Não conheço os contos de Robert E. Howard, os quadrinhos da Marvel Entertainment ou os filmes com Arnold Schwarzenegger — James Earl Jones com aquela peruca lisa me assusta. Analiso “Conan – O bárbaro” (“Conan - The barbarian”), dessa forma, como uma obra cinematográfica, independente de sua condição de adaptação. E, devo dizer, como filme, não deve agradar nem o público ocasional do cinema. Mal escrito, mal dirigido, mal atuado, mal editado e com música mal composta, lembra um episódio ruim de “Xena – A princesa guerreira” (“Xena – Warrior princess”, 1995–2001), contado em um 3D escuro e absolutamente dispensável.
Escrito a seis mãos, sempre um péssimo sinal, por Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Sean Hood, o longa-metragem, conduzido por Marcus Nispel, dos remakes “O massacre da serra elétrica” (“The texas chainsaw massacre”, 2003) e “Sexta-Feira 13″ (“Friday the 13th”, 2009), traz sangue e nudez à história já conhecida. Conan (Leo Howard novo e Jason Momoa adulto) perde o pai, Corin (Ron Perlman), pelas mãos de Khalar Zym (Stephen Lang), um conquistador tirano, e cresce em busca de vingança. Nada mais precisa ser dito, porque qualquer outro elemento parece não importar aos realizadores. Tudo que se acrescenta a essa linha de enredo é acessório, seja a máscara mística que o vilão busca, seja a donzela não tão em perigo cujo sangue promete ativar o artefato.
Seguem-se 112 minutos de uma história padrão de retribuição, cujo roteiro escapa pelos atalhos mais batidos e pouco inventivos do cinema recente. As cenas em que Conan se oferece para ser preso e da invasão do castelo são provas inequívocas de que o roteiro é um amarrado preguiçoso que tenta — sem sucesso — justificar as cenas de ação. Na primeira, não há qualquer investimento na busca por Zym, apenas um quebra-quebra e a prisão. Na segunda, após passar pelo único desafio que havia no tão alardeado castelo perigoso de se infiltrar, o bárbaro chega ao topo da construção apenas para ver os vilões já longe no horizonte. Ou seja, o assalto à fortificação está ali apenas para justificar mais uma batalha cheia de computação gráfica mediana.
Ademais, pesam erros repetidos de edição e continuidade. Conan aparece de repente sobre um cavalo; levanta o braço sem espada, mas a arma aparece subitamente em sua mão; o bárbaro fala que mulheres cimerianas usam couro e armadura e manda um amigo dá-los à Tamara (Rachel Nichols), mas na cena seguinte, ela está com a mesma roupa. Em outra, um barco é invadido à noite, com todos dormindo, porém quando a ação começa, está de dia. Tamara vai atrás de Conan, quando ele sai do barco atracado na praia. Eles dão um beijo e logo surgem transando em uma caverna tão longe da costa, que está dentro de uma floresta. Depois, Conan encontra uma das garras da vilã Marique (Rose McGowan), que aparece na cena seguinte com todas as cinco peças. Por fim, o anti-herói segura sua espada perto do guarda mão e, quando a levanta, já a firma pela ponta. Aparentemente, não havia continuista.
O terceiro ato é um arremedo grotesco, com o ápice dos diálogos ruins, como a pérola “Bárbaro, eu não gosto mais de você”, uma máscara mística que, embora prometa transformar seu usuário em um deus, sequer consegue conjurar o espírito de uma bruxa morta, e nada faz para aumentar a força de Zym, vítima de uma morte clichê ao cair de uma ponte, levando consigo sua bizarra espada de duas lâminas paralelas, invenção cuja intenção, aparentemente, era torná-lo cool, mas só consegue ser inverossímil.
Para fechar a lista de erros, estão lá a mais que batida montanha em forma de caveira, que desaba sem justificativas com a morte dos vilões, e a suprema imbecilização do público alvo, que é obrigado a ouvir um “Obrigado por me trazer para casa”, de Tamara a Conan, mesmo depois de se cumprir todos os passos de uma profecia que finalizava justamente prevendo que a mocinha terminaria em casa. Só faltou uma placa no caminho, onde estivesse escrito “Casa de Tamara”.
Para não dizer que tudo é ruim, Momoa tem a aparência certa para o papel, mais coerente com o passado de ladrão e pirata que o inchado Schwarzenegger, e se sai melhor do que a baixíssima expectativa que pesava sobre ele poderia fazer supor, embora não seja fantástico. O visual do filme é bom, e os figurinos, interessantes. A cena envolvendo uma chave e a luta contra as criaturas de areia têm seu mérito. Mas, no fim, nada disso salva o longa do desastre. Merece mais o título de “Lixo extraordinário” que o documentário de Vik Muniz.

