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“Surf’s Up” dos Beach Boys

Como muitos dos álbuns dos Beach Boys, Surf’s Up não é fácil de avaliar em termos estritamente críticos. Lançado em 1971, representava a obra de uma banda rompida por dissidências internas e pelo lento eclipse da sanidade mental de Brian Wilson.

A ambiguidade começa na primeira faixa. Assim que se descarta “Don’t Go Near The Water” como apenas um alerta ecológico, vem “Long Promised Road”, de Carl Wilson, com sua firmeza e um lindo coro, e sem qualquer ironia em suas linhas. O misticismo de “Feel Flows” também é arrebatador.

Há ainda momentos de uma clareza emocional sublime. A falsa ingenuidade de “Take A Load Off Your Feet” não está bem realizada, mas é só pular para a nostálgica “Disney Girls (1957)”  para você se lembrar como era ter 10 anos de idade. Com outra banda, essa música seria uma bobagem piegas, mas os Beach Boys, quando estavam em grande forma, possuíam o dom inigualável de chegar a um nível muito alto de qualidade.

O rumo um tanto errático e nem sempre brilhante do álbum se mostra, por exemplo, em “Student Demonstration”Time”. A melodia de Leiber e Stoller ganhou uma nova letra, de Mike Love, tentando atingir um nervo sensível com uma espécie de R&B sarcástico sobre direitos civis, mas não deu certo. Da mesma forma, a esquisita “A Day In The Life Of A Tree” – embora melódica – soa mais como fruto de um surto psicótico do que de genialidade.

A profunda solidão de “‘Till I Die” e a grandeza decadente da faixa-título dão ao álbum o final soberbo que ele merece.

Don’t Go Near The Water: YouTube Preview Image

Long Promised Road: YouTube Preview Image

Feel Flows: YouTube Preview Image

Take A Load Off Your Feet: YouTube Preview Image

Disney Girls (1957): YouTube Preview Image

Student Demonstration Time: YouTube Preview Image

A Day In The Life Of A Tree: YouTube Preview Image

‘Till I Die: YouTube Preview Image

“Pet Sounds” dos Beach Boys (1966)

Se Rubber Soul definiu um momento capital dos Beatles, sinalizando para a viagem psicodélica na qual iriam embarcar, também serviu para atiçar Brian Wilson, o gênio errático que era o coração dos Beach Boys. “Cada faixa é artisticamente interessante e estimulante”, reconheceu, e partiu para criar Pet Sounds, um álbum que igualou – e até mesmo superou – o trabalho dos Fab Four.

Wilson passou dois meses, no início de 1966, escrevendo as músicas com Tony Asher, um executivo da área de publicidade especializado em jingles. O conteúdo do álbum é radicalmente diferente dos anteriores. Nada dos unidimensionais hinos ao sol e surfe; em seu lugar, uma música mais complexa, alegre mas tingida de emoções profundas e turbulentas.

Desde a abertura, com a surpreendente “Wouldn’t It Be Nice” – um desabafo cheio de sentimento, escorado por camadas de metais, percussão e campainhas de bicicleta -, Pet Sounds transcende o pop. O talento de Wilson para compor tanto músicas como letras brilha em todas as canções, de “I Just Wasn’t Made For These Times” até “Caroline No”, sua faixa favorita.

Depois de Pet Sounds (a foto da capa, tirada no Jardim Zoológico de San Diego, é um trocadilho com o título – a palavra pet também significa animal de estimação), Wilson começou a pender para a loucura. Confusos com esse novo tipo de música, muitos fãs evitaram o disco (o mesmo fez a Capitol, que não o promoveu). Dali em diante, Wilson se tornou obcecado pela busca do álbum pop perfeito. Enquanto isso, na Inglaterra, os Beatles desafiavam Pet Sounds com Sgt. Pepper’s…

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“The beach Boys Today!” dos Beach Boys (1965)

Apesar de conter a pior música, este é o LP mais perfeito dos Beach Boys, dividido igualmente entre um pop casual do tipo rapaz-encontra-garota e baladas dramáticas inspiradas nos grupos femininos produzidos por Phil Spector. Nem é preciso discutir se é melhor do que Pet Sounds – não há neste álbum qualquer sinal da autopiedade que pesa uma tonelada no disco posterior.

Embora gravado um pouco depois de Brian Wilson ter um esgotamento nervoso durante uma turnê, levado à exaustão por uma agenda carregada de shows, The Beach Boys Today! abre com uma das faixas mais exuberantes da banda. “Do You Wanna Dance?” começa bem baixinho, mas Brian aumenta o volume no primeiro refrão e os anos 60 começam a dançar no toca-discos. O resto desse lado continua a festa: “When I Grow Up” era a música mais complexa e madura composta por Wilson até aquela data; “Help Me, Ronda” foi a primeira gravação da faixa que logo se tornaria um de seus singles mais famosos (com um “h” extra no título).

Mas é o lado B que faz os especialistas vibrarem. As cinco baladas são canções de amor suculentas, pessoais, sensíveis e vulneráveis, diferentes de tudo o que havia no pop da época. Há uma pista clara do que viria depois em Pet Sounds nas faixas “Please Let Me Wonder” e “Kiss Me, Baby”, e este última é quase tão boa quanto “God Only Knows” (de Pet Sounds).

Pela primeira vez, Brian superou os Beatles e os Stones, catapultando a banda para o primeiro lugar nas paradas e dando início a uma batalha de dois anos pela supremacia musical, que terminou com outra crise nervosa e com o cancelamento das gravações de Smile. É melhor lembrar dos Beach Boys como eram então.

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