É um pequeno milagre que H.M.S. Fable soe tão maravilhoso. Foi gravado por uma banda que sabia que era a sua última chance. Essas canções sobre a vida difícil nas ruas de Liverpool foram o ápice de quase duas décadas de duro trabalho musical, terrível má sorte e uma cruel dependência de drogas. Os ritmos e o animado refrão de “Lend’s Some Dough” evidenciam a sua temática: a necessidade de dinheiro para comprar uma dose de heroína. Tal como “Streets Of Kenny”, uma música folk sobre a infrutífera busca por drogas no bairro decadente de Kensington.
Os irmãos Mick e John head nunca ocultaram os seus problemas. Falavam às claras sobre o fato de o seu segundo álbum, Waterpistol, ter sido alimentado por cocaína e ecstasy, e do projeto “paralelo” The Magical World Of Michael Head And The Strands ter como tema a heroína. Antes disso, Mick Head esteve algum tempo com o The Pale Fountains, uma grande banda “perdida”, reverenciada por Ian McCullough do Echo And The Bunnymen, mas cujo amor por Burt Bacharach surgiu 20 anos antes do tempo. Num rude golpe do destino, o companheiro de composição de Head em “The Paleys”, Chris McCaffrey, morreu de tumor cerebral aos 28 anos.
Assim, H.M.S. Fable é o momento em que Head deixa tudo isso para trás e se empenha em concretizar a sua obra. A sua paixão pelo pop da Costa Oeste americana fica patente em “Since I Met You”. “I Want You” é Arthur Lee, do Love, transposto para Merseyside. “Beautiful”, “Natalie’s Party” e “Comedy” são músicas pop alegres, auxiliadas pela sofisticada produção de Youth.
Este é o som de um lendário, porém perturbado compositor inglês tentando vencer suas dificuldades.





