É irônico que o guitarrista responsável por tornar o blues elétrico não tenha arranhado uma nota sequer em sua Fender Telecaster vermelha, apelidada “Hoss”, neste que é, talvez, seu melhor disco.
Aos 71 anos, Muddy Waters, depois de encerrar uma carreira de 28 anos na Chess Records – uma parceria que, nos primeiros tempos, teve como resultado singles que redefiniram o blues, como “Rollin’ Stone”, mas que também gerou boa parte do trabalho medíocre de Muddy nos anos 70 -, entrou no estúdio com a missão de provar que ainda estava em forma. E conseguiu, ao criar uma música tão crua, poderosa e passional que parece tocada na mítica “encruzilhada” do blues, com o diabo em pessoa e Robert Johnson, do outro lado da rua, ouvindo e balançando a cabeça, admirados.
Bob Margolin, integrante da banda que acompanhava Waters nas turnês, e produtor Johnny Winter temperam “I Want To Be Loved” e “Jealous Hearted Man” com guitarras poderosas, que quase reproduzem o mestre em seu aguse. Nas sentimentais “Crosseyed Cat” e “Little Girl”, James Cotton faz um maravilhoso acompanhamento na harmônica, o melhor que Waters teve desde, talvez, os tempos de Little Walter. No entanto, é a voz de Waters, que não soava tão intensa há, no mínimo, uma década, que consegue injetar vida nova em velhos clássicos como “Mannish Boy” e “I Can’t Be Satisfied”.
Hard Again recebeu críticas positivas e unânimes e valeu a Waters seu quarto Grammy – e, o mais importante, mostrou que ninguém fazia blues como Muddy Waters.











