“Um comprimido, para uso auditivo apenas”, diz a caixa, seguindo o modelo de uma embalagem de remédios. “Tocar uma a duas vezes por dia”. O disco vem envolto em papel-alumínio e o texto que o acompanha está escrito no estilo de uma bula. O lema da sua banda anterior, o Spaceman 3, era “Tomando drogas para fazer música boa para tomar drogas”, mas foi aqui que Jason Pierce cumpriu a promessa.
Ou não? Pierce é sempre reservado nas entrevistas, recusando-se a falar do seu consumo de drogas, preferindo que a música fale por conta própria. A ironia é que a sua interpretação vocal inexpressiva, a magistral ambiguidade e a força da falta de emoções de sua música permitem aos ouvintes adotar a perspectiva do narrador e procurar os seus próprios significados. Começando com a valsa onírica da faixa-título, “Ladies And Gentlemen, We Are Floating In Space”, vários estilos são abordados. “Come Together” é heavy metal com toques de gospel, “I Think I’m In Love” é o assombroso lamento de uma pessoa confusa por sintomas que anunciam amor ou morte iminente. A euforia elegíaca (“Stay With Me”, “Home Of The Brave”, “Broken Heart”) chega em ondas, intercalada com ruído branco (“All Of My Thoughts”) e punk brutal (“Electricity”), até atingir o clímax com o vodu do testemunho de um viciado em drogas, “Cop Shoot Cop”.
Muitos críticos disseram que era o álbum da década, mas, após um ano na estrada, incluindo os históricos shows em Glastonbury e na CN Tower de Toronto, havia se transmutado num mutante ainda mais poderoso: o álbum ao vivo em Albert Hall. Então, Pierce despediu a banda.

















