Arquivos

Categorias

“American IV: The Man Comes Around” de Johnny Cash (2002)

Johnny Cash morreu em setembro de 2003, um ano depois do álbum The Man Comes Around ser lançado. Este quarto disco de uma série de gravações para a American Recordings transpira atrevimento, inevitabilidade, desafio e raiva. Como sempre, Cash trabalha, sobretudo, com composições de outros, usando o seu timbre solene e a sua empatia para apropriar-se delas. Sting escreveu a poderosa balada de assassinos “Hung My Head”, mas até mesmo ele reconheceria que Cash estabeleceu a interpretação definitiva: uma narrativa arrependida, assombrada pela dor, sobre a falta de sentido da morte. Em “Hurt”, ele reinterpreta o lamento amargo do Nine Inch Nails, transformando-o num hino ao remorso sincero e inexorável – um vídeo premiado dá a essa música uma compaixão quase insuportável, intercalando imagens de Cash jovem e vigoroso com outras dos dias atuais, revelando um homem já idoso, frágil e teimoso.

As versões nem sempre são bem-sucedidas – é melhor evitar a piegas “Danny Boy” -, mas muitas são fantásticas: “Personal Jesus”, do Depeche Mode, se transforma num legítimo boogie no estilo Jerry Lee Lewis, enquanto a plenitude madura dos Beatles em “In My Life” encontra um veículo perfeito na pungente interpretação de Cash. As novas versões de algumas músicas do próprio artista não são menos impressionantes – especialmente a confiante “Sam Hall” -, mas a melhor do disco talvez seja uma nova composição, “The Man Comes Around”, repleta de citações do Apocalipse, inspirada por um sonho e pela Bíblia. A faixa apresenta um estilo profético e surreal que, somado à interpretação intensa de Cash, a torna tão impressionante quanto qualquer outra das músicas já gravadas por este colosso norte-americano.

Hung My Head: YouTube Preview Image

Hurt: YouTube Preview Image

Danny Boy: YouTube Preview Image

Personal Jesus: YouTube Preview Image

In My Life: YouTube Preview Image

Sam Hall: YouTube Preview Image

The Man Comes Around: YouTube Preview Image

I’m So Lonesome I Could Cry: YouTube Preview Image

“Johnny Cash At San Quentin” de Johnny Cash

Na esteira do sucesso de At Folsom Prison, Johnny Cash chegou a San Quentin em fevereiro de 1969 acompanhado por uma equipe de gravação da Columbia e outra da televisão britânica. Era a quarta visita de Cash à prisão (Merle Haggard quando preso, havia assistido a uma dessas apresentações), mas a primeira sem Luther Perkins, seu guitarrista desde a época da Sun, que tinha morrido alguns meses antes.

O repertório de Cash na prisão de Folsom era uma torrente de músicas sobre a morte, a prisão e o crime, mas em San Quentin o material era menos abertamente violento, talvez refletindo a domesticação de seu próprio temperamento selvagem. No entanto, o álbum inclui a primeira apresentação de uma nova música, “San Quentin”, e a interpretação sem concessões de Cash dessa poderosa condenação ao sistema penitenciário – e a San Quentin em particular – quase provocou um motim na plateia (o produtor Bob Johnston, aparentemente, realçou ainda mais no estúdio o barulho do público, mas pode-se perceber que a tensão no ar é legítima). A reação dos detentos fez com que Cash, impressionado, repetisse de imediato a canção.

Mas o disco é também uma combinação de spirituals (“Peace In The Valley”), rockabilly (“Big River”) e novidade (“A Boy Named Sue”). Esta última chegou, como single, ao segundo lugar nas paradas americanas – o maior sucesso de Cash. O álbum em si ficou em primeiro lugar e, no final do ano, Cash fez um show pela TV em rede nacional, no horário nobre, o que comprovou a popularidade de um disco contra o autoritarismo na prisão entre os liberais pacifista da Costa Oeste, ao lado do público amante do country que compunha a plateia típica do artista. O álbum está disponível hoje apenas em sua versão ampliada, o que é ótimo: cada faixa extra contribui para uma experiência inesquecível.

San Quentin: YouTube Preview Image

Peace In The Valley: YouTube Preview Image

Big River: YouTube Preview Image

A Boy Named Sue: YouTube Preview Image

Wanted Man: YouTube Preview Image

Wreck Of The Old 97: YouTube Preview Image

Starkville City Jail: YouTube Preview Image

Folsom Prisom Blues: YouTube Preview Image

“Johnny Cash At Folsom Prison” de Johnny Cash

Que venha a hora, que venha o Homem de Preto! O ano de 1968 foi maravilhoso para Johnny Cash, marcando o fim de um período desnorteado durante o qual sua música foi marginalizada pelo establishment do country e seus problemas pessoais chegaram a um ponto crítico. Ele conheceu June Carter, filha de uma das famílias mais tradicionais do country, com quem se casou naquele ano, e ela o ajudou a vencer o vício em anfetaminas. Em janeiro, Cash gravou At Folsom Prison, seu primeiro álbum de sucesso em cinco anos.

A atuação de Cash diante de dois mil detentos (e de um considerável contingente de guardas fortemente armados) na perigosa penitenciária da Califórnia é cheia de tensão. Ao começar com “Folsom Prison Blues” – um sucesso de 1956, de compreensível importância para a plateia -, Cash se apresenta como um deles, excluindo os carcereiros e guardas ali presentes. Quando grita, desafiadoramente, em “25 Minutes To Go”: “Well I laughed in [the sheriff's] face and I spit in his eye” (“Eu ri na cara [do xerife] e cuspi em seu olho”), a multidão ruge, em aprovação, e ele quase ultrapassa os limites.

Mas as músicas foram bem escolhidas pelas autoridades, porque as histórias de Folsom falam das duras lições e das perdas para se alcançar a redenção – como nos lamentos do ex-presidiário à beira da morte em “Give My Love To Rose”, ou na eletrizante “Greystone Chapel”, uma homenagem à igreja de Folsom escrita pelo preso Glen Sherley, que Cash menciona antes de começar a cantar.

É a música de um homem de volta do topo.

Folsom Prison Blues: YouTube Preview Image

25 Minutes To Go: YouTube Preview Image

Give My Love To Rose: YouTube Preview Image

Greystone Chapel: YouTube Preview Image

Copyright © 2010 - Folha da Manhã - Todos os direitos reservados