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“Homem de Ferro 2″

Estrelado por um Robert Downey Jr. havia pouco resgatado do ostracismo, “Homem de Ferro” (“Iron Man”, 2008) representou uma mudança radical na forma como as adaptações de histórias em quadrinhos são levadas às telas. A criação do Marvel Studios pela Marvel Enterteinment permitiu, pela primeira vez, que uma editora detivesse controle absoluto sobre a versão cinematográfica de um de seus personagens. Isso significou não apenas contratar diretor, roteirista e elenco, mas emprestar uma fidelidade jamais entendida, ou mesmo pretendida, por executivos dos grandes estúdios, afeitos a somas e não legados. Porém, mesmo essa fidelidade — que, se não engessa, deixa brechas suficientes para novas soluções e abordagens, sem jamais descaracterizar o material original — não foi o maior mérito da iniciativa. Sua grande conquista foi permitir, também de forma inédita, a criação de um universo coeso, que compreende diversos personagens e contos, da mesma forma que nos quadrinhos, algo que se insinuou em uma cena pós-créditos e se cristalizou com a segunda empreitada da recém formada equipe, “O incrível Hulk” (“The incredible Hulk”, 2008).

Começando exatamente onde “Homem de Ferro” parou, a sequência mostra Tony Stark (Downey Jr.) lidando com as consequências de haver revelado ao mundo, durante uma coletiva de imprensa, ser, na verdade, o homem por trás da armadura do Vingador Dourado. E a principal delas — além do assédio, que lhe afaga o ego enorme — é a tentativa por parte do governo dos Estados Unidos de se apropriar de sua tecnologia, que considera uma arma, e, portanto, de uso exclusivo do exército. Comandada pelo senador Stern (Garry Shandling), a abordagem, embora fracassada, planta as raízes do conflito que se desenvolverá entre o playboy inventor e seu melhor amigo, o tenente coronel da força aérea James Rhodes (antes Terence Howard, agora, Don Cheadle, que entra em cena de costas, de forma a facilitar a transição).

Rhodes, como militar, deve obediência ao governo, mas, luta para não prejudicar Tony, embora reprove sua frivolidade e irresponsabilidade. Contudo, o comportamento do bilionário se agrava quando, fragilizado pela descoberta de que o paládio utilizado para alimentar o Reator Ark que carrega no peito a fim de permanecer vivo o está, ironicamente, envenenando, é obrigado a enfrentar dois novos inimigos: o vingativo russo Ivan Vanko (Mickey Rourke), cujo passado se relaciona estreitamente com o da família Stark, e o invejoso e aproveitador Justin Hammer (Sam Rockwell), que assumiu a posição de fornecedor de tecnologia bélica do exército quando a Stark Industries retirou-se do mercado.

A morte iminente afrouxa ainda mais os já poucos limites de Stark, afastando sua assistente pessoal e atual CEO de sua empresa, Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), e seu guarda-costas, Happy Hogan (o diretor Jon Favreau), e levando Rhodes a tomar uma difícil decisão. Restará, então, ao Homem de Ferro, buscar no passado, assombrado pela severidade e aparente distância do pai, Howard (John Slattery substituindo Gerard Sanders), forças para sobrepujar esse novo desafio e retomar as rédeas de sua própria vida. Não sem auxílio, é claro, pois a S.H.I.E.L.D., representada por seu diretor, o general Nick Fury (Samuel L. Jackson), e a agente Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), continuam interessados no brilhante inventor.

Dirigido novamente por Favreau, “Homem de Ferro 2” se vale, assim como o anterior, de uma trama eficiente, embora simples, diálogos bem escritos e atores escolhidos a dedo para entregar uma história que harmoniza ação, comédia e até uma pitada de drama sem se perder pelo caminho. No entanto, embora a trama evoque elementos da clássica saga “O demônio na garrafa” (“Demon in a bottle”, 1979), de David Micheline e Bob Layton, em que Stark, completamente alquebrado, sucumbe ao alcoolismo após um colapso emocional, torna-se evidente a tentativa do roteirista, o também ator Justin Theroux, amenizar a queda do bon vivant, ao trocar a o whisky pelo paládio, embora a bebida não esteja ausente e motive uma das cenas mais cômicas do longa-metragem. Do mesmo modo, aparecem aqui e acolá elementos do igualmente memorável arco “A guerra das armaduras” (“Amor wars”, 1988), também de Micheline, dessa vez com Mark D. Bright, durante o qual Stark decide destruir todo produto do roubo de sua tecnologia.

E se a história desgasta um pouco o arquétipo “vilão de armadura”, repetindo-o e tornando um novo uso em um possível terceiro filme algo arriscado, é bastante feliz ao tornar Justin Hammer um personagem diametralmente oposto a Obadiah Stane (Jeff Bridges), vilão do primeiro filme. Dois concorrentes de Stark que transformaram a vida do herói em um verdadeiro inferno em diferentes ocasiões, os personagens guardam, nos quadrinhos, semelhanças que tornariam seu uso tão aproximado perigoso, não fosse a criatividade de Theroux, que, contudo, poderia ter dado mais atenção à batalha decisiva entre o Tony, Rhodes, trajando a armadura Máquina de Combate, e Ivan Vanko, ainda mais veloz que o clímax de “Homem de Ferro.

As interpretações mantêm o nível. Robert Downey Jr., ainda irônico e cínico, nasceu para viver Tony Stark. Don Cheadle empresta mais carisma ao seu Rhodes, enquanto Gwyneth Paltrow, o diretor e Samuel L. Jackson ganham mais espaço para seus personagens, embora careça, ainda, ao último, uma interpretação que torne seu Fury realmente diferente dos demais personagens que já interpretou. Scarlett Johansson faz uma agente fria, que, ao contrário do alguns apontam, possuiu, sim, papel definido e importante no contexto, não sendo mero atrativo visual. Mickey Rourke se esforça no sotaque e lida bem com o papel de físico e gênio científico brutalizado por uma vida de crimes, chegando mesmo a exibir as estrelas que identificam seu personagem como um “vor v zakone”, um “ladrão chefe” da Bratva, a máfia russa. Já Sam Rockwell é eficiente em compor uma versão covarde, invejosa pouco competente ou carismática do próprio protagonista, emprestando-lhe uma aura de infantilidade quase repulsiva. Mesmo Garry Shandling brilha em suas breves passagens pela tela.

Por fim, vale ressaltar a exploração cada vez maior da superciência característica aos quadrinhos do Homem de Ferro, que dá um passo além da criação de armaduras nesta sequência. É importante observar, também, que o filme continua prestando homenagens a elementos importantes dos quadrinhos, que, ainda que não sejam aplicados tal qual a celulose, ganham divertidas citações. E, se no primeiro longa metragem foi lembrado o papel do Vingador Dourado como guarda-costas de Tony Stark, aqui, a armadura vermelha e prateada, batizada Centurião de Prata, aparece de maneira inusitada e criativa. Isso sem esquecer das dezenas de easter eggs espalhados ao longo do filme. Uma referência aparentemente velada, e outra franca, ao Thor, um novo vislumbre do escudo do Capitão América ainda em produção, ligações com “O incrível Hulk” e outras surpresas aguardam os fãs mais atentos.

Se não é tão bom quanto o primeiro filme da franquia, “Homem de Ferro 2″ é melhor que a incursão do Golias Esmeralda e dá uma continuação digna à história do Gladiador Dourado.

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