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“Shleep” de Robert Wyatt (1997)

Sejamos sinceros: com toda a seriedade, existem poucos artistas que, após 30 anos de carreira musical, conseguem fazer um disco tão cheio de ideias, melodias, imaginação, engenhosidade e, na falta de palavra melhor, aquilo que poderíamos chamar de “radicalidade”quanto Robert Wyatt conseguiu fazer em Shleep.

Qual é o segredo de Wyatt? Bem, pode ser que – tal como outras relíquias dos anos 60 que se mantêm atuais, como Pip Proud, Mayo Thompson ou Michael Hurley – ele tenha ficado um pouco de fora da indústria da música. Poucos músicos veteranos são tão queridos e admirados por um leque tão vasto de colegas. Quem mais conseguiria juntar Brian Eno e Paul Weller para trabalhar no seu álbum, assim como o ex-membro do Roxy Music, Phil Manzanera, e ainda os músicos de jazz Philip Catherine (guitarra) e Evan Parker (saxofone)?

Roger Waters, contemporâneo de Wyatt, produziu um álbum conceitual sobre a noite de sonhos de um homem. Wyatt comentou que as suas letras “lutaram para sair do papel durante longas semanas de insônia febril, que me deixaram um desejo quase insaciável de encontrar um sono profundo, abissal”. A paródia/homenagem a Bob Dylan “Blues In Bob Minor” só poderia mesmo funcionar aqui. “Free Will And Testament”, “Maryan” e “Heaps Of Shleeps” são momentos clássicos de Wyatt: músicas encantadoras, uma voz ao mesmo tempo acolhedora e familiar, ligeiramente alienante. Letras que, da mesma forma, evocam simultaneamente o mais trivial e o que é perturbador e desconcertante.

Uma personagem pouco louvada na carreira de Wyatt (exceto, talvez, em “The Duchess”) é sua mulher Alfreda Benge, que contribui aqui com letras encantadoras, a estupenda arte da capa e a produção.

Blues In Bob Minor: YouTube Preview Image

Free Will And Testament: YouTube Preview Image

Maryan: YouTube Preview Image

Heaps Of Shleeps: YouTube Preview Image

A Sunday In Madrid: YouTube Preview Image

“Rock Bottom” de Robert Wyatt

O primeiro álbum de Robert Wyatt para a Virgin foi gravado logo depois de um acontecimento trágico. Ele foi para Veneza, em 1973, acompanhando sua mulher, Alfreda, que estava trabalhando num filme de terror – Inverno De Sangue Em Veneza. Na Itália, Wyatt começou a escrever o material que iria compor Rock Bottom e, de volta a Londres, passou a reunir os músicos. Mas, em 1o de junho de 1973, ele caiu do quarto andar de um prédio e ficou paraplégico.

Confinado a uma cadeiras rodas, Wyatt redirecionou sua atenção para os teclados e para uma original percussão com diferentes elementos. Produzido por Nick Mason, do Pink Floyd – um amigo muito próximo -, Rock Bottom conjuga as mágicas canções de amor de Wyatt com uma despretensiosa fusão de rock e compassos livres de jazz, e é muito menos político que a maior parte dos seus trabalhos posteriores (ele chegou a se filiar, mais tarde, durante pouco tempo, ao Partido Comunista Britânico).

O jazz de “Alifie”é uma homenagem a Alfreda, sua musa e autora da capa do álbum. “Little Red Riding Hood Hit The Road” inclui fascinantes tape loops e os sons abrasivos do trompetista de jazz Mongezi Feza. A alegria etérea de “Sea Song”confirma que Wyatt não estava mergulhado em autocompaixão, apesar da angústia e vulnerabilidade de seu vocal. A segunda parte de “Little Red Robin Hood Hit The Road” fecha o álbum e traz alguns poemas de Wyatt, recitados pelo poeta escocês do absurdo Ivor Cutler. Wyatt se casou com Alfreda no dia do lançamento do álbum e emplacou, dois meses depois, um hit na Inglaterra, com sua interpretação alto-astral de “I’m A Believer”, dos Monkees.

Rock Bottom ainda soa como novo e Wyatt continua sendo um tesouro pouco conhecido, uma fonte inspiradora por sua música e por sua postura política.

Alifie: YouTube Preview Image

Little Red Riding Hood Hit The Road: YouTube Preview Image

Sea Song: YouTube Preview Image

Little Red Robinh Hood Hit The Road: YouTube Preview Image

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