Parecia auspicioso que um filme solo de Wolverine fosse lançado em 2009, ano em que a criação do escritor Len Wein e o desenhista John Romita Sr. completa 35 anos. Além de um passo natural para carreira cinematográfica dos mutantes — que começou a dar sinal de desgaste, enquanto grupo, após o fraco “X-Men 3 – O confronto final” (“X-Men 3 – The last stand”, 2006) —, investir na carreira do canadense parecia ser uma aposta confiável para renovar os ares, preservando aquele que sempre foi o grande chamariz da cinessérie e abrindo possibilidades para explorar novas paragens e figuras do universo delineado ao longo de tantos anos por nomes como Stan Lee, Chris Claremont e, mais recentemente, Mark Millar, entre tantos outros. Além disso, seria refazer na tela grande o caminho trilhado pelo personagem nas páginas dos quadrinhos, onde foi o primeiro x-man gozar de um título próprio.
Protagonista de “Arma X” (“Weapon X”, 1991), história escrita e ilustrada por Barry Windsor-Smith, considerada por alguns uma das maiores histórias dos mutantes e mesmo da Marvel, Logan era, definitivamente, a escolha correta para o primeiro vôo longe do ninho. A certeza se reforçava, ainda, pela confirmação do retorno de Hugh Jackman, ator australiano que já havia vivido o personagem nos três filmes anteriores sobre os pupilos de Charles Xavier e emprestado ao baixinho uma interpretação tão carismática que fazia possível ao espectador se esquecer de seus mais de 1,80m de altura. Com tal premissa animadora, o filme foi anunciado.
O início da pré-produção trouxe um dos momentos mais delicados e aguardados pelos fãs em qualquer adaptação de quadrinhos: o anúncio dos personagens coadjuvantes e seus intérpretes. As presenças de Lynn Collins como Raposa Prateada, Daniel Henney como Agente Zero, que nos quadrinhos já se chamou Maverick, o rapper Will.I.Am, do grupo Black Eyed Peas, como John Wraith e de Liev Schreiber como Victor Creed, mais conhecido como Dentes-de-Sabre — vilão pouco expressivo no primeiro longa-metragem da equipe, onde foi vivido pelo ex-lutador Tyler Mane, mas de fundamental importância para a história de Wolverine —, apontavam diretamente para os anos em que o velho canadense passou a serviço do governo norte-americano, no programa Arma X, projeto militar do universo mutante que batizou a graphic novel homônima.
Foram comemoradas, também, as confirmações de Ryan Reynolds como Wade Wilson, o Deadpool, criação mais recente, mas que coexiste neste mesmo contexto, e de Taylor Kitsch como Gambit, codinome de Remy LeBeau, figura querida por muitos leitores e prometida desde a estréia do grupo no cinema. Completando o elenco, Kevin Durand e Dominic Monaghan, ambos ainda gozando do sucesso conseguido na telessérie “Lost” (Idem, 2004-2010), foram escolhidos respectivamente para os papéis de Freddy Dukes, apelidado Blob, e Bolt. Já a Danny Huston foi dada a versão jovem do coronel Willian Stryker, personagem que foi de Brian Cox em “X-Men 2” (“X-Men 2 – X-Men United”, 2003). A essa altura, as expectativas haviam atingido níveis perigosos, afinal, é abalizado por ela que se mede qualidade.
Antes das primeiras imagens de relevância virem a público, entretanto, notícias desanimadoras davam conta de conflitos entre o co-presidente do conselho de acionistas e CEO da Fox Filmed Entertainment, Tom Rothman, e o diretor Gavin Hood, de “Infância roubada” (“Totsi”, de 2005), presumidamente contratado por sua veia dramática e autoral, que, imaginava-se, imprimiria ao filme o nível de humanização necessário a um bom retrato do conflito entre besta e homem, assim como o trauma da transformação deste em uma máquina assassina, sempre presentes na vida de Logan. Mais tarde, a convocação do elenco para refilmagens trazia subentendida a insatisfação da Fox com o material apresentado e a opção por Hood, revelou-se, não uma preocupação com o tratamento que seria dado à história, mas sim com pressões que o estúdio poderia exercer sobre um cineasta de menor renome.
Esses fatos, juntamente dos primeiros vídeos e fotos da produção, lançaram uma nuvem negra sobre o projeto. Pairava a pergunta: incorreriam, eles, nos mesmos erros de “X-Men 3 – O confronto final”, o excesso de personagens e o esvaziamento dos subtextos cuidadosamente trabalhados desde o primeiro filme? A resposta pôde ser conferida por uma ampla gama de internautas com quase um mês antecedência em relação ao lançamento mundial, já que uma cópia não finalizada da obra, com áudio e efeitos especiais inacabados, vazou na rede mundial de computadores. Com a chegada do filme às salas de cinema de todo o mundo, ela se tornou acessível a qualquer um que, com um mínimo de senso crítico, não poderá concluir outra coisa senão: em parte, boa parte.
O longa-metragem, de 107 minutos, tem o início marcado pela impressão dúbia que o acompanha até o meio da película. Apesar da péssima escolha por uma versão simplificada do duvidoso gênesis do personagem exibida na graphic novel “Origem” (“Origin”, 2002), de Paul Jenkins e Andy Kubert, a seqüência inicial do filme é montada com esmero. Nela, ficamos sabendo que Logan é, na verdade, James Howlett (Peter O’Brien, quando criança), aparentemente o filho de um rico fazendeiro canadense da metade do século XVIII. Após descobrir que o homem que chamou de pai durante anos, e que então jazia morto aos seus pés, não era quem pensava, o garoto tem seu primeiro acesso de fúria. Com ele, descobre as garras e sua herança mutante. Após assassinar seu verdadeiro genitor, o caseiro bêbado que deu início à tragédia, James foge com seu revelado meio-irmão, Victor Creed (Michael-James Olsen, na infância).
Iniciam-se, assim, os créditos, que à moda “Watchmen – O filme” (“Watchmen”, 2009) contam parte da história, mostrando a vida de ambos através dos anos: na Guerra de Secessão, Primeira e Segunda Guerras Mundiais e Guerra do Vietnã. Victor é violento e brutal, sendo controlado apenas por James. Porém, um dos excessos cometidos pelo primeiro, leva a dupla à corte marcial e ao paredão de fuzilamento pelo assassinato de soldados americanos. Tentativa vã, visto que a poderosa capacidade de cura dos meio-irmãos os mantém vivos não apenas pelos séculos como a salvo dos mais graves ferimentos. Até este momento, as cenas empolgam, mas resta o questionamento a respeito da opção por “Origem” e não “Arma X” como base para o filme, o que vai de encontro a todos os indícios anteriores, inclusive aqueles plantados nos dois primeiros longas-metragens da franquia. Além disso, causa espécie a solução fácil pela qual optou o roteirista David Benioff, ao assumir a hipótese apenas insinuada nos quadrinhos do parentesco entre Wolverine e Creed.
O filme começa de fato na década de 70, com James e Victor na prisão, após a frustrada execução. Abordados pelo coronel Willian Stryker, lhes é oferecida a chance de obter anistia em troca de serviços ao país. Proposta aceita, passam a integrar um grupo de mutantes que atua secretamente para o governo norte-americano ao redor do globo. Junto deles, agem Wraith, capaz de se teleportar; Zero, que possui grande habilidade com armas de fogo; Wilson, mercenário cuja língua é tão afiada quanto suas katanas; Dukes, de imensa força física; e Bolt, dono da habilidade de intervir em campos elétricos e controlar máquinas. Como sempre, James continua a ser o bastião de consciência de Victor.
A desconfortável aliança dura apenas até o covarde ataque a um prédio na Nigéria. A ação, motivada pela busca à jazida de um misterioso metal do interesse de Stryker, deixa inúmeros mortos e separa o grupo. James adota o nome Logan e parte para as profundas florestas canadenses, onde começa a trabalhar como lenhador. Poucos anos depois, ele é um homem amargurado pelas lembranças de sua vida pregressa, que encontra no amor de Raposa Prateada o estímulo para seguir em frente. Mas, essa vida aparentemente normal dura apenas até o mutante ser reencontrado por Stryker.
Portador de más notícias, o coronel revela a Logan que Victor está matando os membros do antigo grupo. Wade havia sido o primeiro e Bolt, o mais recente. Todos os outros corriam perigo. Ignorando o alerta, o canadense despacha Stryker e volta à sua rotina. Entretanto, não tarda para que Creed venha ao encalço de seu meio-irmão. O vilão, então, se aproveita de um descuido de Logan e assassina sua Raposa Prateada, despertando no velho soldado um insubmisso desejo de vingança. O fiapo de história busca justificar a transformação de James Howlett em Wolverine, apelando para os mais diversos clichês da ação, repetidos à exaustão desde a década de 70, e varrendo para baixo do tapete a possibilidade de fazer jus à obra de Windsor-Smith.
Assim, tudo no filme, como em um exemplar corriqueiro da carreira de Charles Bronson, se resume à procura por desforra. Logan parte atrás de Stryker, que lhe havia oferecido a até agora rejeita força necessária para vencer Victor, sempre tido como fisicamente superior. Para tanto, o mutante se sujeita a uma operação para vinculação do indestrutível metal adamantium — cuja mina foi localizada após a missão na Nigéria — ao seu esqueleto, processo ao qual sobrevive apenas devido aos seus fantásticos poderes de cura. A partir daí, assume a alcunha Wolverine, em memória a uma antiga lenda indígena contada por Raposa Prateada. Com isso, saí a figura alquebrada abduzida por um programa governamental que desconhecia de “Arma X” e entra o voluntário sedento de sangue tão comum aos filmes do gênero. O que o anti-herói não imagina, todavia, é que tudo faz parte de uma trama muito maior. Claro, maior dentro da lógica torta da história, que segue pelo caminho da obviedade e da simplificação, gerando um resultado muito aquém do que poderia ser esperado diante do material disponível para construí-la.
Elementos basais do personagem são esquecidos e, quando muito, reciclados de maneira pouco criativa. Sua agressividade é uma sugestão pouco crível diante do controle que o personagem mostra sobre Victor Creed. O animal selvagem, brutal, destemperado e assassino visto nos quadrinhos é dispensado em prol de uma pálida raiva que se manifesta de forma contida em um indivíduo que ainda preza pela moralidade e os bons costumes. Sangue, não há. Mortes, apenas quatro, todas muito higiênicas. Um verdadeiro contra-senso quando se trata de um personagem que possui garras afiadas e não tem medo de usá-las. Suas marcas registradas, assim, voltam ao papel de cortar paredes e objetos, que desempenharam durante anos nos desenhos animados, direcionados aos espectadores de pouca idade. Nada dos gritos dos soldados do segundo filme. Menos ainda, da fúria exibida na maior parte das histórias dos anos 80.
A amnésia que nublou o passado de Wolverine durante décadas nos quadrinhos é providenciada pelo roteiro de forma trabalhosa e que sequer alcança o resultado pretendido, uma vez que, ao tentar reinventar o contexto no qual acontece com a finalidade de traçar uma referência à mítica figura do lobisomem, o roteirista pouco consegue além de desperdiçar as ferramentas que já tinha em mãos e que, certamente, gerariam um resultado mais fiel e fluido. Assim, a causa de sua falta de memórias reside não na lavagem cerebral sofrida após a vinculação do adamantium e sim no fato de o herói ter sido alvejado no crânio por balas do mesmo material. A escolha soa não apenas ilógica, mas improvável, afinal, como um disparo feito de forma displicente causaria, antes da morte, a perda de lembranças? Aparentemente usada apenas para justificar a existência da amnésia nos primeiros exemplares da franquia, a saída deixa unicamente como saldo dois orifícios no crânio do personagem que, por uma questão de bom senso, se é permissível o uso da palavra quando se fala de um personagem de quadrinhos, não deveriam sequer cicatrizar, visto que estão cobertos pelo resistente metal.
Por último, incomoda ver a deturpação e sub-aproveitamento de grande parte dos personagens, algo que marcou negativamente “X-Men 3 – O confronto final”, onde desfilaram um grande número de mutantes, que pareciam apenas fazer com que os fãs não desviassem sua atenção da trama pobre. No caso de “X-Men origens – Wolverine” (“X-Men origins – Wolverine”, 2009), os erros são muitos. Dukes é um bom exemplo. Seu histórico é alterado, sendo o personagem colocado no mesmo grupo secreto de Wolverine. Seu poder, que nos quadrinhos é a capacidade de aumentar a própria massa e, com isso, obter força e resistência descomunais, apesar de, também, um corpo deformado pelo peso adicional, de onde surgiu o codinome Blob, passa por modificações, tornando-se mera e convencional superforça. O fato de ser obeso ganha, portanto, explicação esdrúxula: abalado após as missões para Stryker, comeu compulsivamente. Até sua presença é desperdiçada, visto que rende pouco mais que dois ou três socos despropositados. Não pode, pois, sequer ser tido como antagonista.
Tal qual Blob é Wilson. Apesar da fidelidade inicial, em que é, corretamente, retratado como um assassino mortal e falastrão, desaparece com o passar do filme. Na verdade, o próprio personagem se desvanece e ressurge, ao fim, como outra coisa que não aquele que o inspirou. Mudanças que, dizem, foram os motivos das refilmagens, cujo objetivo era dar mais importância a Deadpool, forte candidato a estrelar um filme derivado. Assim, o amalgamaram a Arma XI, grande antagonista originalmente previsto no script. Raposa Prateada, Emma Frost, Zero, Bolt e outros sofrem de deslocamentos semelhantes.
Se junta a isso momentos de apelo humorístico desnecessários, como quando Logan corre, nu, para um celeiro de fazenda; elementos pouco criativos, a exemplo do casal de idosos fazendeiros (que mais lembra os Kent, das histórias do Super-Homem) que o acolhe com roupas na cor do uniforme do personagem nos quadrinhos e uma moto imponente e nova, apesar do antigo dono, filho deles, ter, aparentemente, morrido faz tempo; cenas do mais absoluto clichê, como o protagonista caminhando, em câmera lenta, em direção ao primeiro plano enquanto ocorre uma grande explosão ao fundo; e efeitos visuais fracos, tais quais as garras de adamantium, recém cobertas, que o anti-herói olha, admirado, em frente ao espelho, obviamente criadas por computador.
Ao menos, nem tudo é ruim. Liev Schreiber presenteia o espectador com um Dentes-de-Sabre que é dos melhores vilões de toda a cine-série, estando, em seus melhores momentos, ombro a ombro com o Magneto de Ian McKellen. Taylor Kitsch também apresenta um Gambit bastante satisfatório, apesar do sub-aproveitamento do personagem na trama e a ausência de seu característico sotaque francês. E Ryan Reynolds, apesar de emprestar ao seu Wade Wilson um pouco de Hannibal King, seu personagem em “Blade trinity” (Idem, 2004), também faz bonito em sua primeira aparição.
Por fim, a melhor definição de “X-Men origens – Wolverine” foi dada por Aristides Soffiati, crítico de cinema do jornal Folha da Manhã, de Campos dos Goytacazes, a qual repito a seguir: “este é um filme não de autor, mas de produtor”. Ficam óbvios o caráter de entretenimento juvenil e a ausência de compromisso com o material original. Encaixa-se, dessa forma, na classe das adaptações de quadrinhos menos que medianas, compartilhada por “Elektra” (Idem, 2005), “Quarteto Fantástico” (“Fantastic Four”, 2005) e sua sequência, bem como “O Motoqueiro Fantasma” (“Ghost Rider”, 2007), ficando aquém do padrão estabelecido por Bryan Singer em “X-Men – O filme” e “X-Men 2”. Padrão este, por lá mesmo abandonado.
Resta aos fãs lamentar a não aceitação da Warner Bros. a uma proposta feita por Zach Snyder, a quem o estúdio chegou a oferecer o filme, que desejava uma história de classificação R (inadequada para menores de 17 anos, segundo a Motion Picture Association of America, ou MPAA, órgão que regulamenta a censura nos EUA), certamente muito mais fiel à essência de Wolverine.















