O rock ‘n’ soul alegre e multirracial do Sly And The Family Stone refletia o otimismo do movimento pelos direitos civis durante os anos 60. Mas, à medida que esse otimismo definhava e ia se transformando num radicalismo amargo, o Sly And The Family Stone passava por uma experiência parecida – uma dolorosa viagem espiritual. O pessimismo já não era mais estranho ao fusion-pop criado por Sly: “Hot Fun In The Summertime”, por exemplo, falava, de maneira cifrada, dos distúrbios raciais em Watts. Mas a crescente desordem civil e a carnificina no Vietnã, aliados so seu frágil estado emocilnal e a doses maciças de drogas, o levaram a fazer este álbum, um impressionante discurso à nação.
O disco foi resultado de sessões e overdubs intermináveis; movido a cocaína, Stone gravava e regravava as fitas. Dizem que Miles Davis participou com seu trompete; a bateria acústica brigava por espaço com primitivas baterias eletrônicas; o baixo se sobrepunha, predatório; e as guitarras wah-wah feriam os ouvidos.
O funk peso-pesado que domina o álbum – nebuloso, assustador e chapado – empresta uma pungência extra às faixas pop melancólicas do disco, “Runnin’ Away” e “You Caught Me Smilin’” – momentos de ternura para aliviar o funk furioso. Há referências a hits anteriores de Sly, como em “Time” (“‘Everyday people’ looking forward to a simple beating”), ou a transformação do single “Thank You no lento estertor da faixa final, rebatizada como “Thank You For Talkin’ To Me Africa”.
Este diagnóstico doloroso e preciso dos males dos Estados Unidos e da própria desintegração espiritual de Sly afastou muitos fãs e marcou o início da derrocada embalada por drogas do artista. O álbum permanece, porém, brilhante, um grito funky e machucado de uma alma sob extrema tensão.












