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“Here, My Dear” de Marvin Gaye (1978)

De Rumours, do Fleetwood Mac, a Achtung Baby, do U2, sempre se fez uma música mágica inspirada no desgaste das relações amorosas, transformando a dor em beleza. Mas em nenhum outro álbum essa magia é tão explícita como em Here, My Dear.

Marvin Gaye, que estava sendo processado por não pagar pensão alimentícia, concordou em ceder o adiantamento relativo a um álbum, e parte de seus ganhos, a Anna Gordy – sua ex-mulher e, para seu desconforto, irmã do dono da Motown, Berry Gordy. Fascinado, de maneira mórbida, por suas próprias desventuras, Gaye concebeu um ciclo de canções que documentassem a desintegração de seu casamento. A capa do álbum se abria para apresentar o amor como um jogo de Monopólio, chamado “Judgement”, embrulhado em corações ameaçados por adagas e outros símbolos de mau agouro.

Here, My dear mantém o soul macio e fantasmagórico dos álbuns anteriores, Let’s Get It On e I Want You. As três melhores faixas estão logo no início. Depois, o que se segue é uma viagem onírica e desconfortável. “Doce, calmo, sedutor e um pouco chato”, escreveu o crítico do Village Voice, Robert Christgau. Jay Kay, do Jamiroquai, descreve o disco como “a mesma canção sendo tocada de dez maneiras diferentes”.

Em guerra com a gravadora, os músicos e seus próprios demônios, Gaye sabia que o álbum – o último em três anos – estava condenado. O trabalho foi recebido de forma gélida pela crítica, pelo público e – naturalmente – por Anna Gordy. De fato, as gravações foram apagadas apenas alguns anos depois do lançamento. Hoje, porém, pode ser considerado um exemplo raro e comovente de sinceridade artística, que não desperta a vontade de gritar “Sai dessa!”para o cantor cheio de mágoa.

Everybody Needs Love: YouTube Preview Image

Sparrow: YouTube Preview Image

Is That Enough: YouTube Preview Image

“Let’s Get It On” de Marvin Gaye

Este é, provavelmente, o único álbum da Motown que apresenta nos créditos o nome do famoso poeta modernista T. S. Elliot. O autor de A Terra Desolada escreveu, certa vez: “Birth and copulation and death, that’s all the facts when you get to brass tacks”, uma citação que consta da capa deste álbum original.

Por estranho que pare;ca, o sentimento expresso pelo poeta cabe perfeitamente na concepção do disco. Depois da séria crítica social de What’s Going On, Marvin Gaye, aqui, quis exortar seu público a voltar ao conceito básico de “sexo consentido”. A música é tórrida, sôfrega, um animal sexual suado e resfolegante.

Apesar de, em geral, ser eclipsado pelo sucesso de público e de crítica do álbum anterior, Let’s Get It On (segundo lugar nos Estados Unidos) é muito mais encantador, convincente e, pode-se até dizer, mais cheio de sentimento. Fazia sentido que Gaye, veladamente sensual em suas letras e nas apresentações ao vivo, um dia decidisse escancarar essa sexualidade. A faixa-título (que chegou ao topo das paradas) era uma maneira óbvia de fincar sua bandeira. A canção, com seu clímax de melodia e letra, se tornou uma referência de música para-criar-um-clima até, talvez, Gaye lançar “Sexual Healing”, em 1982. “You Sure Love To Ball”, com seus gemidos ofegantes, era, para alguns, um tour de force erótico e, para outros, simplesmente inaceitável. Mas, como o sexo, o álbum era cheio de jogos criativos, suntuoso e surpreendente. Muitos discos tentaram copiar essas qualidades desde então, mas nenhum chegou perto de superar Let’s Get It On.

Let’s Get It On: YouTube Preview Image

You Sure Love To Ball: YouTube Preview Image

Please Stay (Once You Go Away): YouTube Preview Image

Just To Keep You Satisfied: YouTube Preview Image

“What’s Going On” de Marvin Gaye

Como se pode ser sexy e sorrir quando se tem o peso do mundo sobre os ombros? Como transformar a tragédia em triunfo? E como, ainda por cima, revolucionar a música soul? A resposta é simples: sendo Marvin Gaye.

Abalado pela morte da parceira de palco Tammi Terrel, cada vez mais dominado pelas drogas e desesperado para ampliar os limites do estilo musical pela qual havia se tornado famoso – um soul doce, de canções curtas -, Gaye tinha como tábua de salvação seu humor e seu extraordinário talento. Ambos se sobressaem num álbum que, em mãos menos habilidosas, poderia se tornar facilmente uma chatice autojustificativa.

Não é possível descrever com justiça What’s Going On. O disco flui e reflui entre a ironia da faixa-título e ondas de gospel e jazz (do tipo relaxante) – e, então, explode em “Mercy, Mercy Me (The Ecology)” e se encerra com a inquietante “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)”.

Smokey Robinson o considerou o melhor álbum de todos os tempos, mas a Motown não via como uma suíte com uma forte conotação política, ainda que saborosa, poderia se traduzir em sucesso. É certo que o disco não trazia os sentimentos melosos dos hits de Gaye da década de 60 – mas, hoje, soa como uma evolução natural de letras maravilhosas como a de “You’re All I Need To Get By” e da sofisticação musical de “I Heard It Through The Grapevine”. Os três singles que ficaram entre os 10 Mais e 30 anos de vendas impressionantes justificavam a ameaça de Gaye, na época, de não gravar mais nada para a Motown se o álbum não fosse lançado.

Como escreveu Gaye, “You don’t have to be told how groovy it is, or wich tunes you should dig, or how great his or her majesty is…” (Vocë não precisa que digam como isso é legal, quais músicas você deve ouvir ou como Sua Majestade é grandiosa…”).

What’s Going On: YouTube Preview Image

Mercy, Mercy Me (The Ecology): YouTube Preview Image

Inner City Blues (Make Me Wanna Holler): YouTube Preview Image

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