As sessões de gravação de Bitches Brew começaram às oito da manhã de 18 de agosto de 1969, poucas horas depois de Jimi Hendrix ter demolido “The Star Spangled Banner”, o hino nacional americano em Woodstock, e é sua voz incendiária que assombra este álbum duplo. Miles queria recriar as jam sessions descontraídas de Electric Ladyland, mas, como acontece com todos os tributos interessantes, Bitches Brew não se parece em nada com sua fonte inspiradora. Nem lembra o jazz-rock inventado naquele álbum. Os contrapontos são relativamente ortodoxos: as batidas secas no aro, o bumbo ressonante e as redondas linhas de baixo inspiradas no Sly And The Family Stone. Tudo o mais, porém, é de outro planeta.
A densidade absoluta da música é quase sinfônica. Em alguns momentos, há três teclados – Chick Corea, Larry Young e Joe Zawinul – tocando grupos de acordes dissonantes e discordantes. Há dois baixistas – Ron Carter e Dave Holland – em oposição ao sinuoso timbre barítono do clarinete baixo de Benny Maupin. O time de bateristas e outros três percussionistas deixam rolar sons hipnóticos que fariam os fãs do Grateful Dead delirarem.
O poderoso sax soprano de Wayne Shorter e o caos elegantemente controlado da guitarra de John McLaughlin pairam acima da silenciosa tempestade provocada pelo trompete em surdina de Miles. E tudo é improvisado livremente, com influências do jazz modal, free improv e temas indianos e árabes.
Bitches Brew vendeu meio milhão de cópias em um ano e tornou Miles mais “importante” do que havia sido durante mais de uma década. Ele conquistou a coroa de rei do jazz e a sustentou até a morte, 20 anos depois.



















