Nas notas do encarte da reedição de Blood And Chocolate, Elvis Costello informou aos leitores que “não há muito a explicar sobre este disco”. Talvez, mas aqueles que conhecem apenas os dois últimos terços da sua carreira notarão a raiva que transpassa na primeira faixa, “Uncomplicated”, e certamente se perguntarão como, porque e quando ele ficou tão raivoso.
Vindo logo após King Of America, mais tradicional e sem a banda de acompanhamento, The Attractions, Blood And Chocolate é, de fato, um choque. Gravado quase todo ao vivo no estúdio, com monitores de palco em vez de fones de ouvido e com aplificadores no volume máximo, ele soa seco, básico e sujo. Não foi coincidência. As músicas são amargas como um adeus ou pungentes como mensagens de amor envoltas em arame farpado. Elas vêm embaladas em rock de garagem (“I Hope You’re Happy Now”), em pop dos anos 60 (“Poor Napoleon”), em melancolia (“Home Is Anywhere You Hang Your Head”) ou em claustrofobia (“I Want You”, um ponto alto de sua carreira), mas vêm secas.
O público não gostou desse Costello irado e o marketing estranho também não ajudou. “Tokyo Storm Warning”, um furioso “diário de viagem de um pesadelo de um brutamontes” (observação de Costello no encarte) com seis minutos de duração, foi a bizarra escolha do primeiro single, mais incompreensível ainda pela decisão de dividir a música em duas partes, com fades malfeitos, nos lados A e B. Após o fracasso dos dois singles seguintes, Elvis Costello criou o pop perfeito de Spike. Desde então, Costello tem colaborado com inúmeros artistas numa fascinante, embora por vezes estranha, carreira.



















