“Homem de Ferro” (“Iron Man”, 2008) está, sem sombra de dúvidas, entre as mais bem sucedidas adaptações de quadrinhos da história recente do cinema, não apenas entre o público, como entre a crítica, comumente refratária ao gênero. Dirigido por Jon Favreau e com Robert Downey Jr. encabeçando um elenco afiado, o longa-metragem conta com belos efeitos especiais, criados pelas empresas Industrial Light & Magic, The Orphanage e The Embassy, que se misturam ao celebrado trabalho de maquiagem e modelagem do Stan Winston Studio para trazer o herói tecnológico às telas de forma convincente, uma tarefa que, certamente, tirou o sono nos produtores de Hollywood desde que o filme começou a ser pensado, ainda em 1990. Após a passagem de nomes como Nicolas Cage, Tom Cruise, Quentin Tarantino e Nick Cassavetes pelo projeto, Favreau — que até então havia dirigido somente filmes de pouca expressão, como “Zathura – Uma aventura espacial” (“Zathura – A space adventure”, 2005) — mostrou que reverência pela fonte e saídas criativas são a chave para agradam dos fãs mais fervorosos ao público ocasional.
Na trama, Downey Jr. vive o genial bilionário Anthony Stark, comumente chamado Tony. Um dos principais fornecedores de tecnologia das Forças Armadas americanas, o industrial acaba seqüestrado por um grupo terrorista, chamado Os Dez Anéis, após uma exibição de sua mais nova criação, o míssil Jericó, para militares conterrâneos no Afeganistão. Mortalmente ferido por uma explosão, o inventor é salvo pelo médico e engenheiro Yinsen (Shaun Toub), outro prisioneiro do bando. Em troca de sua liberdade, os captores exigem que Tony construa um exemplar do Jericó. Porém, a visão de uma série das suas criações em mãos inimigas, prontas para serem usadas não para proteger seus compatriotas, mas para tirar vidas inocentes, transforma o frívolo, irônico e egoísta Stark. Valendo-se dos parcos recursos — quando comparados aos de sua oficina high tech — que tem à disposição, desenvolve um protótipo de armadura de combate e empreende uma fuga desesperada.
À salvo e novamente em casa, Tony decide desativar a divisão de armamentos das Indústrias Stark e começa a trabalhar, secretamente, em uma versão mais moderna do poderoso exoesqueleto. A polêmica decisão, contudo, levará o playboy-herói a trilhar uma longa estrada rumo à redenção, repleta de ação, intrigas e conflitos industriais e políticos, além de lançá-lo contra uma série de inimigos inesperados, inimigos esses que apenas o Homem de Ferro é capaz de derrotar.
Primeiro longa-metragem inteiramente financiado pela nova divisão cinematográfica da Marvel Entertainment, a Marvel Studios, “Homem de Ferro” refaz o caminho de sucesso desbravado por outro membro do panteão da Casa das Idéias, o Homem-Aranha, e estabelece um inédito padrão de qualidade e fidelidade que possivelmente norteará todas as vindouras produções da equipe. Respeitoso com a origem e mitologia do personagem, o filme condensa o que há de mais significativo nesses 65 anos de histórias em um enredo sólido, repleto de referências e homenagens. Do inseparável amigo Jim Rhodes (Terrence Howard) ao ambíguo Obadiah Stane (Jeff Bridges), passando pelo guarda-costas Happy Hogan (vivido pelo próprio Favreau), a secretária Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e um renovado Jarvis (com voz de Paul Bettany), desfilam pela tela velhos conhecidos dos fãs do Vingador Dourado, em interpretações inspiradas e caracterizações idem. Vale ressaltar, também, a presença de uma participação mais que especial, inserida após os créditos.
“Homem de Ferro”, porém, não se restringe à celulose e extrapola a criação de Stan Lee e Don Heck, trazendo novo fôlego e abordagem ao personagem, cujo nascimento se deu no já desgastado âmbito da Guerra Fria. Além de inserirem uma óbvia crítica à política internacional dos EUA, ao denunciar seu auxílio, às vezes mesmo que indireto, àqueles que um dia terão de enfrentar, as mudanças atualizam a origem do personagem, trazendo-o para um contexto geopolítico, e temporal, mais familiar à maioria dos espectadores. Por fim, diretor, roteiristas e ator conseguiram imprimir-lhe, também, novas características, transformando Stark em um cínico ainda maior, um dandy, o centro ao redor do qual giram seus círculos sociais, a ele sempre disponíveis. Algo que, se aplicado com a mesma eficiência aos quadrinhos, seria muito bem-vindo.















