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“One World” de John Martyn (1977)

À medida que os anos 70 avançavam, John Martyn ia ficando cansado. As mortes dos amigos Nick Drake e Paul Kossoff o abalaram. Seu estilo infernal de vida, movido a doses cada vez maiores de álcool e drogas – diametralmente oposto ao trovador cósmico de voz doce incorporado no álbum -, combinado com a descrença geral na indústria da música, pressionou Martyn até o limite. A convite do fundador da Island, Chris Blackwell, ele passou algum tempo na Jamaica, onde conheceu o lendário produtor Lee Perry e gravou vários improvisos de reggae.

Revitalizado, depois de um período sabático de três anos, Martyn gravou o disco ao longo do verão de 1977. One World foi feito à noite, no refúgio de Blackwell em Berkshire, em meio a amigos e familiares. O engenheiro de som Phill Brown colocou microfones fora da casa e gravou Martyn cantando do outro lado de um lago, captando o ruído ambiente. Com o apoio de músicos experientes como Steve Winwood e Rico Rodriguez, Martyn esculpiu um som etéreo inacreditável, especialmente em “Small Hours”, uma meditação de oito minutos sobre a vida e o amor. O espírito de Perry permeia One World e o lado dub de seu Black Ark Studio influi em boa parte das gravações, em particular em faixas como “Smiling Stranger” e “Big Muff”.

O álbum foi lançado no auge do movimento punk na Inglaterra e a capa traz os símbolos de diferentes culturas envolvidos no rastro de uma sereia. One World é uma obra de arte quase perfeita, um álbum inteligente feito por um hippie inteligente.

Small Hours: YouTube Preview Image

Smiling Stranger: YouTube Preview Image

Big Muff: YouTube Preview Image

“Solid Air” de John Martyn

John Martyn já havia lançado cinco álbuns antes de Solid Air. Mais que um disco de folk, jazz ou blues, este LP faz uma alquimia dos três e é a performance mais importante da carreira de Martyn, que canta com uma triste sinceridade neste clássico extemporâneo. A capa de Fabio Nicoli pode dar a ideia de que o álbum foi tirado de um livro de ficção científica, mas a música é tudo, menos distante.

É o que se pode constatar na faixa-título: um blues lento e hipnótico. O disco foi feito em homenagem e, também, como uma advertência a Nick Drake, que morreu 18 meses depois do lançamento de Solid Air. O vocal mágico de Martyn é acompanhado por um elegante contrabaixo e um sax soprano macio, que evoluem em torno da música como uma névoa enquanto os acordes de vibrafone soam mais ao fundo.

A instrumentação pouco carregada mas expressiva se repete em “Don’t Want To Know”, e essas duas faixas dão o tom lânguido e noturno do álbum. Isso reflete, em parte, a força da parceria musical de Martyn com o virtuose do baixo Danny Thompson, que mostra o seu melhor desempenho nas duas canções. Mas Solid Air tem mais a oferecer do que reflexões insones sobre a condição humana.

O blues abrasivo de “I’d rather Be The Devil” cai bem entre o erotismo frágil de “Go Down Easy” e o firme compromisso de intimidade de “May You Never”.  Várias vezes, a corajosa sinceridade de Martyn une todos os elementos – e o evidente calor deste álbum vem da mesma fonte: uma performance carismática e passional de um músico numa forma deslumbrante.

Solid Air: YouTube Preview Image

Don’t Want To Know: YouTube Preview Image

I’d Rather Be The Devil: YouTube Preview Image

Go Down Easy: YouTube Preview Image

May You Never: YouTube Preview Image

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