Um dos primeiros álbuns de rock a desconsiderar solenemente a visão de cena roqueira sobre world music, esta colaboração levou um Grammy a uma fazenda na África Ocidental e questionou as crenças sobre a “americanidade” do blues.
Ali Farka Touré ficou conhecido na Europa através de gravações que tinha feito para a Rádio Mali e que, por sorte, caíram nas mãos certas. Músicos, DJs e críticos ficaram surpresos com a sua música, claramente relacionada com as raízes do blues – a ligação era tão próxima que alguns ainda insistem que esse africano tenha sido influenciado pelos afro-americanos. Touré nega, argumentando que é um estilo tradicional que foi levado, através do Atlântico, da África para o continente americano pelos escravos. O selo londrino World Circuit descobriu Touré e começaram a gravar ser trabalho. Ry Cooder entrou em contato com o músico africano e os dois encontraram-se em Londres em 1992. O passo seguinte parecia óbvio, mas levou algum tempo para ser organizado: Touré preferia ficar na sua fazenda a fazer turnês e dar shows.
Quando foi gravar, Touré sentiu más vibrações no estúdio. Ele dizia ter sido possuído por demônios quando criança e estes lhe teriam dado dotes musicais – agora estava sendo assombrado. Também porque não podia tocar na casa de Ry Cooder, em Santa Mônica, porque receava incomodar os espíritos do oceano; em Hollywood, por sua vez, espíritos famintos rondavam o estúdio. “Ele parecia feliz”, explicou Cooder, “mas algo de muito profundo o incomodava”. Os dois começaram a tocar em conjunto e a realizar arranjos musicais até surgir algo descontraído. Foi durante suas improvisações, contudo, que surgiu a resposta à pergunta mais pertinente: seja qual for a sua origem, o blues estava no sangue de Touré.


