Depois da separação da sua banda etno-punk Mano Negra, em meados dos anos 90, Manu Chao embarcou numa expedição pela América Latina, armado com a sua guitarra, um gravador de oito canais e uma insaciável curiosidade musical. Enquanto enchia a mala com gravações de transmissões de rádio das guerrilhas e um arsenal de nova influências, o parisiense gravou também uma comovente coleção de postais musicais que se converteram no seu primeiro álbum solo, Clandestino.
Enquanto por vezes o Mano Negra se perdia nas suas exuberantes incursões do punk à salsa, passando pelo ska, Clandestino evoca com harmonia a consciência latina de Chao. As sutis aproximações do reggae, rap e tecno nunca asfixiam o todo; cada música se funde com a seguinte como anotações num caderno de viagem. Cantando e fazendo rap em francês, inglês, espanhol e português, o trovador explora a dor da viagem em fascinantes baladas acústicas como “El Viento” e “La Vie” e oferece vislumbres da desilusão do nômade: na eletrossalsa “Luna Y Sol”, pergunta com amargura se o mundo inteiro não será uma mentira. Apesar de tudo, não perdeu o senso de humor (“Bongo Bong” revisita um boogie bobo do Mano Negra com sonoridades e batidas arrojadas) nem a sua militância política. Há samples dos discursos do subcomandante Marcos espalhados por todo o disco, e Chao (el desaparecido, para os amigos) solidariza-se com o povo oprimido do continente em músicas como “Por El Suelo” e a faixa que dá o título ao álbum, um relato de imigrantes ilegais perdidos em “Babylon”.








