Sejamos sinceros: com toda a seriedade, existem poucos artistas que, após 30 anos de carreira musical, conseguem fazer um disco tão cheio de ideias, melodias, imaginação, engenhosidade e, na falta de palavra melhor, aquilo que poderíamos chamar de “radicalidade”quanto Robert Wyatt conseguiu fazer em Shleep.
Qual é o segredo de Wyatt? Bem, pode ser que – tal como outras relíquias dos anos 60 que se mantêm atuais, como Pip Proud, Mayo Thompson ou Michael Hurley – ele tenha ficado um pouco de fora da indústria da música. Poucos músicos veteranos são tão queridos e admirados por um leque tão vasto de colegas. Quem mais conseguiria juntar Brian Eno e Paul Weller para trabalhar no seu álbum, assim como o ex-membro do Roxy Music, Phil Manzanera, e ainda os músicos de jazz Philip Catherine (guitarra) e Evan Parker (saxofone)?
Roger Waters, contemporâneo de Wyatt, produziu um álbum conceitual sobre a noite de sonhos de um homem. Wyatt comentou que as suas letras “lutaram para sair do papel durante longas semanas de insônia febril, que me deixaram um desejo quase insaciável de encontrar um sono profundo, abissal”. A paródia/homenagem a Bob Dylan “Blues In Bob Minor” só poderia mesmo funcionar aqui. “Free Will And Testament”, “Maryan” e “Heaps Of Shleeps” são momentos clássicos de Wyatt: músicas encantadoras, uma voz ao mesmo tempo acolhedora e familiar, ligeiramente alienante. Letras que, da mesma forma, evocam simultaneamente o mais trivial e o que é perturbador e desconcertante.
Uma personagem pouco louvada na carreira de Wyatt (exceto, talvez, em “The Duchess”) é sua mulher Alfreda Benge, que contribui aqui com letras encantadoras, a estupenda arte da capa e a produção.











