Podemos agradecer a Sony e Cher por este marco do funk de Nova Orleans. Enquanto gravava um especial na TV no outono de 1967, o casal cedeu parte do tempo de estúdio reservado no Gold Star, em Los Angeles, para um se seus músicos de apoio – Malcom Robert Rebennack, um experiente pianista e guitarrista de Nova Orleans. Rebennack estava namorando a ideia de fazer um projeto baseado na vida real de um pregador de vodu chamado Dr. John Creaux. Ele tinha convidado o cantor Ronnie Baron para o papel, mas o agente de Baron o aconselhou a “ficar fora dessa coisa de vodu”. Convencido, afinal, pelo percussionista de sua banda, Richard “Didimus” Washington, Rebbenack acabou interpretando ele próprio o personagem, à frente de um grupo de amigos de Nova Orleans axilados em Los Angeles.
Gris-Gris apresentava uma Nova Orleans que há muito tinha desaparecido dos discos. Trazia o som das bandas marciais, do creole, dos cânticos ferozes do vodu e os ruidosos e variados ritmos de seus habitantes latinos. Mas o caos sonoro era quebrado pelo prisma de um R&B puro e primitivo. “I Walk On Gilded Splinters”, com seus vocais distorcidos e ásperos, bandolins e baterias cheias de eco, dá o tom do álbum, um experimento crepuscular que gerou centenas de filhotes; “Mama Roux” é uma faixa de um funk elástico, que influenciou Sly Stone, na qual Rebennack toca uma impulsiva linha de baixo com os pedais do órgão Hammond.
Em outros projetos, o Doctor exploraria o solo de stride piano, as raízes musicais sulistas e o heavy-duty funk, com os Meters, e se apresentaria fazendo leituras à moda do Sul de Duke Ellington e Ray Charles. Mas Gris-Gris continua sendo seu álbum definitivo.


