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Não parece, mas tudo que estamos vivendo hoje se transformará em lembranças. Nostalgia. Memórias perdidas em gavetas. Em compartimentos bagunçados. Registros do ontem que formam o amanhã. Trechos de fases que trouxeram bons e maus momentos. Histórias nossas e nossas histórias dos outros. Em todas as partes, rostos, vozes, expressões. Faces. Abraços, sorrisos. Uma palavra que, talvez, ainda ecoe dentro de nós. Um toque. Os nossos traços perdidos por estradas.

Ali, à frente, o professor esbraveja com os alunos de não mais de 14 anos. Todos risonhos, enfadados com as palavras do homem. Estavam no espaço por obrigação. Consideravam-no tedioso. Mas ouviam. E riam das tentativas de ser engraçado. Ou das implicâncias com as meninas e os meninos. Encontravam diariamente novos aspectos ou expressões para risadas a mais. Em uma manhã de aula, com todos dispersos, ele levantou os braços, estalou os dedos e chamou a atenção da garotada, que não se calava. Enfurecido, reclamou da desobediência e do descaso e bradou:

— Hello, 2007! — os dedos estalavam, e os alunos riam do repentino (quase) acesso de raiva do professor. A expressão virou um bordão entre os estudantes naquele ano.

Naquele momento, a menina, que se sentava constantemente na primeira cadeira, próxima ao quadro, também riu. E aquela seria mais uma manhã de aula, em uma escola do centro da cidade, na qual permaneceu por quatro anos. Era mais um dia. Mais uma data imperceptível. Sem grandes marcas.

Mas a vida assim se faz. Com dias supostamente irrelevantes.

Meses depois, ainda sentada nas cadeiras da frente das salas de aula, experimentou seu primeiro contato com a literatura. Um livro para ser o trabalho do bimestre. A professora de português teve a ideia, que a assustou inicialmente. “Quem vai querer ler o que eu escrevo? E o que vou escrever?” foram perguntas que passaram pela cabeça da adolescente perdida em falas e personagens.  E se envergonhou ao entregar o resultado à professora.

Não imaginava, naquele período em que se dedicou ao trabalho, o que aquela memória significaria no futuro. O quanto um simples dia poderia determinar novos caminhos. Mas, na cabeça dela, eram somente mais uns dias. Mais datas imperceptíveis. Sem grandes marcas.

Sentada sob uma árvore, perto de um ponto de ônibus, ela observa o movimento de carros, motos e bicicletas. De diversas direções, é atingida: pelo asfalto, o calor; pelo céu, os raios de sol; pelas lembranças, as histórias que a levaram diretamente à pedra sob a árvore perto do ponto de ônibus. E a certeza de que este, por mais simples que pareça, será mais um momento na marca da memória.

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Feliz ano velho

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Homenagem simboliza não apenas a morte de Aylan Kurdi, mas casos semelhantes registrados nos últimos anos, como o de Mohammed Shohayet

 

Cinco de janeiro de dois mil e dezessete. Quinto dia de um ano novo para o qual pessoas reuniram esperanças de vivenciar experiências melhores e mais positivas. Vontade de mudar a realidade e encontrar caminhos que as afastassem dos últimos doze meses. Estes entraram para a lista de alguns dos piores da história do Brasil e do mundo. Mas o quinto dia do novo ano amanheceu com ares de um retrocesso que caracterizou 2016.

Os jornais e o Facebook estamparam a foto de um bebê de 16 meses, chamado Mohammed Shohayet, que não conseguiu sobreviver a um naufrágio durante a fuga de Myanmar (ou Birmânia) para Bangladesh. Ele e seus familiares tentavam escapar da perseguição étnica. O corpo da criança, da etnia Rohingya (considerada pelo governo birmanês como grupo de imigrantes ilegais), foi fotografado à margem do rio Naf. Também morreram sua mãe, seu irmão (de três anos) e um tio. Somente o pai sobreviveu.

A foto de Mohammed, tragicamente, traz à lembrança a imagem de Aylan Kurdi, um garoto de três anos encontrado morto em situação semelhante. O corpo da criança foi fotografado em uma praia da Turquia, também após um naufrágio. Na época, o jornal “Independent” fez um alerta, veiculado em periódicos brasileiros: “se estas imagens com poder extraordinário de uma criança síria levada a uma praia não mudarem as atitudes da Europa com relação aos refugiados, o que mudará?”. Passados quase dois anos, a mudança esperada permanece em sonho.

E, no Brasil, com cinco dias de 2017, a população engole mortes individuais e coletivas e cenas diárias de violências enquanto vê o início do desaparecimento da esperança em dias mais calmos e positivos, que foram pedidos na passagem do ano. A melhor definição sobre os sentimentos gerados pelos primeiros cinco dias de 2017 foi feita, por meio de rede social, pela professora e jornalista Jacqueline Deolindo:

“Que época triste vivemos… As notícias, que quase nunca comento, são tristes, e a vida de tanta gente é uma tristeza só. Não dá nem pra dizer ‘oi, tudo ótimo’. Dizer ‘tudo ótimo’ é quase um desrespeito a essas dores. Reconheço, agradecida, tudo de bom, todo conforto, toda alegria e liberdade, todas as conquistas da minha família, mas, vendo pela janela o mar de lama que afoga nossos iguais, aqui perto, lá longe, o que circula no fundo da minha alma é compaixão, tristeza e dúvida. Não tem como não sofrer junto com os outros homens nem deixar de pensar na espantosa natureza humana.”

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Os selos de Ruy Castro

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Heloísa Seixas e Ruy Castro (foto: O Estado de São Paulo)

 

No final no ano de 2014, a jornalista e escritora Heloísa Seixas, após reunir memória e ficção baseadas na vida do marido, Ruy Castro, lançou o livro “O Oitavo Selo”, da editora Cosac Naify. O título faz uma referência a um dos grandes cineastas do século XX, o sueco Ingmar Bergman, que levou às telas angústias e dúvidas existenciais com o filme “O Sétimo Selo” (1957), no qual um cavaleiro visa atrasar os planos da Morte por meio de um jogo de xadrez.

Cada selo da história de Ruy Castro se refere a uma parte do corpo do jornalista: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. Os capítulos narram a proximidade do homem com a morte em sete diferentes ocasiões, tanto como personagem quanto como protagonista. Os relatos mesclam a forte realidade aos delicados toques literários de Heloísa Seixas.

A narrativa é iniciada a partir das memórias de Heloísa Seixas, que retrata um fato da vida do casal em um hospital.  Em sequência, são feitas construções do passado, rememorando a infância de Ruy Castro, fase em que já era possível notar o vínculo do jornalista com algo que permearia toda a sua vida: ficção, seja por meio da literatura ou do cinema.

A importância da escrita para o homem, como é tratado na história, é destacada por Heloísa como uma forma de ele se desvencilhar das dores e do temor da morte. Ela compreende o ato de produção ininterrupta como uma maneira de ele saber que deve permanecer vivo por ter trabalhos a concluir, principalmente no momento em que enfrenta um câncer e, paralelamente, escreve “Carmen: uma biografia”, sobre a artista portuguesa Carmen Miranda, lançada em 2005.

Assim como o cavaleiro do longa-metragem de Bergman, vivido pelo ator Max von Sydow, utiliza o tabuleiro de xadrez para adiar a morte, Castro joga com as palavras, na literatura e no jornalismo, para escapar do pânico gerado por ela. “O cavaleiro, então, tentando ganhar tempo, convida a Morte para um jogo de xadrez, que vai decidir se ele vai ou não com ela. A Morte concorda, sabendo que vai ganhar. Mas o cavaleiro joga porque não tem outro jeito. Ele precisa jogar. O jogo é a única possibilidade, mesmo que passageira, para driblar a Morte.”

As opções pela não-linearidade do quase romance, como classifica a própria autora, e por unir a escrita a depoimentos seus e do protagonista tornam a leitura fluida e passível de criar mentalmente, a partir dela, pequenas cenas, sem que o leitor se sinta confuso pela troca repentina de cenários, personagens e enredos.

Em “O Oitavo Selo”, a descrição é um dos elementos-chaves da obra de quase ficção. No entanto, predomina não a descrição de elementos que compõem o cenário, visando ambientar o leitor, e sim a de sentimentos e sensações, proporcionando ao receptor envolvimento pleno com a narrativa.

Escrever sobre memórias, sendo essas quase ou completamente reais, é uma das características da escritora que, em 2007, publicou “O lugar escuro – Uma história de senilidade e loucura”, pela editora Objetiva. No livro, Heloísa remonta o convívio com a mãe, debilitada pelo Mal de Alzheimer, sempre com zelo descritivo e linguagem envolvente, também marcantes em sua mais recente obra.

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Caso do Bar Bodega: os deslizes do jornalismo

Diariamente, fatos relacionados a crimes são amplamente noticiados em veículos de comunicação, sejam televisivos, radiofônicos, impressos ou online. Grande parte das matérias se refere à editoria de polícia, conforme intitulam os jornalistas. No entanto, apesar da suposta facilidade na apuração desse tipo de notícia, muitos erros (que deveriam ser punidos devido à extensão do prejuízo) dos jornais brasileiros podem ser encontrados nessas histórias, nas quais bandidos e policiais são as principais atrações.

A ausência de apuração mais cuidadosa e aprofundada, vinculada ao pouco tempo dedicado a cada pauta, leva a imprensa a falhas grotescas e, muitas vezes, irreversíveis para as vítimas do “quarto poder”. Livros de jornalistas que se entregaram a um exercício de distanciamento para análise mais imparcial sobre a profissão possibilitam às novas gerações o conhecimento acerca das leviandades cometidas outrora.

Um dos repórteres que trabalhou para reverter crimes de informação cometidos pela imprensa é Carlos Dorneles. Jornalista da TV Globo, Dorneles dedicou-se a buscar os fatos sobre o crime do Bar Bodega, em São Paulo, na década de 90. O autor do livro Bar Bodega – um crime de imprensa, lançado em 2007, revirou os materiais jornalísticos produzidos e publicados na época, teve acesso aos inquéritos e apresentou aos brasileiros a verdadeira história da noite em que foram assassinados dois jovens de classe média no estabelecimento, que pertencia aos atores Luiz Gustavo, Cássio e Tato Gabus Mendes.

Na época, a Polícia Civil do Estado de São Paulo acusou erroneamente um menor de idade, chamado Cléverson, de ser o líder do bando que matou um dentista e uma estudante no bar. Após roubarem, os cinco bandidos (incluindo uma mulher, responsável por dar cobertura dentro de um táxi dirigido por ela) fugiram. Antes da partida, no entanto, um deles se envolveu em uma discussão com o dentista, de 26 anos, e o agrediu e matou. Do lado de fora do Bodega, outro assaltante atirou em direção à janela. A bala atingiu a estudante de odontologia, de 23 anos.

A classe média paulistana e a imprensa, revoltadas com o crime, fizeram pressão na polícia para que o caso fosse imediatamente solucionado. Diante da dificuldade de encontrar os assaltantes, agentes incriminaram o adolescente Cléverson que, à época, tinha 17 anos. Ele havia sido apreendido por assalto, dias depois do caso Bodega, e foi confundido por um policial. O menor, ao afirmar que não conhecia o bar e não sabia das mortes, foi brutalmente agredido e torturado pelos militares e civis, sedentos pela confissão do suposto assassino.

À medida que era violentado, Cléverson citou nomes de colegas e conhecidos do bairro onde morava, em São Paulo. Valmir da Silva, Valmir Martins, Luciano, Natal, Jailson, Benedito, Marcelo Nunes e Marcelo da Silva foram detidos após terem sido apontados pelo adolescente. No entanto, nenhum dos jovens tinha participação no crime do Bar Bodega. Enquanto os meninos tentavam se defender, eram cruelmente torturados pela polícia, que coagia o grupo a dar detalhes do caso.

A cada novidade, a imprensa, acrítica e despreparada para noticiar o caso, comparecia em massa para apresentar, posteriormente, à sociedade o resultado das investigações da polícia. Com manchetes sensacionalistas, matérias televisivas e radiofônicas exageradas, aliadas a perguntas para pressionar os detidos e apoio ao ideologicamente frágil movimento Reage São Paulo, o jornalismo brasileiro cometeu um dos mais grotescos erros registrados na história recente da imprensa: acusou, sem provas concretas, e com base apenas na versão da polícia, nove pessoas inocentes, cujas vidas foram seriamente prejudicadas pela cobertura midiática equivocada.

Após a reviravolta do caso, provocada pelo promotor Eduardo Araújo da Silva, o desfecho do caso do Bar Bodega foi mudado. Os verdadeiros assaltantes foram presos e os registros da imprensa, encerrados. No entanto, as consequências da acusação, causadas principalmente pelo jornalismo, foram imutáveis. Situação semelhante ocorreu no caso Escola Base, também nos anos 90, no qual pais de alunos, o motorista de uma Kombi, donos de um colégio infantil e uma sócia, todos de São Paulo, foram erroneamente acusados de abuso sexual – erro este reforçado pela imprensa do país.

Carlos Dorneles volta a buscar os meninos apontados como assassinos depois de 10 anos do fim das investigações. Os relatos resultaram na segunda parte de Bar Bodega – um crime de imprensa. Falta de oportunidades, discriminação, dificuldade financeira devido ao preconceito e as mudanças causadas na família devido à sucessão de erros da polícia de São Paulo e da imprensa são apresentadas no livro.

Apesar de bons elementos para ampliar as histórias dos nove suspeitos, o jornalista perdeu a chance de uma abordagem mais profunda da situação em que viviam os homens no ano de 2006. Apenas a vida do protagonista Cléverson é detalhada no trecho, tornando secundários os demais dramas vividos pelos outros oito rapazes e deixando soltos importantes detalhes que poderiam compor a maior obra jornalística sobre o crime cometido pela imprensa e pela polícia no caso do Bar Bodega.

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Filme com roteiro inédito de Bergman será lançado em 2018

Ingmar Bergman 1965 Regissör chef för Dramaten Stockholm

Diretor sueco Ingmar Bergman nos anos 60

Após nove anos da morte do diretor Ingmar Bergman (“O sétimo selo”, “Gritos e sussurros”. “Persona”, “Sonata de Outono”), um roteiro inédito do sueco foi encontrado e será filmado pela cineasta Suzanne Osten, artista que se opunha às ideias do conterrâneo. A informação em primeira mão foi divulgada pelo jornal “Dagens Nyheter”. O script resultaria em um projeto, não realizado, de Bergman, do italiano Federico Fellini e do japonês Akira Kurosawa, diretores mortos na década de 90.

“Sessenta e quatro minutos com Rebecka” foi escrito no final dos anos 60. O roteiro foi guardado no início dos anos 2000, quando Bergman doou sua coleção a uma fundação que cuida de sua obra. Inicialmente, a história estreará como peça de rádio, em novembro. A previsão de lançamento do filme é 2018, ano do centenário de Bergman.

 

Fonte: Folha de São Paulo

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As ruas da cidade

As ruas da cidade

 

Vozes ecoavam no Centro.

Naquele dia, havia acabado mais cedo as atividades no trabalho. Era um dia chuvoso, exatamente como gostava. Sentia prazer ao admirar o cenário acinzentado que dominava o ambiente. Resolvera caminhar pelas ruas. Há tempos, não olhava os rostos. Há tempos, não ouvia os tons. Eles dominavam o seu imaginário, mas pareciam cada vez mais afastados de sua realidade.

Andava vagarosamente pelas vias e vielas que se conectavam, tomadas por pés, pernas e passos estranhos e conhecidos.

Às vésperas do Natal, observava as lojas da área central. Roupas, bolsas, sapatos, sacolas de compras, pessoas felizes com suas aquisições. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Todos pareciam estar em perfeita harmonia. Típico clima festivo e fugaz. Entrava em diversos estabelecimentos comerciais. Parava em frente a livrarias. Adorava comprar e ganhar livros. Gostava, também, de DVDs e CDs. Anacrônica. Foi em busca de locais que pudessem vendê-los. Queria apenas ver. Pensava em aproveitar o tempo livre para isso.

Neste ano, tinha outras prioridades. Um ano de surpresas. Desejava presentear os que chegaram há pouco tempo e os que faziam parte da sua história desde o primeiro dia de sua vida. Com os dedos no bolso, movimentando-se à medida que andava, seguia pelas ruas da cidade. Histórias e memórias, suas e de outrem, faziam parte do trajeto. Via-se pequena, de mãos dadas com a mãe, passeando. Branquinha, gordinha e capaz de atrair olhares atentos e curiosos de pessoas que, geralmente, paravam para elogiar, “que lindinha”, e, em seguida, apertar a sua bochecha. A reação da então menina era de chateação. Dizia a todos que o gesto a incomodava. Doía.

Passos à frente. Uma lanchonete, conhecida por vender produtos naturais, era parte do percurso da infância. Comprava, junto à mãe, salgados. Um, ela comia no local. Os outros, distribuídos em pacotes, a garotinha levava para casa, onde se deliciaria nas tardes de chuva e sol; férias e aula; sob cobertores ou dentro da piscina. Caminhava pelas ruas, agora, de mãos dadas com suas vivências infantis e adolescentes. Por ali, onde fora feliz e triste, também havia se questionado sobre muitas coisas. Certas manhãs e tardes, ela abria mão de alguns minutos do seu dia para colocar o corpo em movimento e abafar os pensamentos incontroláveis.

Fones de ouvido. Músicas no volume máximo. Analisava expressões. Pensava no que carregavam aquelas pessoas. Que verdades seriam as destes homens e mulheres? Era uma tentativa de lançar suas dúvidas e medos para outro plano. Por breves minutos, alcançava o seu intento. Apesar das necessidades de manter-se afastada, o relógio controlava seu tempo. Logo, tinha que retomar a rotina.

Ainda pelas ruas, olhava para trás e se recordava do passado. Hoje, sentia-se alegre por não ser obrigada a se esquivar. Pela primeira vez, estava em paz consigo mesma. Na Praça São Salvador, coração de Campos, continuou a peregrinação por diferentes lojas. Era Natal, pensava, e queria agradar àqueles que amava. Pesquisou preços e presentes, enquanto as ideias se perdiam. Olhava. Procurava. Desejava localizar algo, mas não sabia exatamente o quê. E, agora, não havia importância.

Parou sob o céu acinzentado. Os primeiros sinais de chuva apareciam delicadamente. O coração parecia alentado à medida que as nuvens seguiam seu tradicional fluxo. Era uma das imagens de que mais gostava. Resolvera voltar ao ponto de partida. Mãos nos bolsos e sempre em movimento. Companheiras de devaneios. Retomou o caminho de origem. Ao passar pela praça central, escutou uma voz.

“Moça.”

Mesmo sem especificar a quem se referia, sabia que era ela a chamada.

“Moça.”

Persistente. Não queria olhar para trás, embora soubesse exatamente a localização do som. Mas será que a voz se dirigia a ela?

“Moça com a blusa da Janis Joplin!”

Não teve mais dúvidas. Usava a camisa, uma das que mais gostava. Não havia outra ao redor. Neste momento, o grito era distante. Distantes, também, eram seus pensamentos. Parte dela ficara presa àquela voz desconhecida que a fez passear interiormente por caminhos alternativos, encontrando possíveis diálogos amigáveis. Ou desconexos. Ou troca de palavras educadas. Ou apenas um aceno.

“Desculpe, moço, pelo mau jeito. Um dia, a gente se esbarra.”

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Persona — o exercício do pecado

Liv Ullmann e Bibi Andersson em cena de “Persona”, do diretor sueco Ingmar Bergman

 

Em uma ilha, duas mulheres, antes desconhecidas, convivem e revivem histórias e segredos. Vindas de um hospital, as estranhas abrem-se uma a outra. Cada qual a seu modo. Uma permanece em silêncio. A outra conduz o relacionamento unilateral com palavras nunca ditas antes. As personagens se conheceram durante a internação da atriz Elizabeth Vogler, interpretada por Liv Ullmann, que, durante três meses, ficou em absoluto silêncio.

Após problemas na apresentação do espetáculo “Electra”, quando perdeu a voz no palco, Elizabeth isola-se do mundo em sua quietude. Internada, mas sem danos mentais ou físicos, ela recebe o conselho de uma psiquiatra, que compreende o seu novo modo de vida e os motivos que a levaram a segui-lo, e se muda, com a enfermeira Alma, personagem de Bibi Andersson, para a casa de praia de médica, em uma ilha.

Em português, “Persona” foi batizado como “Quando duas mulheres pecam”. Nas primeiras cenas do filme, Alma, em uma tentativa de se aproximar de Elizabeth, discorre sobre sua vida, ideal à primeira vista: enfermeira formada há poucos anos, casada e apaixonada pelo marido. O convívio íntimo, já na ilha, no entanto, faz com que a perfeição de sua história seja desconstruída por meio de relatos mantidos, até o momento, em segredo. O pecado do título, então, refere-se às verdades contadas pela mulher, que afirma que o amor acontece somente uma vez e, por isso, ela deve ser fiel ao marido e ao suposto sentimento nutrido por ele.

Com o passar dos dias, a relação se torna mais forte. Alma começa a se comunicar, à sua maneira, com Elizabeth, que responde com pequenas reações faciais e corporais. À medida que dividem as horas do dia, entre cigarros, bebidas e revelações, as identidades das mulheres parecem se fundir diante do espectador. Em uma sequência, à noite, Alma tenta dormir quando Elizabeth invade o seu quarto. Nela, com movimentos uniformes, roupas e expressões semelhantes, elas têm uma atípica troca, simbolizando a fusão entre ambas. As transferências das personagens – propositalmente confusas – são mais visíveis em cenas finais, principalmente durante a aparição do senhor Vogler (Gunnar Björnstrand). “É tudo mentira e imitação”, vocifera a então perturbada enfermeira.

O ato de revelar o interior leva Alma a um estado de angústia que a diferencia da Alma do início da história, cuja aparência transparecia leveza. As mudanças de comportamento ficam mais intensas após a enfermeira ler, à revelia de Elizabeth, uma carta da atriz enviada à psiquiatra. Ela lhe conta os segredos revelados pela companheira e afirma que é ótimo poder analisá-la. A quietude da artista torna-se insuportável para a parceira. Somente quando ameaçada, Vogler diz uma das únicas frases proferidas por Liv Ullmann em “Persona”: “não faça isso”. Um susto. Um pedido desesperado. Um chamado à realidade.

Certas passagens do filme mostram que Elizabeth e Alma se tornam o inferno da outra; o enfrentamento com os piores medos, verdades e fatos sobre suas respectivas vidas; a impossibilidade de negação, que era possível até o encontro das personagens. A transição violenta entre fatos e imaginação.

Proposital, a opção por apenas observar a realidade e as pessoas que dela fazem parte provém da dificuldade de se encaixar no mundo em que vive. Em contato com a psiquiatra, Elizabeth ouve da mulher as verdades que geraram seu novo modo vida: o conflito entre se mostrar e se esconder; entre ser e parecer. Em resposta, por escrito, a concordância: “Eu viveria assim para sempre. Em silêncio, vivendo uma vida reclusa, com poucas necessidades, sentindo minha alma finalmente se acalmar”.

Em seu primeiro filme com o diretor sueco Ingmar Bergman, ao lado da já consagrada Bibi Andersson (com mais uma atuação magistral), Liv Ullmann traduz toda a carga de emoção da personagem – uma das características do cinema produzido pelo homem, sempre relacionado aos mais complexos e profundos sentimentos. Em um monólogo, Liv, norueguesa de então 25 anos, escuta os segredos de Alma. Apenas escuta. Silencia em todos os momentos, fazendo com que a mulher tenha a oportunidade de, sozinha, conhecer a si mesma em um quase exercício socrático. O método é aplicado, também, à atriz, quando ela se depara com seus próprios demônios interiores.

 

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As faces de Clarice Falcão

Foto: reprodução/Facebook

Foto: reprodução/Facebook

 

Fortuitos encontros (e desencontros) diários, muitas vezes, servem como empurrão para que tenhamos a oportunidade de conhecer novas produções do mundo artístico, em suas mais diversas formas. Música, livros, teatro, cinema. Com as notícias divulgadas sobre a área de cultura, é possível ter acesso a inúmeros trabalhos que têm sido publicados, tanto nacional quanto internacionalmente. Mas, cá para nós, os brasileiros causam mais encanto quando comparados aos que vêm de fora.

Olhar para si, para seu povo, sua arte e formação faz com que o indivíduo tenha maior sensibilidade para compreender e admirar (e também criticar, com base) o que é produzido no país em que nasceu. Entre algumas das boas novas surgidas há relativamente pouco tempo, uma das que mais aparece na mídia é Clarice Falcão, que, com suas peculiaridades, compõe canções que despertam a curiosidade dos consumidores mais jovens. E, apesar do lado irônico predominante, a artista tem o aspecto dramático, que é pouco explorado.

Também atriz e humorista, Clarice, filha da escritora e roteirista Adriana Falcão e do diretor João Falcão, ganhou destaque após participar do canal Porta dos Fundos, no YouTube. Os vídeos, de curta-metragem, têm visibilidade devido à exploração de um tipo de humor que não se enquadra na televisão brasileira. Por isso, a opção pela plataforma alternativa. A artista fez parte do grupo por alguns anos, mas se desligou em 2015 para, segunda ela, cuidar da carreira musical.

Recentemente, ela lançou “Problema Meu”, o segundo álbum de sua carreira. Ácido, doentio e cômico: três termos que definem as composições do CD. Entre as 14 músicas, o ouvinte encontrará lamentos e ameaças relacionadas a abandonos em um bar; confidências de uma mulher para a ex do namorado, com quem divide angústias e histórias; desejos de vingança transmitidos em uma composição feita pelo pai, João; e autocrítica irônica sobre sua própria produção.

Embora sua carreira esteja mais vinculada ao lado humorístico-sarcástico, o primeiro produto artístico em que Clarice se destacou – e que lhe rendeu prêmios, inclusive no concurso Project: Direct, realizado pelo Google e promovido pelo YouTube – foi o curta-metragem “Laços”, com roteiro de Adriana, sua mãe, e direção de Flávia Lacerda. Lançado em 2007, o vídeo acompanha o trajeto de uma menina pelas ruas.

Perdida após fugir do funeral do pai, ela encontra um rapaz desconhecido que tenta compreender o motivo do choro da garota e animá-la. Enquanto pede ajuda com a gravata, ele fala sobre a força de vínculos e sentimentos que unem os seres humanos, dando à personagem novas formas de encarar a vida, com surpresas diante de descobertas. Em cena, Clarice, ainda um rosto desconhecido, transmite emoções que se tornariam incomuns em sua futura carreira, abrindo mão da ironia característica e fortalecendo a ideia de que, apesar de optar por determinado estilo, o artista deve portar e saber usar suas múltiplas faces.

 

 

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ONG Orquestrando a Vida pede apoio nas ruas

Jony William

Maestro Jony William busca apoio para a ONG (Foto: página do músico)

 

Há cerca de um mês, alunos e professores da ONG Orquestrando a Vida trocam os palcos pelo asfalto. Nos sinais localizados em pontos estratégicos de Campos, os músicos alternam apresentações e vendas de DVD com concertos do grupo. Com 20 anos de história, o projeto passa por dificuldades financeiras devido à falta de apoio público e da iniciativa privada. Para manter aberta a ONG, os artistas contam com o apoio da população.

O maestro Jony William, um dos fundadores da Orquestrando a Vida, conversou com a Folha da Manhã sobre o novo meio de sobrevivência e o projeto. Em um trecho da entrevista, ele afirmou que “as pessoas têm colaborado bastante. A indignação é grande. Todos ficam indignados por encontrarem um projeto como Orquestrando a Vida nas ruas”.

Outra questão apontada pelo maestro está relacionada com a época de campanha, que coincidiu com a ida dos músicos às ruas. “Atravessamos o período político nos sinais. Então, alguém sempre acha que estamos lá para atingir A ou B, mas estamos para sobreviver. Para fazer nosso dever. É uma exaustão. Saímos aos pedaços, até psicologicamente.”

A entrevista completa poderá ser conferida na edição deste sábado (8).

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Eleitor: o lado forte da disputa

Rafael vitória

Candidato eleito, Rafael Diniz comemora vitória (Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)

 

Na noite de domingo (2), a população campista acompanhou os momentos finais da eleição para os cargos de prefeito e vereador. A apuração trouxe um resultado não esperado para o momento: a vitória do candidato da oposição Rafael Diniz (PPS). De acordo com pesquisas divulgadas pela Folha da Manhã, a possibilidade era de segundo turno entre Rafael e Dr. Chicão (PR), que representava o governo.

As urnas, no entanto, comprovaram que a população almeja caminhos novos. E, com a força do discurso de Rafael, os cidadãos de Campos renovaram o desejo de atuar e modificar a realidade política e as esperanças no agora prefeito eleito. A verdadeira mudança começou com a transformação do comportamento dos eleitores, e não com os políticos.

Desde o fortalecimento da campanha do candidato do PPS, principalmente devido ao relacionamento travado com a população por meio da internet (conforme apontou o jornalista Aluysio Abreu Barbosa no artigo “Democracia irrefreável das redes sociais – Obama 2008 a Campos 2016“), os campistas passaram a observar, com maior proximidade, os passos de Rafael. A onda verde, então, ganhou força diante do interesse dos cidadãos pelos rumos da política.

Nas últimas eleições, o desânimo dos votantes marcava a ida obrigatória às seções. A descrença em melhorias e nas promessas, misturada ao visível descaso com a comunidade, fazia com que as pessoas se sentissem alheias à realidade e não tivessem convicção para escolher os representantes. A permanência da família Garotinho no poder, por quase três décadas, também era outro fator que desiludia tantos os mais novos quanto os mais velhos.

Mas as recentes transformações ocorridas em todo o cenário campista, principalmente o crescente interesse das pessoas por questões políticas e sociais e a pouca credibilidade dada ao discurso governista, fez com que a mudança fosse materializada. Outro ponto positivo é a conscientização quanto ao poder de escolha por meio do voto, que deixa de ser somente um momento obrigatório para se transformar em exercício de cidadania motivado pela necessidade de ver em cena outros rostos.

A percepção é confirmada pelo posicionamento da adolescente Lorena Alves Ribeiro, de 16 anos, que foi entrevistada pela jornalista Daniela Abreu, da Folha da Manhã, na tarde de eleição em Campos. Ela afirmou que “o jovem também tem direitos e tem que ter voz. Por isso, acho importante a gente ter atitude e votar”.

A vitória em primeiro turno reflete não só a boa aceitação de ideias e projetos de Rafael, mas também o reengajamento dos eleitores, que, desta vez, acompanharam, ouviram, assistiram e escolheram, com mais convicção, o representante para os próximos quatro anos.

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