Antes deste disco, o curriculum vitae de Jah Wobble era digno de uma lenda urbana: amigo de Johnny Rotten – e, como ele, amante de motos -, baixista do Public Image Ltd., experimentalista do dub junto com Holger Czukay e The Edge, bon vivant e empregado do metrô de Londres. Vendo-se cada vez mais afastado da indústria musical, uniu-se ao guitarrista Justin Adams, que estava interessado na música do Oriente Médio. Natacha Atlas, uma cantora belgo-espanhola com raízes árabes, juntou-se a eles. O seu primeiro disco foi intitulado Without Judgement e teve pouco sucesso comercial, mas foi um cartão de visitas que despertou muito interesse.
A música de Jah Wobble – caracterizada por apresentar um baixo de dub, percussão latina e magrebina e melodias de guitarra da Espanha e do Norte da África – formava uma combinação aparentemente extravagante no final dos anos 80, mesmo numa cidade multicultural como Londres. Mas Wobble não estava sozinho: grupos como o Transglobal Underground e Loop Guru possuíam influências semelhantes, mas tinham vindo da cena rave, não da punk. A big band de Wobble, contudo, era seu grande trunfo. Graças a Atlas, “Erzulie” poderia ter sido um chamado à oração gravado em Damasco, enquanto “Bomba” é um mantra capaz de induzir um transe; Sinéad O’Connor, cantora convidada, transformou a hipnótica “Visions Of You” num single de sucesso.
Era difícil entender o que fazer com aquela música: dançar era uma opção, mas também parecia ser o acompanhamento perfeito para uma viagem de maconha. A perda sofrida pelo metrô de Londres foi um ganho para o resto do mundo.



