A Love Supreme, o poema musical definitivo de Coltrane, foi seu quinto álbum para o famoso selo de indie jazz Impulse!, depois de um período na gravadora Atlantic, especializada em R&B. Em suas investidas anteriores, ele ziguezagueou pela história do jazz – participou das inovações de Miles Davis; mergulhou na “New Thing”; gravou uma série de baladas, numa parceria improvável com o croonet Johnny Hartman; reuniu uma orquestra fenomenal para o disco Africa/Brass; e chegou a dividir espaço com Duke Ellington.
Em 1962, no entanto, Coltrane já tinha desenvolvido um tipo de jazz modal que invocava escalas indianas e árabes, mantendo um foco espiritual apaixonado. Enquanto ele falava a língua do sax soprano e tenor, seu legendário quarteto o acompanhava num hard bop que levava à Índia e à África, ao soul e até mesmo à música psicodélica.
A Love Supreme comsegue o raro feito de não fazer qualquer concessão e, ainda assim, ser totalmente acessível. A insistente linha de quatro notas do baixo de Garrison que inicia “Acknowledgement” (“A Love Su-Preme”) funciona como um leitmotif, constantemente reafirmado, explorado e mutilado tanto pelo sax tenor como pelos mágicos vocais. “Resolution” leva a um Coltrane mais familiar, complementado pela bateria de Jones (que soa como se fosse um solo, sem perder sua batida sólida), enquanto a coda do álbum, “Psalm”, é uma oração instrumental.
Este disco é uma viagem quase perfeita ao despertar da consciência, à compreensão do mundo e à iluminação espiritual.

