Em 1976, Fela Anikulapo Kuti era a superestrela africana, um gigante da música do século XX no topo do vulcão. na década anterior, acompanhado pelo baterista Tony Allen, seu guia rítmico, e pela banda Afrika ’70, Fela tinha criado uma nova escola de música – o afrobeat. Esse estilo fundia o jazz e os elementos funk da música afro-americana com o highlife da África Ocidental, a música tradicional da Nigéria e ritmos iorubás, iluminados pela chama da conscientização negra, numa visão política do continente – expressa por letras poderosas e críticas e por um estilo de vida contestador. Seus discos venderam milhões de cópias na Nigéria e no Oeste da África. Artistas famosos do Ocidente (Paul McCartney, Ginger Baker, Stevie Wonder, James Brown e Lester Bowie) correram a Lagos para conhecer os novos sons e fumar maconha.
Zombie é um dos 18 álbuns que Fela Kuti lançou entre 1976 e 1977. A característica duração épica da faixa-título (muito “cabeça” mesmo para as rádios FM da época) permite uma longa combustão. Os incansáveis riffs de rhythm guitar são acompanhados pelas linhas de baixo em estilo funk, pela bateria e por um exorbitante solo de Fela no sax tenor, seguidos por um refrão mais suave no trompete e por um riff de bateria. Depois de cinco minutos de um trompete delicioso, Fela canta um insuperável hino antimilitarista contra aqueles que seguem ordens: “Zombie no go stop unless you tell him to stop / Zombie no go think unless you tell him to think” (“o zumbi não para enquanto não o mandam parar / o zumbi não pensa enquanto não o mandam pensar”). A resposta do governo militar da Nigéria foi mandar o exército atacar a população, causando a morte da mãe de Fela e destruindo seu quartel-general – uma área conhecida como República Kalacut – e seu clube, o Shrine.



