A começar pelo texto de introdução, escrito pelo psicólogo de Charles Mingus, este não é um típico álbum de modern jazz. É claro que nada sobre esse virtuose do baixo e compositor pode ser descrito como típico, mas, numa discografia repleta de obras-primas e de quase obras-primas, este disco é considerado seu trabalho mais poderoso.
Desde os primeiros acordes de “Solo Dancer”, escorada pela tuba áspera de Dob Butterfield, a música se anuncia como um psicodrama em ebulição. O sax alto de Charlie Mariano chega a incríveis picos de lirismo e intensidade, enquanto o rugir do trombone de Quentin Jackson, ecoado pelos trompetistas Rolf Ercson e Richard Williams, é de uma beleza atordoante. Há também momentos calmos, nos quais a influência flamenca da guitarra de Jay Berliner se envolve num ágil pas de deux com o piano imprevisível de Jaki Byard. O extraordinário baterista Dannie Richmond, que tocou durante 20 anos com Mingus, é o responsável por manter a unidade da música e conduzi-la adiante.
Embora claramente inspirado na paleta orquestral de Ellington, Mingus se aventura em zonas mais explosivas do que Duke. O que é particularmente notável em The Black Saint And The Sinner Lady é o fato de ter sido gravado apenas três meses depois do maior desastre público de Mingus, o caótico concerto no Town Hall – o baixista não deixou que o fracasso o paralisasse.

