTube Preview Image

Meeting Across The River: YouTube Preview Image

She’s The One: YouTube Preview Image

Tenth Avenue Freeze-Out: YouTube Preview Image

Copyright © 2010 - Folha da Manhã - Todos os direitos reservados