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“Abattoir Blues / The Lyre Of Orpheus” de Nick Cave And The Bad Seeds (2004)

Um álbum duplo significa geralmente duas coisas na vida de uma banda. A mais habitual é servir de companhia para a típica crise de meio de carreira, quando os integrantes resolvem contemplar seu próprio umbigo, e os solos de bateria de 12 minutos passam a ser a regra. A menos frequente é o fato de a banda ter tanto material bom que não caberia num único álbum.

Produzido por Nick Launay, que esteve no comando de Nocturama (2003), AB/TLOO reecontra a banda – privada da força de Blixa Bargeld -, dando continuidade à sua parceria com os membros do Seeds, voltando a participar da composição das músicas. O álbum é definitivamente esquizofrênico, com um som bem definido dominando cada seção. Abattoir Blues ressoa com humor de Cave exortando o ouvinte em “There She Goes, My Beautiful World” e contrabalança a metafísica com a realidade banal da faixa-título: “Fui pra cama na noite passada e meu código moral ficou emperrado, eu acordei esta manhã com um Frappucino na minha mão”.

The Lyre Of Orpheus adota um tom mais contemplativo e contém algumas das músicas mais vertiginosas que Cave já escreveu, como “Breathless” e a picante “Babe, You Turn Me On”. Há ainda espaço para outra surpresa, quando o London Community Gospel Choir adiciona profundidade espiritual a “Carry Me” e à emocionante “O Children”.

À medida que os integrantes do Seeds avançam nos 40, torna-se claro que a idade não irá aquietá-los.

There She Goes, My Beautiful World:

Abattoir Blues:

Breathless:

Babe, You Turn Me On:

Carry Me:

O Children:

Get Ready For Love:

Cannibal’s Hymn:

The Lyre Of Orpheus:

Supernaturally:

“The Boatman’s Call” de Nick Cave And The Bad Seeds (1997)

Apesar de ser uma diversão morbidamente agradável, Murder Ballads, de 1996, foi um intervalo para Nick Cave. Com The Boatman’s Call ele regressou à sua forma cáustica de fazer música. O rosto monocromático de Cave que ilustra a capa revela que isso não é uma brincadeira, e ele apresenta 12 músicas bem trabalhadas sobre desilusões amorosas e dúvidas.

The Boatman’s Call é geralmente aclamado como um dos melhores álbuns de rock sobre separações, tendo supostamente sido inspirado no final do envolvimento de Cave com a encantadora P.J. Harvey – “West Country Girl” e “Black Hair” seriam sobre ela. Em sinal de respeito pela sua dor, os Bad Seeds parecem ficar em segundo plano, tecendo uma delicada trilha sonora.

Não há grandes exibicionismos nas letras deste álbum, apenas um enorme sentimento de perda que Cave articula exemplarmente. O mundo deste álbum é descrito numa linguagem frágil, sendo um lugar onde a esperança é escassa – “onde cada um ferra o próximo como puder”, como lamenta Cave em “Far From Me”. Os títulos de músicas como “People Ain’t No Good” dão uma boa ideia do estado em que se encontra o coração dilacerado de Cave e não é uma visão bonita. Na verdade, a dor do amor perdido é quase fundida com a da derradeira separação, a morte, em “Brompton Oratory”. São necessárias algumas audições para compreender que Cave chora por alguém que morreu metafisicamente para ele, mas que também poderia ter morrido fisicamente, pois suas palavras sutis deixam espaço para as duas interpretações.

É assim que soa o coração de um homem quando se quebra.

West Country Girl: YouTube Preview Image

Black Hair: YouTube Preview Image

Far From Me: YouTube Preview Image

People Ain’t No Good: YouTube Preview Image

Brompton Oratory: YouTube Preview Image

(Are You) The One That I’ve Been Waiting For?: YouTube Preview Image

“Murder Ballads” de Nick Cave And The Bad Seeds (1996)

Como poeta do lado noir do rock, não foi surpresa saber que Nick Cave era um admirador das baladas sobre assassinatos – um tipo de música popular do século XVIII, que, como o nome indica, narrava massacres de dforma bem violenta.

Desde a capa – reprodução de uma pintura a óleo com uma cena de inverno, muito diferente das capas de seus trabalhos anteriores – até os cantores convidados (incluindo a sereia do pop Kylie Minogue), este não é um LP típico dos Seeds. A banda toca de forma quase jovial, com um Cave intimista que desfruta com contentamento a criação de uma galeria sombria de estudantes assassinas, cônjuges dementes e serial killers psicopatas.

O lendário Stagger Lee (“bad motherfucker called Stagger Lee”), cuja notoriedade tinha já sido celebrada por James Brown e Wilson Picket, entre outros, aparece na música homônima perpetrando atos indizíveis contra os clientes da taberna The Bucket Of Blood. “The Curse Of Millhaven” é protagonizada pela angelical Loretta, que, aos 14 anos, se transforma num demônio feminino e assassina todos os habitantes de sua aldeia. Ao longo do álbum, os Seeds constroem um ambiente claustrofóbico onde as almas condenadas de Cave estão irreversivelmente perdidas.

Cave sempre atribuiu o êxito do álbum à presença de Kylie Minogue e enfatiza que o disco foi como “férias” para a banda, mas o trabalho, que se encerra com uma versão surpreendente e doce da música de Bob Dylan, “Death Is Not The End”, com P.J. Harvey e Shane MacGowan como estrelas convidadas, é uma parte de sua discografia que exige o máximo respeito.

Stagger Lee: YouTube Preview Image

The Curse Of Millhaven: YouTube Preview Image

Death Is Not The End: YouTube Preview Image

Henry Lee: YouTube Preview Image

Where The Wild Roses Grow: YouTube Preview Image

O’Malley’s Bar: YouTube Preview Image

“Henry’s Dream” de Nick Cave And The Bad Seeds (1992)

Henry’s Dream é o sétimo álbum de Nick Cave And The Bad Seeds. É vibrante, melancólico, comovente e triste. Presságios do Antigo Testamento fazem parte do vasto repertório de Nick Cave e Henry’s Dream continua a tradição: essas são músicas sobre sofrimento e pecado.

O disco começa com a fenomenal “Papa Won’t Leave You, Henry”, uma faixa arrepiante e catastrófica, onde se prepara o terreno para o ataque sonoro iminente (muito peculiarmente, a primeira nota dessa música foi acompanhada por chuva e trovões quando ele e sua banda tocavam num festival em Melbourne). Os aveludados violões e os arranjos de cordas, cortesia de Mick Harvey e David Blumberg, acrescentam uma camada adicional de dinâmica.

A interpretação de Cave é drástica e firme, seja na vocalização solene de “Christina The Astonishing”, nos gritos intensos de “I Had A Dream, Joe”, nos rosnados guturais de “Jack The Ripper” ou nos cânticos estrondosos de “Brother, My Cup Is Empty”. As suas histórias de pessoas condenadas e destroçadas criam um som desconfortável mas envolvente, com frequentes toques de seu característico humor negro – “I counted up my blessings / And I counted only one” (“Contei as minhas bênçãos / e só contei uma”).

No entanto, entre o caos e a tragédia existem músicas tocantes que falam de amor, como a delicada “Straight To You” e o lamento amoroso “The Loom Of The Land”, ainda que sua ternura seja misturada a tons sombrios – um dos jovens amantes carrega uma faca. Vigoroso, vulgar e romântico ao mesmo tempo, Henry’s Dream é sobre tudo um pesadelo delicado.

Papa Won’t Leave You, Henry: YouTube Preview Image

Christina The Astonishing: YouTube Preview Image

I Had A Dream, Joe: YouTube Preview Image

Jack The Ripper: YouTube Preview Image

Brother, My Cup Is Empty: YouTube Preview Image

Straight To You: YouTube Preview Image

The Loom Of The Land: YouTube Preview Image

John Finns’ Wife: YouTube Preview Image

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