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“modern Sounds In Country And Western Music” de Ray Charles (1962)

Talvez seja difícil, nos dias de hoje, imaginar o choque que este disco deve ter causado em 1962: um cantor de R&B negro e de estilo rascante, cantando Hank Williams e Don Gibson, 18 meses antes de Martin Luther King ter seu sonho. Mas, se esse choque foi absorvido nas últimas quatro décadas, a qualidade de Modern Sounds In Country And Western Music permanece cristalina desde os primeiros e irresistíveis compassos de “Bye Bye Love”, a música de abertura.

Nenhum outro disco antes de Modern Sounds… – e muito poucos, depois – misturou soul e sentimentalismo de forma tão eficiente. Note-se a maneira como a voz sofrida de Charles rebate o coro tradicional de “I Can’t Stop Loving You”, de Gibson, lançada com relutância em single. Charles fez o disco contra a vontade da gravadora, pois queria que o álbum fosse tratado como um trabalho coeso, mas o single acabou vendendo um milhão de cópias. A dor que transparece em sua voz é irrestrita na perene “Born To Lose”, mas o bom de Charles é que ele não explora isso à exaustão. Quase sussurra o tempo inteiro em “I Love You So Much It Hurts”, de Floyd Tillman, mas trata “Just A Little Lovin’”, de Eddy Arnold, como um flerte casual, com uma afinadíssima seção rítmica acrescentando um certo atrevimento ao que era, na gravação de Arnold, pouco mais do que uma piscadela para alguém do outro lado da pista de dança.

Por todo o álbum, o arranjo de cordas de Marty Paich fica do lado certo da linha que separa o sentimental do piegas; há ainda a participação de big bands comandadas por Gil Fuller e, especialmente, Gerald Wilson. O LP ficou 14 semanas em primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos.

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“The Genius Of Ray Charles” de Ray Charles (1959)

Durante os anos 50, Ray Charles não conseguia sentar ao piano sem inventar um novo estilo de música. Embora tenha se tornado conhecido do mainstream (ou melhor, dos brancos) com o sucesso comercial de “What’d I Say”, Charles era um veterano do circuito de música negra dos Estados Unidos e havia desenvolvido ao longo do caminho uma fusão revolucionária de blues, jazz, R&B e gospel. Quando ele lançou o seu terceiro LP, a soul music já tinha as digitais desse monstro sagrado.

A classificação dos gêneros musicais parecia fútil, portanto, quando Charles entrou no estúdio, no final de 1959. Na essência, ele era um inventor dos sentidos. The Genius Of Ray Charles começa com força, com uma apimentada série de seis músicas ao melhor estilo das big bands, da qual se destacam os metais elegantes e as linhas de baixo de “Let The Good Times Roll” e “Alexander’s Rag Time Band”. Com arranjos de Quincy Jones e acompanhamento de alguns dos integrantes das bandas de Count Basie e Duke Ellington, este disco tornou Charles responsável pela música mais bem elaborada da época.

No lado B, Charles pegou um rumo mais sedutor, com uma série de baladas ancoradas por um naipe de cordas deslumbrante e um coro de vozes de sereias. Seu domínio musical em clássicos como “Just For a Thrill” e “Come Rain Or Come Shine” era admirável para alguém ainda na casa dos 20 anos, e marcou tanto sua vontade como sua capacidade de transcender os gêneros sem esforço.

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