A Copa e a vida (Os olhos de Charlote)

Copa 98, derrota brasileira na França (foto: folha.uol.com.br)

Uma intensa rajada de sol prateava a Baia da Guanabara e se tornaria responsável pela parada de Carlos Eduardo num dos quiosques do Posto 6. Entre um chopp e outro, contemplava a massa natural moldada por Deus naquele pedaço da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Jovem bancário, ainda na casa dos 20 e poucos anos, sonhava na infância ser nadador, desses de dedicação integral, de medalha olímpica no peito. Aprendeu a arte de nadar ainda muito cedo, graças ao pai de sua mãe, o Vô Moises, um tricolor de coração, como diz o hino, ex-nadador do clube das Laranjeiras. A água, portanto, exercia grande fascínio sobre o rapaz.

Era inverno de 1998 e as ruas, postes, sacadas e varandas denunciavam uma Copa do Mundo em andamento. Entretanto, na cabeça de Carlos Eduardo, a lembrança da eliminação para os franceses em 1986 era mais presente do que a taça levantada por Romário & Cia, quatro anos antes nos Estados Unidos. Os pênaltis desperdiçados pela Seleção Brasileira e o baile de Dom Diego Armando Maradona em gramados mexicanos lhe espetavam a alma. No balcão da padaria, pedia “pão de sal” pra não falar “francês”. Se alguém lhe presenteasse com uma viagem a Paris, ele perguntava se não poderia trocar por Groelândia. Tolerância zero com a França.

De um carro que estaciona distante aproximadamente oito metros, parte um samba cadenciado na voz impar de Paulinho da Viola. Quando Carlos Eduardo faz um pequeno giro com a cabeça, buscando ver quem lhe presenteara com aquela melodia, encontra três ou quatro mesas a frente, um grupo de jovens que se dividiam entre chopp e água de coco.

Seria só mais um grupo de jovens num fim de tarde do Rio de Janeiro, não fosse uma presença encantadora e solene: uma jovem cuja pele alva e o posicionamento central nas atenções denunciavam se tratar de uma turista. E seria só mais uma turista no Rio, não fosse aqueles olhos que penetravam o intimo do rapaz, com a mesma força, intensidade e habilidade usadas por Maradona para penetrar nas defesas adversárias sem pedir licença na Copa do México.

E o rapaz percebeu uma “resposta” por parte da moça, algo que lhe fazia esquecer as montanhas, o mar e o verde e amarelo que lhe remetia para a derrota diante de Platini & Cia. Ela vestia calça jeans e tênis, combinando com uma blusa de lã levemente decotada e que possibilitava ver uma pele branca sem comparação. Mas, eram seus olhos que apreendiam, estrangulavam e tiravam o ar de Carlos Eduardo.

O tempo foi passando, as tulipas de chopp se sucedendo nas duas mesas e o rapaz a meditar um pretexto para entrar naquele grupo. Um detalhe parecia conspirar favoravelmente: os demais integrantes da mesa pareciam brincar com um possível interesse da moça pelo jovem brasileiro.

Quando os ponteiros do relógio já acusavam cinco da tarde, o sol começava a se despedir do dia e o desespero já começava a se tornar presente no coração de Carlos Eduardo, surge um “anjo”, que não ostentava vestes e asas brancas, mas bermuda jeans e uma camisa do Flamengo. Monteiro, Humberto Monteiro de Barros, seu companheiro de banco, integra-se à mesa e arrasta o rapaz para o grupo.

Então, é revelada a identidade da jovem musa: Charlote, uma jovem francesa nascida nos arredores de Paris e que optara por um período de férias no Rio por estar estudando cultura e línguas lusas.

Quando soube da nacionalidade de Charlote, o rapaz sentiu um anjinho lhe falando no ouvido direito e um diabinho infernizando-lhe o ouvido esquerdo. O anjinho dizia que o esporte é fator de integração entre nações e que o amor é mais forte do que qualquer trauma. O diabinho lembrava que, a cada problema conjugal, ela iria jogar-lhe na cara a eliminação de 86, importunando-lhe ao vestir aquela camisa azul com um galo no peito.

— Francesa, logo francesa? — auto-indagava em silêncio o rapaz.

Então, entre um gole de chopp e outro, caiu a ficha, ou melhor, um verdadeiro meteoro na cabeça de Carlos Eduardo. Era sexta-feira e dois dias depois, na tarde de domingo, o Brasil decidiria a Copa 98, no estádio de Paris, exatamente contra a França.

Após algumas trocas de olhares, que deixavam no ar uma espécie de compromisso com a bela Charlote, o rapaz aceitou um convite para acompanhar o jogo no apartamento de Ricardo, um dos integrantes do grupo onde estava ela. Ao volante, enquanto dirigia de volta pra casa, sua cabeça se dividia entre o desejo de uma aproximação maior e o dilema pelo fato de a moça ser francesa.

Chegou o domingo, chegou a hora da grande final, chegaram os traumáticos gols franceses, chegou o apito final que determinou a vitória de Zidane & Cia em mais uma derrota brasileira e mais uma eliminação, desta vez com sabor de vice-campeonato. Completamente abatido, Carlos Eduardo se dirigiu à varanda, buscando um ar novo, diferente daquele que parecia sair da tela da TV, carregado do gás carbônico da derrota.

Sem que percebesse, a jovem Charlote se aproximou, pegou sua mão pela primeira vez desde que se conheceram e falou em bom português. “O esporte é assim. Copa do Mundo vai uma vem outra. A vida continua”.


“Os Olhos de Charlote” é uma peça de ficção assinada por Antunis Clayton, tendo com pano de fundo uma edição de Copa do Mundo. Todos os personagens, nomes dados a eles e circunstâncias são fictícios.

email: antunisclayton@gmail.com


 

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