De Rumours, do Fleetwood Mac, a Achtung Baby, do U2, sempre se fez uma música mágica inspirada no desgaste das relações amorosas, transformando a dor em beleza. Mas em nenhum outro álbum essa magia é tão explícita como em Here, My Dear.
Marvin Gaye, que estava sendo processado por não pagar pensão alimentícia, concordou em ceder o adiantamento relativo a um álbum, e parte de seus ganhos, a Anna Gordy – sua ex-mulher e, para seu desconforto, irmã do dono da Motown, Berry Gordy. Fascinado, de maneira mórbida, por suas próprias desventuras, Gaye concebeu um ciclo de canções que documentassem a desintegração de seu casamento. A capa do álbum se abria para apresentar o amor como um jogo de Monopólio, chamado “Judgement”, embrulhado em corações ameaçados por adagas e outros símbolos de mau agouro.
Here, My dear mantém o soul macio e fantasmagórico dos álbuns anteriores, Let’s Get It On e I Want You. As três melhores faixas estão logo no início. Depois, o que se segue é uma viagem onírica e desconfortável. “Doce, calmo, sedutor e um pouco chato”, escreveu o crítico do Village Voice, Robert Christgau. Jay Kay, do Jamiroquai, descreve o disco como “a mesma canção sendo tocada de dez maneiras diferentes”.
Em guerra com a gravadora, os músicos e seus próprios demônios, Gaye sabia que o álbum – o último em três anos – estava condenado. O trabalho foi recebido de forma gélida pela crítica, pelo público e – naturalmente – por Anna Gordy. De fato, as gravações foram apagadas apenas alguns anos depois do lançamento. Hoje, porém, pode ser considerado um exemplo raro e comovente de sinceridade artística, que não desperta a vontade de gritar “Sai dessa!”para o cantor cheio de mágoa.













