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“Bone Machine” de Tom Waits (1992)

Influenciado pela poesia beat dos anos 50, Tom Waits abandonou a escola e aprendeu a tocar guitarra e piano sozinho. No princípio dos anos 70 foi contratado pelo agente Herb Cohen, que já tinha trabalhado com Tim Buckley e Frank Zappa. Durante os anos 70, seu personagem de vagabundo intelectual e espertalhão serviu como base para o seu trabalho, mas nos anos 80 ele diversificou a sua produção, incluindo até mesmo óperas e trilhas sonoras. Os dois aspectos se uniram no disco Bone Machine, de 1992. O título do álbum se refere ao conceito de “esqueleto musical” criado por Waits, no qual a música é reduzida ao mínimo.

O disco inclui algumas das colaborações mais fascinantes de Waits: Keith Richards é coautor da música “That Feel”; David Hidalgo, do Los Lobos, trouxe o seu violino e o acordeão, e Les Claypool, do Primus, contribuiu com o baixo elétrico. Waits trabalhou com Jesse Dylan no conceito da capa – o produto final acabou refletindo perfeitamente o delírio indistinto da própria música.

Sombrio e cru, Bone Machine não fica atrás do lançamento anterior de Waits, apesar de suas arestas mais sinistras: o som grosseiro da faixa de abertura, “Earth Died Screaming”, é compensado pela relativa doçura de “I Don’t Wanna Grow Up”. A hiperdistorcida “Goin’ Out West” é um bom exemplo do estilo “sujo”do disco e, apesar de cada faixa se destacar individualmente, é a coesão da atmosfera de pesadelo do trabalho que fez com que o álbum recebesse o Grammy de melhor álbum de música alternativa.

That Feel: YouTube Preview Image

Earth Died Screaming: YouTube Preview Image

I Don’t Wanna Grow Up: YouTube Preview Image

Goin’ Out West: YouTube Preview Image

“Rain Dogs” de Tom Waits (1985)

Se os ruídos e buzinas de Swordfishtrombones, de 1983, chatearam os fãs de Tom Waits habituados à poesia beatnik e às baladas com piano, então Rain Dogs fez com que chorassem copiosamente. Musicalmente, Swordfishtrombones representou a chegada de Waits a uma nova cidade, ainda à procura do seu lugar; em Rain Dogs ele já está em casa, ainda que seja um barracão de zinco embaixo de um viaduto.

Há muito que se especula se a imagem de um Tom Waits embriagado que ele passou durante os anos 70 era autobiográfica ou meramente fictícia, mas neste disco ele certamente está encarnando um personagem. Rain Dogs fala de um submundo habitado por chineses bêbados, bombeiros cegos, anões manetas, o dono de um matadouro chamado Tio Vernon, uma prostituta porto-riquenha com uma perna de pau – e isso apenas nas primeiras três músicas. É uma coleção de músicas sobre a vida nas margens mais extremas da sociedade, caso uma sociedade tão estranha existisse de fato.

A demência das letras se encontra refletida nas músicas com percussões barulhentas, buzinas, pianos de bar, guitarras irrequietas (tocadas essencialmente por Marc Ribot, com Keith Richards como convidado), acordeões, órgãos e banjos. A frágil “Time” recorda o Waits dos anos 70, e “Blind Love” é o mais perto que ele já chegou do country, enquanto “Downtown Train” foi amansada por Rod Stewart, mas Rain Dog é despeitosamente livre de qualquer compromisso ou convenção. Naturalmente tornou-se o álbum de Tom Waits mais vendido e depois passou a fazer parte de praticamente todas as listas publicadas pela imprensa com os melhores discos dos anos 80.

Time: YouTube Preview Image

Blind Love: YouTube Preview Image

Downtown Train: YouTube Preview Image

“Swordfishtrombones” de Tom Waits (1983)

Resumindo a história, a carreira de Tom Waits divide-se claramente em duas partes: antes de Swordfishtrombones e depois. Até o próprio Waits, um homem que gosta de coisas nebulosas, reconhece isso. Em Swordfishtrombones, Waits começa a afastar-se daquilo que mais tarde classificaria como “o meu período de pseudojazz lounge” e entrega-se ao choque do novo numa forma mais próxima de Brecht e Weill, Captain Beefheart e Harry Partch. Ter conhecido a sua esposa, Katleen Brennan, foi a inspiração por trás disso tudo.

Em desacordo com o clima da época, quase todas as músicas têm curta duração, letras cheias de imagens, um som estranho, oxidado, retorcido e oblíquo. A sua orquestração anterior tipicamente rica – com saxofone, guitarra e piano gravados sem efeitos – é aqui revirada num redemoinho de órgão, marimba e metais estridentes. Tudo isso cria um disco ofegante e murmurante, de imagens sombrias, lamurioso – uma foto posada.

“There’s a rumblin’ groan / down below / there’s a big dark town / it’s a place I’ve found / there’s a world going on / underground” (Há um rugido surdo / lá embaixo / há uma grande cidade obscura / um lugar que encontrei / há um mundo cheio de vida / sob o solo), diz Waits na faixa-título, como se tentasse fixar o tom.

Outra música, “Frank’s Wild Years”, ganharia vida própria. Formou a base do espetáculo musical homônimo – produzido por Tom Waits e Brennan – que se tornaria um álbum de estúdio no ano seguinte.

Swordfishtrombones era a primeira parte de uma trilogia involuntária (juntamente com Raindogs e Frank Wild Years). Sendo um disco inegavelmente influente e um marco, foi também o primeiro gravado para a Island, depois que a Warner o rejeitou.

Swordfishtrombones: YouTube Preview Image

Frank’s Wild Years: YouTube Preview Image

Underground: YouTube Preview Image

Shore Leave: YouTube Preview Image

Johnsburg, Illinois: YouTube Preview Image

16 Shells From A Thirty-Ought Six: YouTube Preview Image

In The Neighborhood: YouTube Preview Image

“Heartattack And Vine” de Tom Waits (1980)

Olhando para trás, descobrimos que as raízes da mudança foram plantadas aqui, ainda que ninguém tenha percebido na época. Este foi o sétimo álbum de Tom Waits pelo selo Asylum; ele não havia ainda superado o status de cult, e sua imagem de beatnik bêbado estava a ponto de perder o pouco charme que ainda tinha. Uma pena: este é um dos discos mais completos da primeira fase de sua carreira.

O álbum contém algumas baladas tristes de piano que o tornaram famoso (como a cinematrográfica “On The Nickel” e a elegíaca “Ruby’s Arms”), mas é mais notável pelas guitarras distorcidas que aparecem em quase metade das músicas que antecipam seu trabalho posterior. A música que dá nome ao disco – e que contém dois versos clássicos de Tom Waits, “O demônio não existe / É apenas deus quando está bêbado” – é um passeio por uma Los Angeles torpe e suja, onde o cantor residia na época: Heartattack é Hollywood Boulevard, cujo cruzamento com a Vine Street era um dos locais mais sórdidos da cidade. “Mr. Siegal” é um blues desleixado em tom semelhante. Os dois mundos se encontram em “Jersey Girl”, uma de suas músicas de amor mais comoventes. “Jersey Girl” ganhou um público mais amplo do que Waits jamais conheceria quando Bruce Springsteen incluiu uma versão fiel da música em seu Live 1975-1985.

Heartattack And Vine não passou do 96o lugar da Billboard, e Waits perdeu o seu contrato, mas não a inspiração. Depois da sua trilha sonora para um filme menor de Francis Ford Coppola, O Fundo do Coração, o cantor reinventou-se com um estilo cabaré dark e tresloucado no disco Swordfishtrombones, de 1983, o primeiro trabalho da segunda fase de uma discografia fascinante.

On The Nickel: YouTube Preview Image

Ruby’s Arms: YouTube Preview Image

Mr. Siegal: YouTube Preview Image

Jersey Girl: YouTube Preview Image

Heartattack And Vine: YouTube Preview Image

“Nighthawks At The Diner” de Tom Waits

O álbum pode parecer presunçoso, mas a falsa atmosfera de boate de Nighthawks At The Diner capta o charme dos primeiros trabalhos de Tom Waits, talvez melhor até que os dois discos impressionantes (Closing Time e Heart Of Saturday Night) que o precederam.

Na época, Waits cantava uma poesia notívaga, preguiçosa, num tom jazz-blues, que falava sobre vagabundos otimistas, bêbados insones, parasitas experientes e fracassados no amor. Esse romantismo sujo era tido, por alguns, como muito sério ou muito piegas, mas Nighthawks At The Diner, gravado com um grupo escolado de músicos de jazz, num estúdio no qual havia uma plateia, permitiu que Waits suavizasse seus cacoetes do submundo de Los Angeles e usasse seu talento natural para o teatro.

Ele brinca com a plateia, conta anedotas líricas e autodepreciativas e, numa prévia de sua carreira de ator, mostra timing de comediante numa série de monólogos longos e fascinantes (“Nighthawks Postcards” tem 11 minutos e meio e dá o tom do álbum). “She’s been married so many times she’s got rice marks all over her face”, diz um verso de “Better Off Without A Wife”; na introdução dessa música, Waits comenta sobre como tirar proveito de si próprio: “I’m not weird about it or anything, I don’t tie myself up first…”. Os gritos do público aprovam a deixa – Waits ri como se fosse Muttley, o prólogo se encadeia na música e o ouvinte se rende à vibração bem-humorada do álbum.

Better Off Without A Wife: YouTube Preview Image

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