A Rolling Stone Brasil reuniu um seleto grupo de grandes guitarristas e especialistas para indicar quem são os maiores mestres do instrumento em todos os tempos. Depoimentos de Keith Richards sobre Chuck Berry, Eddie Van Halen sobre Eric Clapton, Joe Perry sobre Jimmy Page, Tom Morello sobre Jimi Hendrix, e muito mais.
100 - Lindsey Buckingham
Durante a era de sucessos do Fleetwood Mac, Lindsey Buckingham transmutou a música folk de sua juventude tocando banjo para o rock de estádio: solos harmonizados cintilantes, acordes estalados que exalavam novidade e quebras com arpejos frenéticos. “A minha técnica não é clássica nem aceitável”, ele disse. “Mas você faz o que pode para conseguir o som que quer.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Rhiannon”, “Go Your Own Way”
99 - Thurston Moore
Nos anos 80, o líder do Sonic Youth surgiu como o grande radical da guitarra do rock indie, misturando afinações estranhas, enfiando chaves de fenda ou baquetas sob as cordas e lançando jams punk cheias de feedback. Thurston Moore influenciou uma geração de amantes de ruído, de roqueiros grunge à turma shoegazer. O som de Moore sempre foi tão impressionante que Neil Young uma vez declarou que se o Sonic Youth um dia quisesse gravar com ele, era só falar.
PRINCIPAIS FAIXAS “Expressway to Yr. Skull”, “Silver Rocket”
98 - Alex Lifeson
Mesmo se nunca tivesse progredido além dos riffs espantosos de “2112” e “Xanadu”, o guitarrista do Rush já teria deixado sua marca no Metallica e em outros grupos. Lifeson continuou preenchendo o som de power trio do Rush com uma mistura uniforme de arpejos luxuosos e barulho roqueiro que soava como pelo menos dois músicos de uma só vez. Mas Alex Lifeson reserva seu estilo mais ousado para os solos – tente entender a maluquice extraterrestre de “Freewill”.
PRINCIPAIS FAIXAS “La Villa Strangiato”, “The Spirit of Radio”
97 - Steve Jones
A atitude do Sex Pistols, os acordes potentes e brutos de Steve Jones e os solos extravagantes de glam de sarjeta eram o espelho perfeito para a bile assustadora de Johnny Rotten – e um guia para cada fazedor de barulho que surgiu depois. Seu legado foi definido em Never Mind the Bollocks, Here’s The Sex Pistols, de 1977 e seus riffs inesquecíveis inspiraram de Slash a Billie Joe Armstrong. Era tanto uma atitude quanto um som. Jones disse: “Na verdade, não gostamos de música. Gostamos de caos”.
PRINCIPAIS FAIXAS “God Save the Queen”, “Pretty Vacant”
96 - Bruce Springsteen
Bruce Springsteen sempre teve uma arma não tão secreta na manga: “Fui contratado no pacote de novos [Bob] Dylan”, ele contou à Rolling Stone, “mas eu podia me virar, ligar minha Telecaster e queimar a casa”. Springsteen não trouxe nenhuma inovação técnica à guitarra, mas poucos músicos são melhores em extrair emoção de aço e madeira: preste atenção ao incansável solo de “Born to Run”, à mordida de cão de ferro-velho de “Adam Raised a Cain” e ao gemido melancólico de “Tougher Than the Rest”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Kitty’s Back”, “Backstreets”
95 - Roger McGuinn
Os riffs brilhantes com acordes da Rickenbacker de 12 cordas de Roger McGuinn, nos primeiros sucessos do Byrds, foram a ponte sônica entre folk e rock – e uma cor insubstituível na paleta do rock: toda banda indie mais interessada em dedilhados celestiais do que em solos gritantes tem uma dívida com ele. No entanto, McGuinn podia fazer muito mais do que soar, como demonstrado por seus impressionantes licks psicodélicos-raga-Coltrane em “Eight Miles High”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Mr. Tambourine Man”, “Eight Miles High”
94 - Peter Buck
O guitarrista do R.E.M. foi mais ou menos um mestre que nunca precisou muito mais do que melodias criativas e riffs brilhantes. Dos arpejos guiados por laser em “Radio Free Europe” aos acordes potentes de “The One I Love”, seu som era lindo e diretamente agressivo – um estilo faça-você-mesmo que ajudou os roqueiros underground dos anos 80 a ir além do punk rock. “Os Estados Unidos foram inundados por bandas com guitarras ressoantes do tipo R.E.M.”, observou Billy Corgan.
PRINCIPAIS FAIXAS “Radio Free Europe”, “The One I Love”
93 – Paul Simon
Paul Simon, o artesão das palavras, fala tão vividamente através da guitarra quanto em suas letras. Depois de crescer ouvindo doo-wop e rock, Simon se envolveu com o folk nos anos 60, viajando à Inglaterra para estudar a maestria acústica de Bert Jansch. Ele até hoje absorve novas influências, como em “Dazzling Blue”, de seu recente CD, So Beautiful or So What: “O dedilhado folk é o do tempo de Simon and Garfunkel”, ele admite, “mas [aqui] ele está no topo desse ritmo com músicos indianos tocando em compasso 12/8”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Dazzling Blue”, “Kathy’s Song”
92 – Dimebag Darrell
Uma das principais figuras do metal moderno, Dimebag Darrell fundou o Pantera com o irmão, o baterista Vinnie Paul Abbott – formando um estilo que combinava grooves brutalmente precisos com toque punk e caminhos melódicos carregados de nuances. Depois de ser assassinado por um fã desequilibrado durante um show com sua banda, Damageplan, em 2004, os tributos vieram de fãs, colegas e antecessores. “Um dos melhores músicos a embelezar nosso mundo”, disse Geezer Butler, do Black Sabbath.
PRINCIPAIS FAIXAS “Floods”, “Cemetery Gates”, “Mouth for War”
91
91 – Dave Davies
Dá para rastrear todas as músicas barulhentas e cheias de riffs até Dave Davies, do Kinks, começando com os acordes fantasticamente simples de “You Really Got Me”, que ele gravou aos 17 anos – disparando uma sequência de singles metaleiros, de “All Day and All of the Night” a “Till the End of the Day”. Davies, que criou a distorção em “You Really Got Me” ao cortar o alto-falante de um amplificador com uma lâmina, até hoje ri das alegações de que aquela guitarra foi tocada, na verdade, por Jimmy Page.
PRINCIPAIS FAIXAS “You Really Got Me”, “All Day and All of the Night”
90
90 – Tom Verlaine
O líder do Television absorveu o sabor de seus discos preferidos de John Coltrane, Rolling Stones e Grateful Dead – e depois os sintetizou em algo completamente novo no álbum de estreia da banda, Marquee Moon, de 1977, desfilando solos fluidos infinitos junto com o companheiro da guitarra Richard Lloyd. Verlaine manteve a discrição nas últimas décadas, mas continua sendo um modelo para gerações de guitarristas que gostam de violência punk tanto quanto de voos mais melódicos.
PRINCIPAIS FAIXAS “Marquee Moon”, “Little Johnny Jewel”
89
89 – Bonnie Raitt
Bonnie aprendeu com gigantes do blues como Howlin’ Wolf e Mississippi Fred McDowell, que ela conheceu e com quem se apresentou no início da carreira. E foi rápido: começando com seu exercício acústico com slide em “Walking Blues”, de 1971, ela revelou um repertório temível de licks de blues, dedilhando com os melhores e brandindo um slide como um velho mestre. Quando a guitarra ainda era considerada “uma brincadeira de homens”, Bonnie derrubou essa barreira com personalidade e habilidade.
PRINCIPAIS FAIXAS “Runaway”, “Something to Talk About”
88 – Carl Perkins
Nos primeiros dias dos Beatles, George Harrison se denominou brevemente de Carl Harrison em homenagem a seu herói do dedilhado rápido. O estilo claro e agudo de Perkins – que o Rei do rockabilly pegou dos bluesmen do Tennessee – definiu os singles que ele lançou na Sun Records (“Blue Suede Shoes”, “Glad All Over”) e influenciou de Eric Clapton a John Fogerty. Tom Petty disse: “Se você pretende tocar rock and roll dos anos 50, ou é Chuck Berry ou é Carl Perkins”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Blue Suede Shoes”, “Glad All Over”
87 – James Hetfield
Houve precedentes para o som ultrapercussivo que James Hetfield tocou no Metallica, mas ele o tornou o padrão máximo do metal dos anos 80. Hetfield, porém, nunca foi um músico de metal monocromático, tocando dedilhados delicados em “Fade to Black” e mais tarde adotando o rock pesado com mais nuances do Álbum Preto. Dave Grohl comentou: “Ele cuida da percussão e da melodia das canções do Metallica com a guitarra, e isso é incrível”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Seek and Destroy”, “Master of Puppets”
86 – J Mascis
Os blocos maciços de ruído adocicado que J Mascis tirava de sua Fender Jazzmaster no Dinosaur Jr. continham de tudo: selvageria do Black Sabbath, soul melódico de Neil Young, sujeira do punk-rock. Em Several Shades of Why, seu disco solo mais recente, Mascis mostrou que pode tocar bonito com um violão também. “Lembro que vi o Dinosaur tocar uma música suave, lamentosa – e depois ela foi detonada pelo solo destruidor que J Mascis fez”, conta Thurston Moore, do Sonic Youth.
PRINCIPAIS FAIXAS “Feel the Pain”, “Little Fury Things”
85 – Andy Summers
O Police era uma espécie diferente de power trio, e Andy Summers era a razão principal. Rapidamente se afastando do punk, ele trouxe de volta acordes de jazz e ritmos de reggae. Summers tocava o mínimo possível, deixando bastante espaço para Sting e Stewart Copeland. “Seu tom e estilo eram absolutamente perfeitos – ele deixava espaço em volta de tudo”, disse Alex Lifeson, do Rush. “Summers lida com qualquer coisa, de uma bela balada acústica ao jazz, passando por coisas híbridas”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Message in a Bottle”, “Every Breath You Take”
84 – Joe Perry
É difícil conceber um pacote musical melhor para Steven Tyler do que seu parceiro de longa data e adversário ocasional. Há mais de 40 anos, os riffs descomunais de Joe Perry são a pedra fundamental do Aerosmith. E seus solos, sobressaindo-se em “Walk This Way” ou despedaçando com ousadia ao longo da alta produção de sucessos mais recentes como “Janie’s Got a Gun” e “Cryin’”, têm uma energia cafeinada que é a combinação exata para a personalidade de Tyler.
PRINCIPAIS FAIXAS “Dream On”, “Walk This Way”, “Janie’s Got a Gun”
83 – Eddie Hazel
Diz a lenda que o solo de 10 minutos de “Maggot Brain”, do Funkadelic, nasceu quando George Clinton disse a Hazel para ele imaginar que sua mãe tinha acabado de morrer – e depois ficasse sabendo que, na verdade, ela estava viva. Hazel, que morreu de insuficiência hepática em 1992, aos 42 anos, trouxe uma mistura emocionante de visão lisérgica e potência de groove para todo o seu trabalho, inspirando seguidores como J Mascis, Mike McCready e Lenny Kravitz.
PRINCIPAIS FAIXAS “Mag got Brain”, “Funky Dollar Bill”
82 – Nels Cline
Um verdadeiro estudioso da guitarra, Nels Cline tocou de tudo, do country rock gótico com o Geraldine Fibbers a uma reelaboração total da obra-prima do improviso de John Coltrane,Interstellar Space. É mais conhecido, claro, como o virtuoso guitarrista do Wilco, lançando espasmos extensos [“Spiders (Kidsmoke)”] ou voando em jams líricas (“Impossible Germany”). “Nels consegue tocar qualquer coisa”, resume o colega Jeff Tweedy.
PRINCIPAIS FAIXAS “ Spiders (Kids moke)”, “Impossible Germany”
81 – Lou Reed
Lou Reed explode os estilos tradicionais da guitarra em pedacinhos desde seus dias no Velvet Underground. Fã do R&B de Ike Turner e do free jazz de Ornette Coleman, ele criou a psicodelia épica de uma viagem de drogas em músicas como “Sister Ray”. “Ele ficava bastante orgulhoso, com razão, de seus solos”, escreveu o mestre nova-iorquino da guitarra Robert Quine, “mas se resignou ao fato de que a maioria das pessoas não estava pronta para isso.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Sister Ray”, “Heroin”, “Foggy Notion”
80 – Buddy Holly
Buddy Holly levou uma geração de futuros heróis – George Harrison, Eric Clapton, Jeff Beck – para a guitarra com um estilo elementar: uma mistura nervosa de country e blues que fundia ritmo e condução; veja o fraseado provocativo de “It’s So Easy”, que ecoa os vocais de grunhidos e soluços de Holly. Tocando sua Stratocaster e liderando um quarteto com duas guitarras, baixo e bateria, ele essencialmente inventou a banda de rock como a conhecemos.
PRINCIPAIS FAIXAS “That’ll Be the Day”, “Peggy Sue”
79 – Mike Campbell
Solista da banda de Tom Petty por mais de 40 anos, Mike Campbell nunca congestiona uma música. Ele sabe que duas ou três notas precisas são suficientes. “É desafiador dar seu recado em pouco tempo”, afirmou, “mas prefiro esse desafio a me esticar.” Ouça o gancho esquelético que sustenta “Breakdown” ou o solo lacônico de “You Got Lucky” para escutar o uso engenhoso de espaço negativo por Campbell. “Michael não fica se exibindo”, disse Petty. “O que ele faz é essencial.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Breakdown”, “You Got Lucky”
78 – John Fahey
John Fahey, que morreu em 2001, aos 61 anos, foi o mestre excêntrico do violão folk norte-americano, um dedilhador impressionante que transformou as formas tradicionais do blues com as harmonias avançadas da música clássica moderna, depois minou essa beleza com a sagacidade de um pregador de peças. Nos anos 90, Fahey partiu para um minimalismo espinhoso na guitarra que o tornou um ícone do pós-punk. “Eu ter sido validado por John Fahey”, diz Thurston Moore, “foi realmente especial.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Poor Boy”, “The Yellow Princess”
77 – Willie Nelson
Como seu canto conversacional, o estilo de Nelson é enganosamente tranquilo, excêntrico e reconhecível. Ele toca o mesmo violão Martin M-20, apelidado de Trigger, desde 1969; o instrumento definiu seu som, uma mistura elástica e cortante de country, blues e jazz cigano de Django Reinhardt. Embora o violão agora tenha um enorme buraco, Nelson ainda o utiliza todas as noites. “Somos destinados um ao outro e parecidos fisicamente. Estamos bem estragados e maltratados”, brincou.
PRINCIPAIS FAIXAS “Whiskey River”, “Night Life”
76 – Robbie Krieger
Educado em flamenco e jazz, Robbie Krieger foi além do rock em uma época em que os músicos estavam presos ao blues. No Doors, ele deu o toque improvisador nas jornadas loucas de Jim Morrison, escreveu alguns dos maiores sucessos da banda (“Light My Fire”) e preenchia os espaços na formação de teclado/bateria/ guitarra. “Não ter um baixista me fez tocar mais notas graves”, disse. “Não ter uma guitarra-base também me fez tocar de maneira diferente. Sempre me senti como três músicos simultaneamente.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Riders on the Storm”, “Roadhouse Blues”
75 – Joni Mitchell
Joni era uma fantástica instrumentista rítmica e evoluiu muito rápido. Havia dominado a ideia de que podia afinar o violão do jeito que quisesse para assim conseguir outras inversões dos acordes. Eu também fazia isso, mas ela foi além. Entendi sua alegria em usar depois ferramentas sonoras maiores, como bandas de jazz e orquestra. Mas as coisas que Joni realizou que eram mais a cara dela, como em Blue, de 1971, eram o que ela sabia fazer de melhor.
PRINCIPAIS FAIXAS “I Had a King”, “Night in the City”, “Coyote”
74 – Dick Dale
“Queria que minha guitarra soasse como a bateria de Gene Krupa”, disse Dick Dale, e o estilo hiperpercussivo que inventou para suas maravilhas de jukebox – incluindo um arranjo turbinado para a velha canção grega “Misirlou” – foi essencial à criação da surf music. Dale tocava o mais rápido possível, e em volume máximo; Leo Fender uma vez tentou projetar um amplificador cujos alto-falantes não fossem destruídos pela exagerada altura da guitarra de Dale.
PRINCIPAIS FAIXAS “Misirlou”, “The Peter Gunn Theme”
73 – Kurt Cobain
Ele não era virtuose, e essa era a intenção: ao roubar a guitarra de técnicos que esmiuçavam notas e a devolver aos artistas esquisitos e poetas, Cobain fez a diferança. Não inventou o rock alternativo, mas com seu amor por Cheap Trick, The Melvins e Kiss deu a ele o poder metálico necessário para conquistar o mundo. Seu estilo não era apenas um grunhido sem direção: ouça a progressão de acordes nada convencional e o domínio da dinâmica silêncio-ruído-silêncio em “Lithium”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Smells Like Teen Spirit”, “Scentless Apprentice”
72 – John Frusciante
O Red Hot Chili Peppers sempre soube como agitar uma festa; foi necessário John Frusciante para transformá-lo em uma banda que lota estádios com um som próprio. Frusciante é um estilista notavelmente elástico e um arranjador talentoso que levou o Red Hot a explorar novos mundos sem atrapalhar sua energia movida a funk: ele enriqueceu o som da banda com fogo bem colocado e elegância notável (vide os inconfundíveis acordes de abertura de “Under the Bridge”).
PRINCIPAIS FAIXAS “Dani California”, “Under the Bridge”
71 – Robert Johnson
Ele era pouco conhecido décadas após sua morte, em 1938. Mas as 29 músicas que Robert Johnson gravou em 1936 e 1937 se tornaram as escrituras sagradas para guitarristas de rock, de Clapton a Dylan. Eles ficaram assombrados com a forma com que ele fez a guitarra soar como um conjunto – ritmo e ganido em diálogo, com riffs surgindo da neblina. Dylan lembra que tocava sem parar King of the Delta Blues Singers, o LP de 1961 que retirou Johnson da obscuridade.
PRINCIPAIS FAIXAS “Ramblin’ on My Mind”, “Traveling Riverside Blues”
70 – Jack White
White apertou o botão de reiniciar no rock. Reconectou o rock pesado e a música de raiz e mostrou que uma banda inspirada no blues podia fugir do que ele chama de “blues branco de Stratocaster de merda”. E não deixou que suas tendências analógicas evitassem seu uso engenhoso de um pedal de distorção DigiTech – o segredo por trás do trovejante som de baixo (falso) de “Seven Nation Army” e os solos estridentes de músicas como “Ball and Biscuit”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Seven Nation Army”, “Ball and Biscuit”
69 – Richard Thompson
Richard Thompson é um dos estilistas mais impressionantes do rock desde seus dias na Fairport Convention, uma banda britânica de folk-rock que se redirecionou para a música inglesa tradicional. Disparando riffs afirmadores e letras que faziam você querer saltar de uma ponte, ele combinou palhetadas roqueiras a um dedilhado acelerado. Seus solos de guitarra, mais enraizados na música celta do que no blues, são incríveis. Mas seu estilo acústico é igualmente matador.
PRINCIPAIS FAIXAS “Sun Shade”, “1952 Vincent Black Lightning”
68 – John McLaughlin
John McLaughlin foi convidado a gravar com Miles Davis enquanto ainda estava na casa dos 20 anos, coinventando a fusão jazz em Bitches Brew e outros álbuns de Davis. Mas ele atingiu o status de deus da guitarra com sua Mahavishnu Orchestra, em que fez sua Gibson cuspir fogo como um dragão de várias cabeças. Um estilista que assumia riscos, McLaughlin era único, misturando rock psicodélico, R&B, jazz cigano, flamenco e técnicas do raga indiano.
PRINCIPAIS FAIXAS “Right Off ”, “The Noonward Race”
67 – T-Bone Walker
Walker inventou o solo de guitarra como o conhecemos, construindo um novo estilo sobre fraseados fluidos, bends blueseiros e vibrato. O timbre claro e a melodia inventiva de seu single “Mean Old World”, de 1942, deixaram todos boquiabertos, e Walker seguiu refinando sua abordagem em sucessos como “Call It Stormy Monday”. “Vim para este mundo um pouco cedo demais”, afirmou Walker. “Diria que estava uns 30 anos à frente do meu tempo.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Call It Stormy Monday”, “T-Bone Shuffle”,
66 – Leslie West
Leslie West (nome verdadeiro: Leslie Weinstein) deixou sua marca pela primeira vez no rock de garagem de meados dos anos 60 com a cover suculenta de “Respect”, de Otis Redding, pelo Vagrants. Em 1969, West fez parte do quarteto Mountain, que ia na linha do Cream. Em músicas como o sucesso de 1970 “Mississippi Queen”, ele tocou linhas endurecidas de blues com facilidade enganadora e um toque de R&B, através de uma tensa floresta negra de distorção de amplificador.
PRINCIPAIS FAIXAS “Mississippi Queen”, “Nantucket Sleighride”
65 – Slash
Ele pode ter passado boa parte de seu auge no Guns N’ Roses sem camisa, bêbado e cercado por cobras, mas Slash trouxe bom gosto e contenção de volta à guitarra do hard rock. “Era um rock despojado em comparação ao que todos faziam”, diz Slash. Ele podia fazer riffs como Joe Perry e entrelaçar sua guitarra com a de Izzy Stradlin no estilo dos Rolling Stones. E solos líricos como a grandeza épica de “November Rain” ficaram permanentemente impressos nas texturas das músicas.
PRINCIPAIS FAIXAS “Sweet Child O’Mine”, “Welcome to the Jungle”
64 – Duane Eddy
Se ainda houvesse dúvida no final dos anos 50 de que a guitarra – não o saxofone – era o instrumento dominante no rock, Duane Eddy acabou com a discussão: ouça “Rebel Rouser”, de 1958, com seu som metálico e pontuada por tremolo. “Chet Atkins usava o vibrato de forma seletiva – Duane Eddy o usava para sujar a música”, diz Dave Davies, do The Kinks. O impacto de hits de Eddy como “Forty Miles of Bad Road” e “Peter Gunn” logo seria ouvido na surf music e em guitarristas como Jeff Beck e George Harrison.
PRINCIPAIS FAIXAS “Rebel Rouser”, “Peter Gunn”
63 – Johnny Winter
De todos os caucasianos que turbinaram o blues no final dos anos 60, o albino texano Johnny Winter foi o mais branco e o mais rápido. Músicas como sua cover de “Highway 61 Revisited”, de 1969, são amostras impressionantes de seu estilo elétrico e rápido de dedilhado com o polegar. Jimi Hendrix o procurou como coadjuvante e Muddy Waters reconheceu seu talento, tornando-se amigo e colaborador: “Esse cara – tenho de vê-lo de perto”, disse Waters. “Ele toca oito notas enquanto só toco uma!”
PRINCIPAIS FAIXAS “I’m Yours and I’m Hers”, “Fast Life Rider”
62 – Robert Fripp
Desde o primeiro ensaio do King Crimson, em 1969, Robert Fripp foi a voz instrumental diferenciadora, uma mistura única de complexidade distorcida e sustentação magistral. Essa dualidade fica evidente no álbum de rock mais progressivo já feito, o clássico espinhoso do King Crimson, Larks’ Tongues in Aspic, de 1973. Mas talvez a guitarra mais famosa já tocada por Fripp seja o inesquecível ruído de sirene na faixa-título do álbum Heroes, de David Bowie.
PRINCIPAIS FAIXAS“21st Century Schizoid Man”, “Heroes”
61 – Dickey Betts
“Sou o guitarrista famoso”, disse o falecido Duane Allman, “mas Dickey é o bom”. Os dois passaram menos de três anos juntos na Allman Brothers Band, mas estabeleceram uma reputação épica – fazendo jams em longos solos e tocando suas famosas guitarras gêmeas. Depois da morte de Allman, em 1971, o grupo continuou com Betts, acertando com “Ramblin’ Man” e “Jessica”. Apesar de suas habilidades no blues e no slide, suas raízes estão mesmo no jazz, se superando nos solos modais.
PRINCIPAIS FAIXAS “In Memory of Elizabeth Reed”, “Jessica”
60 – Ron Asheton
“Minha parte é só de algumas notas repetidas”, Iggy Pop disse uma vez sobre “TV Eye”, do Stooges, “mas Ron criou um mundo inteiro em torno disso”. Nas mãos de Asheton – em hinos protopunk como “I Wanna Be Your Dog” e “No Fun” – o clássico acorde de três cordas funcionava como um ataque superpotente: contínuo, incansável e místico (Asheton, que morreu em 2009, chamava isso de “os três dedos mágicos”). Sua abordagem selvagem influenciou Kurt Cobain, Thurston Moore e Jack White.
PRINCIPAIS FAIXAS“No Fun”, “TV Eye”, “I Wanna Be Your Dog”
59 – Robbie Robertson
Quando Bob Dylan descreveu o “som vivo e selvagem” da The Band, estava na verdade falando sobre a guitarra de Robbie Robertson, exemplificado no solo tórrido e estridente em “Just Like Tom Thumb’s Blues”, da turnê de 1966. Quando a The Band estava gravando os próprios discos, Robertson havia podado essa abordagem, evoluindo para um músico mais cooperativo. “Quis fazer coisas que eram de bom gosto, discretas e sutis, como Curtis Mayfield e Steve Cropper… em que só a música importava”, declarou.
PRINCIPAIS FAIXAS “The Shape I’m in”, “Like a Rolling Stone (Live 1966)”
58 – Peter Green
No final de 1966, Peter Green substituiu Eric Clapton no John Mayall’s Bluesbreakers. Mayall disse a seu produtor: “Ele pode não ser melhor [do que Clapton] agora, mas espere… será o maior”. Depois, com o Fleetwood Mac original, foi o guitarrista de blues mais progressivo da Inglaterra, com uma agressividade influenciada pela escola de Chicago e aumentada por aventuras melódicas. Green teve problemas mentais e de saúde, retornando nos anos 90 com melodias mais discretas, mas reconhecíveis.
PRINCIPAIS FAIXAS “Albatross”, “Rattlesnake Shake”
57 – Rory Gallagher
“Para mim, parece um desperdício trabalhar anos a fio”, disse Rory Gallagher à Rolling Stone em 1972, “e simplesmente virar algum tipo de personalidade”. Em vez disso, o guitarrista irlandês, então com apenas 23 anos, tornou-se lendário por sua ética de fazer turnês sem parar e por seu estilo incendiário. Tocando com uma Strato desgastada, frequentemente vestindo camisa de flanela, Gallagher eletrificou os estilos de Chicago e do Delta com slides escaldantes e composições bem elaboradas.
PRINCIPAIS FAIXAS “Bullfrog Blues”, “Laundromat”, “Walk on Hot Coals”
56 – Albert Collins
Em 1968, Jimi Hendrix falou sobre seu amor por um astro do blues de Houston, pouco conhecido fora da região: “É um dos melhores guitarristas do mundo”, disse. Albert Collins, que morreu de câncer de pulmão em 1993, tocava com o polegar e o indicador em vez de uma palheta para dar um estalo muscular em seus solos perfurantes e agudos. Seu estilo fluido e inventivo influenciou Hendrix abertamente: Jimi gostava tanto do sustain de Collins em “Collins Shuffle” que o usou em “Voodoo Chile”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Frosty”, “Sno-Cone Part 1”
55 – Jonh Lennon
Quando o fundador da Rolling Stone, Jann S. Wenner, perguntou a John Lennon como ele se classificava como guitarrista, ele respondeu: “Não sou tecnicamente bom, mas posso fazer a guitarra uivar e se mexer. Nos Beatles eu era o guitarrista rítmico. Fazia a banda seguir em frente”. Lennon foi a vela de ignição dos Beatles, adicionando crueza a músicas pop cristalinas. Ouça os dedilhados viajando pelo ar de “Help!”, os riffs circulares de “Day Tripper” ou “The Ballad of John and Yoko” – em que, com George Harrison de férias, Lennon transformou acordes e solos rudimentares em mágica. Ele era capaz de criar um timbre feroz: no clipe promocional de “Revolution”, Lennon faz sua Epiphone Casino oca guinchar como um cortador de grama raivoso. Mesmo assim, não recebeu o devido crédito como guitarrista: “Chamam o George de cantor invisível”, afirmou Lennon. “Eu sou o guitarrista invisível.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Help!”, “Day Tripper”, “Yer Blues”
54 – Joe Walsh
No power trio de Cleveland The James Gang, Joe Walsh combinava a fúria ao estilo do The Who com os fogos de artifício técnicos do Yardbirds e a pegada R&B. O humor na facilidade blueseira de Walsh apareceu no uso do efeito talkbox em seu sucesso solo de 1973 “Rocky Mountain Way”, mas quando entrou para o Eagles em 1975, realmente fincou pé nas rádios de rock clássico. Walsh trouxe uma ousadia hard rock às músicas pop tranquilas do Eagles, criando uma série de licks indestrutíveis no processo: veja seu riff rosnado em staccato em “Life in the Fast Lane” e sua agressão elegante no duelo de guitarras em “Hotel California”. Walsh influenciou o clássico de 1971 do The Who, Who’s Next, embora não tenha tocado uma nota nele: deu a Pete Townshend, de presente, a guitarra Gretsch Chet Atkins 1959 que ele tocou no álbum inteiro.
PRINCIPAIS FAIXAS “Rocky Mountain Way”, “Funk #49”
53 – Otis Rush
Em Chicago nos anos 60, “as regras tinham sido estabelecidas” para jovens bandas brancas de blues, Mike Bloomfield disse à Rolling Stone em 1968. “Você tinha de ser tão bom quanto Otis Rush.” Um nativo do Mississippi que havia se mudado para Chicago, Rush era um temido guitarrista – com um timbre agudo e sujo e ataque lacerante, como um cruzamento entre Muddy Waters e B.B. King – e também um excelente compositor. Junto com Magic Sam e Buddy Guy, Rush ajudou a criar a abordagem mais modernizada, influenciada pelo R&B e pelo blues de Chicago, que ficou conhecida como o Som do West Side. Seu impacto sobre as gerações futuras foi enorme: suas músicas foram gravadas por Led Zeppelin (“I Can’t Quit You Baby”), John Mayall (“All Your Love”) e The J. Geils Band (“Homework”), enquanto Stevie Ray Vaughan deu à sua banda o nome do lamento letal de Rush, “Double Trouble”, de 1958.
PRINCIPAIS FAIXAS “I Can’t Quit You Baby”, “Double Trouble”, “Homework”
52 – Clarence White
Clarence White ajudou a moldar dois gêneros: seu estilo acústico com palheta, exibido pela primeira vez na adolescência quando ele e o irmão formaram a banda Kentucky Colonels, foi essencial para tornar a guitarra um instrumento de destaque no bluegrass. Mais tarde, abriu caminho para o country rock e transferiu essa precisão dinâmica e simetria melódica para a guitarra elétrica. Um dos melhores músicos de estúdio dos anos 60, tocou no crucial Sweetheart of the Rodeo, do Byrds, de 1968. Depois de entrar para a banda, no mesmo ano, White trouxe uma elação completa do rock para suas habilidades de Nashville com um toque californiano. “Ele nunca tocou nada que soasse fraco”, disse Roger McGuinn, líder do Byrds. “Sempre estava indo… para dentro da música.” White havia retornado ao bluegrass com o álbum Muleskinner quando foi morto por um motorista bêbado em 1973. Tinha 29 anos.
PRINCIPAIS FAIXAS “Time Between”, “This Wheel’s on Fire”, “Chestnut Mare”
51 – Johnny Marr
O guitarrista do The Smiths foi um gênio da guitarra para a era pós-punk: não era um solista exibicionista, mas um músico técnico que podia soar como uma banda inteira. Ao estudar discos da Motown quando garoto, Johnny Marr tentava replicar não apenas os riffs de guitarra, mas também piano e cordas. Seus arpejos voluptuosos – frequentemente tocados em uma Rickenbacker ressoante com incrível fluidez e detalhe – eram tão essenciais para o som característico do Smiths quanto o barítono de Morrissey. E foi um explorador incansável: para “This Charming Man”, Marr derrubou facas em uma Telecaster 1954, um incidente revelador ao qual o Radiohead pode ter se referido em sua “Knives Out”, inspirada no Smiths. “Ele foi um ritmista brilhante, raramente tocava solos”, disse Ed O’Brien, do Radiohead, parte de toda uma geração de guitarristas britânicos que aprenderam com Marr.
PRINCIPAIS FAIXAS “This Charming Man”, “How Soon Is Now?”
50 – Ritchie Blackmore
Mais conhecido pelo riff marcante de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, Ritchie Blackmore ajudou a definir a guitarra do heavy metal ao misturar composições clássicas com blues rock bruto. “Achei o blues limitador demais, e a música clássica era muito disciplinada”, disse. “Sempre fiquei em uma terra de ninguém musical.” Blackmore causou rebuliço em Machine Head, de 1972; seus solos em “Highway Star” e em “Lazy” continuam modelos de pirotecnia metal. Ele revisitou a música antiga europeia com sua banda seguinte, Rainbow – até aprendendo violoncelo para compor “Stargazer”, de 1976 –, e agora explora o dedilhado renascentista com o Blackmore’s Night. Mas é seu trabalho no Deep Purple que influenciou uma geração de metaleiros. “Blackmore foi a representação máxima do fascínio que eu tinha pela essência do rock, esse elemento de perigo”, diz Lars Ulrich, do Metallica.
PRINCIPAIS FAIXAS “Smoke on the Water”, “Highway Star”, “Speed King”
49 – Muddy Waters
Muddy estava lá no começo, no Delta, realmente sentado aos pés de Charley Patton e Son House. Era um garoto quando eles estavam em seu auge. Então, ele eletrificou aquilo. Tocava a guitarra de uma forma percussiva, como uma bateria. Quando toca slide, não é nas cordas agudas, é mais grave, gutural, e soa como se estivesse prestes a arrancá-las. Já era fã de Muddy quando ouvi suas gravações da Biblioteca do Congresso, capturadas por Alan Lomax em 1941 e 1942. Há algo vulnerável naquilo, mas também totalmente formado. O slide assumia a outra voz, como uma voz feminina em um coro. Muddy levou isso para Chicago. Mais tarde, à medida que envelhecia, tocava cada vez menos guitarra, mas, quando tocava, você sabia. Teve Buddy Guy e Jimmy Rogers em suas bandas, mas, quando se toca ao lado de Muddy, não se toca o que ele fazia, porque aquilo já estava coberto.
PRINCIPAIS FAIXAS “Rollin’ Stone”, “Mannish Boy”
48 – Jonny Greenwood
O Radiohead é a banda essencial do rock do século 21, e em Jonny Greenwood ela tem um dos guitarristas que definiram o século: um mago amante de efeitos cujo estilo infinitamente mutável alimentou as viagens incansáveis da banda – da pompa interestelar de “The Tourist” ao brilho nebuloso de “Reckoner”. Como The Edge, só que mais longe na estratosfera do rock artístico, Greenwood é um herói da guitarra com escassa conexão aparente com o blues e pouco interesse em fazer solos. É conhecido por atacar as cordas com um arco de violino e toca de uma forma tão maníaca que, às vezes, tem de usar uma tala no braço. Foram as explosões de ruído de Greenwood que marcaram o Radiohead como mais do que mais uma banda chorosa em “Creep”, de 1992 – um indicativo de seu papel crucial em levar a banda adiante. “Eu sempre o admirei”, falou Alex Lifeson, do Rush.
PRINCIPAIS FAIXAS “Creep”, “Paranoid Android”, “My Iron Lung”
47 – Stephen Stills
“Ele é um gênio musical”, Neil Young disse uma vez sobre Stephen Stills, seu companheiro de banda e guitarrista solo no Buffalo Springfield e no Crosby, Stills, Nash and Young. Stills é um dos guitarristas mais subestimados do rock, possivelmente por sua reputação estabelecida como cantor e compositor. Há mais de quatro décadas, desafiou e complementou as interrupções ferais de Young com um som com inflexões latinas e do country. Como seus solos retumbantes nos recentes shows de reunião do Buffalo Springfield demonstraram, Stills nunca perdeu seu fervor por estilhaços aventureiros. Ele conseguiu com que Eric Clapton e Jimi Hendrix fizessem aparições em seu álbum solo de estreia,Stills, de 1970 – o único na história do rock a contar com os dois gigantes da guitarra. “Gosto de todos os aspectos de me apresentar”, falou Stills, “mas realmente adoro subir e queimar a minha guitarra.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Bluebird”, “Carry On”, “Go Back Home”
46 – Jerry Garcia
A maioria das pessoas que toca blues é muito conservadora. Elas permancem de uma certa maneira. Jerry Garcia pintava fora da moldura. Tocava blues, mas o misturava com bluegrass e Ravi Shankar. Tinha country e música espanhola ali. Havia muito de Chet Atkins nele – subindo e descendo as palhetas. É como colocar contas em um cordão, em vez de jogá-las pela sala. Jerry tinha uma noção tremenda de propósito. Quando você pega um solo, decide o que dizer, chega lá e o dá para o próximo cara. É como Jerry trabalhava no Dead. Era o sol do Grateful Dead – a música que a banda tocava era como planetas que orbitavam em volta dele. Não era nada superficial. Sempre foi muito divertido tocar com ele, porque era muito acolhedor. Subia e descia; eu ia para a esquerda e direita, e sabia que ele gostava disso, porque o Dead sempre me convidava de volta.
PRINCIPAIS FAIXAS “Dark Star”, “Sugaree”, “Casey Jones”
45 – Link Wray
Quando Link Wray lançou a empolgante e soturna “Rumble” em 1958, ela se tornou uma das poucas músicas instrumentais a ser proibida de tocar nas rádios – por medo de que pudesse incitar a violência de gangues. Ao perfurar o cone do alto-falante de seu amplificador com um lápis, Wray criou o som distorcido e superdirecionado que reverberaria através do metal, punk e grunge. Wray, que orgulhosamente alegava ancestralidade indígena da tribo Shawnee e perdeu um pulmão para a tuberculose, era o arquétipo do durão em roupas de couro, e os títulos de suas músicas – “Slinky”, “The Black Widow” – já transmitem a força e a ameaça de seu estilo. Dan Auerbach, do Black Keys, diz: “Eu escutava ‘Some Kinda Nut’ repetidamente. Soava como se ele estivesse estrangulando a guitarra”. Quando Link Wray morreu, em 2005, Bob Dylan e Bruce Springsteen tocaram “Rumble” no palco em homenagem.
PRINCIPAIS FAIXAS “Rumble”, “Jack the Ripper”, “Raw-Hide”
44 – Mark Knopfler
O primeiro grande momento de herói da guitarra de Mark Knopfler – o solo gloriosamente melódico no sucesso do Dire Straits, “Sultans of Swing”, de 1978 – veio em um momento no qual o punk parecia tornar a ideia de um herói da guitarra obsoleta. Mesmo assim, Knopfler construiu uma reputação como um virtuose intensamente criativo (e também de um excelente compositor), mostrando um comando notável sobre diversos timbres e texturas – da distorção suja no sucesso “Money for Nothing” à precisão cortante em “Tunnel of Love”. Algo chave para o estilo característico de Knopfler: tocar sem palheta. “Tocar com os dedos”, disse, “tem algo a ver com imediatismo e alma”. A versatilidade de Knopfler o fez ser requisitado para projetos com artistas como Tina Turner, Eric Clapton e Bob Dylan, que chamou Knopf ler pela primeira vez para Slow Train Coming, de 1979.
PRINCIPAIS FAIXAS “Sultans of Swing”, “Romeo and Juliet”
43 – Hubert Sumlin
“Amo Hubert Sumlin”, disse Jimmy Page. “Ele sempre tocou a coisa certa no momento certo.” Durante mais de duas décadas tocando com Howlin’ Wolf, Sumlin sempre pareceu ter uma conexão quase telepática com o lendário cantor de blues, aumentando os gritos ferozes de Wolf com linhas de guitarra angulares e cortantes e riffs perfeitamente colocados em músicas imortais como “Wang Dang Doodle”, “Back Door Man” e “Killing Floor”. Sumlin, até um pouco antes de sua morte aos 80 anos, no dia 4 de dezembro do ano passado, subia ao palco na valiosa companhia de seguidores como Rolling Stones, Elvis Costello, Eric Clapton e Allman Brothers. “Você tenta contar uma história. Se você a conta direito, então a vive”, Sumlin disse uma vez sobre seu influente estilo. “Pode ser um pouco mais rápido ou ter um pouco mais de classe, mas, no caso, é tudo uma questão de tocar o blues ou não.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Smokestack Lightning”, “Spoonful”, “Killing Floor”
42 – Mike Bloomfield
Ele não teve chance de expandir a missão de sua alma, mas os poucos álbuns nos quais tocou são o suficiente”, diz Carlos Santana, referindo-se à morte de Mike Bloomfield em 1981, por overdose aos 37 anos, e às gravações essenciais que deixou para trás. Bloomfield ajudou Bob Dylan a ficar “elétrico” com seu trabalho em Highway 61 Revisited (as espirais para o céu em “Like a Rolling Stone” são de Bloomfield) e nos dois álbuns com a Paul Butterfield Blues Band, incluindo o monstro do raga-blues East-West, de 1966. Nascido em Chicago, Bloomfield estudou as lendas locais como Muddy Waters e Howlin’ Wolf de perto quando era garoto, e juntou essas lições em um timbre agudo limpo e preciso, e solos que decolaram com o êxtase fluido do jazz modal. “Michael sempre soava como um salmão indo contra a corrente”, afirma Santana. “Ele vem de B.B. King, mas foi para outro lugar.”
PRINCIPAIS FAIXAS “East-West”, “Like a Rolling Stone”
41 – Mick Ronson
Foi uma colaboração estimulante – o fraseamento conciso de Mick Ronson e a distorção perfurante que incendiou o confronto sexualmente confuso de David Bowie durante sua fase de rei do glam como Ziggy Stardust, no início dos anos 70. “Mick era o embrulho perfeito para o personagem Ziggy”, disse Bowie. “Éramos tão bons quanto Mick e Keith ou Axl e Slash… a personificação desse dualismo do rock and roll.” A parceria histórica na verdade é anterior a Ziggy Stardust, atingindo seu primeiro pico no furor metálico da gravação de “The Width of a Circle”, de Bowie, de 1970. O estilo de blues com sabor de Ronson também foi um componente vital em sessões para Lou Reed, John Mellencamp e Morrissey, e durante sua segunda grande parceria, no final dos anos 70 e começo dos 80, com o ex-vocalista do Mott the Hoople, Ian Hunter.
PRINCIPAIS FAIXAS “The Width of a Circle”, “Suff ragette City”
40 – Tom Morello
Tom Morello reimaginou a guitarra do rock para o mundo pós-hip-hop nos anos 90 com o Rage Against the Machine. Usando intensamente seus pedais de efeito, criou um novo vocabulário sônico – scratchs de toca-disco replicados em “Bulls on Parade”, as explosões do funk em “Killing in the Name” e o ataque de bombardeio em “Fistful of Steel”. A mistura de recursos, solos pirotécnicos e acordes trovejantes de Morello tem partes iguais do Stooges e do Public Enemy: “O Bomb Squad foi uma influência enorme para mim como guitarrista”, disse Morello se referindo ao time de produção do hip-hop que adorava um barulho. Depois de se afastar da teatralidade na guitarra nos últimos cinco anos com seu codinome de folk esquerdista, The Nightwatchman, Morello aumentou o volume mais uma vez no álbum mais recente do Rage, World Wide Rebel Songs.
PRINCIPAIS FAIXAS “Guerrilla Radio”, “Killing in the Name”
39 – Steve Cropper
Peter Buck considera Steve Cropper “provavelmente meu guitarrista preferido de todos os tempos”. Cropper tem sido o ingrediente secreto de algumas das melhores músicas do rock e do soul: na adolescência, teve seu primeiro hit (“Last Night”) com o Mar-Keys; passou a maior parte dos anos 60 no Booker T. and the MGs, a banda residente da Stax Records que tocava para Carla Thomas, Otis Redding e Wilson Pickett. Seu estilo econômico e cheio de soul apareceu em gravações de dezenas de astros do rock e R&B, incluindo até os Blues Brothers. Pense na introdução para “Soul Man”, de Sam and Dave, nas notas explosivas em “Green Onions”, de Booker T., ou nos detalhes cheios de filigranas em “(Sittin’ on) The Dock of the Bay”, de Redding – todas têm o som característico de Cropper, a quintessência da guitarra soul. “Não me importa estar no centro do palco”, diz Cropper. “Sou um membro da banda, sempre fui.”
PRINCIPAIS FAIXAS “(Sittin’ on) The Dock of the Bay”, “Green Onions”
38 – The Edge
Muito já havia sido dito sobre a guitarra quando The Edge a pegou. Seu segredo é que ele aprendeu sozinho a tocar – por isso ele é tão único. A mente dele é tão muito inovadora: cada álbum do U2 no qual me envolvi tinha um novo som vindo dele. Não há muito dedilhado em seu estilo; ele é basicamente um servo da melodia. Seu foco é na inter-relação entre sua guitarra e os vocais de Bono. The Edge é um cientista de dia e um poeta à noite: sempre tem um pequeno equipamento em casa. Leva uma batida de bateria de Larry Mullen e volta ao estúdio na manhã seguinte dizendo “Bono, tenho uma para você” – e apresenta “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, com um riff simples que norteia toda a direção da música. É dedicado a fazer anotações. Ele e seu técnico de guitarra, Dallas Schoo, documentam cada detalhe de seu som – que pedais, que captador usou –, qualquer coisa que ache que possa usar depois. Há uma quebra perto de dois terços de “Mysterious Ways”, antes de a música entrar em sinfonia que, para mim, está no mesmo nível das melhores partes de guitarra de James Brown ou, então, a uma das melhores linhas de sopro tocadas pelo Tower of Power. Não é realmente um riff – é um momento, que me leva às lágrimas sempre que o ouço.
PRINCIPAIS FAIXAS “I Will Follow”, “Pride (In the Name of Love)”, “The Fly”, “Mysterious Ways”
37 – Mick Taylor
“Às vezes eu ficava impressionado ouvindo Mick Taylor”, escreveu Keith Richards em sua autobiografia. “Estava tudo lá no seu estilo – o toque melódico, um lindo sustain e uma maneira de ler a música.” Taylor tinha só 20 anos quando os Rolling Stones o recrutaram do John Mayall’s Bluesbreakers como substituto para Brian Jones, em 1969. Seu impacto, em obras-primas comoExile on Main St. e Sticky Fingers, foi imediato. O slide direto ao ponto e sujo em “Love in Vain”, a precisão incrível em “All Down the Line”, a coda estendida com inflexão do jazz latino em “Can’t You Hear Me Knocking” – não é por acaso que o período com Taylor coincidiu com as gravações mais consistentes dos Stones. “Ele era um músico muito fluente e melódico… e isso me deu algo para seguir, de repente”, disse Mick Jagger sobre Taylor, que saiu da banda em 1974. “Algumas pessoas acham que essa foi a melhor versão da banda.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Can’t You Hear Me Knocking”, “All Down the Line”
36 – Randy Rhoads
A carreira de Randy Rhoads foi curta demais – ele morreu em um acidente de avião em 1982, aos 25 anos – mas seus solos precisos, arquitetônicos e hiperacelerados em “Crazy Train” e “Mr. Crowley”, de Ozzy Osbourne, ajudaram a definir o modelo para solos de metal para os anos seguintes. “Eu treinava oito horas por dia por causa dele”, afirmou Tom Morello. Rhoads tinha cofundado o Quiet Riot na adolescência e entrou para a banda Blizzard of Ozz de Ozzy em 1979. Depois de alguns anos trabalhando como professor de guitarra, segundo a lenda, Rhoads continuou tendo aulas em cidades diferentes quando estava em turnê com Ozzy. Quando gravou seu último álbum, Diary of a Madman, Rhoads estava se aprofundando em música clássica e até explorando o jazz. Ele “estava cada vez mais dentro de si mesmo como guitarrista”, disse Nikki Sixx, do Mötley Crüe.
PRINCIPAIS FAIXAS “Crazy Train”, “Mr. Crowley”, “Diary of a Madman”
35 – John Lee Hooker
“Não toco muita guitarra bonita”, disse uma vez John Lee Hooker. “O tipo de guitarra que quero tocar é bem malvada.” O estilo de Hooker não poderia ser definido como urbano ou country blues – era algo totalmente próprio, misterioso, cheio de funk e hipnótico. Em clássicos monumentais como “Boogie Chillen”, “Boom Boom” e “Crawlin’ King Snake”, ele aperfeiçoou um groove arrastado e monotônico, frequentemente em batidas de tempo idiossincráticas e preso em um único acorde, com uma potência atemporal. “Era retrô mesmo em sua própria época”, disse Keith Richards. “Até Muddy Waters era sofisticado perto dele.” Hooker foi uma figura crucial na explosão do blues dos anos 60; seu boogie se tornou a base para boa parte do som inicial do ZZ Top; suas músicas foram gravadas por todos, de Doors a Bruce Springsteen; e, mais tarde, bem depois dos 70 anos, ele ganhou quatro Grammys nos anos 90.
PRINCIPAIS FAIXAS “Boogie Chillen”, “Boom Boom”, “I’m in the Mood”
34 – Curtis Mayfield
O falecido Curtis Mayfield foi um dos melhores cantores, compositores e produtores do soul norte-americano. Também foi um guitarrista discretamente influente cujas melodias e detalhes gentilmente fluidos, em gravações como “Gypsy Woman”, do Impressions, deixaram um impacto profundo em Jimi Hendrix, especialmente em suas baladas psicodélicas. “Nos anos 60, todo guitarrista queria tocar como Curtis”, afirmou George Clinton. Mayfield reinventou seu estilo nos anos 70, construindo sua nova música em torno dos ritmos fugazes do funk e de solos escassos, gestuais e com wah-wah, como em sua trilha sonora para Superfly e em sucessos como “Move on Up”. Suas sequências de acordes líquidos eram difíceis para outros músicos imitarem, parcialmente porque Mayfield tocava em uma afinação em fá sustenido aberto, como explicou: “Sendo autodidata, nunca a mudei.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Gypsy Woman”, “Move on Up”
33 – Prince
Ele tocou possivelmente o melhor solo de guitarra em uma balada na história (“Purple Rain”), e seu solo em uma versão all star de “While My Guitar Gently Weeps” durante a introdução de George Harrison ao Hall da Fama do Rock and Roll, em 2004, fez queixos caírem. Mas Prince também pode trazer o funk sujo (“Kiss”) ou estraçalhar como o metaleiro mais intenso (“When Doves Cry”). Às vezes, seu estilo mais quente funciona como pano de fundo – veja “Gett Off” e “Dance On”. Prince é comparado a Hendrix, mas vê isso de forma diferente: “Se realmente escutassem minhas músicas, ouviriam uma influência mais de Santana do que de Jimi Hendrix”, ele afirmou à Rolling Stone. “Hendrix tocava mais blues, Santana tocava mais bonito.” Para Miles Davis, que colaborou com ele no fim da vida, Prince era uma combinação de “James Brown, Jimi Hendrix, Marvin Gaye… e Charlie Chaplin. Como se pode errar com isso?”
PRINCIPAIS FAIXAS “Purple Rain”, “Kiss”, “When Doves Cry”
32 – Billy Gibbons
Billy Gibbons era um guitarrista a ser reconhecido muito antes de deixar aquela épica barba crescer. Em 1968, sua banda de garagem psicodélica, Moving Sidewalks, abriu no Texas para o Jimi Hendrix Experience. De acordo com as histórias locais, Hendrix ficou tão impressionado com a facilidade e a potência de Gibbons que deu ao jovem guitarrista uma Stratocaster cor-de-rosa de presente. Gibbons desde então descreve o que toca com seu trio de quatro décadas, ZZ Top, como “bater na prancha”. No entanto, do boogie muscular de “La Grange” e do shuffle descompassado e retorcido de “Jesus Left Chicago” aos sucessos dos anos 80 “Legs” e “Sharp Dressed Man”, o estilo de Gibbons na guitarra tem sido religiosamente fiel, em seu ataque trovejante e concisão melódica, a seus antecessores texanos (Freddy King, Albert Collins) e à carga elétrica do Delta de Muddy Waters.
PRINCIPAIS FAIXAS “Jesus Left Chicago”, “La Grange”
31 – Ry Cooder
Uma vez Ry Cooder comparou seu estilo – uma sublime amálgama de folk norteamericano e blues, guitarra havaiana, uma pitada tex-mex e a sensualidade régia do som afro-cubano – a “uma máquina a vapor que saiu de controle”. A vida de Cooder com a guitarra é distinguida por uma mistura rara de fundamentos arcaicos e paixão exploratória. Ele surgiu como fenómeno adolescente do blues ao lado de Taj Mahal e Captain Beefheart em meados dos anos 60, elaborou trilhas sonoras para vários filmes e teve papel chave no nascimento e sucesso do Buena Vista Social Club, em 1996. Como coadjuvante, Cooder trouxe uma bravura real e nuance emocional a álbuns clássicos de Randy Newman, Rolling Stones e Eric Clapton. Também é um preservacionista cheio de alma, mantendo momentos cruciais do passado vivos e dinâmicos no mundo moderno.
PRINCIPAIS FAIXAS “Memo from Turner”, “Boomer’s Story”
30 – Elmore James
O cantor e guitarrista Elmore James, nascido no Mississippi, escreveu um lick imortal: o riff de slide em staccato em sua adaptação de “I Believe I’ll Dust My Broom”, de Robert Johnson, de 1951. “Mas foi um grande lick”, diz o guitarrista Derek Trucks. “Havia algo desembestado em seu estilo, aquele violão com captador elétrico.” James também acertou com variações empolgantes daquele lick em “Shake Your Moneymaker” e “Stranger Blues”, que se tornaram clássicos da explosão do blues após sua morte, em 1963. Seu timbre inspirou uma geração de guitarristas: “Treinei 12 horas por dia, todos os dias, até meus dedos sangrarem, tentando conseguir o mesmo som de James”, disse Robbie Robertson. “Então, alguém me contou que ele tocava com um slide.” Trucks ama o solo de James em uma versão de “Rollin’ and Tumblin’”, de 1960: “É, cada nota está no lugar certo – tem pegada funk e é suja”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Dust My Broom”, “The Sky Is Crying”
29 – Scotty Moore
Em 5 de julho de 1954, Elvis Presley, o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black brincavam com uma versão acelerada de “That’s All Right”, de Arthur Crudup, durante um intervalo em uma gravação na Sun Records, em Memphis. O som da guitarra se transmutaria: as passagens concisas e agressivas de Moore misturavam dedilhados de country e fraseados de blues em uma nova linguagem. O estilo era tão potente que até se esquece que não havia baterista. Se Moore só tivesse feito as 18 gravações da Sun – incluindo “Mystery Train” e “Good Rockin’ Tonight” –, seu lugar na história já estaria garantido, mas ele continuou tocando com Elvis, colaborando com mais solos incandescentes. Quando Elvis quis voltar para suas raízes no especial de TV em 1968, convocou Moore para o som que ajudou a mudar o papel da guitarra na música pop. “Todo mundo queria ser Elvis”, disse Keith Richards. “Eu queria ser Scotty.”
PRINCIPAIS FAIXAS “That’s All Right”, “Mystery Train
28 – Johnny Ramone
Pai da guitarra punk e uma enorme influência sobre o metal moderno orientado por riffs, Johnny Ramone é um dos grandes anti-heróis do instrumento. John Cummings fez seu nome com uma guitarra Mosrite barata, sobre a qual ele martelou power chords em alta velocidade em um estilo devastador e minimalista que se tornou apropriadamente conhecido como “serra circular”. Um motor de ritmo puro, Johnny quase nunca tocava solos, mas seu estilo tinha o impulso de um trem que vem chegando à estação em alta velocidade. Em uma era na qual “pesado” era sinônimo de “lento”, o suingue primitivo e metronômico de seus riffs em “Blitzkrieg Bop” e “Judy Is a Punk” e os grilhões do trampolim pop de “Rockaway Beach” mostraram que dava para acelerar as coisas sem perder um centímetro de potência – um tanto surpreendentemente, já que seu herói na guitarra era Jimmy Page.
PRINCIPAIS FAIXAS “Blitzkrieg Bop”, “Judy Is a Punk”, “Rockaway Beach”
27 – Bo Diddley
“É a mãe dos riffs”, diz o guitarrista Johnny Marr, se referindo à “batida Bo Diddley”, introduzida pelo guitarrista de Chicago nascido Ellas Otha Bates, mais conhecido como Bo Diddley. Levadas por sua guitarra–tremolo, músicas como “Mona” e “Bo Diddley” liberaram uma versão poderosa de um groove da África Ocidental que foi passado por escravos; depois de Diddley, o riff seria sequestrado por todos, de Buddy Holly aos Rolling Stones. Roqueiros de garagem e punks também reagiram à sua simplicidade crua (o Clash o levou para a turnê em 1979; os Smiths construíram “How Soon Is Now?” em torno do riff). “Qualquer um que pegasse a guitarra poderia fazer isso”, diz Dan Auerbach, do Black Keys. “Se você conseguisse manter a batida, poderia tocar Bo Diddley”. Keith Richards filosofou: “O estilo dele sugeria que o tipo de música que amamos não veio do Mississippi. Vinha de outro lugar”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Bo Diddley”, “Road Runner”, “Who Do You Love?”
26 – Brian May
Provavelmente o único guitarrista a ter um diploma em astrofísica, o músico do Queen é um aventureiro genial que sempre está buscando novos efeitos. Uma de suas metas iniciais foi “ser o primeiro a harmonizar três guitarras em uma única gravação” – como os gemidos orquestrados de seu solo em “Killer Queen”. Brian May colocou, em camadas, dezenas de partes de guitarra em faixas individuais, construindo muros palacianos de som. Até seu instrumento saiu de sua imaginação: sua guitarra personalizada, Red Special, também conhecida como Old Lady, é uma maravilha caseira, construída por May e seu pai no início dos anos 60 com componentes incluindo pedaços de lenha de lareira. Ela produziu de tudo, do solo agudo cheio de piruetas em “Bohemian Rhapsody” ao riff proto-metal de “Stone Cold Crazy”. “Consigo ouvir qualquer músico e imitar seu som”, disse Steve Vai, “mas não o Brian May.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Keep Yourself Alive”, “Brighton Rock”
25 – Tony Iommi
Lembro a primeira vez em que ouvi Black Sabbath. Meu irmão mais velho comprou o álbumMasters of Reality de um moleque vizinho e nós o passávamos adiante como se fosse crack. Tocávamos com a luz apagada e uma vela acesa, quando meu pai entrou no quarto. Ele falou “que merda é essa?” e quebrou o disco bem na nossa frente. Só que a música já tinha me atingido como um raio. Eu realmente entro na iommisfera toda vez que pego a guitarra. Tony é um pioneiro do metal, mas há uma sofisticação verdadeira em seu estilo: não é tão rápido o tempo todo. Seu estilo tem uma vibração tão clássica, que me inspira muito.
Eu me machuquei em um show da reunião do Black Sabbath em 1999. Durante “Snowblind”, todos estávamos nos abraçando, então caímos e bati em uma cadeira e quebrei as costelas. Pensei: “Está doendo pra burro, mas não quero ir embora. Tenho que continuar vendo o Tony tocar!”
PRINCIPAIS FAIXAS “Iron Man”, “Sabbra Cadabra”, “Children of the Grave”
24 – Angus Young
“Não me considero um solista”, disse o guitarrista do AC/DC sobre seu estilo maníaco. “É como se fosse uma cor; eu a coloco ali para empolgar.” A abordagem que Angus Young e seu irmão guitarrista Malcolm desenvolveram nos primeiros anos do AC/DC – percursos pentatônicos de alta velocidade sobre power chords trovejantes – tornou-se uma tradição do hard rock e milhões de guitarristas no mundo todo têm seus licks em “Back in Black” e “Highway to Hell” gravados na memória. “Malcolm e Angus fizeram mais com três acordes do que qualquer outro ser humano”, disse Slash. O personagem de Angus Young no palco – uniformes escolares, trotando como um Chuck Berry em miniatura – é tão excêntrico quanto seu estilo. “Ele é como o Clark Kent!”, disse o vocalista do AC/DC Brian Johnson à Rolling Stone em 2008. “Entra em uma cabine telefónica e sai como um moleque de 14 anos, pronto para o rock!”
PRINCIPAIS FAIXAS “Highway to Hell”, “Bad Boy Boogie”
23 – Buddy Guy
Buddy Guy se acostumou a pessoas chamando seu estilo de guitarra de um monte de barulhos – de sua família, na rural Louisiana, a Phil e Leonard Chess, donos da Chess Records, que, diz ele, “não deixavam que eu me soltasse como queria” em sessões com Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Little Walter. Mas, à medida que a nova geração de roqueiros descobria o blues, o estilo de Guy se tornava influência para titãs como Jimi Hendrix e Jimmy Page. Seu jeito extravagante – bends intensos, distorção proeminente, licks frenéticos – em clássicos como “Stone Crazy” e “First Time I Met the Blues” e suas colaborações com o falecido mestre da gaita Junior Wells, elevaram o padrão para a fúria de seis cordas. Sua performance ao vivo continua eletrizante. “Ele era para mim o que Elvis foi para os outros”, afirmou Eric Clapton na introdução de Guy no Hall da Fama do Rock and Roll em 2005.
PRINCIPAIS FAIXAS “Stone Crazy”, “First Time I Met the Blues”
22 – Frank Zappa
“Quando estava aprendendo a tocar guitarra, era obcecado por esse disco”, disse Trey Anastasio, do Phish, em 2005, sobre a coleção de solos intrincados presentes em Shut Up ’n Play Yer Guitar, de Frank Zappa, de 1981. “Cada limite possível na guitarra foi explorado por ele de forma pioneira”, diz.
Como o líder de suas bandas, incluindo formações lendárias do Mothers of Invention, Zappa fundiu doo-wop, blues urbano, jazz de big bands e modernismo orquestral.
Como guitarrista, bebia de todas essas fontes e improvisava com um deleite furioso e genuíno. Seus solos em “Willie the Pimp”, em Hot Rats, de 1969, são uma festa de estúdio com muita distorção, wah-wah e percursos de blues. Nos shows, Zappa “zanzava, fazendo suas coisas, conduzindo”, lembrou Anastasio, mas, quando pegava a guitarra para um solo, “estava em comunhão completa com seu instrumento… aquilo se tornava música da alma”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Willie the Pimp”, “In-a-Gadda-Stravinsky”
21 – Chet Atkins
Como executivo de gravadora e produtor nos anos 60, Chet Atkins inventou o “som de Nashville” que resgatou a música country de uma má fase comercial. Como guitarrista, foi ainda mais criativo, dominando country, jazz e estilos clássicos e aperfeiçoando a capacidade de tocar acordes e melodia simultaneamente, graças a seu estilo característico de tocar com o polegar e três dedos. “Muito disso foi tentativa e erro”, ele contou à Rolling Stone em 1976. “Eu tinha uma guitarra nas mãos 16 horas por dia e experimentava o tempo todo.” Atkins podia ser tranquilo e contido (basta ouvir “Your Cheatin’ Heart”, de Hank Williams, “Heartbreak Hotel”, de Elvis Presley, e vários dos primeiros sucessos dos Everly Brothers), mas seus próprios álbuns solo altamente instrumentais são um saco infinito de truques de guitarra, misturando harmônicos, arpejos e notas puras com um timbre brilhantemente límpido.
PRINCIPAIS FAIXAS “Your Cheatin’ Heart”, “Wake Up Little Susie”
20 – Carlos Santana
O mexicano Carlos Santana tinha concluído o ensino médio em São Francisco, em 1965, quando a cena musical da cidade explodiu, expondo-o a diversas revelações – blues elétrico, ritmos africanos e jazz moderno; mentores da guitarra como Jerry Garcia e Peter Green, do Fleetwood Mac – que se tornaram vertentes essenciais na psicodelia de ritmos latinos de sua banda homônima.O timbre e o sustain cristalinos de Santana fazem dele um raro instrumentista que pode ser identificado em apenas uma nota. Quanto a seu estilo ousado e exploratório, ele dá crédito parcial a seu consumo de ácido. “Não dá para tomar LSD e não encontrar sua voz, porque não há onde se esconder. Você não vai soar plástico ou bonitinho.” A força acolhedora do som de Santana o torna um colaborador ideal – seu álbum cheio de estrelas, Supernatural, de 1999, ganhou nove Grammys – e fonte de inspiração duradoura.
PRINCIPAIS FAIXAS “Black Magic Woman”, “Soul Sacrifice”
19 – James Burton
O estilo característico de James Burton – brilhante, claro e conciso – veio da música country e foi uma influência enorme sobre a guitarra do rock. Burton começou aos 14 anos, compondo “Susie Q”, para Dale Hawkins, e se tornou um astro adolescente quando entrou para a banda de Ricky Nelson em1957.
Com Nelson, Burton criou sua técnica única: usava os dedos junto com a palheta e substituiu as quarto cordas mais agudas de sua Telecaster por cordas de banjo, para que sua guitarra estalasse, estou- rasse e gaguejasse. “ Nunca comprava um disco de Ricky Nelson”, afirmou Keith Richards.“Comprava um discode James Burton.”
No final dos anos 60 e nos 70, ele fez parte da banda TCB de Elvis Presley e se tornou presença obrigatória em álbuns de Joni Mitchell e Gram Parsons, voltados para o country. Joe Walsh resume:“Burton era um cara misterioso: ‘Quem é ele e por que está em todas essas músicas de que gosto?’”
PRINCIPAIS FAIXAS “Hello M ary Lou”, “Susie Q”, “Believe What You Say”
18 – Les Paul
Para muitos, Les Paul é mais conhecido como o gênio que inventou a guitarra de corpo sólido que leva seu nome.
Mas ele era igualmente criativo e inovador como músico. Uma longa sequência de sucessos nos anos 40 e 50 (sozinho e com a esposa, a cantora e guitarrista Mary Ford) estabeleceu seu estilo característico e influente: improvisações elegantes, limpas e rápidas sobre músicas pop do momento.
Paul criou uma série constante de inovações técnicas, incluindo sobreposições de sons em estúdio em várias camadas e reprodução de fita em diferentes velocidades para atingir sons que ninguém havia criado – ouça o solo que parece um enxame de insetos em sua gravação de “Lover”, de 1948. Pouco antes de sua morte em 2009, aos 94 anos, ele ainda fazia shows semanais em um clube de jazz em Nova York, recheados de metaleiros na plateia.
PRINCIPAIS FAIXAS “How High the Moon”, “Vaya Con Dios”, “Tiger Rag”
17 – Neil Young
Se um dia eu der uma aula a jovens guitarristas, a primeira coisa que tocaria para eles é o primeiro minuto do solo de “Down by the River”, de Neil Young. É apenas uma nota, mas é tão melódica, e está cheia de atitude e raiva. É como se ele quisesse desesperadamente se conectar. O estilo de Neil é como um tubo aberto de seu coração direto para o público.
Nos anos 90, tocamos em um festival com o Crazy Horse. No final de “Like a Hurricane”, Neil entrou neste solo de feedback que era mais como uma pintura impressionista sônica. Ele estava a cerca de 1,8 m de distância do micro- fone, cantando para que você só pudesse ouvi-lo sobre as ondas coloridas do som do furacão.
Penso muito nesse momento quando estou tocando. Conceitos tradicionais de ritmo e tons são ótimos, mas a música é como um oceano gigante. É um lugar grande e furioso e há muitos rincões ainda não explorados. Neil ainda está abrindo caminho para pessoas mais jovens do que ele, lembrando que é possível inovar artisticamente.
PRINCIPAIS FAIXAS “Down by the River”, “Mr. Soul”
16 – Derek Trucks
Literalmente criado na família do Allman Brothers, Derek Trucks – sobrinho de Butch Trucks, baterista do Allman – começou a tocar guitarra slide aos 9 anos, e já fazia turnês aos 12. A precocidade de Trucks era carregada de uma febre de explorador. Quando assumiu o posto de guitarra slide do falecido Duane Allman na Allman Brothers Band, em 1999, aos 20 anos, os solos de Derek explodiram em direções emocionantes, conseguindo incorporar o blues do Delta, o jazz hard-bop, o êxtase vocal do gospel negro sulista e o tom modal de ritmos indianos.
Além de fazer shows com o Allman Brothers, Trucks agora colidera a Tedeschi Trucks Band, uma potência de 11 membros na tradição de Delaney & Bonnie, junto com a esposa, a cantora e guitarrista Susan Tedeschi. “Ele é um poço sem fundo”, disse Eric Clapton, que levou Trucks em turnê como coadjuvante em 2006 e 2007. “O som dele é muito profundo.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Joyful Noise”, “Whipping Post”
15 – Freddy King
Em uma entrevista de 1985, Eric Clapton citou o lado B “I Love the Woman”, de Freddy King, de 1961, como “a primeira vez que ouvi aquele estilo de solo de guitarra, com as notas puxadas… [ela] me levou para meu próprio caminho”. Clapton dividiu seu amor por King com os heróis britânicos da guitarra Peter Green, Jeff Beck e Mick Taylor, todos profundamente influenciados pelo tom agudo afiado de King e pelos ganchos melódicos ásperos em “The Stumble” e “I’m Tore Down”.
Apelidado de “Canhão do Texas” por sua postura imponente e shows incendiários, King tinha um ataque peculiar.“Aço sobre aço produz um som inesquecível”, diz Derek Trucks, referindo-se ao fato de King utilizar palhetas de metal. Trucks ainda consegue ouvir o enorme impacto de King sobre Clapton. “Quando toquei com Eric”, contou recentemente, “houve momentos nos quais ele fazia solos e eu sentia aquela mesma vibração do Freddy.”
PRINCIPAIS FAIXAS “Hide Away”, “Have You Ever Loved a Woman”
14 – David Gilmour
Como produtor e compositor, o guitarrista do Pink Floyd é atraído por texturas flutuantes e sonhadoras. Mas quando pega sua Stratocaster preta para tocar um solo, uma sensibilidade diferente toma conta. Ele era um solista incendiário, baseado no blues, mas em uma banda que praticamente nunca tocava esse estilo – seus solos extensos, elegantes e melódicos eram uma chamada para despertar tão intensa quanto aqueles alarmes barulhentos em The Dark Side of the Moon. Só que Gilmour também era adepto de improvisações vanguardistas; ao mesmo tempo, podia ser um guitarrista rítmico com um funk inesperado, do riff elegante de “Have a Cigar” aos floreios ao estilo do grupo Chic de “Another Brick in the Wall Part 2”. Seu uso pioneiro do eco e outros efeitos –inspirado pelo guitarrista original do Floyd, Syd Barrett – culminou com seu preciso uso do delay em “Run Like Hell”, que antecipou o som característico de The Edge.
PRINCIPAIS FAIXAS “Comfortably Numb”, “Shine on You Crazy Diamond”
13 – Albert King
Quando Jon Landau, da Rolling Stone EUA, perguntou a Albert King em 1968 sobre suas influências na guitarra, King respondeu: “Ninguém. Tudo o que faço é errado”. Pioneiro do blues elétrico, o canhoto King tocava uma Gibson Flying V de 1959 ao contrário, com as cordas graves voltadas anormalmente para o chão. Ele usava uma afinação secreta indecifrável, tocando as notas com o polegar. Com 1,93 m de altura e 136 kg, King conseguia fazer bends com mais potência do que qualquer outro guitarrista.
Eric Clapton tirou o solo de “Strange Brew” de King, e Duane Allman transformou a melodia de “As the Years Go Passing By” no riff principal de “Layla”. Jimi Hendrix ficou embasbacado quando seu herói abriu para ele no Fillmore em 1967. “Ensinei [a Hendrix] uma lição sobre o blues”, disse King. “Eu poderia ter tocado as músicas dele, mas ele não conseguiria tocar as minhas”.
PRINCIPAIS FAIXAS “Born Under a Bad Sign”, “As the Years Go Passing By”
12 – Stevie Ray Vaughan
No início dos anos 80, a MTV estava surgindo e a guitarra do blues estava a quilómetros de distância das músicas quefaziam sucesso na parada. Só que o texano Stevie Ray Vaughan exigia sua atenção. Tinha absorvido os estilos de praticamente todos os grandes guitarristas de blues – além de Jimi Hendrix e muito do jazz e rockabilly – e seu timbre fenomenal, sua virtuosidade casual e sua noção impecável de suingue podiam fazer um blues como “Pride and Joy” bater tão forte quanto qualquer faixa metaleira.
Apesar de sua morte em um acidente de helicóptero em 1990, ele ainda inspira diversas gerações de guitarristas, de Mike McCready, do Pearl Jam, a John Mayer e o astro em ascensão Gary Clark Jr. “Stevie foi um dos motivos para eu querer uma Stratocaster – seu timbre, que nunca consegui imitar, era tão grande, ousado e brilhante ao mesmo tempo”, afirma Clark.
PRINCIPAIS FAIXAS “Love Struck Baby”, “Look at Little Sister”
11 – George Harrisson
George Harrison e eu estávamos em um carro, certa vez, e a música “You Can’t Do That” dos Beatles começou a tocar, com aquele grande riff de guitarra de 12 cordas na abertura. Ele disse: “Eu criei esse”. Perguntei: “Verdade? Como?” Respondeu: “Estava lá parado e pensei: ‘Tenho de fazer algo!’” Isso o resume bem. Tinha um jeito de ir direto ao ponto, de achar a coisa certa a tocar. Isso era parte da magia dos Beatles – todos pareciam achar a coisa certa para tocar.
George conhecia cada solo obscuro dos discos de Elvis; suas influências iniciais foram o rockabilly – Carl Perkins, Eddie Cochran, Chet Atkins, Scotty Moore –, mas sempre acrescentou algo a isso. Muito antes, eu derretia com o solo em “I Saw Her Standing There”. Simplesmente não dá para imaginar outra coisa lá. Ele tinha esse dom. E quantas guitarras Rickenbacker de 12 cordas ele ajudou a vender? Era um som totalmente novo também – Roger McGuinn pegou a ideia de George, e depois a levou para o The Byrds.
Quando passou para a guitarra slide mais tarde na carreira dos Beatles, foi realmente bonito ouvi-lo tocar. Uma vez ele me disse: “Acho que os guitarristas modernos estão se esquecendo do tom”, e isso era algo com o qual ele se importava muito. Estava muito em sintonia com o que tocava, o slide era muito preciso, com um belo vibrato nele. Realmente soava como uma voz, como uma voz muito distinta, característica que saía dele. Ouça aquelas gravações. Eram tão imaculadas, tão inventivas. George era um cara que podia acrescentar muito.
PRINCIPAIS FAIXAS “I Saw Her Standing There”, “Something”
10 – Pete Townshend
Pete Townshend não toca muitos solos, e talvez seja por isso que muita gente não perceba o quão bom ele é. Mas é um músico visionário que realmente incendiou tudo. Seu estilo de tocar guitarra é empolgante e agressivo – um músico selvagem. Tem um jeito físico maravilhoso e fluido com a guitarra que não se vê frequentemente, e sua maneira de tocar é um bom reflexo de quem ele é – um homem muito intenso. É o precursor do punk, o primeiro a destruir uma guitarra no palco – uma declaração impressionante naquela época – mas também um cara bastante articulado, letrado. Em “Substitute”, dá para ouvir a influência da abordagem modal de Miles Davis na maneira como seus acordes se movem em torno da corda ré aberta. Usou feedback no começo, o que acho que foi influenciado pela música europeia de vanguarda como Stockhausen – uma coisa de escola de arte. Os grandes acordes abertos que usou no The Who eram tão inteligentes musicalmente quando se considera a intensidade da bateria e do baixo naquela banda – poderia ter ficado caótico se não fosse por ele. Pete mais ou menos inventou o power chord, e dá para ouvir uma coisa meio pré-Zeppelin no trabalho do The Who dos anos 60. Muitas dessas coisas vieram dele.
9 – Duane Allman
Cresci tocando guitarra slide na igreja, e a ideia era imitar a voz humana: depois de a velhinha ou de o pastor pararem de cantar, tínhamos de continuar a melodia da música como eles haviam cantado. Nesses termos, Duane Allman levou isso para um nível totalmente diferente. Era muito mais preciso do que qualquer um que surgiu antes. Quando ouvi os discos da velha guarda do Allman Brothers pela primeira vez, foi estranho, porque o som era muito parecido com o que eu tinha crescido ouvindo.
Escute “Layla” – especialmente na parte após o refrão. Duane está deslizando por toda a melodia. Eu costumava colocar essa para “repetir” quando ia dormir. Todos nós guitarristas sentamos e praticamos, mas essa é uma daquelas músicas nas quais você quer deixar a guitarra de lado e simplesmente ouvir.
Eric Clapton me disse que sabia que trabalhar com Duane levaria a guitarra para um lugar totalmente novo; eles tinham uma visão e chegaram lá. Clapton contou que ficou nervoso com dois caras tocando guitarra, mas
Duane era a pessoa mais legal – dizia: “Vamos simplesmente tocar!” Duane morreu jovem, e dá para dizer que ele ficaria 50 vezes melhor. Ainda escuto suas músicas no iPod.
PRINCIPAIS FAIXAS “Statesboro Blues”, “Whipping Post”, “Blue Sky”
8 – Eddie Van Halen
Quando eu tinha 11 anos, estava na casa do meu professor de guitarra e ele botou “Eruption”. Soava como se tivesse vindo de outro planeta. Era gloriosa, como ouvir Mozart pela primeira vez.
Eddie é mestre dos riffs: “Unchained”, “Take Your Whiskey Home”, o começo de “Ain’t Talking ’Bout Love”. Ele consegue sons que não são necessariamente de guitarra – muito harmônicos, texturas que acontecem somente pelo jeito de ele tocar. Há uma parte em “Unchained” que soa como se houvesse outro instrumento no riff.
Muito disso está nas mãos dele: como ele segura a palheta entre o polegar e o dedo médio, o que permite executar os “tappings” (quando descobri que ele tocava assim, tentei, mas foi estranho). E Eddie tem alma. É como Hendrix – dá para tocar as coisas que ele compôs, mas há um fator X que você não consegue atingir.
Eddie ainda tem isso. Vi o Van Halen na turnê de reunião há dois anos e, no segundo em que ele apareceu no palco, tive a mesma sensação de quando era moleque. Quando você vê um mestre, sabe disso.
PRINCIPAIS FAIXAS “Eruption”, “Ain’t Talking ’Bout Love”, “Hot for Teacher”
7 – Chuck Berry
Quando vi Chuck Berry em Jazz on a Summer’s Day na minha adolescência, o que me impressionou foi como ele tocava de modo diferente com um bando de músicos de jazz. Eles eram brilhantes, mas tinham aquela atitude que veteranos do jazz assumiam: “Aah… esse rock and roll…” Com “Sweet Little Sixteen”, Chuck os deixou chocados e tocou contra sua animosidade. Isso é o blues. Essa é a atitude e a coragem necessária. É o que eu queria ser, só que eu era branco.
Ouvi cada lick que ele tocava e aprendi. Chuck pegou isso de T-Bone Walker, e peguei isso de Chuck, Muddy Waters, Elmore James e B.B. King. Todos fazemos parte desta família que existe há milhares de anos. Sério, todos estamos passando isso adiante.
Chuck tocava uma versão aquecida do blues de Chicago, aquele balanço de guitarra, mas o levou para outro nível. Era um pouco mais jovem que os blueseiros mais velhos, e suas músicas eram mais comerciais sem ser simplesmente pop, o que é difícil de conseguir. Chuck tinha o suingue e uma banda incrível nas primeiras gravações: Willie Dixon no baixo, Johnnie Johnson no piano, Ebby Hardy ou Freddy Below na bateria. Eles entendiam o que ele era e iam com a maré.
Não é o cara mais fácil do mundo de se conviver, o que sempre foi um pouco decepcionante para mim – porque compôs músicas que tinham tanto senso de humor e inteligência. O velho filho da puta acabou de fazer 85 anos. Desejo a ele um feliz aniversário e queria simplesmente aparecer e dizer: “Ei, Chuck, vamos sair para beber algo.” Mas ele não é desse tipo de cara.
PRINCIPAIS FAIXAS “Johnny B. Goode”, “Maybellene”, “Roll Over Beethoven”
6 – B.B. King
As influências de B.B. foram estabelecidas há muito tempo. Por ser de Indianola, Mississippi, ele se lembra do som dos lavradores e das figuras primordiais do blues, como Charley Patton e Robert Johnson. O fraseamento de uma nota só de T-Bone Walker era outra coisa. Dá para ouvir essas influências na escolha de melodias que ele canta não só na parte vocal, mas em como deixa sua guitarra cantar instrumentalmente.
Ele toca em explosões encurtadas, com riqueza e solidez. E há uma destreza técnica, um fraseamento tocado de maneira limpa. Eram solos sofisticados. É tão identificável, tão claro que poderia ser escrito. B.B. é um solista legítimo.
Ele faz duas coisas que fiquei desesperado para aprender. Criou um fraseado onde toca duas notas ao mesmo tempo, depois pula para a outra corda e desliza até uma nota. Consigo fazer isso dormindo agora. E há essa coisa de duas ou três notas na qual ele faz um bend na última nota. Esses dois truques sempre fazem você se mexer na cadeira – ou se levantar dela. É poderoso assim.
Houve um momento de virada, mais ou menos na época de Live at the Regal [de 1965], quando seu som assumiu uma personalidade que hoje é intocável – este timbre arredondado, no qual o captador de cima e o de baixo estão fora de fase. E B.B. ainda toca com um amplificador Gibson que não é produzido há muito tempo. Seu som vem dessa combinação. É simplesmente B.B.
PRINCIPAIS FAIXAS “3 O’Clock Blues”, “The Thrill Is Gone”, “Sweet Little Angel”
5 – Jeff Beck
Jeff Beck tem a combinação de técnica brilhante e personalidade. É como se dissesse: “Sou Jeff Beck. Estou bem aqui, e você não pode me ignorar”. Até no Yardbirds, ele tinha um timbre que era melódico, brilhante, urgente e ousado, mas doce ao mesmo tempo. Dava para perceber o quanto ele era sério e determinado.
Há uma arte real em tocar com e em torno de um vocalista, respondendo e o pressionando. Essa é a beleza dos dois discos que ele gravou com Rod Stewart, Truth, de 1968, eBeck-Ola, de 1969. Ampliou os limites do blues. “Beck’s Bolero”, em Truth, não é blueseira, mas mesmo assim é inspirada no blues. Uma das minhas faixas preferidas é a cover de “I Ain’t Superstitious”, de Howlin’ Wolf, em Truth. Há um senso de humor – aquele wah-wah grunhido. Não sei se Clapton toca com o mesmo senso de humor, mesmo sendo tão bom. Jeff definitivamente tem isso.
Quando passou pela fase do fusion, a cover de “ ’Cause We’ve Ended as Lovers”, do Stevie Wonder, em Blow by Blow, me conquistou. O timbre era tão puro e delicado. É como se houvesse um vocalista cantando, mas havia um guitarrista fazendo todas as notas. Eu o vi no ano passado em um cassino em São Diego, e a guitarra era a voz. Você não sentia falta do vocalista, porque a guitarra era muito lírica. Havia uma espiritualidade e uma confiança nele, um compromisso com ser ótimo. Depois de ver aquele show, fui para casa e comecei a praticar. Talvez tenha sido o que aprendi com ele: se você quer ser Jeff Beck, faça a lição de casa.
PRINCIPAIS FAIXAS “Beck’s Bolero”, “Freeway Jam”, “A Day in the Life”, “I Ain’t Superstitious”, “Heart Full of Soul”
4 – Keith Richards
Eu me lembro de estar no ensino médio ouvindo “Satisfaction” e pirando com o que aquilo fazia comigo. É uma combinação do riff e dos acordes que se movem por baixo dele. Keith escreveu temas de duas ou três notas que eram mais poderosos do que qualquer grande solo. Tocou a guitarra rítmica com vibrato e a solo em “Gimme Shelter”. Acho que ninguém criou uma ambientação tão sinistra. Há uma claridade entre essas duas guitarras que deixa um espaço agourento para Mick Jagger cantar. Ninguém usa afinações alternativas melhor do que Keith. Essa é a essência das guitarras nos Rolling Stones. Keith encontra a afinação que permite que o trabalho – as cordas inquietas, depois silenciosas – encontre o caminho do que ele está sentindo.
Fui ver Keith com o X-Pensive Winos. No camarim, ele começou a ensaiar um riff de Chuck Berry. Nunca o ouvi soar daquele jeito. Amo Chuck Berry, mas aquilo era melhor. Não tecnicamente – havia um conteúdo emocional que falava comigo. O que Chuck é para Keith, Keith é para mim.
PRINCIPAIS FAIXAS “(I Can’t Get No) Satisfaction”, “Gimme Shelter”
3 – Jimmy Page
Ouvir o que Jimmy Page faz na guitarra faz você viajar. Como guitarrista solo, ele sempre toca a coisa certa para o momento certo – tem um gosto incrível. O solo em “Heartbreaker” tem uma urgência tão sensacional; ele está cambaleando à beira de sua técnica e ainda assim domina o show. Só que não dá para olhar apenas para seu jeito de tocar guitarra. Você tem de ver o que ele fez no estúdio e como usou isso nas músicas que compôs e produziu. Jimmy construiu um catálogo imenso de experiências no Yardbirds e como músico de estúdio, então, quando gravou o primeiro disco do Led Zeppelin, sabia exatamente que tipo de sons queria obter.
Ele tinha esta visão de como transcender os estereótipos do que a guitarra pode fazer. Se você seguir a guitarra em “The Song Remains the Same” o tempo inteiro, ela evolui através de tantas mudanças diferentes – mais alta, mais quieta, mais suave, mais alta de novo. Ele compunha, tocava, produzia as músicas – não consigo pensar em outro guitarrista desde Les Paul que possa reivindicar algo parecido.
PRINCIPAIS FAIXAS “Dazed and Confused”, “Heartbreaker”, “Kashmir”
2 – Eric Clapton
Eric Clapton é basicamente o único guitarrista que me influenciou – embora eu não soe como ele. Havia uma simplicidade em seu jeito, seu estilo, sua vibração e seu som. Ele pegou uma Gibson, plugou-a em um amplifi cador Marshall, e pronto. O básico. O blues. Seus solos eram melódicos e memoráveis – e é assim que solos de guitarra devem ser, uma parte da música. Eu poderia murmurá-los para você.
O que eu realmente gostava eram as gravações ao vivo do Cream, porque dava para ouvir os três músicos tocando. Se você escutar “I’m So Glad”, do disco Goodbye, realmente ouve os três – e Jack Bruce e Ginger Baker eram dois músicos de jazz, impulsionando Clapton. Li uma vez que Clapton disse: “Eu não sabia o que diabos estava fazendo”. Ele estava só tentando acompanhar os outros dois!
Depois do Cream, ele mudou. Quando começou a fazer “I Shot the Sheriff” e outras coisas, e quando se juntou a Delaney & Bonnie, todo o seu estilo mudou. Pelo menos o seu som. Seu foco estava mais em cantar do que tocar. Eu o respeito por tudo o que fez e ainda faz – mas o que me inspirou, o que me fez pegar uma guitarra, foram seus primeiros trabalhos. Eu poderia tocar alguns daqueles solos agora – estão permanentemente gravados no meu cérebro. Aquele som baseado no blues ainda é o cerne da guitarra do rock moderno.
PRINCIPAIS FAIXAS “Bell Bottom Blues”, “Crossroads”, “White Room”
1 – Jimi Hendrix
Jimi Hendrix explodiu nossa ideia do que o rock poderia ser: ele manipulou a guitarra, a alavanca, o estúdio e o palco. Em músicas como “Machine Gun” ou “Voodoo Child”, seus instrumentos são como uma vareta sensorial dos turbulentos anos 60 – dá para ouvir os tumultos nas ruas e as bombas de napalm explodindo em sua versão para “Star-Spangled Banner”.
Seu estilo de tocar era sem esforço. Não há um minuto de sua carreira gravada que deixe transparecer que ele está dando duro naquilo – parece que tudo flui através dele. A música mais bonita do cânone de Jimi Hendrix é “Little Wing”. É simplesmente essa coisa linda que, como guitarrista, você pode estudar a vida inteira e não tocar, nunca penetrar nela da forma como ele faz. Hendrix tece uniformemente acordes com trechos de uma só nota e usa sequências de acordes que não aparecem em nenhum livro de música. Seus riffs eram um demolidor funk pré-metal e seus solos eram uma viagem elétrica de LSD até as encruzilhadas, onde ele humilhava o diabo.
Há discussões sobre quem foi o primeiro guitarrista a usar feedback. Não tem importância, porque Hendrix o usou melhor do que ninguém: pegou o que se tornaria o funk dos anos 70 e o fez atravessar uma pilha de amplificadores Marshall, de uma forma que ninguém fez desde então.
É impossível pensar no que Jimi estaria fazendo agora; ele parecia ter uma personalidade bem volátil. Seria um político idoso do rock? Seria Sir Jimi Hendrix? Ou estaria fazendo uma temporada em Las Vegas? A boa notícia é que seu legado está garantido como o maior guitarrista de todos os tempos.
PRINCIPAIS FAIXAS “Purple Haze”, “Foxy Lady”, “The Star-Spangled Banner”, “Hey Joe”