Depois do hermético jazz eletrônico de Sextant, Herbie Hancock seguiu um caminho mais linear de funk em Headhunters. Ele ouviu muito James Brown e Stevie Wonder, e gravou algumas sessões, inéditas, com Marvin Gaye. Mas foi o funk polirrítmico do Sly And The Family Stone que moldou seu trabalho.
Hancock se despiu da bagagem de jazz experimental do LP Mwandishi Sextet, altamente inovador – e nada lucrativo -, e, do time de músicos daquele álbum, manteve apenas o multiinstrumentista de sopro Benny Maupin, convocando Paul Jackson para fazer o papel do baixista do Sly Stone, Larry Graham. O disco acabou muito diferente do som so Sly, mas inventou variados gêneros de música.
Em algum lugar da linha vibrante e cromática do baixo de “Chameleon” está o DNA da dance music eletrônica. O primeiro ressoar do smooth jazz aparece enredado nas improvisações modais de Herbie no Fender Rhodes, enquanto o techno, a disco music e o drum ‘n’ bass nasceram dos breakbeats afiados de Harvey Mason.
Ao contrário dos lançamentos de funk elétrico que Hancock fez mais adiante, Headhunters mantém vestígios de sensibilidade vanguardista – como no ritmo militar de “Vein Melter”, no funk mutante de “Sly” e em “Watermelon Man”, uma releitura de seu sucesso de R&B de 1962 baseada no canto de pigmeus africanos.
A banda gravou mais dois discos (muito sampleados) com o nome de The Headhunters, e a carreira de Hancock teve alguns toques de genialidade, mas nada melhor do que esta obra-prima inovadora do jazz-funk.






