Este disco é dedicado à cidade de Lisboa. Foi produzido como trilha sonora para o filme de Wim Wenders, O Céu de Lisboa, mas tem uma identidade própria. O que o cineasta encontrou no grupo foi uma representação plena da alma de Lisboa, uma maneira de sentir e contar as histórias entre a luz e as sombras da cidade (que já é, em si, quase um cenário cinematográfico).
Essa imagem veemente transmitida pelo álbum é hipnótica, tal como as melodias e a interpretação dos músicos. Tudo ganha uma coesão aparentemente inabalável. O som do Madredeus vive do encanto provocado pela junção emocionante da voz de Teresa Salgueiro com o virtuosismo e a atmosfera dos instrumentos e as letras existenciais. Acompanhada por José Peixoto e Pedro Ayres Magalhães na guitarra, Francisco Ribeiro no violoncelo, Gabriel Gomes no acordeão e Rodrigo Leão nos teclados, Teresa Salgueiro soa humana, frágil porém intensa. Os instrumentos criam uma intimidade impenetrável mas extremamente apaixonante. As imagens fortes também estão presentes nas músicas acústicas.
Muitas dessas músicas foram escritas longe de Lisboa e, talvez por isso, sejam tão eficazes na sua representação, por se nutrirem de uma cidade que reside na imaginação como imagem. Há neste álbum uma magia semelhante à encontrada no filme, expressa como música mas, como no filme, tornada viva por guardar fotografias, histórias divididas em fragmentos, lembranças de pessoas ou de lugares. Algo que queremos ter sempre perto e que o tempo só torna mais valioso, sem desgastar.


