Lou Reed tinha a credibilidade e as músicas; David Bowie, o som e o apelo da mídia. O encontro entre o mestre americano e o discípulo inglês legou aos anos 70 um de seus símbolos mais deliciosos, um disco que explorava e, ao mesmo tempo, definia o glam rock.
Reed deixou o The Velvet Underground em 1970 com o gosto amargo da derrota e da animosidade. Nova York havia se tornado fria e distante; Londres parecia ser, agora, o lugar onde as coisas estavam acontecendo. Reed se mudou para a Inglaterra e estreou na RCA com um fracassado álbum solo, preparado com sobras do Velvet requentadas por músicos de estúdio que não se identificavam com a proposta.
Bowie ofereceu a ele uma segunda chance. O inglês vinha fazendo discos dramáticos e brilhantes com seu guitarrista, Mick Ronson. Ambos trabalharam para extrair do poeta e músico de estilo, em geral, seco uma mistura divertida de decadência afetada e músicas inesquecíveis: o hit internacional “Walk On The Wild Side”, “Satellite Of Love” e “Perfect Day”. Os arranjos vocais são lindos, assim como as guitarras ardentes; a presença de um baixo no apoio e do saxofone confere ao álbum um ambiente de cabaré. A ambiguidade sexual da frente e do verso da capa atraía o público adolescente, ainda descobrindo as coisas da vida. O disco também fazia os roqueiros esquentarem a pista. E, por trás de tudo, o fantasma de um musical que Andy Warhol nunca chegou a fazer, encenado por travestis e viciados em anfetaminas, e repleto de festas artísticas e sofisticação urbana.
Transformer é o disco mais comercial de Lou Reed e está presente nas paradas britânicas há mais de três décadas. É também uma exceção, por sua superficialidade, numa carreira ousada que atingiu maiores profundidades.
Walk On The Wild Side: 
Satellite Of Love: 
Perfect Day: 
Vicious: 