Gravado um ano depois de os integrantes de Ladysmith Black Mambazo serem projetados para a fama internacional por terem sido a banda de acompanhamento do antológico Graceland de Paul Simon, Shaka Zulu é um disco de corais a capella, diferente de tudo o que tinha sido feito antes.
O álbum usa os ritmos percussivos tradicionais do mbube (canções dos trabalhadores emigrantes sul-africanos) para revitalizar a estagnada tradição coral europeia. Belíssimas melodias construídas a partir de fraseados fluidos e texturas rítmicas tranquilas são pontuadas por intervenções similares àquelas encontradas no estilo norte-americano conhecido como doo-wop (parente próximo do gospel), que dão corpo ao seu celestial estilo iscathamiya (literalmente, andar gentilmente na ponta dos pés).
Isso se encontra presente em “Hello My Baby” como uma nova assinatura harmônica na qual a voz diáfana de contralto do líder Joseph Shabalala se mistura ao timbre de dois tenores e a um septeto grave e ressoante que cria as percussões vocais. Era este o genuíno som da África do Sul? Talvez, mas como os Mambazo se negaram a canalizar a interação de seu coro na forma de músicas de protesto contra o apartheid, muitos críticos compreenderam erradamente baladas como “Yibo Labo” como sendo apenas postais exóticos da cultura tribal. O que esses críticos não captaram foram as profundas marcas do apartheid traçadas nas entrelinhas das músicas.
Como coristas, a mensagem cristã é mais óbvia, com o fervor de “King Of Kings” e “At Golgotha” feito sob medida para levar seu gospel para uma audiência mais ampla. A introdução de letras em inglês em seus cantos zulus lhes assegurou sucesso internacional instantâneo. É uma receita que sobreviveu ao teste do tempo: 18 anos depois de Shaka Zulu ter ganhado o Grammy de melhor gravação folk tradicional, Raise Your Spirit Higher ganhou outro prêmio: o de melhor disco de world music tradicional.


