Só se pode fazer música psicodélica mergulhada em drogas durante um certo tempo (exceto se você for integrante do Hawkwind). Em meados dos anos 90, Mercury Rev resolveu escrever músicas que estivessem à altura dos seus sonhos e gerou uma obra-prima.
“Agora soam deliciosamente sinistras”, declarou entusiasmada a revista Q, “como uma versão experimentalista do Beach Boys ou O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton”. Flugelhorns, serrotes com arco e trombones sugerem um jazz medieval, porém é um som mais próximo de Neil Young à frente do Pink Floyd. De fato, a voz de Donahue recorda frequentemente Neil (e Rev fez versões de músicas desse artista, como “Vampire Blues”).
Apesar da sua beleza, o álbum nasceu da dor. A banda desfez-se após a turnê de 1995 para divulgar See You On The Other Side e as letras de Donahue foram alimentadas pela perda. Mas o resultado foi fabuloso, em especial “Opus 40″ (batizada com o nome de uma escultura de sua Catskills nativa), que combina a poesia de Donahue com citações de Springsteen (“suicide machines”) e The Doors (“alive she cried”).
“Opus 40″ também apresenta Levon Helm, do The Band, enquanto o seu companheiro de banda Garth Hudson toca em “Hudson Line”. Mas ainda que Deserter’s Songs possua raízes nos anos 60, não é um baú de lembranças empoeiradas. “Delta Sun Bottleneck Stomp” conta com teclados no estilo house (tendo sido remixada pelo Chemical Brothers). A coda é cortesia do guitarrista Grasshopper e de seu Tettix Wave Accumulator (um nome fantástico para um punhado de osciladores).
“Nunca me sinto satisfeito”, declarou Donahue ao NME. “Quero fazer um disco melhor”. Com o dramático All Is Dream, de 2001, chegou perto. Ouça os dois e você irá se perguntar como conseguiu passar sem eles.







